18/07/2017

Bahia: Após 4 anos, médicos cubanos serão substituídos

 

Ao chegar à rua da Unidade de Saúde da Família de Parque Petrópolis, em Dias D'Ávila, Região Metropolitana de Salvador, parece que existe um artista famoso lá. Todos param, falam com ele, abraçam, agradecem. O famoso é gringo, usa jaleco branco, é médico e está sempre com o sorriso e os braços abertos. Ele é o “doutor Servilo” Ruiz Arnauld, 58 anos, o cubano que conquistou o coração dos pacientes.

Mas, três anos após sair de Havana e vir para a Bahia atuar no Mais Médicos, o cubano arruma as malas para voltar para casa, levando o gosto pelo dendê na bagagem. O programa completa quatro anos este mês e passa por renovação. Ainda não se sabe quem vai substituir o médico - mas provavelmente será um profissional brasileiro.

Servilo, um dos 818 médicos cubanos na Bahia, conta que vai levar a experiência internacional mais marcante que teve em 32 anos de carreira - que inclui passagens pela Venezuela e Bolívia. “Nunca vou esquecer essa experiência no Brasil. O fato de ser outro idioma, outros costumes. O povo ficou agradecido aqui, um agradecimento espiritual, de dizer que vai rezar por mim”, conta ele.

Em Dias D’Ávila, são quatro cubanos na rede de atenção básica à saúde. E apesar do preconceito inicial com os profissionais estrangeiros, o jeito carismático do doutor “pegou” a população, como ele diz, sem falsa modéstia.

“Eles dizem: 'é o médico que fala embolado'. Eu sigo falando embolado. Mas há um amor horizontal. O médico está sempre perto das pessoas”, explica o cubano, cujo contrato acabou, e ele não pediu renovação. Vai voltar a trabalhar em uma policlínica de Cuba.

A jovem Stefane Nadja, 18, carregava o filho Ravi, de 6 meses, quando soube que o médico vai embora em agosto. “Já? Ele é muito simpático, faz um ótimo atendimento. É uma pena”, contou a moradora do Parque Petrópolis.

O cubano diz que vai carregar na memória os nomes e histórias de todos os pacientes brasileiros, como os casos de gravidez na adolescência, usuários de drogas e alcoolistas. “Tenho certeza de que conheci o Brasil de verdade. A gente já salvou muitas vidas aqui. Lutamos para conseguir mudar a mentalidade e colocar outros procedimentos na unidade.”

Família

Servilo foi quem recebeu a conterrânea Yusneidi Ramiz Matos, 27, que chegou ao Brasil junto com 51 profissionais de saúde em junho. O Correio acompanhou o primeiro dia de trabalho dela, na última quarta-feira. O maior medo era justamente o idioma, mas... “Eu estou muy (muito) contente, muy 'complacida' (satisfeita, agradecida) de atender os pacientes. Toda gente entendeu tudo”, comemorou Yusneidi, após a primeira manhã de consultas.

O montador de andaimes Josué Jesus dos Santos, 24, foi um dos primeiros pacientes atendidos por ela. “Foi legal. Se eu não entendia alguma coisa, pedia pra ela repetir, sem problemas. Percebi que ela olha nos olhos da gente, perguntou o que eu precisava, o que sentia.”

Cuba baiana

Apesar de ter chegado ao Brasil em junho e estar há poucos dias em Dias D'Ávila, a cubana diz se sentir em casa. Ou melhor, no “prédio dos cubanos”, como ficou conhecido um edifício amarelo, que fica no Centro da cidade. Lá, moram os quatro médicos que vieram do país latino pelo Programa Mais Médicos.

O lugar, que parece uma vila, se tornou refúgio e um cantinho de Cuba para confraternizar. “Foi tudo muy confortável. O primeiro cubano que conheci foi Dr. Servilo, que me ajudou, deu muitos conselhos para gente e eu espero cumprir todos os conselhos. Eu já tenho uma segunda família aqui”, confessou Yusneidi, que deixou o marido e a mãe em Baracoa, província de Guantánamo, leste cubano.

Euclides da Cunha

Se em Dias D'Ávila existe só um prédio para os cubanos, a 315 quilômetros dali, existe quase um distrito de Cuba, só que na Bahia. A cidade de Euclides da Cunha, no Nordeste do estado, concentra 19 profissionais cubanos nas 24 equipes de Saúde da Família. A maior parte dos profissionais trabalha na zona rural do município e apenas três atuam no centro da cidade.

“É um trabalho muito bom que eles têm desenvolvido no município. Tem aquela parte do acolhimento, eles ficam mais tempo com o paciente, conversam mais”, explica Vanessa da Hora, apoiadora da Rede de Atenção Básica do Município.

Um deles é o médico Adniel Perez Guerra, que chegou há quatro meses no povoado Pai João, a 8 km do Centro da cidade. O comportamento do profissional surpreendeu a comunidade. “Ele parece que já nasceu aqui, é simples demais, cuidadoso, atencioso e gentil”, conta a agente comunitária de saúde Rosineide de Jesus Costa, que trabalha com Adniel.

Para o médico, a experiência tem sido valiosa. “É experiência muito boa. Gosto da gente, gosto do povo. Estou  aqui para trabalhar e ajudar as pessoas”, resumiu o médico. A comunidade carecia de uma unidade de saúde, devido à dificuldade de deslocamento até a cidade para marcar consultas e fazer exames.

“As pessoas tinham que ir na cidade marcar consulta, depois ir outro dia pra consulta, depois ir marcar o exame, fazer o exame, depois ir de novo pra consulta. Entende a dificuldade?”, diz Rosineide, explicando que Adniel consegue dar o diagnóstico e fazer o tratamento do paciente perto de casa mesmo.

Segundo o secretário municipal de saúde de Dias D'Ávila, Caio Clécio Silva, o cuidado dos profissionais com os pacientes hoje é reconhecido, depois do receio inicial. “Em um primeiro momento, havia o preconceito de que eles fossem paramédicos. Mas hoje os médicos cubanos têm maior aceitação. Ele toca o paciente e faz o acompanhamento constante”, destaca o secretário.

Caio observa que houve uma redução de encaminhamentos das USFs para médicos especialistas. “É um consenso que o programa veio para mudar a perspectiva da atenção à saúde básica”, explicou.

Mais Médicos: Bahia deve receber mais 200 médicos em agosto

A tendência é que os médicos cubanos sejam substituídos por médicos brasileiros, conforme previsto na estrutura do Programa Mais Médicos. Em 2015, já houve uma maior adesão de médicos brasileiros. Segundo o coordenador do programa na Bahia, Ângelo Castro Lima, os médicos chegaram ao estado em grupos, e os contratos estão sendo encerrados gradativamente.

Apenas os cubanos que se casaram tiveram direito a ter o contrato prorrogado por mais três anos. Na Bahia, foram 80 casos desse tipo. “Como chegaram em ciclos e o contrato é de três anos, o governo brasileiro, junto com o governo de Cuba, estabeleceu que os únicos que podiam permanecer seriam os que fizeram matrimônio”, afirma Ângelo.

Em média, a Bahia teve 1.070 médicos cubanos, mas atualmente conta com 818 devido ao período de substituição dos profissionais, com o encerramento dos contratos. “Geralmente o Ministério da Saúde tem de um a dois meses para fazer a substituição. Nos preparamos para receber de 150 a 200 médicos no mês de agosto”, explica.

Com a saída dos médicos cubanos das Unidades de Saúde da Família (USFs), a preocupação é que volte a acontecer vazios na cobertura de atenção básica. Segundo o secretário municipal de saúde de Dias D'Ávila, Caio Clécio Silva, os profissionais cubanos ocupam as vagas que não seriam ocupadas por brasileiros.

“É importante ressaltar a importância desse programa para os gestores da saúde, porque é uma oportunidade de provimento de vagas nos lugares mais longínquos. A gente sempre teve dificuldade de alocar esses profissionais, de fixar médicos nas zonas rurais”, explica o secretário.

Mas essa situação deve ser sanada com a terceira etapa do Mais Médicos, na qual os cursos de medicina criam vagas em residências para Atenção Básica, explica  Ângelo Castro Lima. “A terceira etapa é a grande virada do programa. Todos os cursos de medicina são obrigados a formar turmas de residência. Eles farão um ano de residência e só a partir daí vão poder fazer uma especialização”, detalha ele.

Protocolo pioneiro na AL garante até 90% de sobrevida em caso infarto

Com tontura, enjoo e um desconforto no peito, o aposentado Antônio Barbosa de Oliveira, 67 anos, procurou a emergência do 16º Centro de Saúde no Pau Miúdo em busca de algum medicamento para aliviar o mal-estar. Ao chegar na unidade veio a surpresa. O paciente estava sendo vítima de um infarto agudo do miocárdio.  “Eu pensei que não era nada demais, apenas um desconforto no peito. Mas as dores foram aumentando e eu não aguentei, tive que buscar atendimento médico”, revelou.

Assim como Antônio, mais de 300 mil brasileiros sofrem de infarto por ano, sendo que cerca de 80 mil deles não consegue sobreviver, conforme estimativa do Ministério da Saúde. Por isso, um atendimento rápido e adequado ao paciente significa a diferença entre a vida e morte.

Em Salvador, um protocolo pioneiro na América Latina (Protocolo IAM) implantado em  julho de 2009 pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - SAMU 192, tem revolucionado o atendimento às vítimas de infarto na capital e região metropolitana. Através de uma rede integrada de atenção, o serviço consegue identificar precocemente os pacientes com quadro clínico com suspeita do agravo e realizar com agilidade a desobstrução das artérias que irrigam o coração.

"O SAMU pode ser acionado por meio do 192 ou pelas próprias unidades de pronto atendimento e hospitais públicos do município. Nossa rede monitora em tempo real as suspeitas diagnósticas de infarto em sua modalidade mais grave nas unidades de emergência e quando surge algum paciente com perfil eminente, a equipe do Protocolo IAM se encarrega de colher as informações necessárias, dentre elas, o tempo desde a instalação dos sintomas até o acionamento", diz Pollianna Roriz, médica coordenadora do Protocolo IAM.

Durante os atendimentos, os profissionais viabilizam a recanalização da artéria por meio da remoção imediata para serviço especializado com hemodinâmica para realização do procedimento chamado angioplastia. Para garantir a agilidade e todo o suporte necessário para atenção imediata do paciente, a Prefeitura mantém um convênio com os hospitais Português e Santa Izabel, onde os usuários permanecem até recuperação do quadro clínico.

Nas situações mais críticas, as equipes do SAMU realizam a desobstrução arterial com a administração de uma medicação intravenosa trombolítica,  procedimento bastante difundido em muitos países de primeiro mundo. Se aplicada em tempo hábil, como nas primeiras três horas do início do quadro, o método aumenta a chance de sobrevida do infartado em até 90%.

"A ação rápida da equipe da emergência na assistência ao paciente com infarto é o principal fator para salvar a vida nesses tipos de caso. Infelizmente, as pessoas buscam atendimento médico no momento mais crítico do infarto, com muitas horas do início dos sintomas, quando as chances de reverter o quadro é mais complicado. Mas o Protocolo IAM nos permite fazer a busca ativa dos pacientes cardíacos e elevar as chances de sobrevida do assistido", explicou doutora Pollianna Roriz.  

Casos como o de Aristides Pinto, 43 anos. Morador da Ilha de Vera Cruz, o pescador foi identificado com sintomas avançados de infarto pela equipe do Protocolo IAM que acionou prontamente a lancha do serviço para transferência do paciente para o hospital de referência.  Todo o processo foi deflagrado em menos de 3 horas,  tempo essencial para salvar o miocárdio de Aristides. "Não tenho palavras para agradecer aos médicos que me atenderam. De uma hora para outra senti fortes dores no peito e pensei que ia morrer. Mas graças a Deus o atendimento foi muito bom e deu tudo certo", agradeceu.

Desde a sua implantação, o protocolo já atendeu mais de 2.500 vítimas de infarto. Essas pessoas foram atendidas em suas próprias residências ou já se encontravam em unidades de saúde com suspeita de infarto.

 

Fonte:  Correio/Ascom SMS/Municipios Baianos

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