12/08/2017

O louco com armas nucleares é Donald Trump, não Kim Jong – Un

 

Para variar, Donald Trump tem razão. “Nós não podemos deixar um louco com acesso a armas nucleares livre desse jeito”, ele disse ao presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, de acordo com a transcrição de sua bizarra conversa telefônica que foi vazada ao The Intercept em maio.

O homem louco ao qual o presidente americano estava se referindo, é claro, era o ditador norte-coreano Kim Jong-un. No entanto, o insano que deve nos preocupar é o próprio Trump, que – antes que nos esqueçamos – tem acesso exclusivo e irrestrito para lançar quase mil ogivas nucleares em uma questão de minutos, caso queira.

A maioria dos especialistas em não proliferação nuclear – assim como o ex-presidente Jimmy Carter e vários ex-oficiais do Pentágono e Departamento de Estado, tanto republicanos quanto democratas – concorda que o brutal e assassino Kim, por mais que se gabe, não chega a ser irracional ou suicida e tende a querer defender seu regime e evitar um ataque americano. Armas nucleares são para fins defensivos, e não ofensivos, além de serem uma ferramenta para a liderança norte-coreana – a qual William Perry, secretário de Defesa de Bill Clinton, avaliou na Fox News, em abril, como “brutal e descuidada”, mas “não maluca”.

Entendeu? Kim é mau, não maluco.

O mesmo não pode ser dito em relação a Donald, no entanto. Acha que eu estou sendo injusto? Em fevereiro, um grupo de psiquiatras, psicólogos e agentes sociais escreveram para o New York Times dizendo que “a severa instabilidade emocional indicava que o discurso e as ações do sr. Trump o faziam incapaz de atuar, com segurança, como presidente”. Em abril, outro grupo de especialistas em saúde mental disse, em uma conferência na Faculdade de Medicina de Yale, que Trump estava “paranoico” e “delirando”, além de dizer que o presidente sofre de uma “séria doença mental”.

Seria então surpreendente que tantos relatos recentes sugiram que os sul-coreanos estão mais preocupados com Trump do que com a ameaça representada por seu hostil e paranoico vizinho?

Levem em consideração a reação de Trump, esta semana, a um relatório confidencial da inteligência dos EUA – publicado pelo Washington Post –, que dizia que a República Popular Democrática da Coreia agora é capaz de construir uma ogiva nuclear pequena o suficiente para caber em um míssil. “É melhor a Coreia do Norte não fazer mais ameaças aos Estados Unidos”, comentou o presidente em resposta a um repórter no Bedminster Golf Club, na terça-feira. “Eles vão se deparar com fogo e fúria, de uma forma inédita no mundo. Ele foi além do normal em suas ameaças. E, como eu disse, eles vão ser combatidos com fogo, fúria e, francamente, com uma força maior do que qualquer outra já vista neste planeta.”

Como dizer que essa reação do líder do Mundo Livre não é desmedida? Em maio, ele disse que se sentiria “honrado” em conhecer Kim e o chamou de “um cara sagaz”. Em agosto, ele tirou uma folga das suas férias no clube de golfe para casualmente fazer uma ameaça de aniquilação nuclear ao país de Kim (não com base em nenhuma ação agressiva da Coreia do Norte, e sim de suas ameaças).

Será que Trump entende a diferença entre agravar e desagravar uma crise nuclear? Vejam o que disse o senador republicano John McCain, que nunca abriu mão de bombardear, invadir e ocupar um “Estado vilão”. “Discordo das palavras do presidente”, McCain disse, na terça (8), quando ainda completou: “Esse tipo de retórica não é muito benéfica.”

Quão maluco você precisa ser para antecipar um ataque nuclear que nem McCain consegue apoiar?

Trump até que leva jeito para falar livremente sobre armas nucleares. Durante a campanha presidencial, em agosto de 2016, o apresentador da MSNBC e ex-congressista republicano Joe Scarborough revelou que Trump, ao longo de uma conversa de uma hora com um conselheiro sênior sobre política internacional, perguntou três vezes sobre o uso de armas nucleares. Em dado momento durante o encontro, de acordo com Scarborough, o então candidato republicano perguntou ao conselheiro o seguinte: “Se nós as temos, por que não devemos usá-las?”

A atitude blasé e eufórica em relação à utilização da maior arma de destruição em massa já feita é um forte indicador da imaturidade, ignorância, beligerência e, sim, loucura de Trump. Diante de nós está um presidente impulsivo, inconstante e instável, cujas vida e carreira foram definidas pela falta de empatia. Vocês se lembrar da sua estratégia para derrotar o ISIS? “Bombardeá-los até a morte” e “acabar com suas famílias”.

Então, você realmente acha que ele se preocupou com a possível morte de civis quando deu seu aviso sobre “fogo e fúria”? Nem pensar.

Vejam o que disse o suprassumo republicano, senador e colega de McCain, Lindsay Graham. “Se houver uma guerra a ser detida [Kim], vai ser por lá”, Graham disse a Matt Lauer, da NBC, na semana passada, em relação à recente conversa que teve com o presidente. “Se mil morrerem, vão morrer lá. Ninguém vai morrer por aqui – e ele falou isso na minha cara.”

“Isso é loucura”, disse Kingston Reif, especialista em desarmamento nuclear da Associação de Controle de Armas, em um tuíte em resposta ao relato de Graham sobre sua conversa com Trump. “Loucura pura.”

Lembrem-se de que, há 72 anos, os Estados Unidos lançaram a segunda bomba atômica no Japão, matando 39 mil pessoas em Nagasaki. Três anos antes disso, a primeira bomba atômica matou cerca de 66 mil pessoas em Hiroshima. No entanto, uma guerra nuclear na Coreia faria os ataques a Hiroshima e Nagasaki parecerem brincadeira de criança. Especialistas dizem que, mesmo que a guerra entre os EUA e a Coreia do Norte não envolva armas nucleares, ela mataria mais de 1 milhão de pessoas. Em caso de guerra nuclear, o número saltaria para dezenas de milhões de mortes. O conselheiro de segurança nacional de Trump, H.R. McMaster, admitiu que um ataque precoce por parte dos EUA seria uma “catástrofe humatinária”.

Mas o presidente se importa? Graham acha que não. O ex-escritor-fantasma de  Trump, Tony Schwartz, que passou 18 meses em sua companhia trabalhando em “Trump: A Arte da Negociação”, chamou o presidente de “sociopata”. Na verdade, há uma frase que se destacou no popular relato de Schwartz em entrevista ao New Yorker, em julho de 2016, e que é aterrorizante. “Eu genuinamente acredito que, se Trump vencer e tiver acesso aos códigos nucleares, isso vai significar o fim da nossa civilização”, disse Schwartz. Não podemos dizer que não fomos avisados.

Como Pyongyang ganha com a falta de estratégia dos EUA

Com a ameaça do presidente americano, Donald Trump, de investir com "fogo e fúria, como o mundo nunca viu antes", contra a Coreia do Norte, as tensões entre Pyongyang e Washington alcançam um novo patamar.

A ditadura norte-coreana anunciou possível retaliação com um ataque preventivo contra Guam, ilha americana no Pacífico. Dali, bombardeiros do tipo B-1 partem frequentemente da Base Aérea de Anderson para manobras militares na Península Coreana.

A guerra de palavras está em pleno andamento – e aumenta o perigo de que a situação fique fora de controle. Nos EUA, os arroubos de Trump enfrentam cada vez mais incompreensão. Mas é improvável que o presidente seja capaz de transformar suas palavras em ações, como afirmou o senador republicano e ex-candidato presidencial John McCain.

"Os grandes líderes que conheço não expressam ameaças, desde que não estejam dispostos a negociar. E não tenho certeza se o presidente Trump está disposto a negociar."

Para a ex-vice-secretária de Defesa Evelyn Farkas, com sua retórica, Trump soa "como um ditador norte-coreano." E o senador democrata Chuck Schumer disse: "Diante da Coreia do Norte, devemos agir com dureza e sensatez. Uma retórica imprudente não é uma boa estratégia para garantir a segurança dos EUA."

Discurso contraditório

Desde a posse de Trump, a política do governo americano para a Coreia do Norte é contraditória. Na quarta-feira (09/08), o secretário de Estado Rex Tillerson apelou à calma e disse não acreditar que Pyongyang represente uma ameaça iminente, o que incluiu o território de Guam. "Os americanos devem dormir em paz", afirmou.

"O problemático é que não podemos deduzir nenhuma estratégia das ações que podemos observar dos EUA", diz Eric J. Ballbach, especialista em Coreia do Norte na Universidade Livre de Berlim. "E isso seria realmente necessário. Os EUA falam de uma estratégia de pressão e engajamento. No momento, nada se pode ver, de fato, desses esforços."

Adam Mount, do Centro para o Progresso Americano, criticou no jornal britânico The Guardian: "O governo Trump se contradiz em todas as áreas de sua política para a Coreia do Norte. Washington continua a procurar respostas fáceis, onde não há nenhuma."

Isso também ameaça intimidar parceiros e Estados, sem os quais nada vai para frente na questão da Coreia do Norte. Até agora, a comunidade internacional está respondendo surpreendentemente em uníssono às provocações do país asiático.

Há poucos dias, o Conselho de Segurança das Nações Unidas acirrou mais uma vez as sanções contra Pyongyang, que são apoiadas também por países como China e Rússia. "Trump está pondo em risco a unanimidade com que a comunidade internacional reage agora à ameaça da Coreia do Norte", diz Ballbach.

Escalada deliberada de tensões

Para observadores, os arroubos de Trump acabam servindo aos interesses da Coreia do Norte – que tem a escalada deliberada de tensões como parte de sua estratégia.

"Diante da desastrosa situação socioeconômica, um regime totalitário como o da Coreia do Norte também tem que legitimar à sua população um programa que demanda elevados custos e recursos como o nuclear", aponta Ballbach. Segundo ele. tais ameaçadas induzidas deliberadamente também foram utilizadas para dar legitimação aos esforços por armas nucleares.

Em termos de política externa, para o regime de Kim Jong-un, o programa nuclear é uma espécie de seguro de vida. Durante muito tempo, potências como a ex-União Soviética e a China protegeram a Coreia do Norte. Mas, agora, mesmo Pequim, aliado de longa data, dá sinais de irritação com o pequeno vizinho. É extremamente improvável que, hoje, Pequim lute ao lado da Coreia do Norte numa guerra contra os EUA.

Cercado de Estados de superioridade militar e econômica, para Pyongyang o importante é garantir a própria segurança. A dissuasão através de armas nucleares é a melhor pedida. Testes nucleares e de foguetes não são apenas mera provocação, mas a prova militar de que as armas também podem ser usadas em caso de emergência. A mensagem que a Coreia do Norte quer passar é: mesmo que vocês nos destruam, para vocês os danos serão bastante significativos.

Mas como a questão da Coreia do Norte pode ser resolvida diplomaticamente? Para Pyongyang, o programa nuclear é um dos fundamentos de sua política – tanto interna quanto externa. Ao mesmo tempo, os EUA não querem tolerar tal programa.

"Uma saída perpassa apenas por um caminho que salvaguarde a reputação de ambos", diz o especialista Eric J. Ballbach, explicando que isso seria possível somente através de um processo gradual. "Há apenas uma forma pela qual a Coreia do Norte estaria disposta a abandonar seus propósitos nucleares. Para tal, ela deveria atingir um sucesso político em outro nível, eliminando a causa das armas nucleares: isso implicaria que seria preciso haver garantia de segurança dos EUA, ou seja, um pacto de não agressão." Mas tal solução gradual requer confiança, algo difícil de conseguir diante da atual retórica de ambos os lados.

Em caso de guerra com a Coreia do Norte, quem apoiaria os EUA?

Em meio a tensões verbais crescentes entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, vários países começaram a firmar posições caso a situação na Península Coreana escale para um conflito aberto.

Muitos países ainda têm que se pronunciar sobre um eventual apoio a Pyongyang em caso de confronto, mas a Coreia do Norte já encontra suporte na vizinha China  – ainda que com algumas condições.

"Se EUA e Coreia do Sul executarem ataques e tentarem derrubar o regime da Coreia do Norte e mudar o padrão político da Península Coreana, a China vai impedi-los", diz um editorial do jornal estatal chinês Global Times, publicado em inglês.

Porém, o jornal não recomenda que Pequim apoie Pyongyang de maneira irrestrita.

"A China também deveria deixar claro que, se a Coreia do Norte lançar mísseis que ameacem o território americano primeiro, levando a uma retaliação por parte dos EUA, a China vai se declarar neutra", diz o texto.

No início desta semana, o ministério do Exterior chinês exortou tanto a Coreia do Norte quanto os EUA a "pararem com as provocações mútuas", abrandando a tensão com uma tentativa de retorno a "diálogos e negociações".

"Não há aliado mais forte"

Ao contrário da China, outros países parecem mais dispostos a escolher um lado em meio à troca de acusações entre o presidente americano, Donald Trump, e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un. Nesta sexta-feira (11/08), o primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull, disse a uma rádio local que Washington "não tem nenhum aliado mais forte que a Austrália".

"Vamos deixar isso claro. Se houver um ataque aos Estados Unidos pela Coreia do Norte, o tratado de Anzus [aliança militar no Pacífico Sul entre Austrália, Nova Zelândia e EUA] será invocado, e a Austrália ajudará os EUA", disse Turnbull.

Já Roh Jae-cheon, porta-voz do Comitê dos Chefes de Estado-Maior das Forças Armadas sul-coreanas, disse na quinta-feira (10/08) que Washington e Seul estão preparadas para "punir severa e imediatamente" as provocações de Pyongyang.

Ao mesmo tempo, o Japão afirmou que nunca poderá tolerar" agressões do regime norte-coreano, destacando que, tecnicamente, poderia interceptar um míssil lançado em direção aos Estados Unidos se este for visto como uma ameaça ao território soberano japonês.

Alemanha e Otan

As autoridades alemãs alertaram para uma situação muito séria" se desenvolvendo entre EUA e Coreia do Norte, mas ainda não se pronunciaram sobre um eventual apoio a uma incursão militar.

Por outro lado, dada a posição da Alemanha na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), analistas indagam se Berlim atenderia ao chamado do grupo se os EUA acionarem o Artigo 5°.

Esse dispositivo do estatuto da Aliança Atlântica requer que todos os membros do órgão auxiliem qualquer membro atacado. Mas, segundo analistas, parece improvável que a Alemanha e outros países da Otan sejam convocados a agir militarmente contra a Coreia do Norte, uma vez que o território americano de Guam [ilha do Pacífico que Pyongyang disse estudar atacar] não se enquadra nos limites geográficos de defesa coletiva detalhados no Artigo 6° do estatuto.

Ao mesmo tempo em que Donald Trump fala em "fogo e fúria" contra a Coreia do Norte em caso de ataque, autoridades da Casa Branca tentam abrandar o tom ríspido do presidente americano. O Secretário de Defesa James Mattis afirmou que "uma guerra seria uma catástrofe".

 

Fonte: Por Mehdi Hasan, em The Intercept/Deutsche Welle/Municipios Baianos

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