06/09/2017

Propina olímpica: entenda a corrupção na Rio 2016

 

A nova fase da Operação Lava Jato, deflagrada na manhã desta terça-feira, investiga, entre outras irregularidades, suposto esquema de corrupção internacional para a compra de votos para a escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas 2016. A apuração tem a colaboração de autoridades da França e dos Estados Unidos e já estava em andamento no Ministério Público Financeiro francês. Em março deste ano, o jornal Le Monde afirmou que há “provas concretas” de que a eleição, celebrada em 2009, não foi limpa e foi manipulada com dinheiro de propina.

A operação em curso nesta terça-feira, apelidada de Operação Unfair Play, tem o objetivo de desmantelar um esquema envolvendo pagamento de propina em troca da contratação de empresas terceirizadas por parte do Governo do Rio de Janeiro. De acordo com o jornal O Globo, os policiais tem como alvos o empresário Arthur César de Menezes Soares Filho, o "rei Arthur", e o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman. O Ministério Público Federal afirma que há "fortes indícios" de que Nuzman "interligou corruptos e corruptores" na compra de votos dos membros do COI. Ele foi levado para depor na sede da Polícia Federal no Rio.

Os agentes federais amanheceram na casa de Nuzman, que fica no bairro Jardim Pernambuco, área de mansões do Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro, e na sede do COB.

Os procuradores investigam se essa suposta compra de votos de membros do Comitê Olímpico Internacional tem ligação com um outro esquema de pagamento de propina no exterior para Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro. Uma conta num banco do Caribe era abastecida pelo empresário Arthur Soares, conhecido como “Rei Arthur”, pela grande quantidade de contratos que tinha com o governo do estado do Rio. Essa conta era gerenciada por um operador financeiro do grupo de Cabral. E esse dinheiro, de acordo com o MPF, teria sido usado para subornar membros do COI para que o Rio de Janeiro fosse escolhido como sede dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

De acordo com informações da TV Globo, a investigação começou na França, através do Ministério Público de Finanças do país, e está em andamento com as autoridades brasileiras por conta de um acordo de cooperação. A operação tinha dois mandados de prisão: um contra o empresário Arthur Soares e outro contra a ex-sócia dele, Eliane Cavalcanti.

O Ministério Público da França chegou por acaso as suspeitas sobre corrupção na escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos Rio 2016. O órgão participava de uma investigação internacional sobre doping no atletismo, que atingiu muitos atletas russos. Foi a partir dessa operação que os franceses descobriram que a corrupção poderia envolver a escolha da cidade sede de várias competições. Depois disso, o MP francês solicitou formalmente uma cooperação ao Brasil e, com a parceria, encontraram esses indícios.

As investigações, iniciadas há nove meses, apontam que os pagamentos teriam sido efetuados tanto diretamente, com a entrega de dinheiro em espécie, como por meio da celebração de contratos de prestação de serviços fictícios e também por meio do pagamento de despesas pessoais. Além disso, teriam sido realizadas transferências bancárias no exterior para contas de doleiros.

O Rio de Janeiro foi escolhido sede dos Jogos de 2016 durante um evento na Dinamarca, em 2009.

Brasileiro do bobsled denunciou Nuzman ao MP da França

O brasileiro Eric Maleson, ex-jogador de bobsled, fundador e ex-presidente da Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG), contribuiu para a investigação do Ministério Público da França sobre o esquema de compra de votos para a escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Rio-2016.

"Segundo o mesmo, Carlos Nuzman está corrompido, e terá até a nacionalidade russa pelo primeiro-ministro russo na altura, em contrapartida ao seu voto a favor de Sochi para a organização dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014. Essa nacionalidade russa deve lhe permitir esperar escapar da Justiça Brasileira se fosse necessário", diz o relatório do MOV.

Maleson é antigo opositor de Nuzman. Ele foi afastado da presidência da CBDG no final de 2012, acusado de gestão temerária, falsificação de documentos e desvio de verbas.

- Os elementos fornecidos por ele serão avaliados - disse o procurador francês Jean-Yves Lourgouilloux.

Obras olímpicas da Rio 2016 foram feitas à base da propina, diz MPF

Segundo informações presentes no documento divulgado pelo Ministério Público Federal acerca das investigações envolvendo os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, várias obras realizadas na capital fluminense foram feitas à base da propina, num esquema liderado pelo ex-governador Sérgio Cabral.

“Com a realização dos Jogos Olímpicos de 2016, o grupo político, capitaneado por Sérgio Cabral, teve ampla possibilidade de capitalizar-se politicamente e receber milhões em investimentos para a realização de obras públicas.

Diversas obras, anunciadas como ‘legado’, das Olimpíadas de 2016, renderam milhões em pagamentos de vantagens indevidas (propina) a Sérgio Cabral e demais membros da organização criminosa”, dizem os procuradores em trecho do extenso documento.

A Operação Unfair Play tem como um dos principais alvos o presidente do COmitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, que é acusado de envolvimento direto na ação criminosa que comprou votos para a escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica.

PF apreende carros e R$ 480 mil na casa de Nuzman

A Polícia Federal confirmou nesta terça-feira que apreendeu dois carros e um total de R$ 480 mil em espécie, dividido em cinco tipos de moedas, na casa de Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e do Comitê Rio-2016, na Zona Sul da capital fluminense. No montante, há notas de real, dólar, euro, libra e francos suíços.

O Ministério Público diz que existe "fortes indícios" de que o dirigente tenha atuado como interlocutor entre empresários e dirigentes esportivos para compra de votos na escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos. O cartola presta depoimento nesta tarde na sede da Polícia Federal.

Há suspeitas de que ele tenha obtido até nacionalidade russa em contrapartida de seu voto a Sochi como sede dos Jogos de Inverno de 2014. Por isso, foi pedida a apreensão de todos os seus passaportes, bem como a proibição de sua saída do país.

A parceria entre Brasil e França na investigação deve resultar em novas prisões nos próximos meses, de acordo com a Polícia Federal.

"Atrelar a imagem do Brasil a casos de corrupção como se o país não fosse capaz de ganhar a sede dos Jogos por suas belezas e capacidade afeta a honra do povo brasileiro. Estamos pedindo o bloqueio dos bens dos envolvidos a título de danos morais", disse a procuradora do MPF, Fabiana Schneider.

O delegado da Polícia Federal, Antonio Beaubrun, disse que a análise de todo o material deverá levar em torno de dois meses. Ele foi questionado especificamente sobre Nuzman, uma vez que o brasileiro seria o responsável por unir as pontas do esquema, mas as autoridades afirmaram que, no momento, não há elementos para a sua prisão.

"A força-tarefa do Rio de Janeiro está muito robusta nessa análise e poderá levar outros elementos, que neste momento ainda não nos foi permitido levar à prisão", disse Beaubrun.

Até o momento, o MPF pediu as prisões de Arthur Cesar Soares de Menezes Filho, o "Rei Arthur", e de Eliane Pereira Cavalcante, ex-sócia dele. Ambos são acusados de lavar parte do dinheiro do esquema criminoso no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas, além de contas nos Estados Unidos e Antigua e Barbuda.

MPF pede bloqueio de R$ 1 bi de Nuzman e outros acusados

Ministério Público Federal quer o bloqueio de até R$ 1 bilhão do patrimônio de Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e do Comitê Rio-2016, de Arthur Cesar Soares de Menezes Filho, o "Rei Arthur", e de Eliane Pereira Cavalcante, ex-sócia do empresário, em meio aos desdobramentos da Operação Lava Jato que apuram suposta compra de votos de dirigentes para eleger o Rio de Janeiro como sede dos Jogos do ano passado. O objetivo da medida, segundo o MPF, é reparar os danos causados pelos três devido às proporções mundiais da acusação, de fraude na escolha da sede da Olimpíada. Na avaliação dos procuradores, o trio obteve lucros mediante prática de corrupção e lesaram os cofres públicos. O pedido de bloqueio inclui bens de valor, como apartamentos, joias, carros e até um jatinho particular.

- Meu cliente não cometeu nenhuma ilegalidade e vai prestar todos os esclarecimentos - disse o advogado de Nuzman, Sergio Mazzillo.  O Ministério Público diz que existe "forte indício" de que Nuzman "interligou corruptos e corruptores" para compra de votos de integrantes do Comitê Olímpico Internacional (COI).  De acordo com a decisão do MPF, há suspeitas de que Nuzman tenha obtido até nacionalidade russa em contrapartida de seu voto a Sochi como sede dos Jogos de Inverno de 2014. Foi pedida a apreensão de todos os passaportes do dirigente, bem como a proibição de que ele saia do país.

A operação desta terça-feira, que recebeu o nome de "unfair play" (Jogo Sujo), também cumpre mandado de prisão preventiva contra o empresário Arthur César de Menezes Soares Filho, conhecido como o rei Arthur, e sua sócia Eliane Pereira Cavalcante. Eles são acusados de lavar parte do dinheiro do esquema criminoso no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas, além de contas nos Estados Unidos e Antigua e Barbuda.  De acordo com as investigações, Menezes transferiu cerca de 2 milhões de dólares para Papa Diack, filho de Lamine Diack, então presidente da Federação Internacional de Atletismo. Esse seria um dos votos comprados para que o Rio fosse escolhido como sede olímpica. Da mesma conta saíram mais de 10 milhões de reais para o então governador Sérgio Cabral, que está preso após a operação Calicute, dias antes da escolha do Brasil, em setembro de 2009.

O MPF afirma ainda que diversas obras da Rio-2016, anunciadas como legado, teriam sido executadas a partir de pagamentos de propina a Cabral e outros beneficiados.  O COI diz que soube do caso através da mídia e garantiu que está fazendo "todos os esforços para obter a informação completa". Informou ainda que é "do mais alto interesse do COI obter esclarecimentos sobre este assunto".  O COB e o Comitê Rio-2106 ainda não se pronunciaram. De acordo com a Polícia Federal, Nuzman irá prestar depoimento às 15h.

Grupo criminoso comprou voto em eleição olímpica por U$ 2 mi

A organização criminosa liderada pelo ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, que está preso, comprou o voto do então presidente da Federação Internacional de Atletismo, Lamine Diack, por 2 milhões de dólares na eleição que escolheu o Rio como sede dos Jogos de 2016, disseram procuradores do Ministério Público Federal (MPF) nesta terça-feira.

De acordo com o MPF, o grupo criminoso liderado por Cabral tinha enorme interesse na realização dos Jogos Olímpicos no Rio de olho nas obras que seriam realizadas na cidade por ocasião do evento.

Os procuradores disseram ainda, em comunicado, que o presidente do Comitê Olímpico do Brasil, Carlos Arthur Nuzman, foi o "agente responsável" por viabilizar repasse de propinas do grupo de Cabral a membros africanos do Comitê Olímpico Internacional (COI) para compra de votos na eleição de 2009. Nuzman foi alvo de mandado de busca em sua residência no Rio na manhã desta terça-feira e recebeu uma intimação para prestar depoimento à Polícia Federal. Segundo o MPF, diversas obras anunciadas como legado da Olimpíada de 2016 renderam milhões em pagamento de propina a Cabral e demais membros de organização criminosa no governo do RJ.

"Vergonha do sr. Nuzman", diz Meligeni sobre compra de votos

A Operação "Unfair Play", deflagrada nesta terça-feira e que faz parte da Lava Jato, repercutiu entre os atletas que já representaram o Brasil em Olimpíadas. Nomes como Gustavo Endres, do vôlei, Joanna Maranhão, da natação, e Fernando Meligeni, do tênis, foram alguns esportistas que se posicionaram sobre a acusação de compra de votos para o Rio de Janeiro ser eleito a cidade-sede das Olimpíadas de 2016.

"Corrupção no Brasil dá muito dinheiro. Impressionante! Que vergonha. Está aí algo que eles não sentem nunca, nem se ficarem pelados na rua", escreveu Gustavo Endres em uma de suas redes sociais.

O ex-tenista Fernando Meligeni também fez duras críticas ao COB. Argentino naturalizado brasileiro, ele representou o país nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, quando perdeu a disputa da medalha de bronze para o indiano Leander Paes.

"Vocês nunca me representaram. Você não me representa, COB. Vergonha do senhor Nuzman. Feliz de sempre ter sido contra. Eu não tenho que me explicar", escreveu.

A nadadora Joanna Maranhão, que já havia criticado a antiga gestão da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, também envolvida em um escândalo de corrupção, relembrou a rixa de Meligeni com Carlos Arthur Nuzman e se mostrou bastante decepcionada com mais um caso que mancha a história do esporte brasileiro.

"Só pensei no Fininho, que se lascou foi muito por ter enfrentado Nuzman enquanto atleta. Corajoso demais! ", afirmou.

"A gente entra na Seleção enaltecendo essas pessoas, achando que fazem pelo esporte do Brasil. Só não vê a verdade depois quem não quer", completou.

 

Fonte: El País/Lance/Notícias ao Minuto/Reuters/Gazeta Esportiva/Municipios Baianos

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