19/09/2017

Fábrica de cachaça submete funcionárias a situação de escravidão

 

O barulho incomoda. Vem de um tanque de metal, um processador que mistura água e açúcar. Disjuntores e fios à mostra estão próximos a pequenas garrafas pet e mangueiras que contêm cachaça. O cheiro forte enjoa. De chinelos, saias e vestidos, elas não usam qualquer tipo de proteção, com exceção de algumas luvas. Mesmo assim, não são usadas por todas as cinco funcionárias, além de um homem recém-admitido.

O lugar, sujo e improvisado, aparece em imagens de vídeo registradas há pouco mais de 20 dias pelo Correio. Com câmeras escondidas, a reportagem entrou no galpão onde funciona a produção da Indústria e Comércio de Vinho Veleiro de Ouro, como é registrada a empresa.

A denúncia era de que o dono de uma fábrica de bebidas alcoólicas submetia mulheres a condições degradantes de trabalho. Apesar do nome, a fábrica é de cachaça. E fica instalada em uma rua deserta no bairro de Ilha Amarela, Subúrbio Ferroviário.

Nila, Natércia, Elizete e Maude, nomes fictícios com os quais identificaremos quatro das cinco mulheres, disseram que trabalham há anos sem férias, não podem ir ao médico sem ter o dia “cortado”, recebem R$ 400 por quinzena e são obrigadas a enfrentar um ambiente insalubre sem qualquer Equipamento de Proteção Individual (EPI).

Entre elas, está a própria esposa do dono da fábrica. A quinta funcionária, Leonice de Souza, 47 anos, não só autorizou a divulgação do seu nome como pediu para ele ser incluído na reportagem. “Quero usar como prova na Justiça para ter meus direitos”, disse ela.

Há oito anos em múltiplas funções na Veleiro de Ouro, Leonice conta que não sente mais cheiro. Acredita que seu olfato está prejudicado pelo fato de trabalhar sem máscara em um ambiente sem ventilação e com forte odor de álcool.

Com diversos problemas de saúde, ela diz que sequer podia ir ao médico, senão R$ 30 eram abatidos do seu salário.

“O patrão não aceita quando a gente precisa ir no médico. Quando libera, corta o dia”, conta a funcionária.

Ela e as outras confirmaram que trabalham sem EPIs. “A farda ele não dá. Na hora de tampar a cachaça, espirra no corpo. Não tem óculos, não tem máscara. Fico com os pés dentro da cachaça. Precisa de bota. Às vezes falta luva. Hoje em dia eu já nem sinto mais cheiro. Consumi tudo cheirando a cachaça”, relata.

Topcana

No mercado de Salvador e de Feira de Santana, onde o único produto fabricado pela Veleiro de Ouro é comercializado, a empresa utiliza o nome fantasia Topcana. Nos registros da Serpro, a Topcana é de propriedade de Genival Cintra Pinheiro. Após analisar as imagens registradas pelo CORREIO, o Ministério Público do Trabalho (MPT) realizou operação no local e identificou nada menos que 25 irregularidades trabalhistas. As atividades da empresa foram suspensas.

Ainda segundo as trabalhadoras, a fábrica chega a envasar 6 mil litros de aguardente por dia. “É muita cachaça que a gente envasa. Às vezes, a gente envasa seis tanques de mil litros no dia. É muita garrafa para uma pessoa só ficar no pé da máquina tampando todos os dias”, denuncia Leonice.

Não há funções definidas. Leonice explica que todas as funcionárias fazem de tudo. “Eu empacoto, eu tampo, eu fecho fundo das caixas, boto camisinha nas garrafas (rótulos), arrumo no palete e carrego o caminhão.” O resultado é sentido no corpo.

“Sinto dor nas juntas, nas mãos, nos braços, isso por causa dos movimentos que a gente faz. Porque a gente tem que fazer força para envasar. Não tem a máquina adequada, é uma máquina improvisada”, diz Leonice.

Ao lado de sacos enormes com pets pequenas de cachaça, conhecidas como “bombinhas”, Natércia é uma das responsáveis por envasar o produto. “É um pouco difícil, né? Não ganha hora extra. Nunca tira férias. É muito arriscado trabalhar aqui. A gente tem muitos problemas de saúde”, afirmou a funcionária. Natércia reclamou do trabalho pesado. “Sabe o que é bater mil caixas no dia nesse caminhão aí? É muito peso. Só tem um homem trabalhando aqui. A gente mulher que faz tudo.”

Antes, diz Nila, outra funcionária, sequer tinha banheiro no galpão. O sanitário que foi improvisado recentemente não tem nem porta. “Eu mesmo, que moro aqui perto, vou fazer minhas necessidades em casa”, afirma Nila. Quando falam do patrão, a quem chamam de Val, as funcionárias dizem que ele é “gente boa”, a não ser que elas precisem de algo.

“A gente conversa com ele e ele conversa com a gente. Mas se precisar ir no médico, se for resolver alguma coisa e chegar depois de 9h, ele corta o dia”, disse Elizete. Mas, por que essas mulheres continuam trabalhando em condições tão ruins?

“Quem não quer um trabalho melhor, um salário decente, quem não sonha com isso? Enquanto não acho outra coisa fico aqui, né? Trabalho tá difícil. Parado é que não pode ficar”, explica Natércia.

Batente

Maude, a quinta mulher do grupo de funcionárias, é companheira do dono da fábrica. As outras apontam alguns privilégios concedidos a ela. “Pode ir no médico, pode chegar atrasada.” Mas, dizem elas, Maude também pega no batente. “Não pega como a gente, mas sabe o que a gente sofre.”

Segundo a própria Maude disse, por semana, a empresa produz, em média, 1,2 mil caixas com 12 pets de 500 ml de cachaça. Cada caixa uma é vendida a R$ 20. “Quando compra uma quantidade maior a gente faz por R$ 18 ou R$ 17. O pessoal de Feira compra muito”.

Além do galpão e do maquinário improvisado, a empresa possui um caminhão, diz Maude, para fazer entregas. Ela ainda afirma que parte da cachaça crua, antes de ser misturada à água com açúcar processados em Ilha Amarela, vem de Feira. O CORREIO entrou em contato com Genival Cintra Pinheiro, apontado como o dono da fábrica. Val, como é conhecido, chegou a atender uma de nossas ligações, mas preferiu não dar entrevista.

“Quieta! Acaba com essa conversa. Ligue para o meu advogado. Tá bom? Um bom dia pra você. Tchau!”, limitou-se a dizer o dono da fábrica.

O advogado de Val, Gerson Santos, afirmou que só vai se manifestar sobre a questão depois que tudo for regularizado. “Creio que daqui a dez dias vai estar tudo certo. Ele vai regularizar a vida de todas elas”, disse o advogado, referindo-se apenas aos problemas de registro na carteira de trabalho.

Sobre o ambiente insalubre, as máquinas improvisadas e a produção repleta de riscos à saúde e à vida das mulheres, o advogado disse que a fábrica vai voltar a funcionar em um novo galpão. “Esse galpão estava funcionando de forma provisória. Vai reabrir com tudo certinho”, garantiu.

Ministério Público do Trabalho interdita Galpão

Após analisar as imagens registradas pelo CORREIO, o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Superintendência Regional do Trabalho (SRT-BA) instauraram procedimento e convocaram o Grupo Especial de Combate ao Trabalho Escravo para realizar uma operação no local. Havia a denúncia de que cinco mulheres eram submetidas a trabalho análogo ao escravo em Ilha Amarela.

Uma semana depois, no dia 24 de agosto, acompanhados da Polícia Federal, MPT e SRT-BA fizeram uma batida no galpão. A denúncia se confirmou parcialmente, já que a classificação de trabalho escravo exige características que não eram latentes neste caso. Mas os órgãos confirmaram que as mulheres são submetidas a condições precárias de trabalho e identificaram pelo menos 24 irregularidades trabalhistas.

Elas vão desde o não registro dos funcionários até graves riscos de acidentes como choque elétrico, mutilação e morte. “Chegamos à conclusão que aqui não é o caso de ser classificado como trabalho escravo. Mas as condições são péssimas, com irregularidades gravíssimas. Vocês estão trabalhando de forma irregular, correm risco inclusive de morte. A partir desse momento está interditado o trabalho”, disse para as funcionárias o auditor do trabalho Alison Carneiro.

“São irregularidades de meio ambiente graves, irregularidades de registro, jornada de trabalho, fraude no recolhimento previdenciário e fundo de garantia”, confirmou o procurador do trabalho, Luís Carneiro.

Segundo o procurador, na Industria e Comércio de Vinho Veleiro de Ouro há riscos iminentes de acidentes. “Essas máquinas são totalmente irregulares e fora de qualquer padrão de segurança.” O auditor Alison Carneiro disse ainda que as funcionárias têm o direito de continuar recebendo salários enquanto a situação não é regularizada.

De acordo com o Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho, 22.390 acidentes de trabalho foram comunicados em Salvador entre 2012 e 2016. Em toda a Bahia, foram mais de 61 mil. De acordo com o mesmo observatório, a atividade econômica de produção de vinho, ao qual a Veleiro de Ouro está atrelada, comunicou 720 acidentes de trabalho entre 2012 e 2016. No Observatório, não há levantamentos referentes a interdições ou notificações de estabelecimentos. 

Estudante denunciou problema ao Correio

A estudante de Jornalismo Ana Caroline Abreu Ferreira, 23 anos, foi quem denunciou ao Correio a exploração sofrida pelas mulheres da fábrica de cachaça de Ilha Amarela. Antes disso, ela produziu um trabalho do primeiro semestre da Unifacs em que mostrou as condições precárias às quais as funcionárias são submetidas no estabelecimento.

Uma das cinco mulheres, Leonice de Souza, é sua tia. “Descobri essa história, porque eu ando aqui desde pequena. Há muito tempo que ele (Genival, proprietário da empresa) explora essas mulheres”, lembrou Ana. O trabalho intitulado “Miserável Explorando Miseráveis” detalhou as irregularidades trabalhistas praticadas pela empresa.

“As condições de trabalho são desumanas. Lá só trabalha mulheres, agora colocou um homem. Só que elas fazem tudo lá dentro. Embalam, enchem garrafas, rotulam, encaixotam e fazem a carga e descarga do caminhão”, conta Ana Caroline.

A estudante, aliás, resolveu viver na pele a exploração. Tanto que chegou a trabalhar um dia na fábrica.

“Trabalhei um dia lá no Carnaval do ano passado, rotulando. É muito cansativo, até porque não tem banco pra gente sentar. A gente senta em cima de papelões ou senta no chão mesmo. Não tem equipamentos de segurança. Antigamente não tinha nem banheiro.” Ana Caroline acredita que a falta de estudo faz com que as mulheres continuem trabalhando ali. “São semi-analfabetas. Aceitam isso, porque não têm estudo, não conhecem direitos”.

Siemens Gamesa garante produção de fábrica baiana para 2018

A Siemens Gamesa anunciou, na última sexta-feira (15/09), a exportação de mais de uma centena de hubs com mais de 70% de conteúdo local, que serão produzidos em sua unidade fabril de Camaçari em 2018. Os equipamentos serão montados em projetos na América do Norte e Central com geração de cerca de 300 MW em energia limpa. Hub é o componente da torre eólica responsável por sustentar as pás.

Segundo Rodrigo Ugarte Ferreira, diretor de Supply Chain, os esforços de localização de componentes eólicos começaram há 5 anos e os desafios foram diversos, entretanto ele enfatiza que o diferencial da Siemens Gamesa foi atuar desde o princípio muito próxima aos seus parceiros.

"Em 2018, ano em que o mercado eólico do Brasil terá um aumento de volume, nos orgulha poder garantir um nível de atividade relevante a muitos de nossos parceiros que possibilitaram nosso sucesso neste anos, e juntamente conosco, conseguiram conquistar competitividade para exportar, tudo isso porque acreditaram no mercado eólico e estarão mais fortes quando o mercado no Brasil retornar", afirma Ferreira.

"Esse é o tipo de notícia que nos deixa satisfeitos com nosso trabalho. O aumento do conteúdo local é importantíssimo para a movimentação da economia dentro do próprio estado. São números que se transformam em empregos e renda para o povo baiano", comemora Jaques Wagner, secretário de Desenvolvimento Econômico (SDE).

Retorno dos leilões

O diretor de Supply Chain mostra-se muito otimista em relação ao mercado local e diz que as conversas com seus clientes intensificaram-se depois do anúncio dos leilões A-4 e A-6, agendados para os dias 18 e 20 de dezembro deste ano. "O avanço de nossos níveis de competitividade nos permitirá expandir nosso Market Share nestes leilões, que acreditamos contratar cerca de 2GW de fonte eólica", afirma.

"O anúncio do retorno dos leilões é importante para o desenvolvimento econômico e social. Alavancamos a indústria baiana que já tem a cadeia produtiva eólica consolidada e garantimos a criação de milhares de empregos que são gerados na construção dos parques nos próximos anos, principalmente na região do semiárido, onde estão concentrados grande parte dos parques eólicos", diz Paulo Guimarães, superintendente da SDE.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) concluiu, na semana passada, o processo de cadastramento de projetos de geração para os Leilões de Energia. De acordo com a EPE foram cadastrados 1.676 empreendimentos para o Leilão A–4, somando 47.965 MW de capacidade instalada. O cadastramento para o Leilão A-6 registrou 1.092 projetos inscritos, com potência somada de 53.424 MW.

A eólica foi a fonte mais cadastrada, tanto em número de projetos como em potência total. Um total de 21 estados apresentou projetos cadastrados para os dois certames, sendo que a Bahia foi o que registrou a maior oferta de empreendimentos de diferentes fontes – eólicas, solar fotovoltaica, pequenas centrais hidrelétricas, térmicas a biomassa e térmicas a gás natural.

 

Fonte: Correio/Ascom SDE/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!