24/09/2017

Mais de 800 mil baianos enfrentam racionamento de água

 

Água é artigo de luxo para a professora Maria Célia Pacheco, 59 anos. É que na casa dela, no município de Mairi, o líquido só cai nas torneiras umas duas vezes por semana. O drama de Maria Célia é compartilhado por outros 836.250 baianos que vivem nas 40 cidades afetadas pelo racionamento de água no estado.

Das 366 cidades abastecidas pela  Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), órgão ligado ao governo do estado, 11% delas deixaram de ter o fornecimento de água diário. Em fevereiro, o problema afetava apenas quatro cidades. Outros sete municípios que passaram por racionamento voltaram a ter o fornecimento normalizado nos últimos três meses.

“É sempre assim, cai água duas vezes por semana, no máximo. Tem ruas que, por causa da localização, cai mais vezes, mas tem outras que passam até uma semana sem cair água”, diz Maria Célia.

Membro da Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Mata do estado, zona rural de Capim Grosso, Suzana Lima de Matos, 27, vive a 51 quilômetros de Maria Célia, mas tem o mesmo problema - a falta de água.

Ela diz que o líquido chega a faltar por até uma semana na cidade: “Tem muita gente reclamando, indo para a casa de quem ainda tem água no reservatório. Falta água para tudo”.

Se na cidade, a falta de água já afeta  a vida da população, na zona rural a situação consegue ser ainda mais crítica. No povoado de Mata do Estado, onde moram 130 famílias,  há apenas 15 cisternas com capacidade para armazenar 52 mil litros de água. Mas elas não conseguem acumular água porque não chove.

“Quando vem chuva é muito fraca, não faz volume. Faz tempo que não chove forte. Por conta da falta de água, a criação de porcos está afetada. Porco precisa de água para ficar gordo, mas os daqui estão bem fraquinhos. Só não está pior porque a maioria das pessoas tem Bolsa Família”, destaca.

A Embasa explica que o racionamento é por conta do longo período de estiagem, que atinge a Bahia e da diminuição do nível dos mananciais (barragens, açudes, rios e poços) utilizados para abastecimento. Entre elas, as barragens de Pedras Altas, São José do Jacuípe e Ponto Novo.

Ainda segundo a Embasa, a medida é adotada para evitar que os sistemas de abastecimento entrem em colapso e, ao mesmo tempo, é necessária para garantir a continuidade do serviço até que volte a chover nas regiões afetadas pela seca. Por conta do racionamento preventivo, a distribuição de água tem sido feita em dias alternados, para diferentes áreas da cidade, com intervalo médio de dois dias, diz a Embasa.

Seca

A Superintendência de Proteção e Defesa Civil (Sudec) informou que, atualmente, mais da metade dos municípios baianos declarou situação de emergência por conta da seca. Ao todo, são 227. A superintendência disse ainda que a seca afeta diretamente 5,1 milhões de baianos.

Cerca de 40% do semiárido brasileiro está na Bahia, estado que possui a maior população do semiárido no país, com 6,4 milhões de pessoas. O estado tem 265 municípios inseridos na região e abriga 31% da população do semiárido do país.

De acordo com o meteorologista do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), Aldirio Almeida, a estação chuvosa deveria começar em outubro, mas vai sofrer um atraso por causa das próprias condições climáticas. Por isso, em algumas regiões, a situação só deve se normalizar no mês de novembro - para as outras não há nem previsão.

“Em novembro deve haver regularidade do nível das chuvas com estação chuvosa de qualidade, mas apenas nas regiões Centro-Sul, Oeste, Sul e Sudoeste. As regiões Norte e Nordeste do estado não têm previsão de regularidade das chuvas até o final do ano”, informa. A Embasa divide a Bahia em Norte e Sul - e todos os municípios atingidos pelo racionamento estão no Norte.

Barragens

Diretor de Águas do Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídrico (Inem), Eduardo Topázio explica que, embora  parte dos reservatórios baianos esteja com um bom nível de água, há outros que vivem um quadro crítico.

“Curiosamente, há lugares muito próximos em que há reservatórios com o nível bom e outros muito ruins. Na Bacia do Itapicuru, por exemplo, há dois rios principais, um deles, o Pindobaçu, está com o nível muito ruim, enquanto no outro a situação é melhor”, explica.

Outra barragem que tem gerado preocupações é a de Pedras Altas. Responsável por abastecer 13 municípios (Candeal, Capela do Alto Alegre, Capim Grosso, Gavião, Ichu, Nova Fátima, Pé de Serra, Pintadas, Quixabeira, Riachão do Jacuípe, São Domingos, São José do Jacuípe e Valente), ela está chegando perto do zero e já está no nível de alerta.

Outro sinal vermelho, segundo Topázio, é com relação à Bacia do Paraguaçu. “O problema é a região do Alto Paraguaçu, que está com o nível muito próximo a zero. Mas o estado já está discutindo formas de transpor água de um lugar para o outro”, informa.

Responsável por cerca de 60% do abastecimento de Salvador, a barragem de Pedra do Cavalo também chegou a representar uma ameaça, mas hoje, segundo Topázio, a situação já é um pouco melhor.

“Pedra do Cavalo está com o nível ainda baixo, mas dentro de um volume que atende Salvador plenamente”. Ele destacou que o governo vem trabalhando com excesso de cautela para garantir o abastecimento humano. “Isso vai ser mantido enquanto não tivermos segurança para contornar essa realidade”.

Carro-pipa é única opção de acesso à água para milhares de baianos

A seca que já se arrasta há seis anos na Bahia levou a outra consequência desastrosa: pelo menos 880 mil pessoas no estado têm abastecimento de água exclusivamente por carros-pipa atualmente. A situação se repete em 158 dos 417 municípios da Bahia – ou seja: quase 40% do estado.

O problema fica ainda mais crítico diante do estado dos reservatórios que abastecem as cidades onde muitos estão em situação crítica, com menos de 30% do volume útil disponível. Das cidades que estão em racionamento de água preventivo, a sua maioria são abastecidas por carros-pipa.

A maior parte dos municípios é atendida pelo Exército, em convênio com o Ministério da Integração que de acordo com o órgão federal, 143 cidades são atendidas por eles. Após o decreto de situação de emergência ou calamidade pública à Defesa Civil do Estado (Sudec), o Exército faz uma avaliação técnica em conjunto com a prefeitura para que o município seja incluído na operação e passe a receber água diariamente.

De acordo com chefe do escritório da Operação Carro-Pipa, o cálculo de água é de 20 litros por dia para cada pessoa durante um mês. “É pouco? É, mas é uma situação de emergência. Não é uma questão de falta d’água como acontece em Salvador,  mas uma situação em que a pessoa não tem água para nada. A pessoa é orientada a usar essa água para beber e se alimentar. Tomar banho, lavar roupa, dar comida a animal não. A prioridade é o ser humano”, explicou.

Só que, por lei, o Exército só atende comunidades que vivem na zona rural dos municípios – e esses têm que ficar, especificamente, na região do semi-árido. “Nosso estado tem a dimensão de um país e a questão das chuvas é complicada, mas tanto o governo estadual quanto o federal têm realizado esforços no sentido de melhorar essa situação, criando poços artesianos nessas localidades mais críticas”. Hoje, há 955 caminhões-pipa contratados para abastecer os municípios baianos pelo Exército. Cada um tem capacidade de 8 mil a 12 mil litros de água.

Além disso, a Sudec atende 38 municípios com carros-pipa. Alguns, inclusive, coincidem com os abastecidos pelo Exército – só 13 são abastecidos somente pelo órgão estadual. A diferença é que, diferentemente do Exército, a Sudec pode abranger municípios fora do semi-árido, além de zonas urbanas. Assim, beneficiam 120 mil das 880 mil pessoas atendidas por carro-pipa.

“Isso é importante nessa atual conjuntura climática, que a gente tem municípios que não sofriam com a falta d’água, mas que hoje sofrem, como no Oeste da Bahia. Às vezes, são cidades que têm acesso a água encanada, como Itabuna, no ano passado, que não tinha água na torneira e nós atendemos por um tempo”, disse o diretor-superintendente do órgão, Paulo Sérgio Menezes.

Segundo ele, nos últimos doze meses, foram investidos R$ 9 milhões na operação. Agora, a Sudec solicitou ao governo federal R$ 30 milhões para o próximo ano. “Tivemos que aumentar porque a necessidade só aumenta. Tem municípios na eminência de colapso, então a gente quer também para cidades, que é mais custoso do que na zona rural. A gente tem uma situação crítica em Ponto Novo e Senhor do Bonfim, por conta do nível das barragens, que está muito baixo”. Cada carro custa, em média, R$ 12 mil. O Ministério da Integração, por sua vez, não informou o valor total do investimento.

Ele reforça, contudo, que os carros-pipa não podem ser permanentes, mas serem vistos apenas como ação emergencial. “Até porque carro-pipa é uma operação cara, então a gente tem trabalhado em busca de soluções permanentes com obras estruturantes”, contou, referindo-se à construção de poços artesianos em 108 comunidades pela Sudec, com investimento de R$ 16 milhões.

Dos 158 municípios, a Embasa também abastece 10 – sendo que apenas dois (Ibirapuã e Seabra) não recebem a operação federal ou pela Sudec. Em nota, o órgão informou que o abastecimento é ‘alternativo’ em consequência da estiagem. “Nestes locais, devido à redução dos níveis dos mananciais, a oferta de água pela rede distribuidora está sendo complementada por carros-pipa até que os reservatórios retornem aos volumes normais”, diz a Embasa, por meio de comunicado.

 

Fonte: Correio/Midia Bahia/Municipios Baianos

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