03/10/2017

Se não chover forte, Sobradinho seca em novembro

 

Não se trata apenas de projeção, mas de conta aritmética. Na velocidade em que o nível de água do Rio São Francisco vem caindo, a projeção da Defesa Civil da Bahia é que se não chover até novembro, o Lago da Barragem de Sobradinho, que é responsável por 60% do abastecimento de água para a geração de energia na Região Nordeste, seque e reste apenas a calha do rio, impossibilitando qualquer captação de água para funcionamento do sistema hidrelétrico da CHESF.

A análise foi feita, com base em previsões técnicas da Companhia Hidrelétrica do Vale do São Francisco (Codevasf), pelo superintendente da Defesa Civil da Bahia (Sudec), Paulo Sérgio Menezes, que com técnicos e engenheiros da própria  Codevasf, elaborou um relatório que foi enviado ao Ministério da Integração Nacional  mostrando a gravidade da situação. “Infelizmente estamos caminhando para uma catástrofe ambiental sem proporções e sem perspectivas de melhorias”, disse.

Em três dias de inspeção na região, o superintendente da defesa Civil na Bahia disse que em todos os cincos municípios no entorno do Lago de Sobradinho – Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado e Sobradinho – os técnicos constataram que a captação de água a partir do Lago de Sobradinho, para abastecer tanto aas sedes municipais como a zona rural,  cada vez mais difícil.

Segundo explicou Paulo Sérgio Menezes, em Remanso, o Exército, através do 72º Batalhão de Infantaria Motorizada, sediado em Petrolina (PE), deslocou 37 carros-pipas para abastecer o município. A captação de água está sendo feito a sete quilômetros da cidade, através de bombas flutuantes no leito do rio, e movidas a óleo diesel. “Até mesmo a água de poços artesianos está cada vez mais escassa, pois tem havido um rebaixamento da vazão porque os lençóis freáticos estão secando”, diz Sérgio.  Ao todo, nos cinco municípios do lago, mais de 200 carros-pipas foram contratados nos últimos meses.

Colapso

Em três dias o volume do lago da Barragem, de Sobradinho caiu 0,27%, saindo de 5,50%, na segunda-feira, para 5,23% na quarta-feira. A situação se torna mais grave quando o volume de água que entra no lago é de apenas 290 metros cúbicos por segundo e sai pelas comportas da barragem mais do dobro,  592 metros cúbicos por segundo.

Por causa dessa situação, a Agência Nacional de Águas reduziu ainda mais a vazão da barragem, não só em Sobradinho, que deverá operar com uma defluência (saída) limite de até 523 m³/s até novembro, como na Barragem de Xingó, a maior do complexo hidrelétrico, que desde a quinta-feira teve sua vazão reduzida. Nas projeções feitas pela Sudec, até o final de outubro o volume de água acumulado no lago será zero. “A partir daí e até o final de novembro, o lago vai estar com menos zero (-0%) e o lago desaparece, ficando apenas a calha do rio”, diz o superintendente Paulo Sérgio Mendes.

Na nota distribuída na última quinta-feira, a Agência Nacional de Águas (ANA) determinou que a barragem de Sobradinho (BA) começasse a operar com uma defluência mínima de 580 metros cúbicos por segundo (m³/s), menor patamar de água já liberado até hoje pelo maior reservatório da bacia do rio São Francisco. O reservatório vinha operando no patamar de 600m³/s. Além disso, a barragem de Xingó (AL/SE) terá uma redução dos atuais 560m³/s para 550m³/s a partir da próxima segunda-feira, 2 de outubro.

Segundo a ANA, a  autorização também permite à Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF) adotar uma defluência mínima instantânea de 523m³/s até 30 de novembro. A redução da vazão defluente de Sobradinho e Xingó foi permitida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), como forma de preservar os estoques de água dos reservatórios da bacia do rio São Francisco diante do agravamento das condições de seca, que desde 2012 vêm sendo impactados por chuvas abaixo da média.

Baixa do nível de Sobradinho obriga município a tomar providências urgentes

A cada dia que se passa a situação do rio São Francisco vem se agravando mais. A reportagem do AP esteve neste domingo (01) visitando a Barragem de Sobradinho e viu de perto a gravidade da situação. 

Para o secretário municipal de agricultura e Meio Ambiente, Guanailton Monteiro o município tem feito a sua parte para manter o abastecimento no município, mas ainda resta a atenção do Governo Federal.  “A situação é critica não só em Sobradinho como em todos os municípios da borda do Lago. A Prefeitura, juntamente com o SAAE, decidiu fazer a elevação de bombas que fazem capitações de água para o abastecimento da cidade”, informou.

O município hoje dispõe de duas bombas que fazem a captação do São Francisco e duas que levam água para os agricultores, sendo que todas as quartas-feiras as bombas direcionadas para a agricultura são desligadas por 24 horas. “Só ficam duas que fazem o abastecimento humano”.

Há quase quatro meses o espelho d’água da barragem diminuiu em quase 20 metros, sendo que hoje o local se encontra com alguns barcos espalhados no deserto de areia, havendo ainda o mau cheiro de peixes mortos em lugares transformados em lagoas que estão secando. “A vazão caiu bastante, e a previsão até chuva é para o mês de dezembro. A situação é tão critica que até os agricultores estão nos ajudando neste trabalho de abastecimento, e caso não fosse tomada uma medida urgente, os agricultores poderiam ficar sem água nos próximos cinco dias.”

Em outros municípios que ficam localizados na beira do Velho Chico, como Casa Nova, Curaçá, Sento Sé, Pilão Arcado e Remanso, a situação é mais grave. “Esta é a informação que nos foi repassada pela Defesa Civil do Estado, pois o órgão fez levantamento para apresentar ao Governo Federal, cujo objetivo é solicitar ajuda urgente.”

Por sua vez, o prefeito Luiz Vicente (PSD), destacou que o trabalho de melhoria nos sistema de abastecimento vem sendo uma das prioridades de seu governo.

“A nossa preocupação é enorme neste momento. A desestruturação das nascentes ao longo dos anos, mostra que na Barragem de Três Marias não entra mais nada, ou seja, e com isso apenas está saindo, vindo direto para Sobradinho aproximadamente 300  metros cúbicos de água por segundo, sendo que Sobradinho despacha 580 metros cúbicos de água por segundos. A capitação aqui em Sobradinho está se distanciado a cada dia, e com isso estamos trabalhando para estruturar as tomadas de água para o consumo humano e o da Serra da Batateira que alimenta o cinturão verde para os agricultores onde muitos sustentam suas famílias, e isso nos deixa preocupados”, informou.

Interligações de bacias

Vicente almeja para que o Governo Federal atenda as reivindicações do senador Otto Alencar (PSD) para que seja colocado em prática o projeto de revitalização do São Francisco. “Eu sei da importância do projeto de interligação de bacias entre o Tocantins e o São Francisco, mas por outro lado já sabemos que o Tocantins está com sua produção reduzida em 25% de sua capacidade, sendo que o importante neste momento é a revitalização que tem o custo de R$ 10 bilhões. Como prefeito me cabe buscar medidas emergenciais para que o fornecimento de água não seja interrompido”.

Racionamento

Já está em andamento um levando no município sobre a possibilidade de racionamento no município, caso não chova até o mês de dezembro. “Não só Sobradinho como outros municípios como: Pilão Arcado, Sento Sé, Curaçá, Juazeiro, Casa Nova e Remanso, entraremos em processo de caos. A Barragem está hoje com apenas 5% de sua capacidade”.

Falta de políticas hídricas

A preocupação sobre a perda de água hoje não é apenas no Vale do São Francisco, como também em todo o Brasil onde alguns reservatórios estão sendo afetados a exemplo dos aquíferos. “A população aumentou, e com isso o número de poços artesianos, temos na Bahia um município chamado Lapão onde o lençol freático secou tanto que terminou afetando a produção. No país não existe uma política ainda voltada para a restruturação das nascentes, e isso tem prejudicado bastante”.

Socorro urgente dos governos Estadual e Federal

Sobre a possiblidade de ajuda por parte do Governo do Estado, o prefeito Luiz Vicente afirmou que durante ultima visita do Governador Rui Costa a região manteve contato com os prefeitos através do Consórcio do Território do São Francisco. “Na oportunidade ele assinou um convênio para que seja feita a reestruturação e limpeza de barragens e barreiros, sendo que ele mostrou a sua preocupação, mas está enfrentando momentos de dificuldades financeiras por está aguardando a liberação de um empréstimo, solicitado ao Governo Federal, e que até o momento não existe previsão para que seja liberado, e isso tem nos preocupado bastante.”

Projeto para aquisição de reservatórios

A maioria dos moradores do município de Sobradinho não tem reservatório em suas casas, sendo que uma política voltada para este projeto poderia ser abraçada pelo Consórcio do São Francisco com a ajuda de deputados e senadores através de suas emendas para ajudar famílias de baixa renda. “É uma proposta interessante, e vamos leva-la para o Consórcio e pedir ajuda aos deputados que possam dá condições as pessoas carentes a terem seus reservatórios”.

Brasil está entre os dez países com a maior área irrigada do planeta, diz estudo

O Brasil está entre os dez países com a maior área irrigada do planeta, mostra estudo feito pela Agência Nacional de Águas (ANA). De acordo com o Atlas Irrigação: uso da água na agricultura irrigada, atualmente o país tem 6,95 Mha (milhões de hectares) que produzem alimentos utilizando diferentes técnicas de irrigação. A pesquisa, lançada nesta segunda-feira (2), mostra ainda que o montante é apenas 20% da área potencial para a atividade.

De acordo com o levantamento, a Região Sudeste apresenta 2.709.342 hectares (ha) irrigados; a Sul, 1.696.233; a Norte, 194.002 ha; a Nordeste, 1.171.159; e a Centro-Oeste, 1.183.974. O estudo da ANA destaca quatro métodos de irrigação como os principais no país: por superfície, subterrânea, por aspersão e localizada, especialmente usadas no agronegócio.

“Em que pese a diversidade, é possível extrair alguns padrões de larga escala entre métodos/sistemas e culturas, tais como a forte correlação entre a inundação e o arroz; entre o gotejamento, o café e a fruticultura; entre a aspersão convencional com carretéis enroladores (hidro roll) e a cana-de-açúcar; e entre os pivôs centrais e a produção de outros grãos, em especial algodão, feijão, milho e soja”, diz o estudo.

Segundo o atlas, entre os principais cultivos irrigados no país, como arroz, cana-de-açúcar, culturas em pivôs centrais (método no qual a água é aspergida por cima da plantação utilizando-se uma tubulação suspensa), a exemplo do feijão, milho e da soja, e demais culturas e sistemas, “reitera-se a concentração do arroz no Sul e Tocantins; da cana no litoral nordestino e no Centro-Sul (São Paulo, sul-sudoeste de Goiás, Triângulo Mineiro); dos pivôs centrais na região central (em especial Goiás, Minas Gerais e Bahia); e das demais culturas e sistemas no Espírito Santo, Mato Grosso, Paraná e nos estados no Semiárido (em especial áreas de perímetros públicos)".

De acordo com a agência reguladora, a irrigação contribui para a estabilidade e o aumento da oferta de alimentos “e o consequente aumento da segurança alimentar e nutricional da população brasileira. Tomate, arroz, pimentão, cebola, batata, alho, frutas e verduras são exemplos de alimentos produzidos sob alto percentual de irrigação”, diz o atlas.

O estudo ressalta que, embora o crescimento da irrigação resulte, em geral, no aumento do uso da água, a atividade contribui para “o aumento da produtividade, a redução de custos unitários, a atenuação de riscos climáticos/meteorológicos e a otimização de insumos e equipamentos.”

Conforme a ANA, o atlas ajuda no dimensionamento e nas estimativas de demandas da água, auxiliando na elaboração dos planos de Recursos Hídricos, nos estudos de Bacias Críticas e de demandas de Água. A pesquisa “é de fundamental importância para a estimativa de uso da água e para a atualização dos balanços hídricos, subsidiando a tomada de decisão e as análises de risco com vistas à segurança da agricultura irrigada e à garantia dos usos múltiplos da água”.

O levantamento reafirma a necessidade do uso da irrigação, especialmente em regiões afetadas pela escassez contínua de água, como no Semiárido. "Uma parte importante da agricultura só se viabiliza mediante a aplicação artificial de água. Em regiões afetadas por escassez em períodos específicos do ano, como na região central do país (entre maio e setembro), diversas culturas viabilizam-se apenas com a aplicação suplementar de água nesses meses, embora a produção possa ocorrer normalmente no período chuvoso”, acrescenta o estudo.

Para a agência, o aprimoramento das informações relativas ao uso da água na agricultura, auxilia o Poder Público a tomar decisões mais efetivas a respeito do uso racional da água, reduzindo o mau uso. “Exigências legais e instrumentos de gestão, como a outorga de direito de uso de recursos hídricos (autorização para o uso da água) e a cobrança pelo uso fomentam a sustentabilidade da atividade, o aumento da eficiência e a consequente redução do desperdício”.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), os líderes mundiais são a China e a Índia, com cerca de 70 milhões de hectares (Mha) cada, seguidos dos Estados Unidos (26,7 Mha), do Paquistão (20,0 Mha) e Irã (8,7 Mha). O Brasil aparece no grupo de países que têm área entre 4 e 7 Mha, que inclui a Tailândia, o México, a Indonésia, Turquia, Bangladesh, o Vietnã, Uzbequistão, a Itália e Espanha.

 

Fonte: Tribuna/Ação Popular/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!