05/10/2017

Rio São Francisco enfrenta a sua mais grave crise hídrica

 

Com 516 anos de exploração por parte das civilizações que ocuparam o Brasil há mais de cinco séculos, o rio São Francisco está passando pela mais severa crise hídrica contemporânea. Hoje, o Velho Chico chegou aos menores níveis de reserva, o que afeta diretamente milhões de pessoas que dependem das suas águas.

No dia do santo padroeiro do rio, celebrado hoje, a situação é crítica para as pessoas que dependem das suas águas para viver. Este é o caso do técnico em agropecuária José Cerqueira. Morador da margem de Sobradinho em Sento Sé, ele vê com tristeza a situação do rio, que já foi o grande provedor de uma imensa região. "Não conseguimos mais produzir nosso alimento e muitas famílias passam fome", disse, acrescentando que já chorou várias vezes, vendo a água diminuir a cada dia.

A escassez hídrica do rio será tema do IV Encontro dos Comitês Afluentes do Velho Chico, no Hotel Catussaba, em Salvador, amanhã e sexta-feira.

Salvação

Contudo, para o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), Anivaldo Miranda, ainda existe salvação, "desde que o programa de revitalização seja efetivamente tirado do papel e que todos, incluindo os órgãos públicos, os empreendedores da iniciativa privada e os usuários, se empenhem em cumprir o Plano de Recursos Hídricos da Bacia".

Capitaneado pelo CBHSF, esse plano foi concluído em 2016 e prevê ações até o ano de 2025, com valores estimados em R$ 35 bilhões. "A maior parte deste total é de recursos orçamentários, já previstos pela União e os estados", afirmou, destacando que, para evitar o colapso, devem ser canalizados para a bacia do São Francisco.

Outro ponto importante é a necessidade de aprovação da emenda constitucional classificando o cerrado e a caatinga como patrimônio nacional, como foi feito com a mata atlântica e a Amazônia. O fortalecimento dos comitês das bacias estaduais, a criação de sistemas de outorga confiáveis, a classificação dos rios e o estabelecimento da cobrança pelo uso das águas superficiais e as subterrâneas são, segundo ele, fundamentais.

Com recursos obtidos a partir da cobrança pelo uso da água na calha principal do rio, o CBHSF implementa projetos hidroambientais, sendo que 43 já foram concluídos e 14 estão em andamento. "Devemos estar preparados para extremos climáticos", concluiu.

Sobradinho

Como reflexo da estiagem que se agrava desde 2012 na Bahia e em diversos outros estados da região Nordeste, a vazão defluente da barragem de Sobradinho vem sendo reduzida nos últimos anos aos níveis mais críticos da sua história.

A crise hídrica deixou o lago de Sobradinho com 4,87% das águas do volume útil nos primeiros dias de outubro. Em 29 de setembro esse número era de 5,23%, com redução registrada dia a dia. Desde a semana passada, a sua vazão defluente passou para 580 m³/s, enquanto que a vazão de entrada no reservatório era de 290 m³/s.

A redução da vazão para 550 m³/s estava autorizada pela Agência Nacional de Águas (ANA) desde o mês de julho. O Ibama, por sua vez, tinha consentido este patamar desde o mês de agosto. Essa é a menor vazão defluente desde a construção do reservatório de Sobradinho na década de 1970, planejado para gerar energia e regular a vazão das águas.

Nesse período, a Chesf fez testes de adaptação ao longo dos trechos abaixo das barragens, reduzindo a vazão de forma gradativa para que os locais de captação fossem se adequando a menor volume de água no leito do rio.

A meta desejada com a redução da vazão defluente é preservar a pouca reserva existente, de modo que até a chegada das chuvas na região as barragens tenham água suficiente para abastecer a população ribeirinha e das cidades que dependem do Velho Chico.

SEM ÁGUA NO RIO, PROCISSÃO SERÁ FEITA EM TERRA

A festa que a diocese e a paróquia de Barra, a 673 km de Salvador, realizam hoje para comemorar o dia do padroeiro São Francisco não terá a tradicional procissão fluvial por causa da estiagem, que rebaixou o nível das águas, comprometendo a navegação em toda a extensão do Velho Chico.

Ao invés da procissão pelas águas, pela manhã o andor com São Francisco será levado pelos devotos até o cais da cidade, onde fica a foz do rio Grande, para iniciar a programação. No retorno para a catedral, acontece a primeira missa do dia.

Às 16h, tem início a segunda procissão, desta vez pelas ruas centenárias, com encerramento na catedral, seguida da missa campal, presidida pelo bispo dom Luiz Flávio Cappio, que hoje comemora também seu aniversário.

Dom Luiz é um dos principais defensores do rio São Francisco e seus afluentes. Ele ficou mundialmente conhecido quando realizou dois grandes jejuns, em 2005 e 2007, chamando a atenção dos brasileiros sobre a necessidade de aumentar as ações de preservação e recuperação da bacia hidrográfica, para manter a vida dos rios e da população que deles depende para viver.

Este ano a paróquia de São Francisco das Chagas comemora 310 anos de implantação em Barra. Os festejos tiveram início com quermesse no final de agosto e início de setembro. Um show com a banda Anjos de Resgate, em novembro, encerra a festa paroquial. Para marcar a data, a previsão é que pelo menos 50 andores acompanhem a procissão hoje pelas ruas da cidade, com participação das imagens dos padroeiros de todas as paróquias da diocese de Barra.

Rio São Francisco agoniza aos 516 anos

Caso a chuva não regularize a partir de novembro no semiárido, os municípios banhados pelo rio São Francisco podem sofrer graves problemas, inclusive com a captação de água para consumo humano.

São Francisco, Pedras de Maria da Cruz, Januária, Bonito de Minas, Manga, Matias Cardoso e Jaíba – Dois mil e novecentos quilômetros de leito em uma bacia hidrográfica que irriga e abastece perto de 13 milhões de pessoas. Os números superlativos do Rio São Francisco combinam com seu passado de fartura. Época em que por suas águas circulavam grandes vapores, apitando enquanto rasgavam a correnteza levando mercadorias e pessoas. Com o tempo, o leito foi minguando, sendo sugado de um lado, aterrado de outro, poluído por todos. Tanto que a história do chamado Rio da Integração Nacional desaguou a um ponto em que, hoje, até a passagem de pequenas canoas é difícil em certos trechos.

Agredido século após século, em seu lento curso de agonia o Velho Chico chegou a 2017 com o mais baixo volume em seu 515 anos de história, que se completam em 4 de outubro. O aniversário de seu descobrimento pelo navegador Américo Vespúcio  encontrará o manancial enfrentando uma espécie de sentença de morte, executada enquanto seu curso é literalmente soterrado com reflexo de ações humanas.

Os números desse assassinato progressivo e contínuo saltam de estudo inédito realizado pelo Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos e pela Companhia do Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf). Entre outros, o trabalho revela um dado assombroso, que traduz em números algo que sempre se percebeu na prática: o leito do rio recebe por ano nada menos que 23 milhões de toneladas de sedimentos, da nascente na Serra da Canastra, em Minas, à foz no Oceano Atlântico, entre Alagoas e Sergipe. Na prática, é como se a cada ano um milhão de carretas de detritos fossem lançadas na água. Para fazer frente a essa realidade, o estudo propõe outras medidas controversas, que incluem a transposição de águas de outras bacias – enquanto não terminou sequer a polêmica sobre a transposição do próprio São Francisco.

O Estado de Minas teve acesso com exclusividade ao diagnóstico, fruto de um ano de levantamentos, que apontam que o soterramento do Velho Chico tem como uma das principais causas a ação humana, especialmente o desmatamento, que desencadeia uma série de outras consequências, em efeito cascata. “A taxa de erosão de cada uma das fontes de orçamento sedimentar tem sido impactada pelas modificações humanas da paisagem, que levaram a um aumento geral na produção de sedimentos”, diz um dos trechos do relatório.

Aumenta os riscos para a embarcações com baixa vazão do São Francisco

 Segundo dados 80% dos acidentes com embarcações registrados em rios, lagos e mares do País são por "negligência, imperícia ou imprudência". Entre Juazeiro, Paulo Afonso e região é a Capitania Fluvial do São Francisco, que tem a missão de orientar, coordenar e controlar atividades praticadas no Rio São Francisco e garantir segurança de navegação. Conforme reportagem do blog postada em agosto, estão inscritos na agência cerca de 4.037 embarcações na área de atuação da agência. No total são 198 embarcações de passageiros inscritos.

No setor de Juazeiro e Petrolina, o Capitão-tenente Silvio Miranda, diz que é ncessário aumentar o alerta agora com a vazão da barragem de Sobradinho mais baixa, em torno de 550 metros cúbicos por segundo.

A agência realiza fiscalização e inspeções regularmente, além de ações feitas nos finais de semana e feriados. "O objetivo é sempre garantir a segurança dos passageiros das embarcações que fazem a travessia Petrolina e Juazeiro e para a Ilha do Rodeadouro, Ilha do Maroto e Ilha do Massangano. A fiscalização e vistoria são realizadas no rigor com pilotos de motos aquáticas, lanchas, barcos, balsas e canoas.

O Agente Fluvial alerta que a baixa vazão do rio São Francisco exige cuidados redobrados que é sempre necessário conscientizar a população sobre os riscos e cuidados que se deve ter tanto em relação aos banhistas, como para os condutores de embarcações e motos aquáticas.

 

Fonte: Ascom CBHSF/em.com/Municipios Baianos

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