08/10/2017

Agrotóxicos causam má-formação em bebês, diz estudos

 

Duas pesquisas de instituições de renome denunciam a relação entre os agrotóxicos e a má-formação congênita em recém-nascidos. A Universidade da Califórnia e o Instituto Fiocruz chegaram à mesma conclusão: a exposição de mulheres grávidas a regiões que concentram monoculturas tem aumentado as chances de que os bebês apresentem uma série de deformidades.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia publicaram na revista Nature, em dezembro de 2016, um estudo sobre o impacto dos pesticidas nas gestantes da região de San Joaquin Valley, o Vale Central da Califórnia, um dos símbolos mundiais do agronegócio. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, a região é uma das maiores áreas “agricultáveis” do mundo.

Ali se produz, entre outros alimentos largamente utilizados pela indústria, a uva, que culmina em um consumo de vinhos de larga escala em todo o mundo. Na região vivem cerca de 4 milhões de pessoas. E essas pessoas, apontam os pesquisadores, estão completamente expostas aos danos dos venenos utilizados nas culturas.

O estudo comparou 500 mil nascimentos em San Joaquin Valley, entre 1997 e 2011, com os níveis de pesticidas utilizados na região. O resultado? Foram encontrados, em média, 975 quilos de substância para cerca de 2,6 km de área plantada, a cada ano.

Os pesquisadores Ashley E. Larsen, Steven D. Gaines e Olivier Deschênes descobriram que, para as gestantes expostas em cerca de 5% dessa área, os pesticidas podem levar a um aumento de até 9% na má-formação congênita.

As deformidades decorrentes disso podem abranger desde o sistema nervoso até o respiratório. Os agrotóxicos estão por trás, por exemplo, da má-formação conhecida como “testículo não descido” e da fenda palatal. Os pesquisadores criticam o excesso de agrotóxicos utilizados na agricultura norte-americana, o que tornou difícil, explicam, diferenciar os compostos.

Quem mais corre riscos são as mães com baixo grau escolar e as com origem latina, que representam 37% e 68% das gestantes expostas aos pesticidas, respectivamente. A Califórnia, lembram os estudiosos, é o estado mais populoso dos Estados Unidos e representa 12% de todos os nascimentos do país.

A influência dos venenos na saúde das mães e dos bebês, segundo o estudo, não se dá apenas na má-formação. Nascimentos prematuros e diminuição do peso dos recém-nascidos também estão relacionados.

Para o tempo de gestação e probabilidade de gestação curta (37 semanas) há efeitos negativos da alta exposição a pesticidas. A alta exposição de grupos (95% de exposição) a pesticidas cumulativos durante a gestação reduz o tempo de gravidez em 0,1% ou 9h e aumenta a probabilidade de nascimento prematuro em 8%. Para anomalias no nascimento, estar nos grupos de baixa e alta exposição a pesticidas cumulativos durante a gravidez aumenta a probabilidade de má-formação em 9% (5,8% dos nascimentos dessa amostra têm uma anomalia).

NO PARANÁ, 14% DO CONSUMO BRASILEIRO

No Brasil, as notícias também não são nada boas. É o que descobriram pesquisadores do Instituto Fiocruz ao analisar a distribuição temporal das má-formações congênitas no Paraná, entre 1994 e 2004. O estudo descobriu nada menos que 41 pesticidas utilizados no Estado, com destaque para a região de Cascavel. Todos eles podem ter relação com diversas anomalias do nascimento.

Lidiane Silva Dutra e Aldo Pacheco lembram que no mercado brasileiro o uso de pesticidas cresceu cerca de 190% em 10 anos. O Paraná, um dos estados que mais utiliza os agrotóxicos, responde por 14% desse consumo. A substância mais utilizada no estado é o glifosato, também conhecido como roundup, menina dos olhos da gigante Monsanto (agora parte da corporativa Bayer, um negócio que custou R$ 66 bilhões à farmacêutica alemã).

O glifosato representa 27% dos venenos utilizados nas monoculturas paranaenses de grão, como a soja e o milho, analisadas pela pesquisa. Em segundo lugar vem a atrazina, também conhecida por outro nome: o herbicida Proof, produzido pela suíça Syngenta (a corporação foi comprada pela estatal chinesa estatal ChemChina por R$ 42 bilhões). A atrazina corresponde a 7,41% dos agrotóxicos utilizados no estado.

Esses princípios ativos selecionados por serem sabidamente disruptores endócrinos representam 32,6% (32.172 toneladas) do total de agrotóxicos consumidos no Estado (98.624 toneladas). A soma dos cinco princípios ativos com maior consumo – glifosato, atrazina, acefato, 2,4-D e epoxiconazol/piraclostrobina – ultrapassa 50% do total de agrotóxicos utilizados.

Os pesquisadores analisaram cerca de 14 má-formações em recém-nascidos. São 56 municípios expostos aos venenos. As Unidades Regionais (URs) com maior consumo de agrotóxico (média 2014-2015) foram Cascavel (5.107,46 toneladas), Ponta Grossa (3.526,73 toneladas) e Toledo (3.336,95 toneladas). Das 20 URs apresentadas, 11 tiveram consumo de agrotóxicos acima de 1 tonelada.

Entre 1994 e 2003, analisam os pesquisadores, foram 141 os recém-nascidos que apresentaram a chamada “espinha bífida”, uma espécie de protuberância na coluna dos bebês. Entre 2004 e 2014 esse número saltou para 346, um aumento de 145%. Essa má-formação é caracterizada por um fechamento incompleto do tubo neural.

Outras formações do sistema nervoso, que entre 1994 e 2003 atingiram 572 recém-nascidos, apresentaram um aumento de 113% entre 2004 e 2014, quando nasceram 1.218 bebês com essa anomalia. Os especialistas explicam que as má-formações que mais têm relação com os agrotóxicos são a do “testículo não descido” e as “má-formações congênitas do aparelho circulatório”.

A segunda maior associação encontrada no Paraná foi referente às “má-formações congênitas do aparelho circulatório”. Foram encontradas associações entre tetralogia de Fallot e o neocotinóide imidacloprida; síndrome da hipoplasia do coração esquerdo e o fungicida azoxistrobina; estenose pulmonar valvar e os herbicidas norflurazon, 2,4-D e paraquat; defeito do septo ventricular perimembranoso e o acaricida abamectin; defeito de septo atrial e hexazinona, o herbicida 2,4-D, o acaricida óxido de fembutatina e os inseticidas clorpirifós e lambda-cialotrina.

ABORTOS ESPONTÂNEOS

Além das má-formações congênitas, o estudo da Fiocruz relaciona os pesticidas ao aumento de abortos espontâneos entre as famílias de agricultores. Elas estão expostas a maior risco de óbitos fetais, mas a expansão das fronteiras agrícolas, comentam os pesquisadores, faz toda a população ficar exposta, incluindo a urbana.

O estudo também cita a contaminação da água utilizada pela população paranaense: – Os dados referentes ao estado demonstram que, ao longo do tempo, o agronegócio tem avançado e, apesar de haver regiões mais ou menos agrárias, a contaminação da população aumenta como um todo, demonstrando que as fronteiras agrícolas e os desdobramentos referentes a ela estão cada vez mais próximos de centros urbanos, seja por meio de uma aproximação literalmente física ou por meio dos contaminantes existentes na água, no ar ou nos alimentos ingeridos por essa população.

Corte de 85% no programa de Segurança Alimentar afetará população do campo. Por Cauê Ameni

O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) dissecou a proposta orçamentária para 2018 que o governo Temer encaminhou para o Legislativo em agosto no relatório Orçamento 2018: Brasil à beira do caos. E concluiu que a mais afetada pelo programa de austeridade do governo será a população do campo e de baixa renda, devido à redução de 85% no programa de Segurança Alimentar; 44% de corte nos recursos para a reforma agrária; e 37% da verba para o fortalecimento da Agricultura Familiar.

O programa que sofreu o maior corte, de Segurança Alimentar, abarca o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), responsável por auxiliar pequenos agricultores e pessoas em situação de insegurança alimentar. Criado em 2003, o PAA é considerado a principal iniciativa do governo federal voltada para o enfrentamento da fome no Brasil. Ele abastece, com comida provinda da agricultura camponesa, restaurantes populares, creches, escolas e hospitais públicos.

No seu primeiro ano, o programa contava com um orçamento de R$ 145 milhões. Em 2012 atingiu o ponto mais alto de gastos, com R$ 839 milhões. Foi quando começaram os cortes consecutivos, somando todas as modalidades do PAA. Em 2015, o programa contava com um orçamento de R$ 640 milhões e teve, no ano seguinte, seu recurso diminuído para R$ 540 milhões. Em 2017, um corte ainda mais radical: para R$ 330 milhões. A proposta do do governo para o ano que vem é viabilizar a sobrevivência do programa com apenas R$ 4 milhões.

Os recursos que amparam o PAA vêm da Secretaria Especial da Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (Sead), criado após a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), e Ministério Desenvolvimento Social (MDS).

De acordo com o último censo agropecuário, a agricultura familiar – ou camponesa – produz 70% dos alimentos e emprega 74,4% dos trabalhadores rurais, embora ocupe apenas 24,3% da área agricultável. Segundo o pesquisador Marco Mitidiero, essa primeira porcentagem deve ser ainda maior: “Camponeses produzem mais de 70% dos alimentos, diz estudo“.

EVITAM COMER PARA ALIMENTAR OS FILHOS

Os cortes ocorrem num cenário de ressurgimento da fome. É o que mostra a reportagem Fome volta a assombrar famílias brasileiras, publicada pelo jornal O Globo. Isto ocorre três anos após o Brasil sair do mapa mundial da fome da ONU – situação em que o país tem menos de 5% da população desabastecida de alimentos em sua mesa.

O jornal teve acesso ao relatório produzido por mais de 40 entidades da sociedade civil que acompanha a implantação da chamada Agenda 2030. O documento foi entregue à ONU em junho.

Francisco Menezes, coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), consultor da ActionAid e um dos participantes na elaboração do relatório lamentou: – A exclusão de famílias do Bolsa Família, iniciada ano passado, e a redução do valor investido no Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), que compra do pequeno agricultor e distribui a hospitais, escolas públicas e presídios, são uma vergonha para um país que trilhava avanços que o colocava como referência em todo o mundo.

A reportagem entrevistou algumas famílias que estão deixando de comer diariamente para saber como estão fazendo. Alguns estão passando por uma dieta de pão há meses. Outros evitam comer para alimentar os filhos.

 

Fonte: Por Izabela Sanches, em De Olhos nos Ruralistas/Municipios Baianos

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