10/10/2017

Com 18 mil atletas, Brasil tem alta taxa de desemprego no futebol

 

Depois que saiu da Portuguesa e começou a ter dificuldades para encontrar outro clube, o meia Rai decidiu vender a sua BMW. Redução de custos. Quando os calotes se tornaram mais frequentes – no Vilhena, de Rondônia, ele chegou a ser ameaçado de morte por cobrar cinco meses de atraso no salário -, o meia de 32 anos se tornou corretor de seguros. Hoje espera uma proposta do futebol chinês, mas a bola é o seu plano B.

Para Bruno Henrique Silva Carvalho, o desemprego piorou o que era já difícil. No primeiro semestre, ele atuou pelo Suzano, time da quarta divisão paulista, mas não recebia salário. Os dirigentes diziam que estava em uma vitrine. Depois de seis meses, foi dispensado porque o time não terá mais competições para disputar nesta temporada. Para ajudar a família a comer, ele vende doces caseiros, feitos pela própria mãe, pelas ruas de Suzano, na Grande São Paulo.

Rai e Bruno Henrique mostram alguns dos efeitos do desemprego no Brasil, mais precisamente no futebol. De acordo com a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol, o País possui hoje 18 mil atletas profissionais. Os índices de desemprego variam ao longo do ano por causa da mudança no número de competições. Os clubes menores simplesmente fecham as portas no segundo semestre. “No mês de abril, temos 30% dos atletas trabalhando. No fim do ano, esse número cai para 6%”, disse o presidente Felipe Augusto Leite. “Grande parte dos atletas está à margem da sociedade. É um problema social bastante grave”, ressaltou.

Marco Antônio da Silva Oliveira, campeão da Série A3 do Campeonato Paulista com o Nacional, não renovou contrato e não tem onde jogar até o fim da temporada. Está desempregado. “O calendário brasileiro está ruim para todos nós, que não temos nome no cenário do futebol nacional”, comentou.

Naturalmente, a questão não se esgota na venda de carros de luxo e nos bicos para completar a renda. Existe um problema emocional quando um jogador fica sem clube. “O maior desafio é manter a motivação, treinar sozinho e não desistir”, confessou o zagueiro Guilherme Bernardinelli, ex-Santos.

Depois de uma temporada na terceira divisão espanhola, o jogador de 25 anos deu de cara com a falta de oportunidades no retorno ao Brasil. Enquanto aguarda a abertura da próxima janela de transferências, ele contratou um personal trainer para manter a forma, mas já pensa em outra atividade. Diariamente, dá expediente na área administrativa da empresa do pai, uma fábrica de injeção plástica.

“Pensei até em procurar um médico. A gente vive o sonho, de ser famoso, ganha tapinha nas costas e almoço grátis por onde passa e, de uma hora para outra, tudo acaba. É preciso equilíbrio emocional”, disse Rai. Em vários casos, os jogadores esbarram na falta de qualificação profissional para buscar uma recolocação no mercado e ouvem que sabem fazer nada.

Hoje, Rai tem a sua própria empresa de seguros, a DR Group, e grande parte dos seus clientes é formada por jogadores, seus colegas de profissão. Teve chance de comprar carro, mas prefere andar de metrô, ônibus e Uber. Mas precisa economizar, pois a empresa ainda precisa decolar.

Horas depois da entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, Bruno Henrique mandou uma mensagem via WhatsApp. Ele avisou que vai atuar pela final da Liga de Mauá, o clássico entre São João e Gralha Azul, no próximo dia 15. No dia seguinte, mandou outra mensagem. “Quando você perguntou das minhas qualidades, eu queria completar. Tenho bom preparo físico, bom desarme, sei sair para jogo e chego bastante na área do adversário”, escreveu. Bruno Henrique atua na várzea para completar a renda e ganha R$ 100 por jogo.

Mesmo com escândalo, dinheiro da Lei Agnelo/Piva está garantido para o COB

A principal fonte de renda do Comitê Olímpico do Brasil (COB) é via a Lei Agnelo/Piva, que prevê que 1,7% do valor arrecadado com loterias federais seja repassado à entidade. De acordo com o Ministério do Esporte, a decisão do COI de afastar Carlos Arthur Nuzman e suspender o COB não afeta de nenhuma maneira essa transferência de recursos.

Neste ano, a quantia obtida foi de R$ 179 milhões. Esse montante é dividido entre as confederações e projetos que visam à preparação e planejamento para os Jogos Olímpicos de Inverno e Verão. “As regras de transferência de recursos públicos a entidades esportivas estão descritas na Lei Pelé. Apenas após descumprimento de tais determinações a entidade seria impedida de recebê-los”, afirmou o ministério em nota.

No entanto, uma ameaça financeira real foi enviada à Câmara dos Deputados: o governo federal fez uma proposta para a Lei Orçamentária Anual que prevê uma redução de 87% na comparação com a verba deste ano.

Sobre isso, o ministério alega que trabalha junto ao Parlamento para que as ações de apoio ao esporte de alto rendimento não sejam comprometidas em 2018 e prevê crescimento nas arrecadações. “O cenário econômico mostra claros sinais de recuperação, com aumento da arrecadação, o que permite projetar um orçamento maior”.

Após um duro golpe, confederações veem na melhoria da gestão a única saída

O que poderia ser um enorme legado esportivo no Brasil, trampolim para novos tempos, ainda mais depois da primeira Olimpíada na América do Sul, tornou-se um duro golpe no esporte olímpico brasileiro. Dirigentes presos, fuga de patrocinadores e futuro incerto tiraram o brilho de uma competição marcada por alegria e bons resultados no Rio-2016.

O momento serve para repensar as relações entre os poderes estabelecidos e tornar a gestão olímpica do Brasil mais forte. Se antes dirigentes e atletas evitavam atritos por temer a perda de recursos importantes, e ficavam em silêncio em momentos turbulentos, agora acham que podem colocar em prática ideias para melhorar o esporte como um todo no País.

“Eu vejo essas coisas de maneira positiva. O erro se transforma em aprendizado. Estou confiante de que todo movimento e situação vão servir para esclarecer a responsabilidade de cada um e fazer melhor. Isso tudo faz parte do legado”, comentou Marco Aurélio de Sá Ribeiro, presidente da Confederação Brasileira de Vela (CBVela).

Ele lembra que a entidade que comanda soube aproveitar o legado da melhor maneira. A sede da CBVela foi construída com recursos da iniciativa privada e existe até eleições diretas agora. “Temos transparência. A partir do momento que uma entidade está dentro de uma estrutura de boa gestão, isso se transforma. Essa situação vai obrigar todo mundo a ter padrão de governança”, disse Marco Aurélio de Sá Ribeiro.

Se em um primeiro momento os dirigentes esportivos evitaram falar sobre a prisão de Carlos Arthur Nuzman, depois dos esclarecimentos os presidentes de confederações decidiram colocar seus pontos de vista. E, para além do aspecto político, o que impera é o lado financeiro, de muita dificuldade após os Jogos do Rio-2016.

“A posição da CBAt não muda em relação à situação atual do COB, até porque não temos elementos jurídicos sólidos para comentar. A CBAt preocupa-se com o atletismo e com toda a situação esportiva do País, corte de verbas, tudo o que pode dificultar o desenvolvimento da modalidade até Tóquio”, afirmou José Antonio Martins Fernandes, presidente da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).

Francisco Ferraz, presidente da Confederação Brasileira de Badminton (CBBd), foi um dos poucos a se manifestar no dia da prisão temporária de Carlos Arthur Nuzman. “Para a gente não faz muita diferença no aspecto financeiro, pois nossos recursos já são bem reduzidos. Não temos nenhum tipo de recurso privado. Somos prejudicados com a arrecadação baixa das loterias”, disse, lembrando que a entidade receberá neste ano quase R$ 2,3 milhões de repasses da Lei Agnelo Piva. “Esse valor é pago em parcelas”.

APOIO

A situação turbulenta no esporte olímpico pode afugentar patrocinadores, mas duas grandes marcas ouvidas pelo Estado, que têm histórico de investimento nas modalidades dos Jogos, garantiram que não vão mudar seus rumos, mesmo depois da suspensão do COB pelo COI. “A Coca-Cola Brasil mantém sua crença na importância do esporte para o desenvolvimento de uma sociedade plural, que zela pela inclusão social e pelo bem-estar das pessoas”, afirmou a empresa em nota.

“A Nissan acredita no esporte como forma de transformação social e, por isso, apoia atletas com seu ‘Time Nissan 2.0’. A empresa pretende manter seu planejamento inalterado nessa área”, disse a montadora, que patrocina 11 atletas de nove modalidades esportivas.

No lado de quem compete e vive o dia a dia do esporte, a crise no movimento olímpico não pode afetar ainda mais as modalidades, que já convivem com dificuldades. Para Hugo Hoyama, que representou o Brasil em seis edições dos Jogos Olímpicos, entre 1992 e 2012, a expectativa era outra após os Jogos do Rio-2016.

“Na Olimpíada, por exemplo, tivemos bons resultados, a questão do público foi excelente, da torcida. Mas infelizmente não ficou aquele legado que todos desejavam, de estrutura e verbas para cada confederação. Espero que depois de tudo isso acabar a gente possa ter essa ajuda. Com mais apoio, verbas e motivação a tendência é voltar a crescer”, argumentou Hugo Hoyama.

Ele entende que a prisão temporária de Carlos Arthur Nuzman e a suspensão do COB são fatos ruins para o esporte, mas defende a investigação. “O que precisa ser feito é justiça para que essa má imagem possa desaparecer aos poucos. Aqueles que erraram precisam ser punidos”.

Experiente, ele dá um conselho importante para a nova geração. “Os atletas têm de continuar treinando firme, fazendo sua parte. Muitas vezes os investidores poderão ficar com o pé atrás ou algo do tipo. Eu, como ex-atleta, passei por algumas situações parecidas, que não tinha muito apoio, mas sempre continuei treinando”.

 

Fonte: Agencia Estado/Municipios Baianos

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