10/10/2017

Cachoeira: Flica reuniu cerca de 35 mil pessoas

 

Assim que acabou a última mesa da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), a vendedora ambulante cachoeirana Cleide da Silva, 32 anos, foi para a frente da Igreja do Convento do Carmo tentar vender suas últimas unidades de bebida. “Vai uma água, freguesa? Uma é R$ 2 e três é R$ 5”, ofereceu Cleide, que não demorou a fazer um balanço da Flica 2017. “Foi a melhor de movimento do povo e de venda. Tenho uma irmã que bateu 30 caixas de água em três dias”, disse orgulhosa sobre a venda de cerca de R$ 700.

Cleide contou que todo ano trabalha na Flica para tentar aumentar a renda e que o produto que o público mais compra é água. “É a Flica da água”, riu Cleide, enquanto vendia duas águas para um rapaz. Por isso, justificou a vendedora, é que estava ali, debaixo do sol forte, sem perder o bom humor. “A Flica é uma guia boa, porque sai um dinheirinho. Mesmo no corre, com o sol na cabeça. A gente sai no sufoco, mas sai. Torrada, acabada, assada, mas sai”, garantiu gargalhando.

Segundo levantamento feito pela Icontent, empresa que realiza a Flica junto com a Cali, cerca de 35 mil pessoas compareceram ao evento nesta sétima edição que aconteceu de quinta-feira (5) a domingo (8). Ao longo dos quatro dias da Flica, as dez mesas de debate contaram com a lotação máxima de 350 pessoas e a Fliquinha também aconteceu com a casa 100% cheia em todos os dias, sendo que cada uma das 20 apresentações foram vistas por 220 pessoas.

“Esse ano foi o ano de maior público, principalmente em relação ao número mais  constante em todos os dias. Na quinta-feira, por exemplo, a gente teve um público que só tinha na sexta-feira. Foi o ano que teve maior participação durante todos os dias. Todas as mesas foram muito disputadas e a gente teve um número muito grande de pessoas que ficou do lado de fora”, destacou o coordenador executivo da Icontent, Gustavo Mendonça.

Além do Claustro do Convento do Carmo, onde aconteceram as mesas de debate, a Casa do Governo contou com 120 pessoas por hora de funcionamento da programação, sendo que o espaço ficou aberto de quinta a sábado, das 9h às 18h, e domingo, das 9h às 12h. Ainda segundo a organização, o espaço da Odebrecht e a Varanda do Sesi contaram com aproximadamente 100 pessoas por hora, sendo que o primeiro funcionou das 9h às 17h, de quinta a sábado, e das 9h às 12h, no domingo; e o segundo das 19h às 22h, nos quatro dias.

“Teve muita movimentação desde o primeiro dia. O show de Saulo, na quinta-feira, estava bem movimentado. Foi o mais cheio de todos os anos”, garantiu o gerente do restaurante Aclamação, Claudio Pereira, 50, que fica na praça em frente à Câmara de Vereadores. “As vendas aumentaram cerca de 80%”, comemorou. O proprietário da pizzaria Recanto Misticismo, Jorge Leite, 60, por outro lado, disse que suas vendas não aumentaram tanto com a sétima edição da Flica.

“Esse ano teve muita gente, mas não consumiram tanto. Acho que é porque teve muita gente que veio e voltou no mesmo dia. Aumentou pouco a venda, só cerca de 40%”, lamentou o dono da pizzaria que funciona há dez anos em Cachoeira. “Mas pelo menos a gente vê gente, né? O dia a dia aqui está péssimo. A violência está tomando conta e nós estamos trabalhando assustados... Por isso deve existir um evento desse tipo sempre, todo mês!”, sorriu.

Debate social

As força da negritude se destacou na programação da Flica desde quinta-feira, na mesa de abertura com Carlos Moore e Cuti, até o sábado, que reuniu seis mulheres poderosas da literatura em duas mesas que se destacaram como pontos altos do evento. Curador da sétima edição da Flica, o jornalista e escritor Tom Correia destacou que a escolha por esse caminho foi natural e “não foi pensado para agradar grupos A, B ou C”.

“Um escritor do porte de Carlos Moore, que mora em Salvador há 17 anos, nunca ter participado de uma Flica, num momento como esse, era um nome que gritava. Assim como as autoras negras. Em nenhum momento a gente se sentiu na obrigação de dar uma resposta, não pensamos em cotas para as mulheres negras. A própria trajetória das escritoras já justificava a presença delas. Foi tudo muito natural”, afirmou Tom.

A escolha pelo escritor baiano Ruy Espinheira Filho também foi natural, segundo o curador, “primeiro, pela qualidade literária dele, segundo pela forma afável como trata os pares e suas conquistas, de uma forma muito respeitosa”, sendo “muito querido”. O aspecto que foi proposital na Flica, revelou Tom, foi a arquitetura da programação, que foi pensada estrategicamente para dar destaque às autoras negras nos horários considerados nobres.

Segundo o curador, o momento que o Brasil atravessa pede um posicionamento da curadoria em relação a tudo o que se está vivendo. “A curadoria não é apenas uma assinatura artística, ela é também um posicionamento político, é o repertorio do curador em relação à posição dele no mundo contemporâneo. Isso ficou muito claro nas mesas: a mesa indígena, o destaque para as autoras negras...”, reforçou.

O curador disse que no final do evento, ficou com a sensação de que a Flica “parecia um fórum social literário, porque, para além da literatura, existiam discussões e debates em torno dos direitos sociais, em torno do momento político que a gente vive”. Esse movimento, vale destacar, também marcou a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), “grande inspiradora das festas literárias do Brasil inteiro”, nas palavras de Tom.

Mas antes que alguém compare o evento baiano com o do Rio de Janeiro, que esse ano contou com curadoria da jornalista baiana Joselia Aguiar, Tom destacou que não houve diálogo, apesar de elogiar “o trabalho fantástico” de Joselia. “Há uma sintonia [entre as duas festas]. Há uma percepção da gravidade do momento que a gente vive e que as festas literárias também permitem dar vazão a essa visão dos curadores”, justificou.

Mesa-redonda na Flica divulgou residência do Instituto Sacatar

A Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) participou da 7ª edição da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira), que aconteceu na cidade heróica até domingo (08). No sábado (07), pela manhã, na Sala Multiuso da Casa Educar para Transformar, programação paralela a Flica, a Coordenação de Literatura da Diretoria das Artes (Dirart/Funceb) realizou um bate papo com o tema “Residências artísticas: o impacto criativo na vida de artistas da palavra” com alguns escritores: Deisiane Barbosa, Luciany Aparecida, Marielson Carvalho, Tom Correia, Renata Dias (Diretora Geral da Funceb), Lia Silveira (Diretora das Artes Dirart), Karina Rabinovitz (Coordenadora de Literatura), ambas da Funceb, além de Augusto Albuquerque (Instituto Sacatar).

De acordo com Renata Dias, diretora geral da Funceb, entidade vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), que abriu o encontro, a Flica é um evento importante pois viabiliza produções culturais, “Este é um festival de referência estadual, nacional e a participação da Funceb na Flica através das suas coordenações promove um diálogo com a sociedade para pensar, idealizar e realizar políticas públicas na área cultural, pelas coordenações que trabalham para impulsionar as diversas linguagens que são os componentes da cultura”, avalia Renata.

Durante o encontro houve apresentação dos novos residentes do Instituto Sacatar, que é a primeira residência internacional para artistas estabelecida no Brasil e uma das maiores da América Latina, que propicia o espaço e o tempo livre para que sejam desenvolvidos novos trabalhos e projetos. Ao longo do bate papo, os escritores elogiaram a estrutura do espaço Sacatar e se mostraram muito grato ao acolhimento de todos da casa e destacaram o lugar paradisíaco à beira mar, onde fica o Sacatar, local que serve para inspiração de muitos artistas para o desenvolvimento da escrita.

A Funceb pelo quarto ano consecutivo firmou parceria com o Instituto Sacatar quando lançou o Edital de Residência Artística para Escritores no Instituto, no último dia 29 de setembro. Os interessados podem fazer suas inscrições até o dia 12 de novembro de 2017 preenchendo formulário disponível no site da Funceb e enviar para o e-mail: literatura.funceb@gmail.com, com o assunto INSCRIÇÃO – RESIDÊNCIA SACATAR. Informações completas no Edital (https://goo.gl/Jg2xyD).

Sobre o Sacatar

Iniciado em 2001, o Instituto Sacatar (www.sacatar.org), localizado na Ilha de Itaparica, é a primeira residência internacional para artistas estabelecida no Brasil e uma das maiores da América Latina, propiciando o espaço e o tempo livre para que sejam desenvolvidos novos trabalhos e projetos. Entre as metas, estão: oferecer um lugar onde artistas possam conviver e criar; facilitar a interação e a colaboração dos artistas com a comunidade; aumentar a visibilidade e o impacto cultural da cidade e da nação; e estimular a arte e a criação.

Grafias Eletrônicas:

Além disso, fez parte da programação da Funceb na Flica, a exibição dos vídeos do Projeto Grafias Eletrônicas, um conjunto de 20 vídeos, que está sendo divulgado durante a festa que é resultado de uma parceria entre a Funceb e o Irdeb, que criou um espaço contemporâneo para a difusão dos artistas da palavra e da literatura baiana, através do diálogo com o audiovisual. Os filmes foram gravados por artistas da palavra da Bahia, com suas obras. A mostra acontece até às 20h, na Casa Educar para Transformar.

A Mostra dos vídeos do projeto Grafias Eletrônicas reúne textos gravados pelos seguintes autores(as)/obras: Alex Simões (poema desfacetado), Allan 'DuSanto' Santana (Macumbas Day), Amós Heber (Meu primeiro amor), Ana Mariano (Exílio), Edgar Torres (Hábito Noturno), Clarissa Macedo (Panorama), Cléber Eduão (Carranca), Danielle Andrade (Pássaro), Davi Nunes (cabeça de Eternit) e ainda de: Deisiane Barbosa (Prenúncio), Dênisson Padilha Filho (trecho da novela Eram olhos enfeitados de sol), Denisson Palumbo (Carnamaisvalias), Fernandinho Borges (Vende-se um homem), Flávia Vasconcelos (A cor dos meus olhos), Geraldo Lavigne de Lemos (a minha voz), Goli Guerreiro (trecho do romance Alzira está morta – ficção histórica no mundo negro do Atlântico), Nildão (algo mais), Laura Castro (trecho do romance O armarinho), Rosana Paulo (Ecos de uma louca), Saulo Dourado (Terra Terrível).

 

Fonte: Correio/SecultBa/Municipios Baianos

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