12/10/2017

Alunos terminam ensino fundamental sem ler ou fazer contas

 

A conclusão do ensino fundamental é uma etapa essencial da vida estudantil, mas para grande parte dos alunos latinos-americanos ela é concluída sem que sejam aprendidas habilidades mínimas.

Segundo um informe recente do Instituto de Estatísticas da Unesco, braço da ONU para a educação, grande parte dos jovens da América Latina e do Caribe não alcançam os níveis exigidos de proficiência em capacidade leitora ao concluírem o que no Brasil equivale à segunda etapa do ensino fundamental, em geral, aos 14 anos.

O estudo diz que, em média, 36% das crianças latino-americanas no ensino fundamental não estão atingindo as habilidades mínimas de leitura. Em matemática, esse índice sobe para 52%.

Em números absolutos, 19 milhões de adolescentes do continente concluem o fundamental "sem conseguir níveis mínimos" de compreensão nessas áreas.

Especificamente no Brasil, dados compilados pela plataforma QEdu com base no Prova Brasil 2015 dão a dimensão do problema nessa etapa do ensino: apenas 30% dos alunos da rede pública saem do 9º ano com aprendizado adequado em leitura e interpretação.

Em matemática, apenas 14% dos alunos do 9º ano aprenderam o adequado em resolução de problemas.

'Novo analfabetismo'

Silvia Montoya, diretora do Instituto de Estatísticas da Unesco, considera "dramática" a ausência de compreensão de leitura em tantos estudantes do continente.

"O fato de haver crianças sem competências básicas, no que se refere a ler parágrafos simples e extrair informações deles, é o que eu consideraria uma nova definição de analfabetismo", diz ela à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC.

"No mundo de hoje, ter um nível mínimo de alfabetização já não é (apenas) saber ler o próprio nome e escrever algum fato da vida cotidiana. Carecer de compreensão leitora é uma espécie de incapacidade de se inserir na sociedade, poder votar e entender as propostas dos candidatos, entender seus próprios direitos e deveres como cidadão. Afeta todas as dimensões."

E, prossegue Montoya, a leitura é uma habilidade básica, sobre a qual se constroem as demais capacidades estudantis.

"Sem essa competência, estamos gerando crianças e adolescentes que vão (vivenciar) diretamente muitas frustrações pessoais e de integração social e profissional. Sem entender textos, é muito difícil avançar em qualquer área."

A situação se agrava quando se leva em consideração o grau de exigências do mundo atual, em que a informação disponível é complexa e tem diferentes graus de qualidade e confiabilidade - o que exige leitores com senso crítico e habilidade de interpretação.

Uma escola que não funciona

E se antes o desafio da América Latina era o da inclusão dos alunos ao sistema de ensino, hoje a questão é mais qualitativa do que quantitativa.

O relatório da Unesco afirma que "o desperdício de potencial humano evidenciado pelos dados confirma que levar as crianças à sala de aula é apenas metade da batalha. Agora, temos de garantir que todas as crianças naquela sala de aula estejam aprendendo as habilidades básicas de que precisam em leitura e matemática, no mínimo".

"Agora, a realidade é que as crianças estão dentro do sistema educativo, mas há uma inabilidade da escola em dotá-los do nível de aprendizado razoável e mínimo para as circunstâncias que demanda o mundo hoje e no futuro", afirma Montoya.

E isso é resultado de uma série de problemas, como formação deficiente que não prepara os docentes para lidar com os desafios de sala de aula, problemas de infraestrutura, numerosas perdas de dias letivos por conta de greves e outras questões - além, também, da própria situação socioeconômica dos estudantes, que "podem vir de lares de baixa renda e contar com menor apoio familiar".

"Há uma combinação de fatores que podem variar em cada lugar, mas evidentemente há uma ausência de políticas específicas para enfrentar o problema", afirma Montoya.

Ela agrega que é preciso analisar os currículos, a formação de docentes - para garantir que sejam capazes de ensinar crianças vindas de contextos sociais difíceis -, contar com um ambiente e uma infraestrutura adequados e ter uma rede de políticas sociais de apoio.

No Brasil, uma nova base nacional curricular, documento do Ministério da Educação que vai definir diretrizes de ensino, está atualmente em fase de consulta pública.

"Não há como resolver (o problema da educação) sem uma visão integral do sistema educacional", opina Montoya.

O problema não se restringe à América Latina - é um drama global

O relatório da Unesco calcula que, no mundo, haja 617 milhões de crianças e adolescentes - o equivalente a três vezes a população total do Brasil - incapazes de entender minimamente um texto ou resolver problemas matemáticos básicos, o que seria esperado em sua idade escolar.

Na África Subsaariana, 88% dos alunos concluem os estudos equivalentes ao fundamental com problemas de compreensão em leitura. Para efeitos comparativos, esse índice cai para 14% na América do Norte e na Europa.

A BNCC e a educação integral. Por Mozart Neves

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) entra na fase final, antes de chegar a todas as escolas brasileiras. O documento que irá nortear os direitos de aprendizagem de todos os alunos, matriculados na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, encontra-se em análise pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). A BNCC relativa ao Ensino Médio, por sua vez, encontra-se ainda no Ministério da Educação (MEC), e deverá ser enviada ao CNE até o fim deste ano. A chamada “escola do jovem” ainda vai esperar um pouco antes de ter a sua BNCC.

Mas o fato de já estar marcada para 2018 a implementação da BNCC, relativa à Educação Infantil e ao Ensino Fundamental, representará uma grande vitória de todos os setores da educação do país, que ao longo dos três últimos anos não só se mobilizaram, mas contribuíram para a qualidade do documento que chegou ao CNE. Foram milhões de contribuições, o que mostra o grau de envolvimento e de comprometimento desses setores na sua implementação.

A perspectiva é que o documento final produzido pelo CNE, antes de sua homologação pelo MEC, seja capaz de orientar as escolas para uma educação voltada para o século XXI – olhar para onde aponta o farol, e não o retrovisor.

Que ele seja capaz de apontar com clareza quais as competências necessárias para assegurar os direitos de aprendizagem para todos os alunos deste país. Uma BNCC que dialogue com o próprio Artigo 205 da Constituição Federal, que afirma que a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, ao seu preparo para o exercício da cidadania e à sua qualificação para o trabalho. Portanto, não se está falando de qualquer educação, mas de que ela promova a integralidade das pessoas – o que implica não só pensar no desenvolvimento cognitivo, mas também no desenvolvimento social e emocional, que, quando potencializado no ambiente escolar, promove impactos importantes não apenas no campo da aprendizagem, mas também no desenvolvimento pessoal e social futuro de todos os alunos.

Estou extremamente convicto de que o documento da BNCC produzido pelo CNE será de vanguarda – e será capaz de empurrar a fronteira da educação.

Primeiro, por conhecer de perto os dois relatores, Joaquim Neto e Chico Soares, tanto no aspecto pessoal como no profissional – dois educadores que dignificam a história da educação deste país, tendo como presidente da comissão o conselheiro Cesar Callegari, outro nome de grande respeitabilidade no campo educacional brasileiro.

Segundo, porque tenho certeza de que, apesar da complexidade do tema e da alta responsabilidade dessa comissão, ela saberá, com sapiência, conhecimento e humildade, costurar as diferenças em prol da unidade nacional.

E, por fim, o trabalho colegiado do próprio CNE, sempre sereno e equilibrado, que congrega o pensamento de 24 conselheiros com larga experiência de vida dedicada à educação deste país. Cabe a esse conselho pleno do CNE a aprovação final do parecer e da resolução da BNCC, antes de encaminhá-la ao MEC.

O próximo ano será de muito trabalho, de muitos esforços na implementação da BNCC em todas as escolas brasileiras, públicas e particulares. Com isso, estou plenamente convicto de que estaremos dando um passo importante para melhorar a qualidade da educação brasileira.

 

Fonte: BBC Brasil/IstoÉ/Municipios Baianos

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