12/10/2017

Ideólogo de Bolsonaro detona “nova direita”

 

“Eu sei lá o que é a nova direita. Eu quero que ela se dane. É um bando de picaretas”. A afirmação é do ideólogo de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, em entrevista à Folha de S.Paulo, direto da casa de um de seus filhos em Petersburg, na Virgínia, Estados Unidos. “Eu abri um rombo na hegemonia esquerdista, só que o pessoal que veio atrás não tinha preparo nenhum. Só palpiteiro, carreirista, oportunista”, afirma, antes de se corrigir. “Não todos, evidentemente. Tem gente boa no meio”. Carvalho, com 390 mil seguidores no Facebook e um curso de filosofia online que, de acordo com ele, é acompanhado por 5 mil pessoas, é considerado o “guru” de boa parte do conservadorismo brasileiro, que tem obtido cada vez mais força no país. “Não estou ligado a nenhum desses grupos. Eu fiz o meu serviço, agora eles que se virem”.

Citado pelo deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) como uma de suas referências, Carvalho aceitou o pedido feito por um dos filhos do presidenciável para aconselhar o pai antes das eleições. “Pois é, ele me pediu, mas o Bolsonaro não veio ouvir o conselho, o que que eu posso fazer”? Os dois participarão, nesta semana, de uma discussão promovida pelo centro de pesquisas do ideólogo, o Inter-American Institute, em Nova York. Eles, contudo, não se encontrarão. Carvalho falará por videoconferência, a partir da Virgínia, por causa da missa de um mês da morte de sua mãe.

Apesar de já ter feito pelo menos dois debates por videoconferência com o deputado e de ter dois filhos dele como seguidores, Carvalho diz não ter “nenhuma relação” com o pré-candidato. Contudo, ele confirma que seu voto já é de Bolsonaro, o único que tem uma “carga nacionalista”. “Primeiro, a candidatura dele é nacional. Segundo, é um dos dois ou três políticos que não se meteram em nenhum esquema de corrupção. Terceiro, ele tem algum amor ao Brasil”, justifica. Carvalho admite, porém, “não saber bem quais são as ideias” do deputado. “Não sei quais são os projetos políticos dele. Ouvi ele falar de coisas, problemas isolados, mas ainda não peguei bem qual é a concepção política dele”.

Além de Bolsonaro, o ideólogo aposta que, em 2018, os nomes com mais chances ao Planalto são o do ex-ministro Ciro Gomes (PDT-CE) e o do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB-SP). “Acho o Ciro um sujeito altamente competente, tenho uma simpatia por ele e pelo João Doria. Não voto neles porque os dois estão ligados a forças internacionais”. Para ele, Doria copia o “discurso multicultural da nova ordem global” e Ciro já teve demonstração de apoio do Partido Comunista da China. E o ex-presidente Lula? “O Lula, coitado. Acho que ele não se elege nem em Catolé do Rocha [PB]”, diz, rindo e acrescentando que não acredita em pesquisas de intenção de voto. No último Datafolha, publicado no início do mês, o petista aparece com pelo menos 35% dos votos em todos os cenários. Bolsonaro está em segundo, empatado com Marina Silva (Rede).

Apelidos

Carvalho não poupa apelidos para políticos e lideranças de movimentos de direita no Brasil. O coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL), Kim Kataguiri, virou “Kim Cata-Coquinho” e o governador Geraldo Alckmin é o “Geraldo Alguénzinho”. “É tudo o que ele quer ser quando crescer, mas ele não vai crescer; é uma pessoa oca”, diz. O “guru” afirma ter “dado uma força por caridade” para “os gênios do MBL” quando eles realizaram a marcha até Brasília, em 2015. O MBL apoia Doria, rival de Bolsonaro pelo voto conservador. “Depois o movimento popular se dispersou e o MBL está lá, levando o dinheiro dos partidos políticos. Inventou um jeito de fazer tudo de novo, como estava antes”, diz. Ele chega a afirmar que integrantes do MBL “às vezes tomam posições que são teoricamente certas”, citando a oposição do grupo à exposição “Queermuseu”, fechada em Porto Alegre (RS), e à performance “La Bête”, do artista Wagner Schwartz, realizada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. “Se alguém vê sinal de pedofilia numa exposição e fica indignado, não tem nada de errado nisso. Só que ali não tem pedofilia nenhuma. Tem uma lenta e sutil operação de dessensibilização que resultará na criação de uma atmosfera social favorável à assimilação da pedofilia daqui a dez ou 15 anos”, afirma.

DAR CONSELHOS

Diante do alvoroço gerado pela notícia de que poderia dar conselhos a Jair Bolsonaro, Carvalho diz estar disposto a fazer isso com qualquer candidato. A todos, assegura, falaria a mesma coisa: “É preciso encontrar o caminho pelo qual o Brasil possa deslizar por entre as malhas da dominação globalista e preservar um pouco da sua soberania, da sua identidade, da sua cultura”. Questionado se estaria disposto a ser conselheiro de Bolsonaro se ele for eleito, afirma, entre um cigarro e outro, que poderia aconselhar qualquer presidente. “Não como um cargo oficial, como seu conselheiro pessoal. Cobro R$ 100 por mês.”

DIVISÕES POSITIVAS

Sobre suas críticas à nova direita, Olavo de Carvalho afirma ser “uma besteira” a ideia de que os conservadores precisam se unir. “As divisões internas são uma força que faz crescer.” Diante de parte da sua coleção de mais de 20 armas, quase todas usadas para caça, Carvalho faz piada sobre sua imagem polêmica. “O pessoal acha que eu estou aqui armado até os dentes para matar comunista. É muita fantasia.”

MPF vai investigar ligação entre neonazistas de MG e Bolsonaro. Por Eduardo Reina

O Ministério Público Federal de Minas Gerais recebeu, no fim de julho, material que foi apreendido junto aos homens condenados pelo Tribunal Regional Federal por crime de apologia ao nazismo e corrupção de menor. Dentro desse material está uma carta enviada pelo deputado federal Jair Bolsonaro a um dos condenados. O MPF deverá analisar pen drives contendo imagens e filmes de apologia ao nazismo, registros em redes sociais, livros, fichas de inscrição ao movimento Pátria Livre, de cunho fascista, e principalmente a carta de Bolsonaro. Dependendo do conteúdo da missiva e a relação entre o parlamentar e o neonazista, poderá ser aberta ação contra o deputado. Mas o processo segue em segredo de Justiça.

O DCM solicitou informações sobre o conteúdo da carta junto a 9ª Vara Federal, onde tramitou a ação penal contra os neonazistas. Foi informado de que “a sentença proferida na Ação Penal deu destinação aos bens apreendidos, entre eles a referida carta. O processo tramita sob sigilo, motivo pelo qual não é possível fornecer as informações solicitadas”. O material foi despachado ao MPF no dia 20 de julho de 2017 pelo juiz federal titular da 9ª Vara, Murilo Fernandes de Almeida.

O caso começou em 2013. Um rapaz aparecia simulando o enforcamento de um mendigo com correntes de aço numas das principais avenidas de Belo Horizonte. A foto do ato ignóbil ganhou as redes sociais e causou muita revolta. Uma ação penal foi movida na Justiça mineira contra três rapazes. Uma ampla investigação constatou que os envolvidos, e hoje condenados, mantinham verdadeira apologia à supremacia branca e ao nazismo em suas páginas nas redes sociais. No perfil do rapaz no Facebook, onde aparecia a foto em que ele enforcava o mendigo, havia muitas citações e mensagens que pregavam discriminação e preconceito. Ele divulgava ideais nazistas e veiculava mensagens com conteúdo racista, incitava a violência e o preconceito contra minorias. O réu principal foi condenado a oito anos de prisão pela juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima, em 18 de abril de 2016. Anteriormente, já havia sido preso duas vezes também por agressões e preconceito de gênero. Uma em Belo Horizonte, quando esfaqueou um homossexual na Praça da Liberdade. E outra em São Paulo, após ter agredido skatistas na avenida Paulista. Em ambos os casos acabou liberado após a prisão.

Testemunhas ouvidas pela Justiça Federal de Minas na ação penal pelos crimes de apologia ao nazismo e corrupção de menor disseram que o rapaz flagrado enforcando o mendigo se autodenominava “skinhead whitepowwer”. O processo completo pode ser consultado em www.jfmg.jus.br número: 26863-20.2013.4.01.3800.

Esta não é a primeira vez que fica explícita a ligação entre pessoas que defendem o nazismo, a supremacia branca e que são contra pobres, homossexuais, negros e o pré-candidato a presidente. Desde 2011, pelo menos, Bolsonaro vem recebendo amplo apoio desses grupos. Em abril de 2011, um grupo capitaneado pelo movimento neonazista White Pride World Wide convocou um “ato cívico” em prol de Bolsonaro no vão livre do Museus de Artes de São Paulo (Masp). “Vamos dar o nosso apoio ao único deputado que bate de frente com esses libertinos e comunistas!!! Será um ato cívico, portanto, levem a família, esposas, filhos e amigos”, diziam mensagens dos integrantes do grupo na internet. Em dezembro do ano passado, um homem travestido de Hitler provocou muita confusão durante audiência pública na Câmara Municipal do Rio de Janeiro sobre escola sem partido. Conhecido como Professor Marco Antonio, esse homem trajava paletó com broches em referência ao nazismo, portava um bigode e cabelo com franja à la Hitler. Antonio é membro do grupo extremista Nacional Democracia (DAP) e filiado ao PSC, ex-partido de Bolsonaro, com quem aparece em algumas fotografias posando como cosplay de Hitler. A adesão à página do Nacional Democracia (DAP) nas redes sociais é quase zero. Foi criada em 2013 e prega o amor à pátria e a Deus. Tem 263 ferozes seguidores. As principais postagens mostram homenagens ao coronel Brilhante Ustra, um dos responsáveis pelas torturas no Doi-Codi em São Paulo, durante a ditadura.

  • Ustra foi homenageado em discursos por Bolsonaro várias vezes na Câmara Federal.

Em 2015, a página do DAP criticava as ações de marketing do governo federal que tinha objetivo divulgar o uso de preservativos durante o carnaval, para evitar doenças sexuais. O autor escreveu: “Este é o lixo moral, que travestido de campanha de conscientização, faz claramente apologia ao homossexualismo, com uma série de mensagens subliminares. Observe a propaganda: “O carnaval está aí! É hora de testar, de brincar, de experimentar…”, testar o que?, brincar de que? experimentar o que?, o personagem sugerido é sempre o mesmo, um travesti. É com este lixo que gastam nossos impostos, induzindo ao homossexualismo num período onde o uso abusivo do álcool é um problema grave, soma-se a este a receita do experimentar o homossexualismo institucionalizado como ‘normal’ para este período”.

O crime de apologia ao nazismo está previsto na Lei Federal nº 9459, que estabelece pena de um a três anos de reclusão para quem “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Em 2016, uma jovem chamada Kelly Cristina, autodenominada Kelly Bolsonaro, realizou várias ações racistas. Nas redes sociais, publicou mensagem que foi considerada racista. “Em vez de cotas, deveriam dar passagens de volta pra África para aqueles que choram pelo passado que nem viveram”.

Violência

“O esquadrão da morte precisa caminhar novamente pelo Brasil” é o que está inscrito na principal foto de capa da página Eduardo Dias, que se diz um militarista assumido. Ele gerencia as páginas de Partido Militar Jundiaí e Partido Militar Jarinu, cidades da Região Metropolitana de São Paulo. Ele pede intervenção militar já ou Bolsonaro presidente da República. O grupo skinhead Carecas do Brasil seção Pernambuco apoia Bolsonaro desde 2015. No mês de novembro daquele ano um rapaz com cabelos raspados, tatuagens e jaqueta de couro com o logotipo CBPE, com a figura de uma cabeça de leão transpassado por duas adagas em forma de xis, foi à recepção do deputado no aeroporto de Recife. Embora não pregue o nazismo, a página do CBPE no Facebook apresenta post com mensagem tipicamente nazista: “Resistir pelo futuro de nossas crianças, skinhead Pernambuco, Carecas Pernambuco”. O skinhead que aparece ao lado do filho de Bolsonaro no aeroporto de Recife exibindo a jaqueta do movimento, chegou a dizer para os repórteres no local que defendia a ditadura militar. Um outro amigo seu deu pistas sobre a linha que seguem no apoio a Bolsonaro: “Por que pode ser comunista e não pode ser nazista?”. Os dois defenderam também a censura.

Pelo Facebbok pipocam muitos perfis e páginas de apoio a Bolsonaro. A grande maioria faz apologia ao racismo, nazismo, preconceito de gênero. O “Direita Reacionária”, por exemplo, tem 3,4 mil seguidos e 3,2 likes. Essa página está compartilhando um evento do Prona, aquele partido político de Enéas Carneiro, que será realizado dia 19 em Copacabana, no Rio de Janeiro. Esse evento visa captar assinaturas para que o Prona possa voltar à ativa. Enéas, o barbudo que falava em 30 segundos sua plataforma de governo, defendia a construção da bomba atômica e a exploração econômica do nióbio, um mineral que, segundo Enéas e também Bolsonaro, poderá salvar a economia brasileira.

A página “Direita Reacionária” foi criada em agosto de 2016. Seu criador afirma que ela existe para “desmascarar a Esquerda Socialista/Comunista que a anos (sic) nos enganou. Agora iremos virar o jogo e pôr (sic) a Direita no comando do país”. Já a página “Bolsonaro Didático” apresenta 181 mil seguidores e vem recebendo 177 mil curtidas até o dia 17 de agosto. Um dos principais posts é sobre o ataque terrorista ocorrido em Barcelona, Espanha, neste dia 17 de agosto. “Ataque terrorista em Barcelona confirmado. Esperando a mídia culpar Donald Trump, Jair Bolsonaro, algum caminhão, carro, bicicleta e etc”.

Mas o cunho homofóbico da “Bolsonaro Didático” fica claro num ouro post nesta quinta-feira, dia 17. Há a foto de uma pessoa magra, com a seguinte legenda: “Se uma pessoa magra que acha que é gorda é considerada doente”. E sobre uma foto de um homem fazendo a barba e no espelho à sua frente aparece a face de uma mulher, com a legenda: “Por que um homem que acha que é mulher deve ser considerado normal?”

Rap de direita

No ano de 2014, um rapper denominado Mr. Gângster lançou uma música em homenagem a Bolsonaro. O rapper diz ter uma posição conservadora de extrema-direita. “Nem ele imaginaria / E agora pode vê / Que nem difamações / Da esquerda e da TV / Vai ofuscar a verdade… / Jair, o deputado, / O capitão Bolsonaro / Messias predestinado / É o início do seu legado / O líder nato / Inspiração da juventude, diz a letra de Gângster.

Esse jovem aparece na Internet também como “Luiz, o Visitante”. Com essa identificação, a música revela quase que a mesma letra. Somente com algumas modificações, sempre exaltando Bolsonaro como líder e como presidente.

Dória não entendeu que, como troglodita, Bolsonaro é melhor que ele

Pena que não se tenha feito – se é que vão se fez – uma pesquisa sobre a intenção de voto presidencial dos paulistanos. Tenho certeza de que ficaria revelado que o grande obstáculo que Dória enfrenta em sua aventura de candidato “furão” a Presidente não é Geraldo Alckmin, mas Jair Bolsonaro. O Datafolha não divulga dados separados por municípios o estados nas suas pesquisas presidenciais.

Mas, pelos resultados na região Sudeste – onde o Estado de São Paulo tem  mais da metade dos eleitores, alguns dados são visíveis. Bolsonaro recebe mais do que cinco vezes as menções espontâneas de voto que o prefeito: 11 a 2%. Entre os que declaram ter simpatia pelo PSDB, o ex-capitão vence por 14 a 6%. Idem entre os que votaram em Aécio, em 2014: 17 a 3%. E ibidem para os eleitores mais ricos, com renda superior a 10 salários mínimos: 20 a 6%.

Bolsonaro esmera-se na imagem do “macho arrasador”, um Charles Bronson exterminador Dória construiu a do menino mimado, chiliquento, cheio de birras e vontades. O marqueteiro paulistano não entendeu nada do papel que se propôs a desempenhar. Como troglodita, Bolsonaro lhe dá de dez a zero.

 

Fonte:  UOL/Folha de S.Paulo/DCM/Tijolaço/Municipios Baianos

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