13/10/2017

Estados Unidos decidem se retirar novamente da Unesco

 

Cumprindo sua ameaça, os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira que irão se desligar da Organização das Nações Unidas para Educação, a Cultura e as Ciências (Unesco), em protesto contra o reconhecimento da Palestina como membro pleno dessa instituição. Washington considera que a Unesco, com sede em Paris, tem um claro "viés anti-Israel", algo que a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, vem denunciando desde que assumiu o cargo.

A decisão se tornará efetiva em 31 de dezembro de 2018. A diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, disse lamentar “profundamente” a decisão do Governo norte-americano, que em 2011 já havia suspendido o pagamento das suas contribuições. A alta funcionária, perto do final do seu mandato, considera que a decisão afetará o “universalismo fundamental” para o trabalho da organização nos tempos atuais, marcados por um “aumento do extremismo violento e do terrorismo”.

“O trabalho da Unesco é crucial para reforçar os laços do patrimônio comum da humanidade frente às forças do ódio e da divisão”, afirmou Bokova. “Em momentos nos quais a luta contra o extremismo violento exige renovados investimentos em educação e no diálogo entre as culturas para prevenir o ódio, é profundamente lamentável que os EUA se retirem da agência das Nações Unidas que lidera nessas questões”, acrescentou ela em um longo comunicado.

O recente reconhecimento da Cidade Velha de Hebron (Cisjordânia) como Patrimônio da Humanidade foi a gota d’água para o Governo de Donald Trump, que além disso busca formas de reduzir suas contribuições financeiras ao sistema da ONU como um todo. A primeira reação das Nações Unidas foi de preocupação pela medida anunciada pelo Departamento de Estado.

A ideia dos EUA é permanecerem na Unesco apenas na condição de observadores. O anúncio coincide com o processo de sucessão para a direção do organismo, no qual os principais aspirantes são a ex-ministra francesa de Cultura Audrey Azoulay e o diplomata catariano Hamad Bin Abdulaziz Al-Kawari.

O precedente de Reagan

Não é a primeira vez que os EUA deixam a Unesco. Já havia acontecido durante a presidência do também republicano Ronald Reagan (1981-89), quando Washington acusou a organização de adotar uma política favorável aos interesses da União Soviética, além de tachá-la de corrupta. George W. Bush recolocou os EUA em seus quadros 15 anos depois, por considerar que ela havia atenuado seu viés contrário ao Ocidente e a Israel.

O último litígio dos EUA com a Unesco se arrasta desde o Governo do democrata Barack Obama, que em 2011 passou a reduzir o financiamento à instituição em represália à admissão dos palestinos como membros plenos. Desde então, a dívida de Washington com a Unesco chega a 500 milhões de dólares. Com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, os EUA elevaram o tom de suas críticas à organização.

A Unesco é conhecida por seu programa mundial para a preservação do patrimônio cultural. A agência financia também projetos no âmbito da educação nos países mais pobres do planeta, com iniciativas dirigidas ao empoderamento das meninas. Também conta com programas destinados à proteção da liberdade de imprensa e inclui entre suas atividades a conscientização sobre os horrores do Holocausto.

Após saída dos EUA, Israel também anuncia que deixará Unesco

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, decidiu hoje (12) retirar o país da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), após o governo dos Estados Unidos anunciar o mesmo por considerá-la anti-israelense. De acordo com comunicado distribuído pelo escritório do governo israelense, Netanyahu classificou a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre este tema como "valente e moral, porque a Unesco se tornou o teatro do absurdo e porque, em vez de preservar a história, a distorce".

O premiê deu instruções ao Ministério de Relações Exteriores de Israel para iniciar os trâmites necessários para retirada do país da Unesco. A retirada dos EUA se tornará efetiva em 31 de dezembro de 2018. O embaixador israelense para a Unesco, Carmel Shama Hacohen, recomendou a Netanyahu seguir os passos de Washington e "se retirar imediatamente" da organização por "ter perdido sua razão de ser em favor de considerações políticas de certos países", segundo o portal de notícias israelense "Ynet".

O ministro da Defesa de Israel, Avigdor Libearman, também elogiou a decisão dos EUA por considerar que "é um passo importante" dado pelo "maior aliado" do país "contra uma organização politicamente relaxada e antissemita que transformou mentiras em prática comum e perdeu o seu rumo", informou a rádio "Kan". A porta-voz do Departamento de Estado americano, Heather Nauert, afirmou que a decisão de Washington "reflete as preocupações dos Estados Unidos com os crescentes atrasos nos pagamentos na Unesco, a necessidade de uma reforma fundamental da organização e a contínua tendência anti-Israel".

A diretora da Unesco, Irina Bokova, expressou em comunicado o seu "profundo lamento" pela decisão americana.

A Unesco foi a primeira agência da ONU a aceitar, em 2011, os palestinos como membros de pleno direito.

Israel tem uma longa história de enfrentamentos com a agência, à qual acusou de parcialidade anti-israelense e, em diversas ocasiões, reduziu as suas cotas financeiras anuais como medidas punitiva.

Dirigente da ONU lamenta saída dos Estados Unidos da Unesco

Em nota divulgada na tarde desta quinta-feira (12), a diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Irina Bokova, lamentou a retirada dos Estados Unidos da entidade.

Ela reafirmou a missão universal da Unesco e manifestou pesar pela saída do país, lembrando que é também uma perda para o multilateralismo. Os EUA suspenderam as contribuições para a Unesco em 2011.

  • Leia a nota completa:

“Após receber notificação oficial do secretário de Estado dos Estados Unidos, sr. Rex Tillerson, como diretora-geral, gostaria de expressar meu profundo pesar com a decisão dos Estados Unidos da América de se retirar da UNESCO.

A universalidade é crucial para a missão da UNESCO de fortalecer a paz e a segurança internacional, diante do ódio e da violência, para defender os direitos humanos e a dignidade.

Em 2011, quando o pagamento das contribuições do Estado-membro foi suspenso na 36ª sessão da Conferência Geral da UNESCO, eu disse que estava convencida de que a UNESCO nunca foi tão importante para os Estados Unidos, ou os Estados Unidos para UNESCO.

Isso é ainda mais verdadeiro hoje, quando o aumento da violência extremista e do terrorismo pede novas respostas de longo prazo para a paz e a segurança, para combater o racismo e o antissemitismo, e lutar contra a ignorância e a discriinação.

Eu acredito que o trabalho da UNESCO para fazer avançar a alfabetização e a educação de qualidade é compartilhado pelo povo norte-americano.

Eu acredito que as ações da UNESCO para utilizar as novas tecnologias em favor da melhoria da aprendizagem são compartilhadas pelo povo norte-americano.

Eu acredito que as ações da UNESCO para aprimorar a cooperação científica, para a sustentabilidade dos oceanos, são compartilhadas pelo povo norte-americano.

Eu acredito que as ações da UNESCO para promover a liberdade de expressão e defender a segurança de jornalistas são compartilhadas pelo povo norte-americano.

Eu acredito que as ações da UNESCO para empoderar meninas e mulheres como realizadoras de mudanças e construtoras da paz são compartilhadas pelo povo norte-americano.

Eu acredito que as ações da UNESCO para reforçar sociedades que enfrentam emergências, desastres e conflitos são compartilhadas pelo povo norte-americano.

Apesar da retenção de fundos, desde 2011, nós aprofundamos a parceria entre os Estados Unidos e a UNESCO, a qual nunca foi tão significativa.

Juntos, nós trabalhamos para proteger o patrimônio cultural da humanidade compartilhado, que enfrentou ataques terroristas, e para prevenir a violência extremista, por meio da educação e da alfabetização midiática.

Juntos, nós trabalhamos com Samuel Pisar, embaixador honorário e enviado especial para a Educação sobre o Holocausto, para promover a educação pela lembrança do Holocausto em todo o mundo, como meio de combater o antissemitismo e o genocídio na atualidade, incluindo, entre outros, a Cátedra UNESCO para a Educação sobre o Genocídio, na Universidade do Sul da Califórnia, e a Cátedra UNESCO de Alfabetização e Aprendizagem, na Universidade da Pensilvânia.

Juntos, nós trabalhamos com a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), para produzir novas ferramentas para educadores contra todas as formas de antissemitismo, assim como fizemos para combater o preconceito contra muçulmanos nas escolas.

Juntos, nós lançamos a Parceria Global pela Educação de Meninas e Mulheres, em 2011.

Juntos, com a comunidade acadêmica norte-americana, incluindo as Cátedras UNESCO de 17 universidades, nós trabalhamos para fazer avançar a alfabetização, promover as ciências para a sustentabilidade e ensinar o respeito por todos nas escolas.

Essa parceria foi incorporada em nossa interação com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (United States Geological Survey), o Corpo de Engenheiros do Exército Norte-americano e com sociedades profissionais dos Estados Unidos para fazer avançar pesquisas sobre administração sustentável de recursos hídricos e agricultura.

Essa parceria foi incorporada na celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, em Washington, DC, em 2011, com o Fundo Nacional para a Democracia.

Essa parceria foi incorporada em nossa cooperação com as principais empresas norte-americanas do setor privado, com a Microsoft, a Cisco, a Procter & Gamble e a Intel, para manter meninas na escola e desenvolver tecnologias para a aprendizagem de qualidade.

Essa parceria foi incorporada na promoção do Dia Internacional do Jazz, inclusive na Casa Branca, em 2016, para celebrar os direitos humanos e a diversidade cultural com base na tolerância e no respeito.

Essa parceria foi incorporada nos 23 sítios do Patrimônio Mundial, que refletem o valor universal do patrimônio cultural dos Estados Unidos, em 30 Reservas da Biosfera, que incorporam a vasta e rica biodiversidade do país, e em seis Cidades Criativas, como fonte de inovação e criação de empregos.

A parceria entre a UNESCO e os Estados Unidos foi profunda, porque foi construída em valores compartilhados.

O poeta, diplomata e bibliotecário do Congresso Norte-americano, Archibald MacLeish, escreveu as linhas que abrem a Constituição da UNESCO, de 1945: “Uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas de paz”. Essa visão nunca foi mais relevante.

Os Estados Unidos ajudaram a inspirar a Convenção do Patrimônio Mundial de 1972.

Em 2002, um ano após os ataques terroristas de 11 de Setembro, Russel Train, o então chefe da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e fundador do Fundo Mundial de Vida Selvagem, que tanto fez pelo lançamento da Convenção do Patrimônio Mundial, disse: “Neste momento da história, em que a estrutura da sociedade humana parece cada vez mais sob o ataque de forças que negam a existência de um patrimônio compartilhado, de forças que atacam o coração do nosso senso de comunidade, estou convencido de que o Patrimônio Mundial oferece uma visão contrária e positiva da sociedade humana e do nosso futuro humano”.

O trabalho da UNESCO é fundamental para fortalecer os laços de patrimônio comum da humanidade, diante das forças do ódio e da divisão.

A Estátua da Liberdade é um sítio do Patrimônio Mundial, porque é um símbolo que define os Estados Unidos da América e também pelo que diz para as pessoas em todo o mundo.

O Salão da Independência, onde foram assinadas a Declaração de Independência e a Constituição, é um sítio do Patrimônio Mundial, porque sua mensagem dialoga com formuladores de políticas e ativistas em todo o mundo.

Os Parques de Yosemite, Yellowstone e o Grand Canyon são sítios do Patrimônio Mundial, porque são maravilhas para todos, em todos os países.

Isto não é somente sobre o Patrimônio Mundial.

A UNESCO em si carrega essa “visão positiva da sociedade humana”.

No momento em que o combate à violência extremista pede maiores investimentos em educação, no diálogo entre culturas para prevenir o ódio, é profundamente lamentável que os Estados Unidos se retirem da agência líder das Nações Unidas que trata desses assuntos.

No momento em que conflitos continuam a separar sociedades em todo o mundo, é profundamente lamentável que os Estados Unidos se retirem da agência das Nações Unidas que promove a educação para a paz e a proteção da cultura que está sob ataque.

É por isso que eu sinto muito pela retirada dos Estados Unidos.

Isso é uma perda para a UNESCO.

Isso é uma perda para a família das Nações Unidas.

Isso é uma perda para o multilateralismo.

A tarefa da UNESCO não está concluída, e nós vamos continuar a levá-la adiante, para construir um Século XXI que seja mais justo, pacífico, igualitário e, para isso, a UNESCO precisa da liderança de todos os Estados.

A UNESCO irá continuar a trabalhar pela universalidade desta Organização, pelos valores que compartilhamos, pelos objetivos que mantemos em comum, para fortalecer uma ordem multilateral mais eficiente e um mundo mais pacífico e justo.”

 

Fonte: El País/Agencia EFE/Agebcia Brasil/Municipios Baianos

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