14/10/2017

Unesco sofre com falta de dinheiro e politização

 

A francesa Audrey Azoulay, de 45 anos, foi eleita nesta sexta-feira (13/10) para chefiar a Unesco, em meio às turbulências causadas pela saída de Estados Unidos e Israel da agência de cultura das Nações Unidas. Azoulay, uma judia de origem marroquina que foi ministra da Cultura na França, terá que lidar com uma agência em crise por causa de problemas financeiros, rivalidades internas e críticas a uma suposta postura anti-Israel.

Ela terá como tarefa principal restabelecer a confiança numa agência cuja missão é proteger o patrimônio cultural e natural do planeta e que vem sendo acusada de não ser politicamente neutra. "Mais do que nunca, a Unesco necessita de um projeto que empolgue os países-membros, restabeleça a confiança e acabe com as divisões políticas internas", disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da França, Agnes Romatet-Espagne, antes da eleição.

A Unesco tem sido palco de duros embates políticos nos últimos anos, com reflexos no seu orçamento. "Há, sem dúvida, uma politização", afirmou Klaus Hüfner, antigo presidente do comitê alemão da agência, ao jornal berlinense Der Tagesspiegel.

Com a Palestina, sem os EUA

Os Estados Unidos, que deveriam prover cerca de 20% do orçamento da Unesco, suspenderam seu financiamento em 2011, no governo do presidente Barack Obama, quando a agência admitiu a Palestina como 195º membro pleno. Atualmente, Washington deve cerca de 550 milhões de dólares à instituição. Como resultado do corte nos fundos, a agência foi obrigada a reduzir seus funcionários e cancelar programas e projetos.

Em novembro de 2013, a Unesco decidiu que EUA e Israel haviam perdido seu direito de voto por terem falhado o pagamento da contribuição financeira à organização. Em julho passado, os dois países já tinham advertido que estavam reavaliando sua ligação por causa da decisão da organização de inserir a cidade histórica de Hebron, na Cisjordânia ocupada, na lista de patrimônio mundial como território palestino.

Nesta quinta-feira, os EUA anunciaram sua saída definitiva, acusando a Unesco de ter uma postura anti-Israel. Logo em seguida, Israel fez o mesmo. O Departamento de Estado dos EUA disse que a saída entrará em vigor em 31 de dezembro de 2018. Até lá, o país permanecerá como membro de pleno direito. Depois, pretende manter um status de observador.

Não é a primeira vez que os EUA deixam a Unesco. Em 1984, durante a presidência de Ronald Reagan, o país alegou antiamericanismo e corrupção para sair da organização. O retorno se daria em 2003, já na presidência de George W. Bush, quando os EUA viram a Unesco como um meio para o combate ao terrorismo.

Porém, desta vez a saída se dá dentro de um contexto mais amplo devido à doutrina "America first", do presidente Donald Trump. A saída da Unesco enfatiza o ceticismo expressado por Trump sobre a real necessidade de o país permanecer em organizações multilaterais.

China ocupa o espaço

A vice-representante da Rússia na agência, Tatiana Dovgalenko, declarou à agência de notícias AP que a decisão dos Estados Unidos, "um dos países que fundaram o sistema ONU", é "um choque e uma pena". Ela insistiu, porém, que não haverá um vácuo de poder na Unesco. "Países como nós e a China já têm sua influência."

Entre os concorrentes ao cargo de diretor-geral da Unesco estava o diplomata chinês Qian Tang, que renunciou à candidatura durante o processo seletivo. Antes de tomar essa decisão, ele declarou à revista Foreign Policy que "a China quer cumprir com suas responsabilidades globais e contribuir para a paz e o desenvolvimento num nível global", Segundo ele, a Unesco é uma boa plataforma para isso.

Para a revista, a China já está ocupando espaços deixados vagos pelos Estados Unidos em organizações internacionais, e isso vale também para a Unesco. Depois que os EUA suspenderam seus recursos financeiros para a agência, o país asiático destinou milhões de dólares extraorçamentários para programas de educação, incluindo 8 milhões para programas de treinamento de professores em oito países africanos e mais 5 milhões para o relançamento da revista trimestral Courier, afirmou a Foreign Policy.

Ex-ministra francesa da Cultura é eleita chefe da Unesco

A ex-ministra de Cultura da França Audrey Azoulay foi eleita nesta sexta-feira (13/10) diretora-geral da Unesco, a agência de educação e cultura da ONU. A eleição ocorreu um dia depois dos Estados Unidos e de Israel saírem da organização.

Azoulay disputou a última rodada da eleição contra o catariano Hamad bin Abdulaziz e venceu ao receber 30 dos 58 votos do conselho executivo. A francesa, de família judaica, começou a disputa no início da semana com pouco apoio, mas sua candidatura ganhou força após algumas desistências.

"Neste momento de crise, acredito que precisamos investir na Unesco mais do que nunca, apoiá-la, fortalecê-la e reformá-la. E não deixá-la", afirmou Azoulay, de 45 anos, após sua eleição.

Azoulay foi ministra da Cultura da França entre 2016 e 2017, durante o governo do presidente François Hollande. Ela possui uma vasta experiência no meio político e conhece muito bem os setores cultural e das comunicações.

Após a eleição, o presidente francês, Emmanuel Macron, parabenizou a conterrânea. "Parabéns. A França continuará a luta pela ciência, educação e cultura no mundo", escreveu Macron no Twitter.

A eleição de Azoulay foi um golpe para os países árabes, que esperavam assumir pela primeira vez a liderança da organização, que já foi comandada por europeus, asiáticos, africanos e americanos.

A indicação da francesa precisa agora ser aprovada na assembleia-geral da Unesco que ocorre em novembro, mas não deve haver surpresas, pois esse processo é apenas uma formalidade.

Azoulay será a segunda francesa a comandar a agência, depois de Rene Maheu, que esteve a frente da Unesco entre 1961 e 1974. Ela substituirá a búlgara Irina Bokova, que ocupou o cargo nos últimos oito anos, numa gestão marcada pela crise financeira e por críticas pela inclusão da Palestina na organização com o status de membro pleno.

As diferenças históricas que culminaram no anúncio da saída de EUA e Israel da Unesco

Os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira sua saída da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que se torna efetiva a partir de 31 de dezembro.

Em comunicado sobre a decisão, o Departamento de Estado americano ressaltou a necessidade de uma reforma "fundamental" na entidade e criticou seu suposto "viés anti-Israel". Horas depois, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, informou que acompanharia a medida e que já havia dado instruções a seu ministro de Relações Exteriores para iniciar os preparativos para a retirada.

A diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, lamentou "profundamente" a decisão de Washington, a qual qualificou como uma "perda para o multilateralismo" e para a família das Nações Unidas.

Esta não é, entretanto, a primeira vez que os americanos se retiram da organização. Eles também deixaram de ser membros da Unesco em 1984, durante o governo do republicano Ronald Reagan, e só retomaram assento em 2003.

O retorno - após os atentados de 11 de setembro de 2001 - não foi por acaso, segundo afirma a socióloga francesa Divina Frau-Meigs. "A agência aparece então como um dos lugares estratégicos para combater a intolerância e o terrorismo."

Nos últimos anos, contudo, uma série de resoluções e de posicionamentos do organismo desagradaram os americanos, que cortaram sua contribuição financeira em 2011, quando a Palestina foi aceita como membro efetivo.

Velhas diferenças

Em 1974, o país também chegou a suspender os pagamentos, motivado pelo reconhecimento da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e pelas resoluções que repreendiam Israel.

As reclamações sobre a existência de uma burocracia excessiva na Unesco e as demandas por reforma mencionadas no comunidado de saída desta quinta-feira datam desse período.

Ao anunciar a saída dos EUA da organização dez anos depois, o governo Reagan usou como justificativa a condução por parte da agência de uma suposta "política externa fora de suas atribuições" e pela "hostilidade endêmica frente às instituições de base de uma sociedade livre, em particular, uma imprensa livre, mercados livres e, acima de tudo, os direitos do indivíduo".

A crítica foi interpretada como uma reação ao famoso Relatório McBride, documento assinado pelo Nobel da Paz Seán MacBride em 1980 e encomendado pela organização que chamava atenção para a concentração da mídia global e para o acesso desigual à informação e comunicação.

"Os países que apoiavam o documento desejavam encontrar uma alternativa para o que viam como uma dominação ocidental sobre a informação e uma abordagem parcial dos meios de comunicação ocidentais", afirma a socióloga Frau-Meigs em ensaio sobre o tema.

"Seus opositores consideravam que esta nova ordem (proposta pelo relatório) queria estabelecer um controle da imprensa e da liberdade de expressão pelos governos, que refletia as visões soviéticas e restringia a liberdade dos indivíduos", acrescenta.

'Contra Israel'

Desde a década de 1980, ressalta a socióloga, muita coisa mudou na Unesco e parte das reivindicações americanas foram atendidas.

O descontentamento de Washington com a postura da organização diante do conflito árabe-israelense, contudo, continua.

Em outubro de 2011, a Unesco reconheceu a Palestina como membro de pleno direito. Contrários à adesão, os Estados Unidos decidiram suspender as contribuições financeiras ao organismo - o que levou a agência a retirar o direto de voto do país em outubro de 2014.

No fim do ano passado, o país condenou, por sua vez, resolução da Unesco que criticava o uso da força por Israel e a imposição de restrições a fiéis e ao trabalho de arqueólogos em lugares sagrados de Jerusalém e nas áreas ocupadas da Cisjordânia - um exemplo do que seria o "viés anti-Israel" ao qual os americanos fizeram referência no comunicado de desligamento.

Proposta pela Palestina, a resolução cita o Monte do Templo, como é conhecido por judeus e cristãos, apenas pelo nome muçulmano - Esplanada das Mesquitas -, e por isso foi acusada de ignorar o vínculo do judaísmo com o lugar.

O governo de Israel comemorou a retirada dos Estados Unidos da organização e declarou que a iniciativa mostra que "a discriminação contra Israel" tem um preço.

"A decisão de hoje é um ponto de inflexão para a Unesco. As absurdas e vergonhosas resoluções contra Israel têm consequências", afirmou em comunicado o embaixador israelense na ONU, Danny Danon.

'A lógica de Trump'

Para alguns, contudo, a decisão anunciada nesta quinta-feira por Washington só confirma o rechaço do governo Trump ao multilateralismo.

Sob essa perspectiva, o presidente americano - bastante crítico às Nações Unidas como um todo durante a campanha eleitoral - estaria apenas começando a cortar o laço pelo "mais fácil".

"Reflete a lógica de Trump", disse a funcionária do ministério das Relações Exteriores da Rússia Eleonora Mitrofanova, conforme a agência RIA Novosti.

Mitrofanova afirmou que a Unesco "não perde nada" com a decisão, qualificada pelo porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov de "notícia triste".

 

Fonte: Deutsche Welle/BBC Brasil/Municipios Baianos

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