15/10/2017

No Brasil, machismo é o preconceito mais praticado

 

"Mulher tem que se dar o respeito" e "não sou preconceituoso, até tenho um amigo negro" estão entre as frases preconceituosas mais faladas no Brasil, segundo pesquisa Ibope encomendada pela Skol, que buscou traçar um retrato do preconceito no Brasil. A pesquisa focou-se em quatro tipos de discriminação: racial, LGBT, de gênero e estética.

O vasto repertório brasileiro de frases, comentários ou piadinhas discriminatórias com as mulheres faz o machismo ser percebido por 99% dos entrevistados, além de fazer dele o preconceito mais praticado, ainda que não seja notado ou admitido por alguns (61%).  Os resultados do levantamento, realizado em todas as regiões brasileiras entre 21 e 26 de setembro, apresentam uma distância entre o que se fala e o que se faz. Só 17% dos 2002 entrevistados reconhecem que são preconceituosos, mas 72% admitiram ter feito pelo menos um comentário intolerante ou ofensivo.

Isto é, sete em cada dez brasileiros já fizeram observações carregadas de prejulgamentos contra mulheres, negros, LGBTs e outros. O índice varia regionalmente: no sudeste, o preconceito declarado corresponde a 21%, já no norte e centro-oeste o índice é de 18%, enquanto no sul e no nordeste a taxa fica em 13%.  Além de questionamentos diretos sobre como cada indivíduo se enxerga, as pessoas foram perguntadas se já ouviram ou disseram determinadas frases, como "pode ser gay, mas não precisa beijar em público", "toda negra tem samba no pé" ou "ele é bonito, mas é gordinho", entre outras.

Entre as discriminações mais presentes no dia a dia do brasileiro, estão o machismo, percebido por 99% dos entrevistados, a discriminação racial (97%), contra LGBTs (97%) e estéticas, como a gordofobia, percebidas por 92% dos ouvidos no estudo. Além disso, 45% respondeu já ter visto preconceito nos comentários feitos por pessoas do seu convívio, mas metade decidiu não reagir diante da situação. Quando há reação, as mulheres são as que mais agem: 60%.

Entre as discriminações declaradas, a mais prevalente é a homofobia, expressa por 29% dos brasileiros que admitem ter preconceito. Em seguida, há o preconceito religioso (20%), mais alto entre os jovens de 18 a 24 anos: 35%. Já o machismo é admitido por 7%, com uma taxa maior entre adultos de 25 a 34 anos (16%). 

No rol de frases mais ouvidas estão: "mulher tem que se dar o respeito" (92%), "mulher no volante, perigo constante" (90%), "isso é coisa de viado" (88%) e "toda negra ou mulata tem samba no pé" (87%).

Confira alguns dos principais resultados:

  • O preconceito mais praticado, mesmo sem ser notado, é o machismo:

• Machismo: 61%

• Racial: 46%

• LGBTQ: 44%

• Gordofobia: 30%

  • Frases preconceituosas apontadas como as mais faladas

• Mulher tem que se dar ao respeito – 49%

• Mulher no volante, perigo constante – 28%

• Não sou preconceituoso, até tenho um amigo negro – 26%

• Pode ser gay, mas não precisa beijar em público – 25%

• Ele(a) é bonito, mas é gordinho (a) – 25%

• Toda negra ou mulata tem samba no pé – 24%

• Isso é coisa de viado. É viadagem – 23%

• Ela não é mulher para casar – 22%

  • Expressões preconceituosas apontadas como as mais ouvidas pelos entrevistados:

• Mulher tem que se dar ao respeito 92%

• Mulher no volante, perigo constante – 90%

• Isso é coisa de viado. É viadagem – 88%

• Toda negra ou mulata tem samba no pé – 87%

Gênero: Homem é homem, mulher é mulher

Existe um orixá chamado Otin, divindade cheia de mistérios, cujo gênero simplesmente não se define. Uns dizem que é um orixá masculino, outros juram que se trata de uma linda mulher, uma hábil caçadora. Na verdade, Otin guarda um grande segredo e sua história pode nos ajudar a compreender algumas questões sobre a transexualidade. Otin era um rapaz solitário e triste. Não tinha amigos, não namorava, não era nem um pouco sociável. Escondia-se pelos cantos e esquivava-se das pessoas, evitando qualquer tipo de convivência. Misterioso e cheio de segredos, era tão arredio que um dia decidiu fugir para a floresta. Deixou casa, família, riqueza; deixou tudo para trás. Embrenhou-se na mata onde finalmente poderia viver só e em paz. Logo vieram as dificuldades: fome, frio, cansaço, medo. Otin, que sempre teve tudo, percebeu que não sabia se virar sozinho. De tão exausto, encostou no tronco de uma árvore e adormeceu. Sonhou com um caçador que lhe recomendou um ebó: Otin deveria oferecer suas roupas e sua faca. E assim o fez. Num arbusto junto ao rio, depositou sua faca e sua roupa. Mirou-se nas águas e viu seu corpo de donzela, seu maior segredo. Mas dessa vez não se envergonhou, não se sentiu infeliz. Ao contrário, estava livre e pleno.

Oxóssi apareceu cheio de caças. Veio buscar a oferenda e assim descobriu o grande mistério de Otin. Tomou a faca e tratou os animais. Com as peles cobriu o corpo de Otin e com a carne o alimentou. Oxóssi ensinou a Otin a arte da caça e guardou para sempre seu segredo.

Aquele que não se aceita como é será eternamente infeliz. O candomblé não concebe o ser humano de forma fragmentada. Somos totalidade e não podemos admitir nenhuma condição para que sejamos respeitados. Cada pessoa tem seu ori, ou seja, sua cabeça, aqui compreendida como princípio de individuação e objeto de culto. Como tal, a cabeça carrega e comanda o corpo. Portanto, não podemos exigir que uma pessoa que nasceu com o sexo não condizente com seu gênero, mas de alguma forma o adequou, se comporte, se vista, enfim, se porte em nossos rituais conforme a “determinação” reducionista da biologia.

Como vimos, mesmo a tradição oral do candomblé pode encontrar nos mitos o entendimento de nossos ancestrais acerca de diversas questões que intrigam a humanidade. Vale lembrar que além de refletir aquilo que se produz em sociedade, os mitos não estão presos ao tempo e circulam tranquilamente entre passado, presente e futuro.  Devidamente interpretada, a mitologia dos orixás pode ser o vetor que nos ajudará não só a aceitar e a acolher as pessoas como elas são, mas, principalmente a respeitar sua identidade.

Conhecendo o segredo que tanto angustiava Otin, Oxóssi o fez libertar-se de suas roupas, de suas armas. Oxóssi fez de Otin um ser livre, que se aceitou exatamente como era, que conseguiu se olhar e se reconhecer. Pessoas trans vivem conflitos muito semelhantes e o processo de aceitação e construção de identidade não é simples. As imposições sociais colocam a discussão sobre gênero como um desafio que vai muito além da biologia. Cultura, política, educação, direito e também religião precisam promover e avançar neste debate. Mas no caso específico do candomblé, como fica?

No Brasil, o candomblé foi fundado por mulheres, mas na África a função sacerdotal era em grande parte masculina. Circunstâncias históricas e sociais determinaram novos papeis, demarcando lugares, impondo limites. Nas casas mais tradicionais, por exemplo, homens só podem dançar quando tomados pelo orixá. Do mesmo modo, mulheres não tocam atabaques. No Candomblé, homem é homem, mulher é mulher. Contudo, as orientações e condições humanas não devem interferir na identidade de gênero.

Acolher as pessoas exatamente como são é respeitar aquilo que o ori de cada um determinou. É isso que o candomblé preconiza. O corpo deve adequar-se à cabeça, pois só assim a pessoa será compreendida em sua totalidade.

O comportamento deve ser dado pela identidade de gênero, ou seja, por aquilo que de fato e de direito a pessoa é. Se a legislação de muitos países se adapta à condição humana, possibilitando a mudança do nome e do sexo nos documentos, se a medicina oferece recursos cirúrgicos e clínicos para ajustar os corpos, a religião não pode ficar alheia e precisa encontrar um jeito de compreender e receber homens e mulheres transexuais.

A transexualidade não é exatamente uma novidade para o candomblé, mas ainda gera polêmica em relação às funções que devem ser exercidas por esses homens e mulheres. Por vezes, esbarra-se no argumento falacioso da procriação, dos órgãos genitais, do útero. Como se engravidar fosse uma condição para a maternidade. Há homens estéreis e mulheres que não ovulam, que não conseguem gerar, mas isso não significa, de modo algum, que não possam ter filhos. Nas famílias extensas africanas, por exemplo, todas as mulheres são mães de todos os filhos, gerados ou não por elas. Nas sociedades matrilineares, cabe ao irmão da mãe assumir o papel de pai. Em outros termos, pai e mãe são funções construídas socialmente. Na complexidade humana, o biológico é apenas um aspecto.

Retornando ao terreiro e a suas prerrogativas de respeito e acolhimento, uma transexual feminina tem todo direito de usar os tradicionais trajes femininos do candomblé: a saia rendada, o torço de seda, a bata engomada, o pano da costa, os balangandãs. E um transexual masculino poderá tocar atabaques, participar dos sacrifícios, vestir seu terno de linho branco. No Candomblé, homem é homem, mulher é mulher, ainda que seja transexual. Isso é respeito, é acolhimento, é afeto.

Com o mito de Otin, vimos que o corpo de um rapaz aprisionava uma moça. Oxóssi fez com que Otin olhasse para si sem se envergonhar do que realmente era. Orixá liberta e aceita. Orixá ama sem condições.

Masculino/Feminino: as fronteiras de gênero se misturam

A separação entre masculino e feminino foi superada? No cinema, no teatro, nos museus, na mídia e nos desfiles de moda, a "fluidez de gênero" é o assunto do momento, desafiando as fronteiras estabelecidas e os estereótipos ligados aos sexos. As questões de identidade de gênero estão cada vez mais presentes no debate público no mundo todo, onde despertam resistências ardorosas e, às vezes, duras disputas políticas. "Tornou-se um assunto do cotidiano atual nos jornais", afirma Johanna Burton, curadora de uma exposição sobre o tema aberta no fim de setembro em Nova York. "Ele aparece até em questões tão fundamentais quanto a dos banheiros", ressalta a historiadora de arte americana entrevistada pela AFP, referindo-se às polêmicas nos Estados Unidos sobre a utilização de banheiros públicos por estudantes transgêneros.

Na exposição "Gatilho: gênero como ferramenta e arma", no New Museum, museu de arte contemporânea em Manhattan, ela reuniu fotografias, esculturas, pinturas, vídeos e performances de cerca de 40 artistas de todas as idades, que exprimem, em suas obras, uma rejeição da categorização binária homem/mulher. As telas também estão cada vez mais repletas de personagens transgêneros nas séries, de "Transparent" a "Orange Is The New Black". Em "Sense 8", das irmãs Wachowski - elas mesmas trans -, a atriz transexual Jamie Clayton encarna Nomi Marks, uma hacker que mudou de gênero.

Na França, o célebre festival de cinema de Avignon anunciou que sua próxima edição vai explorar "o gênero, a trans-identidade, a transexualidade".

Já a transição do ex-atleta Bruce Genner para Caitlyn causou alvoroço na imprensa internacional em 2015. Em um ano, as revistas National Geographic e Time dedicaram coberturas especiais ao tema, enquanto o grupo Condé Nast (Vanity Fair, Vogue, GQ, entre outras) anunciou o lançamento, no fim de outubro, de um novo veículo digital dedicado à comunidade LGBT.

'Fenômeno Conchita Wurst’

"Não existe mais gênero. Homem ou mulher, agora podemos escolher o que vamos ser", garantiu, em 2015, Guram Gvasalia, CEO da marca Vetements, que tem coleções mistas.

Nas passarelas, de Nova York a Paris, de Milão a Londres, mulheres e homens desfilam cada vez mais simultaneamente, e várias grifes novas propõem um vestuário que ignora os gêneros.

Para o filósofo francês Thierry Hoquet, a novidade está no surgimento de um "fenômeno Conchita Wurst", a travesti austríaca que usa barba, maquiagem e vestidos de festa, participante do concurso Eurovision em 2014. "Hoje, temos indivíduos que apresentam características muito masculinas ou muito femininas misturadas. Eles não buscam criar um retrato coerente desses signos", avalia o especialista.

Embora reconhecendo que esses "piratas do gênero" são uma "ultra minoria", o autor de "Sexus Nullus, ou l'égalité" (Sem sexo, ou a igualdade), de 2015, e "Des sexes innombrables" (Os sexos incontáveis), de 2016, acredita que eles podem ser "muito influentes". Essa fluidez está longe de agradar a todos. "Uma batalha política acontece hoje no território do gênero", avalia a historiadora americana Joan W. Scott, uma das pioneiras dos estudos de gênero. "Os partidários da ordem estabelecida, os grupos antigênero como o Vaticano, os fundamentalistas religiosos, os populistas, os nacionalistas e até partes da esquerda se organizam para impedir que se espalhe a ideia de que o gênero é fluido e sempre capaz de mudar", destaca ela.

Símbolo dessas resistências, Donald Trump anunciou recentemente seu desejo de proibir transgêneros nas Forças Armadas americanas. Na França, uma grande manifestação contra a lei do casamento homossexual levantou palavras de ordem como "não toque nos nossos estereótipos" e criou uma frente contra a suposta "ideologia de gênero" ensinada nas escolas.

Para a socióloga francesa Marie Duru-Bellat, autora de "La tyrannie du genre" (A tirania de gênero) publicado pela Presses de Science Po, se há "modelos que se movem" na cena cultural, por outro lado, na sociedade, "há um endurecimento, uma radicalização das divisões entre homens e mulheres". Ela menciona os cursos cristãos de "apoio à masculinidade" e os estereótipos solidamente reforçados nas crianças como exemplos disso. “De qualquer forma, para muita gente a igualdade é a complementaridade, por isso não se deve mexer nos modelos de gênero na forma como eles existem", conclui.

 

Fonte: CartaCapital/Municipios Baianos

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