17/10/2017

O rio São Francisco está morrendo com sede

 

Dois mil e novecentos quilômetros de leito em uma bacia hidrográfica que irriga uma área quase igual à da França, abastecendo perto de 13 milhões de pessoas. Os números superlativos do Rio São Francisco combinam com seu passado de fartura. Época em que por suas águas circulavam grandes vapores, apitando enquanto rasgavam a correnteza levando mercadorias e pessoas. Com o tempo, o leito foi minguando, sendo sugado de um lado, aterrado de outro, poluído por todos. Tanto que a história do chamado Rio da Integração Nacional desaguou a um ponto em que, hoje, até a passagem de pequenas canoas é difícil em certos trechos.

Agredido século após século, em seu lento curso de agonia o Velho Chico chegou a 2017 com o mais baixo volume em seu 513 anos de história, que se completam em 4 de outubro. O aniversário de seu descobrimento pelo navegador Américo Vespúcio  encontrará o manancial enfrentando uma espécie de sentença de morte, executada enquanto seu curso é literalmente soterrado com reflexo de ações humanas.

Os números desse assassinato progressivo e contínuo saltam de estudo inédito. Entre outros, o trabalho revela um dado assombroso, que traduz em números algo que sempre se percebeu na prática: o leito do rio recebe por ano nada menos que 23 milhões de toneladas de sedimentos, da nascente na Serra da Canastra, em Minas, à foz no Oceano Atlântico, entre Alagoas e Sergipe. Na prática, é como se a cada ano um milhão de carretas de detritos fossem lançadas na água. Para fazer frente a essa realidade, o estudo propõe outras medidas controversas, que incluem a transposição de águas de outras bacias – enquanto não terminou sequer a polêmica sobre a transposição do próprio São Francisco.

O diagnóstico, fruto de um ano de levantamentos, que apontam que o soterramento do Velho Chico tem como uma das principais causas a ação humana, especialmente o desmatamento, que desencadeia uma série de outras consequências, em efeito cascata. “A taxa de erosão de cada uma das fontes de orçamento sedimentar tem sido impactada pelas modificações humanas da paisagem, que levaram a um aumento geral na produção de sedimentos”, diz um dos trechos do relatório.

A situação dramática do São Francisco em diferentes pontos e percorrendo de barco suas águas, conferindo o quanto o leito está assoreado, tomado por bancos e ilhas de areia, em uma situação que assombra milhares de pessoas que dele dependem. O Pantanal do Rio Pandeiros, considerado o berçário da bacia, também sofre intenso processo de degradação, alimentado por desmatamento e erosão. Em outro ponto, no Projeto Jaíba, considerado o maior sistema de irrigação da América Latina, pequenos produtores que dependem diretamente do São Francisco reclamam, preocupados, da proibição de captação de água no rio uma vez por semana. O chamado “Dia do Rio” é uma medida determinada pela Agência Nacional de Águas (ANA) para evitar que a vazão diminua ainda mais. A rigor, trata-se da primeira ação de racionamento da água da história no canal principal do Velho Chico, reduzido pelo número excessivo de outorgas para a captação de água e também pelo secamento dos seus afluentes.

MODELO MATEMÁTICO

O estudo considerou dados relativos a tipos de solo, uso e ocupação de terrenos, topografia, clima (volume de chuva, temperatura, umidade relativa, radiação solar e vento) e vazão dos rios da bacia. O objetivo foi verificar a origem do maior aporte de sedimentos no sistema, ou seja “descobrir se o aporte é causado por desmoronamento de margens ou pelo assoreamento dos afluentes”. “O resultado mostrou que o assoreamento é proveniente da área produtiva, e não das margens”, revela a entidade. O levantamento foi feito com base em um modelo matemático que leva em consideração diferentes fatores, entre eles a formação de ilhas e depósitos de areia no leito. “No geral, o modelo calcula que aproximadamente 23 milhões de toneladas por ano de sedimento são depositadas dentro do canal, levando a um sistema de degradação”, assinala o relatório.

ESTUDO PROPÕE MAIS TRANSPOSIÇÕES

O estudo que apontou a marca de 23 milhões de toneladas de sedimentos lançadas a cada ano no leito do Rio São Francisco, propõem intervenções para conter o assoreamento e aumentar o volume do leito, visando também a garantir condições de navegação. Entre elas estão as sempre polêmicas obras de transposição de bacias.

No caso, a bacia do São Francisco – que é “doadora de águas” em um projeto de transposição para o Nordeste cuja polêmica nem sequer foi encerrada, menos ainda as obras –, passaria a receber recursos hídricos de outros rios. Os projetos incluem o desvio de água do Rio São Marcos para o Rio Paracatu (por túnel), do Rio Paranaíba para o Paracatu e do Rio Grande (saindo do vertedouro da Usina de Furnas) diretamente para o Velho Chico. Um quarto projeto para desviar água da Bacia do Tocantins para a Bacia do São Francisco”, que “não foi considerado” no relatório final. O trabalho apresenta ainda a proposta de construção de cinco barragens em cursos d’água da bacia: três barramentos no Rio Paracatu, um no Rio das Velhas (município de Santo Hipólito, Região Central) e outro no Urucuia, como forma de aumentar a capacidade de armazenamento e de normalização do curso.

PREVISÃO SOMBRIA

Mas, se transposição e barragens são apontados no estudo como possíveis saídas para o rio, para ambientalistas e professores o mesmo tipo de obra de engenharia agravou os problemas do manancial e ainda pode ser fatal para a bacia.  A transposição do São Francisco tende a acelerar o processo de assoreamento. As consequências da transposição serão danosas e, em curto espaço de tempo, levarão à morte a maioria dos afluentes do São Francisco, incluindo o próprio rio. Isso acontecerá porque a dinâmica (das águas) será alterada e o transporte de sedimentos arenosos aumentará de forma assustadora. Um dos resultados será o assoreamento, já que a maioria dos afluentes do São Francisco corre por áreas cuja característica principal é a ocorrência de um arenito frouxo. Associado ao desmatamento, esse quadro traz a ameaça de um futuro sombrio. Com solo frágil e a retirada da cobertura vegetal nativa, “o transporte da areia para o leito principal dos rios aumentou em mais de 60. Em termos ambientais, herdamos a possibilidade de viver um futuro incerto, com rios secos e a água potável cada vez mais difícil e cara. Os reservatórios (barragens) contribuem com o problema ao acumular grande quantidade de sedimentos, ficando cada vez mais rasos.

REPRESAS

O soterramento do Velho Chico é um processo decorrente da “ocupação do espaço pelo homem com os chamados ciclos econômicos, como o gado, a eletrificação e a irrigação. As represas afetam de outra forma a questão do assoreamento. O transporte natural dos sedimentos para o mar foi drasticamente reduzido, em parte devido à construção de barragens. Nos períodos de enchentes, os sedimentos não conseguem atingir, em sua totalidade, o oceano. Isso ocorre por duas razões: uma natural, relacionada com a intensidade das chuvas máximas, que ocorrem cada vez menos; e a outra, artificial, resultante da ação humana, com a construção dos reservatórios de superfície, que regularizam, mas reduzem a vazão média natural do rio. Isso resulta em menor capacidade de transporte de sedimentos e sua consequente deposição no leito. Como soluções, além da recomposição da cobertura vegetal da bacia e da revitalização das nascentes e veredas, um controle severo da exploração das águas subterrâneas.

As origens do processo de soterramento do Rio São Francisco encontram-se em Minas Gerais e na Bahia, onde brotam 90% das águas da bacia. Essas origens se encontram no modo humano de tratar o solo no seu processo econômico de produzir mercadorias. Os processos produtivos agrícolas, minerais, industriais e da construção civil liberam solo devido ao desmatamento e a escavações inerentes ao trabalho humano sobre a natureza, sem os devidos cuidados e conhecimentos que garantiriam a sustentabilidade ambiental.

Rio São Francisco perde um “berçário”

Com 2200km de extensão a lagoa fica num área de proteção ambiental entre os municípios Xique - Xique e Gentio do Ouro, noroeste do estado da Bahia. É alimentada por pequenas nascentes e pelas águas do Velho Chico. Registro mostra o triste cenário da lagoa. Milhões de peixes agonizam e morrem. Há  meses não chove na cidade e a lagoa, que é a maior do município, está quase seca. As mortes têm sido causadas pelo baixo volume da água, que só chega a 10 centímetros de profundidade. Cerca de 10 mil peixes foram retirados vivos da lagoa por entidades ambientais do local e foram levados para o Rio São Francisco.

Por ter águas protegidas, tranquilas e mornas, a lagoa é considerada o berçário do São Francisco. Ali reproduzem grande parte de espécies nativas, os peixes desovam, os alevinos ficam crescendo e depois nadam em cardumes para o rio. Com a seca este ciclo é interrompido. É uma grande catástrofe ambiental. Toda teia alimentar vai sofrer consequências.

O PROBLEMA

A devastação é resultado de uma confluência dos problemas hídricos que o país passa; seca, desmatamento, transposição das águas, poluição, assoreamento, evaporação dos espelho d’água ( o sol forte e sem chuvas aumenta este impacto).

A seca da lagoa é grave, mas apenas um dos sintomas que o Velho Chico passa. Sem uma ação ambiental imediata e urgente, o comprometimento do rio e da lagoa pode drástico, com consequências imensuráveis.

SOBRE A LAGOA DE ITAPARICA

Uma área de proteção ambiental (APA), esta localizada entre os Municípios de Xique-Xique e Gentio Do Ouro - BA. Fica em uma Unidade de Conservação e impressionava pela beleza dos espelhos d’água e pela presença das matas de carnaúbas, em sua margem. É possível avistar a lagoa de diversas partes das formações rochosas em Santo Inácio. A Lagoa de Itaparica possui 78.550 ha. É conhecida por suas belezas naturais, pela sua biodiversidade e pela presença constante dos carnaubais e plantas aquáticas como a vitória- régia. Além do belo visual oferecido em grande parte do ano, a lagoa de Itaparica atraia pescadores profissionais e amadores, pois ali se refugiam os maiores exemplares de peixes como curimatã, surubim e dourado, desejados por todos.

 

 

Fonte: Por Prof. Omar Furst, no Biboca Ambiental//Municipios Baianos

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