19/10/2017

Lendas indígenas brasileira sob a criação do mundo

 

No começo, era o nada. Então alguém resolveu contar a origem de tudo. E assim nasceu a tentativa do homem de explicar a origem do Universo. Como surgiu tudo? Como é a origem do planeta, das coisas, do homem? Essas são as primeiras perguntas que o homem faz a si mesmo. Existem diversas lendas ou mitos, relacionando a deuses e a criação do mundo e o comportamento da natureza. Os índios procuram explicar a gênese através das lendas. Aqui no Brasil temos uma enorme quantidade de tribos indígenas, uma verdadeira pluralidade.

  • A criação do mundo sob a ótica indígena

MITOLOGIA TUPI-GUARANI

A figura primária na maioria das lendas guaranis da criação é Iamandu (ou Nhanderuvuçu ou Tupã)

O Deus trovão e realizador de toda a criação. Com a ajuda da deusa lua Jaci(ou Araci), Tupã desceu à Terra num lugar descrito como um monte na região do Areguá, no Paraguai, e, deste local, criou tudo sobre a face da Terra, incluindo o oceano, florestas e animais. Também as estrelas foram colocadas no céu nesse momento.  Tupã, então, criou a humanidade (de acordo com a maioria dos mitos guaranis, eles foram, naturalmente, a primeira raça criada, com todas as outras civilizações nascidas deles) em uma cerimônia elaborada, formando estátuas de argila do homem e da mulher com uma mistura de vários elementos da natureza. Depois de soprar vida nas formas humanas, deixou-os com os espíritos do bem e do mal e partiu.

O povo Tupi-Guarani acredita em um deus supremo, que chamavam de deus do trovão e o denominavam “TUPÔ. Os índios acreditavam que a voz deste ente supremo podia ser ouvida durante as tempestades. O trovão eles chamavam de “Tupa-cinunga” e seu reflexo luminoso de “Tupãberaba” (relâmpago). Eles acreditavam que este era o deus da criação, o deus da luz, e sua morada seria o sol. Acredita também em um deus do sol (Guaraci) e em uma deusa da lua (Jaci/Araci). O deus do sol seria o criador de todos os seres vivos (devido ao sol ser importante nos processos biológicos na natureza) e Jaci seria a rainha da noite e dos homens. Segundo a lenda, ela teria sido esposa de Tupã.  Além destes, havia a crença em ouros deuses.

Mito da Criação - O deus do trovão Tupã desce a terra, com a ajuda da deusa Araci, , haveria criado tudo que existe (mares, florestas, animais, etc) e colocado as estrelas no céu.

Mito dos Primeiros Humanos - Os primeiros humanos criados por Tupã teriam sido Rupave (O pai dos povos) e Sypave (a mãe dos povos) e estes teriam dado origem a um grande número de filhas e a três filhos, chamados Tumé Arandú (o sábio), Marangatu (o líder generoso) e Japeusá (mentiroso), este último era ladrão e trapaceiro e teria se suicidado, porém foi ressuscitado como um caranguejo, e deste então todos os caranguejos foram amaldiçoados para andar para trás como Japeusá.

Mito da criação da Noite - Segundo esta lenda, nas aldeias de todo o mundo, era sempre dia, e os índios nunca paravam de caçar, e as mulheres de limpar e cozinhar. O sol ia do leste ao oeste e depois fazia o caminho contrário, do oeste ao leste, sempre sem nunca desaparecer. Um dia, porém, quando Tupã havia saído para caçar, um homem tocou no frágil Sol para saber como funciona, e o Sol se quebrou em mil pedaços. A partir de então, as trevas reinaram nas aldeias. Tupã, então, inconformado, recriou o Sol, mas este não voltava mais do oeste para o Leste, então Tupã criou a Lua e as estrelas para iluminar a noite.

LENDA INDÍGENA KARAJÁS

No início dos tempos, quando foram criados pelo Ser Supremo – KANANCIUÉ – , os Karajá eram imortais. Viviam felizes como peixes – aruanãs. Não conheciam nada que não fosse dos rios e das águas. Não conheciam o sol, nem a lua, nem as plantas. Nem animal algum que não fosse dos rios.No fundo do rio onde viviam havia um buraco pelo qual vinha uma luz que os fascinava. Essa luz ressaltava as cores das escamas e de tudo que existia por perto. Quando se aproximavam daquele buraco, ficavam curiosos. Tentavam ver com ansiedade o que era aquilo. Por causa da luminosidade, não conseguiam divisar o que existia além do buraco. Como seria do outro lado? Perguntavam-se. Mas o Ser Supremo havia proibido que entrassem ali. Senão, perderiam a imortalidade. E apesar da tentação, eles obedeciam fielmente. Certo dia, um jovem Karajá, um aruanã mais audacioso, ousou e foi ver o que existia do outro lado daquele buraco luminoso. Ficou surpreso quando chegou às areias brancas do rio Araguaia e descobriu encantado um mundo maravilhoso, totalmente diferente do seu. Uma paisagem deslumbrante.Viu o céu de um azul profundo com um Sol radiante iluminando e aquecendo a natureza. Pássaros multicoloridos se misturavam no ar com muitos matizes. Escutou a música do canto das araras, periquitos e sabiás. Muitos animais estavam em paz, um do lado do outro: tamanduás, onças, cutias. Nas campinas, flores perfumadas. Nas florestas, árvores carregadas de frutos. O jovem Karajá andou por essas maravilhas até o anoitecer, quando, então, descobriu outro cenário ainda mais bonito: a Lua despontava prateada iluminando as montanhas ao longe. Constelações de estrelas iluminavam o céu.

Ele passou a noite deslumbrado até ver renascer o Sol no horizonte. Resolveu voltar ao buraco luminoso, descrever para os seus irmãos e irmãs peixes tudo que tinha visto. Com os olhos cheios de beleza, contou o que tinha acontecido e o que tinha observado:

__ Passei pelo buraco luminoso, descobri um mundo que nunca havia imaginado e que vocês também não podem imaginar. Com alegria no coração, contemplei o Sol e os animais. Os campos e as florestas. Sob a luz da Lua, vi as montanhas e muitas estrelas. Escutei música vinda dos pássaros e dos riachos. Vamos todos até lá? Todos os seus irmãos Karajá, mesmo sem entender tudo que ouviram, quiseram logo acompanhar o jovem afoito. Mas os mais experientes, os anciãos, disseram com grande sabedoria:

– Irmãos e irmãs, temos que respeitar nosso Criador, que nos quer bem e nos fez imortais assim como ele. Vamos falar com ele e pedir-lhe a permissão. Todos os aruanãs concordaram e assim fizeram. Depois de ouvi-los, o Criador – Kananciué – respondeu, com um pouco de tristeza por causa da desobediência do jovem: – Entendo que queiram transpor o buraco luminoso, que os levará deste mundo a outro de cores e beleza. Lá, poderão contemplar a majestade do Sol, o esplendor das estrelas, a suavidade da Lua. Descobrirão flores, frutos e animais. Poderão se divertir e deliciarem-se com as águas claras do rio Araguaia e suas areias brancas. Dançar ao som do canto dos pássaros. Mas revelo a vocês o que não sabem, nem veem. Toda a beleza naquele mundo é efêmera como a borboleta das águas que conhecem, que nasce hoje e desaparece amanhã. Os seres de lá não são como vocês: nascem, crescem, envelhecem e caminham para a morte. São mortais. Vocês ganharão a liberdade, mas perderão a imortalidade. A decisão é de vocês. O que decidem? O que escolhem?

Houve um grande silêncio. Todos olharam para o jovem que descobrira o mundo da liberdade. Todos estavam fascinados com a possibilidade de viver a beleza, confirmada pelo Ser Supremo – Kananciué . Então, responderam:

– Sim, pai, queremos ir viver no paraíso encantado dos mortais.

O Ser Supremo falou com eles pela última vez:

– Aceito a decisão de vocês porque acima de tudo prezo a liberdade. Vocês trocarão a imortalidade pelo dom precioso da liberdade. Saibam que quando passarem por aquele buraco, vocês serão mortais, mas totalmente livres. Não deixem que lhes roubem a liberdade.

E todos aqueles aruanãs passaram entusiasmados pelo buraco luminoso para chegar ao mundo da beleza efêmera e alegrias finitas. Até hoje os Karajá vivem naquele paraíso, às margens do rio Araguaia. Concentram-se, principalmente, na ilha do Bananal. Tiveram a coragem de renascer como seres de liberdade, o que continuam sendo até hoje.

TRADIÇÃO DO POVO  MARAJÓ

No inicio o mundo era uma grande bola de água inabitada, atentamente observado por Auí, um ser delicado e transparente, que tinha a missão que liderar o seu povo, mas havia um problema, ele ainda não tinha povo para se liderar. A partir do barro e da lama, que ficavam na profundeza das águas, surgiu o Girador, outro ser fantástico, que tinha a missão, de construir sete cidades sobre as águas para servir a Auí (uma delas, aliás, é a própria Ilha de Marajó) e o Girador começou o seu trabalho.

Enquanto isso, outros seres saíram da água, constituindo o povo de Auí, e quando o Girador terminou o seu trabalho, todos os seres estavam vivendo sobres harmonia, Auí, guiado por sua imensa curiosidade, tocou o fundo das águas do mundo, ao encostar nos sagrados materiais que o Girador foi criado - o barro e a lama - , ele causou uma desarmonia e um desequilíbrio na terra, que submergiram as sete cidades de Auí. Todo o povo místico, incluído Auí e Girador, foram transformados em Caruanas (espíritos que vagam) e assim, tiveram que ser auxiliadores dos seres humanos. Por causa da desordem de Auí, as partes sólidas que estavam no fundo do mar, subiram e causaram dois acontecimentos, o primeiro foi de libertar a energia espiritual de Anhaga(energia esta, que segundo o folclore Caruana, representa os males causados a natureza), e a segunda consequência, foi a subida das partes sólidas no fundo do mar, criando os continentes atuais, e as sete cidades místicas de Auí subiram, criando “Patu-Anu” - mundo místico dos Caruanas - onde eles se preparam para encarnarem nos Pajés, os Caruanas passam por vários estágios até serem aptos a chegarem a Terra. Dois seres fantásticos agem para que se haja a harmonia entre “Patu-Anu” e a Terra.

“Gavião de olhos brilhantes e bico de Marfim”, que comanda de forma rigorosa e entrada e saída dos Caruanas em nosso mundo.

“Peixe das sete asas” que transmite a troca de energias entre o Pajé e as águas místicas do “Patu-Anu”.

Mas para contar essa história, percebesse um erro, “Como se todas as sete cidades de Auí subiram, a Ilha de Marajó ainda está aqui?”, a resposta é simples, a Ilha de Marajó ficou na Terra, por causa de um motivo, para que as energias espirituais dos Caruanas continuassem aqui.

LENDA DOS ÍNDIOS CAIAPÓS

á muitos anos os índios Caiapós habitavam uma região localizada sobre a Terra. Viviam sobre nuvens bem distantes. Não havia Sol, Lua, rios ou florestas. Um certo dia surgiu um buraco nas nuvens. Desse local ouviam ruídos distintos dos que conheciam no seu cotidiano. Apesar do grande receio, foram aos poucos se aproximando do buraco. Por curiosidade um dos índios se abaixou para observar através do buraco. Viu um céu azul e ao fundo uma região verde. “A nossa Amazônia”. Foram realizadas diversas reuniões entre os sábios da tribo em busca de compreender o que observavam. Decidiram que seria necessário explorar essa nova região. Somente dois casais corajosos aceitaram. Despediram-se de suas famílias e dos seus amigos. Foi realizada uma grande cerimônia. Receberam todo o equipamento auxiliar, arco, flechas, mantimentos.

Havia sido produzida uma grande escada de cordas. Lançaram a escada pelo buraco. Por ela desceram os dois valentes casais. Haviam assumido o compromisso de retornarem em um determinado período de tempo para trazer notícias. Ao chegarem ao solo. Ficaram maravilhados com o que viram. Belas e frondosas árvores. Pássaros. Um grande rio. Animais que não conheciam. Começaram a seguir uma anta. Depois seguiram uma borboleta. Caminharam ao longo do rio. Estavam impressionados com a beleza do lugar. O tempo foi passando e esqueceram de retornar para as nuvens onde viviam. Nas nuvens os sábios estavam começando a ficar preocupados. Haviam feito um plano de emergência, com medo de que a escada fosse usada por espíritos perversos. Vencido o prazo, cortariam a escada de corda.

Os exploradores perderam a noção de tempo com tanta coisa nova que estavam descobrindo. O tempo se esgotou e nas nuvens a tribo resolveu cortar a escada. Apesar do protesto dos parentes e amigos dos bravos aventureiros, a escada foi cortada. A noite começou a chegar na Amazônia. Com o início do escurecimento do ambiente, os valentes exploradores lembraram do compromisso assumido. Correram em direção ao local onde estava a escada. Quando lá chegaram, a escada estava caída no solo. Não poderiam regressar às nuvens. Começaram a chorar. A noite chegou. Em um certo momento, um deles olhou para o Céu. Parou de chorar. Chamou a atenção dos demais, que também olharam para o Céu, e pararam de chorar. O que eles viram? Viram o Céu estrelado. Imaginaram cada uma das estrelas como uma representação das fogueiras que eram acesas nas nuvens que viviam. Assim cada vez que olhassem para o Céu estariam lembrando-se dos familiares e amigos que haviam ficado nas nuvens. Esses dois casais deram origem a vida na Terra. Os índios Caiapós veem sinais de seus ancestrais cada vez que olham para um belo céu estrelado.

LENDA INDÍGENA NHEENGATU, DA AMAZÔNIA

No princípio, contam, havia só água, céu. Tudo era vazio, tudo noite grande. Um dia, contam, Tupana desceu de cima, no meio de vento grande; quando já queria encostar na água, saiu do fundo uma terra pequena; pisou nela. Nesse momento, Sol apareceu no tronco do céu, Tupana olhou para ele. Quando Sol chegou no meio do céu, seu calor rachou a pele de Tupana, a pele de Tupana começou logo a escorregar pelas pernas dele abaixo. Quando Sol ia desaparecer para o outro lado do céu, a pele de Tupana caiu do corpo dele, estendeu-se por cima da água para já ficar terra grande. No outro Sol (no dia seguinte), já havia terra, ainda não havia gente. Quando Sol chegou no meio do céu, Tupana pegou uma mão cheia de terra, amassou-a bem, depois fez uma figura de gente, soprou-lhe no nariz, deixou no chão. Essa figura de gente começou a engatinhar, não comia, não chorava, rolava à toa pelo chão. Ela foi crescendo, ficou grande como Tupana, ainda não sabia falar. Tupana, ao vê-lo já grande, soprou fumaça dentro da boca dele, então começou já querendo falar. No outro dia, Tupana soprou também na boca dele, então, contam, ele falou. Ele falou assim: “Como tudo é bonito para mim! Aqui está a água com que hei de esfriar minha sede. Ali está o fogo do céu com que hei de aquecer meu corpo quando ele estiver frio. Eu hei de brincar com água, hei de correr por cima da terra; como o fogo do céu está no alto, hei de falar com ele aqui de baixo.” Tupana, contam, estava junto dele, ele não viu Tupana.

 

Fonte: Por Prof. Omar Fürst , no Biboca Ambiental/Municipios Baianos

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