24/10/2017

Os riscos da manipulação do clima pela geoengenharia

 

O ano é 2050, a temperatura média global subiu mais do que o limite de 2 graus Celsius, e o planeta está sendo ameaçado pela seca, elevação dos mares e chuvas intensas. Protestos surgiram na América do Sul por causa de empresas que estão comprando grandes quantidades de terra para a implementação de uma técnica de remoção de dióxido de carbono (CDR) que usa culturas bioenergéticas. A técnica é amplamente defendida pela União Europeia, cujos países-membros não conseguiram cumprir suas metas de redução de emissões por causa do uso de carvão.

A tensão entre os Estados Unidos e a China está crescendo por causa do plano dos chineses para combater a seca e a quebra nas colheitas por meio da vaporização de largas quantidades de aerossóis de sulfato na estratosfera. Eles refletem a luz solar para o espaço e reduzem as temperaturas globais. A opinião pública dos EUA teme os impactos dessa forma de gestão de radiação solar (SRM) no clima global. Já uma coalizão de países liderada pela China acredita que ela vai impedir os piores efeitos do aquecimento do planeta.

De volta a 2017

Nos estágios atuais, CDR e SRM são tecnologias que ainda estão engatinhando, mas algumas pessoas acreditam que elas vão se tornar necessárias para cumprir a meta estabelecida pelo Acordo de Paris de limitar a alta da temperatura média global em 2 graus Celsius.

"Uma coisa que realmente mudou o debate sobre geoengenharia é o Acordo de Paris", afirma o cientista Stefan Schäfer, que comanda um projeto que foca nos riscos e oportunidades da geoengenharia para a sociedade no Instituto de Estudos Avançados sobre Sustentabilidade (IASS), em Potsdam.

Se antes essas intervenções tecnológicas no clima eram vistas como medidas de desespero, às quais se poderia recorrer em caso de fracasso político das "ambiciosas" metas do Acordo de Paris, hoje elas parecem ser bem menos abstratas. "É uma espécie de cenário hiper-Antropoceno", disse Schäfer, em referência à época geológica que se iniciou devido ao profundo impacto da humanidade na Terra.

Bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS) é a estratégia de remoção de carbono que integra alguns dos cenários para redução das emissões globais criados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Ela é frequentemente descrita por seus defensores como uma "tecnologia negativa de emissões de carbono", porque eles dizem que ela retira CO2 da atmosfera.

O método prevê o plantio de árvores e plantas que retiram carbono da atmosfera à medida que crescem e que são depois utilizadas como biomassa. As emissões resultantes da queima da biomassa para a obtenção de energia são retidas na origem e armazenadas no subsolo. "Muitas pessoas pensam que só há vantagens", comenta a pesquisadora Miranda Boettcher, do IASS. "Elas pensam: plantar árvores? Isso não é um problema, mas há um monte de problemas associados a isso."

Segundo a maioria dos cenários previstos, seria necessário remover vários bilhões de toneladas de CO2 da atmosfera todos os anos para impedir um aquecimento global catastrófico. Alcançar isso apenas com BECCS iria requer monoculturas numa escala sem precedentes: algumas simulações de computador sugerem uma área equivalente a 1,5 vez o território da Índia. Isso não só cria potencial de conflito sobre onde estaria toda essa área como também teria implicações devastadoras para a biodiversidade e a produção de alimentos. "Numa escala como essa, se for para obter uma redução significativa de carbono, será necessário criar uma indústria do zero – e tudo o que estiver associado a ela, desde a geração de energia até o impacto na biodiversidade e na produção de alimentos", diz Schäfer.

Sulfato na estratosfera

A gestão de radiação solar com o uso de aerossóis reflexivos na estratosfera não está incluída nos cenários de redução de emissões do IPCC, mas o painel da ONU a descreveu como um meio de, "compensar, em certa medida, o aumento da temperatura global e alguns de seus efeitos".

Outras tecnologias de SRM, como colocar espelhos no espaço para desviar os raios solares, também estão sendo avaliadas, mas são consideradas caras e complicadas demais para serem executadas.

Já os aerossóis são vistos como baratos e viáveis. Ainda assim, eles provavelmente são a mais controversa das tecnologias de geoengenharia. Além de envolver uma intervenção direta no sistema planetário, com consequências amplamente desconhecidas, essa opção não lida com as causas do aquecimento global. Ela também gera questões complicadas, como: quem vai regular o termostato global? E como impedir conflitos entre as nações sobre os efeitos colaterais?

É quase certo que vaporizar sulfato ou outros tipos de aerossóis na estratosfera, a no mínimo 19 quilômetros de altura, com o objetivo de refletir a radiação solar, vai reduzir as temperaturas globais. Esse efeito foi observado depois da violenta erupção vulcânica no Monte Tambora, na Indonésia, em 1815, quando o tempo ruim e as baixas temperaturas levaram a uma queda disseminada nas colheitas e ao "ano sem verão".

Testar como os aerossóis se comportam na estratosfera e que outras consequências eles poderiam ter exige uma experiência de campo numa escala equivalente ao uso previsto. Como isso não é possível, os pesquisadores terão de confiar em modelos matemáticos computadorizados que replicam de forma imperfeita o mundo real.

Alguns mostram que a redução da radiação solar levaria a uma diminuição nas chuvas e na disponibilidade de água nos trópicos, enquanto outros apontam para uma recuperação lenta da camada de ozônio sobre a Antártida. "O grau de incerteza é muito elevado", comenta a pesquisadora Ulrike Niemeier, do Instituto Max Planck de Meteorologia, de Berlim. E isso não vale só para a ciência. Se, por exemplo, o clima estiver sujeito à manipulação, e um determinado país passar por um período de seca por causa disso, esse país poderia adotar ações legais. Ou até algo pior. "Meu maior temor são as relações internacionais", diz Niemeier. "Isso poderia causar problemas, e até mesmo ser motivo para uma guerra."

Para evitar conflitos, os países teriam de criar procedimentos de tomada de decisão e votação para decidir sobre quando e como manipular o clima global, bem como medidas de cumprimento e compensação mesmo que não possa ser provada a relação entre a vaporização de sulfatos e um fenômeno climático extremo.

O mal menor?

Cientistas políticos, biólogos, especialistas em ética e economistas do IASS e de outras instituições alemãs estão colaborando para tentar resolver essas questões e esclarecer se a geoengenharia é mesmo um caminho adequado e sob quais circunstâncias a adoção dele seria defensável. Os pesquisadores também estão trabalhando num código de conduta não vinculativo e voluntário para a condução de experiências, que valeria para cientistas, instituições e países.

Ainda assim, muitas pessoas, como Lili Fuhr, que comanda o departamento de meio ambiente e desenvolvimento sustentável da Fundação Heinrich Böll, diz que a geoengenharia pode e deve ser evitada em favor de "opções mais transformadoras, para as quais já existe tecnologia".

Essas opções incluem um fim gradual e gerenciado da produção de combustíveis fósseis, a redução no uso de energia e recursos por meio de uma abordagem de economia circular e a retirada de carbono da atmosfera por meio da proteção e restauração de ecossistemas e florestas.

Porém, falta vontade política para transformações radicais como essas, acrescenta. Mesmo pessoas que lidam com a geoengenharia, como Schäfer, concordam com isso. Segundo ele, atacar os efeitos acaba desviando a atenção da necessidade de uma transição para uma economia sem produção de carbono.

A geoengenharia é vista como um "mal menor", que não empolga ninguém de verdade, acrescenta. Em outras palavras, é uma ideia indesejada, que pode ou não se tornar necessária.

Sete mil recém-nascidos morrem por dia no mundo, diz Unicef

Embora o mundo tenha registrado uma queda na mortalidade infantil em 2016, ainda morreram, todos os dias desse ano, uma média de 15 mil crianças com menos de cinco anos, segundo revelou um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) nesta quinta-feira (19/10).

Entre as 15 mil crianças, 7 mil eram bebês com menos de 28 dias de vida. A proporção de recém-nascidos entre as vítimas subiu de 41% para 46% entre 2000 e 2016, revelou o órgão.

Em compensação, houve uma redução nos dados sobre mortalidade infantil nesse mesmo período, de 9,9 milhões de mortes em 2000 para 5,6 milhões de mortes no ano passado.

"Desde 2000, as vidas de 50 milhões de crianças menores de cinco anos foram salvas, um testemunho do sério compromisso para enfrentar as mortes infantis que podem ser prevenidas", afirma o chefe de Saúde do Unicef, Stefan Peterson, em comunicado.

Ele alerta, porém, que "a menos que façamos mais para evitar que bebês morram perto de seu nascimento, esse progresso permanecerá incompleto". "Temos o conhecimento e a tecnologia necessárias, só precisamos que isso chegue aos que mais precisam", acrescenta.

O relatório do Unicef afirma que, caso a tendência atual seja mantida, 60 milhões de crianças com menos de cinco anos ainda morrerão até o ano de 2030, sendo metade delas recém-nascidos.

Em 2016, as principais causas de morte foram pneumonia e diarreia. O órgão da ONU alerta para a importância de um maior contato com profissionais de saúde durante a gravidez e o nascimento, bem como o acesso a água potável, saneamento básico e remédios de baixo custo. O acesso a informações sobre imunização e lactação também são necessárias, afirma o Unicef.

"Muitas das mortes podem ser evitadas com intervenções de baixo custo antes, durante e depois do nascimento", destaca o subsecretário para Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, Liu Zhenmin.

Ele lembra que, apesar do progresso, ainda existem amplas disparidades em sobrevivência na infância entre regiões e países. Em países da África subsaariana, uma em cada 13 crianças morre antes dos cinco anos. Em países desenvolvidos, essa proporção é de uma em cada 189 crianças.

Essa mesma região africana registrou 38% das mortes de recém-nascidos em todo o mundo, sendo 9% somente na Nigéria. Em relação a recém-nascidos, um em cada 36 bebês morre nos países da África subsaariana, enquanto nos desenvolvidos o índice é de 1 em cada 333.

O sudeste da Ásia também registra um grande número de mortes entre bebês com até 28 dias de vida. Em 2016, 39% das fatalidades em todo o mundo ocorreram nessa região, sendo 24% na Índia e 10% no Paquistão.

Entre os países do mundo todo, a Índia foi o que apresentou o pior resultado sobre mortalidade infantil, com cerca de 850 mil mortes em 2016. A Nigéria veio em segundo, com mais de 450 mil mortes.

Esses dois países registram, junto com Paquistão, República Democrática do Congo, Etiópia, China e Níger, metade das mortes de crianças com menos de cinco anos em todo o planeta.

O estudo foi elaborado pelo Grupo Interinstitucional para a Estimativa da Mortalidade Infantil das Nações Unidas, que inclui o Unicef, a Organização Mundial de Saúde e o Banco Mundial.

Poluição mata mais que guerra e violência

A poluição mata mais pessoas anualmente que todas as guerras e violência no mundo, tabaco, fome, desastres naturais, aids, tuberculose e malária, concluiu um estudo americano.

Uma em cada seis mortes prematuras no mundo registradas em 2015 – cerca de nove milhões – podem ser atribuídas a doenças por exposição tóxica, de acordo com um estudo divulgado na quinta-feira (19/10) pela revista científica The Lancet.

Segundo o artigo, a poluição do ar foi responsável por 6,5 milhões de mortes, seguida pela poluição da água, que matou aproximadamente 1,8 milhão de pessoas.

A estimativa de cerca de nove milhões de mortes prematuras por poluição ambiental, considerada conservadora pelos autores do estudo, é um valor 1,5 maior do que o número de pessoas mortas pelo tabagismo e três vezes o número de mortes por aids, tuberculose e malária juntos. A estatística supera também em 15 vezes o número de pessoas mortas em guerras ou outras formas de violência.

Segundo o estudo, 92% das mortes relacionadas à poluição ocorreram em países em desenvolvimento de baixa ou média renda. Uma em cada quatro mortes prematuras na Índia em 2015, ou cerca de 2,5 milhões, foram atribuídas à poluição. Na China, as causas ambientais foram o segundo maior motivo de óbitos, causando mais de 1,8 milhão de mortes prematuras, ou uma em cada cinco.

O estudo é a primeira tentativa de reunir dados sobre doenças e mortes causadas por todas as formas de poluição combinadas, do ar à água contaminada.

"Há muitos estudos sobre a poluição, mas o tema nunca foi alvo dos recursos ou nível de atenção de algo como a aids ou as alterações climáticas", diz o epidemiologista Philip Landrigan, diretor do departamento de saúde global da Faculdade de Medicina Mount Sinai, Nova York, e principal autor do relatório. "A poluição é um enorme problema que as pessoas não estão vendo porque estão olhando para as suas componentes espalhadas."

O relatório estima um prejuízo de 4,6 trilhões de dólares anuais  – ou 6,2% da economia global - relacionado à poluição e às mortes causadas por ela.

"O que as pessoas não percebem é que a poluição prejudica as economias. As pessoas doentes ou mortas não podem contribuir para a economia. Precisam de cuidados", diz Richard Fuller, um dos autores do estudo e chefe da organização Pure Earth, que se dedica à despoluição no mundo em desenvolvimento. "Ministros das Finanças ainda seguem o mito de que, se não deixar a indústria poluir, não haverá desenvolvimento. Isso não é verdade."

De acordo com o estudo, o fardo financeiro atinge mais fortemente os países mais pobres. Os Estados de menor renda gastam em média 8,3% de seu Produto Interno Bruto (PIB) para combater os danos causados pela poluição, enquanto os países desenvolvidos desembolsam 4,5%.

 

Fonte: Deutsche Welle/Municipios Baianos

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