25/10/2017

Os riscos escondidos das dietas macrobióticas

 

Uma das características das dietas fraudulentas (também chamadas "dietas milagrosas") é que seus divulgadores sempre as atribuem a alguma recente descoberta científica ou afirmam se basear em preceitos milenares. A dieta macrobiótica pertence a este segundo grupo, mas o fato é que só surgiu em 1961, quando foi apresentada ao mundo por seu criador, George Ohsawa. Ou seja, essa esta dieta não é nem recente nem milenar.

Mas antes de falar da macrobiótica convém começar mencionando a dieta mediterrânea. Porque um dos dois motivos pelos quais a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA, na sigla em inglês) não permite acompanhar esse padrão dietético com declarações sobre benefícios para a saúde – como dizer que "pode prevenir eventos cardiovasculares" – é que sua composição não está clara. Há nas pesquisas científicas disponíveis uma grande variedade de definições sobre o conceito da dieta mediterrânea, o que leva a EFSA a concluir formalmente que "a dieta mediterrânea [...] não está suficientemente caracterizada". O segundo motivo pelo qual a EFSA não tolera que a dieta mediterrânea seja acompanhada de declarações sobre seus benefícios é a presença do vinho em sua definição. Isso faz todo o sentido, se levarmos em conta que o consumo de álcool representa a segunda principal causa de mortalidade evitável na Espanha e que, mesmo em doses baixas, aumenta o risco de alguns tipos de câncer.

Mas o que isso tudo tem a ver com a alimentação macrobiótica? É que tampouco temos claro qual é sua composição e, além disso, existem nela componentes que podem causar riscos à saúde, como veremos mais adiante.

É difícil especificar em que consiste a dieta macrobiótica. Como vimos, a EFSA não consegue nem mesmo encontrar uma definição consensual sobre a dieta mediterrânea (há quem chegue a considerar que não passa de uma construção intelectual), e muito menos sobre a desacreditada "dieta macrobiótica". Em 2010 indiquei, no livro No Más Dieta ("chega de dieta"), que a falta de rigor científico desse regime começa já em seus alicerces, pois se fundamenta na divisão dos alimentos segundo um parâmetro invisível: sua energia interior (yin e yang). George Ohsawa classificou as dietas macrobióticas em dez níveis, eliminando em cada nível um grupo de alimentos. No nível superior só poderemos comer arroz integral. Há vários casos descritos de mortes por tentar alcançar esse nível. Por isso o Departamento de Alimentos e Nutrição da Associação Norte-Americana de Medicina condenou abertamente esse método em 1971. Felizmente, poucas pessoas seguem à risca as pautas propostas por essa dieta.

Em todo caso, se adentrarmos na literatura científica veremos que Cunningham e Marcason destacaram as seguintes características desta dieta:

- Uma presença prioritária de grãos integrais.

- Uma presença elevada de hortaliças, embora não tão grande como a de grãos integrais.

- A inclusão de 5% a 10% de sopas.

- A presença de legumes e algas, também entre 5% e 10%.

Este último detalhe, a presença de algas, a torna arriscada, sobretudo, para pessoas que sofrem ou correm o risco de sofrer de problemas na tireoide, dado o elevadíssimo teor de iodo em numerosas algas marinhas – sem esquecer que o conteúdo de arsênico em muitas algas comestíveis também é considerável.

Em seu texto, Cunningham e Marcason também apontam os seguintes riscos da dieta macrobiótica:

- Deficiência de proteínas, vitamina B12 e cálcio.

- Risco de desidratação.

- Forte carga emocional sobre o indivíduo e a família.

Em 2008, outra publicação recomendou a qualquer adepto da dieta macrobiótica, mesmo que se encontre em boas condições físicas, que sempre consulte um profissional da saúde para avaliar possíveis deficiências nutricionais.

Por tudo isso, no livro Más Vegetales, Menos Animales ("mais vegetais, menos animais"), publicado em 2016 por Juanjo Cáceres e por mim, desaconselhamos a dieta macrobiótica, sobretudo para crianças. Mas não só por possíveis deficiências nutricionais ou pelo risco decorrente da inclusão de algas na dieta, mas também porque:

- Seus fundamentos (a divisão dos alimentos em yin e yang e a crença que há alimentos que "dão frio" ou "dão calor") são um absurdo sem nenhum tipo de explicação racional nem sustentação em pesquisas sérias, algo que pode gerar uma confusão com consequências imprevisíveis.

- Os promotores dessa dieta costumam desacreditar a medicina e negam avanços científicos que conseguiram aumentar nossa qualidade e expectativa de vida.

- As quiméricas atribuições e as promessas impossíveis de cumprir, características habituais dos materiais de divulgação da prática macrobiótica, costumam gerar falsas esperanças e podem inclusive causar um sentimento de culpa nas pessoas que a seguem ou, pior ainda, uma desconfiança em relação a tratamentos médicos de eficácia comprovada, o que colocará em risco a saúde do indivíduo.

Hoje acrescentaríamos outros dois motivos para desaconselhá-la: a possibilidade de contrair uma infecção alimentar, devido à recusa em ingerir conservantes, e o fato de ser muito caro seguir essa dieta, o que compromete o poder aquisitivo do indivíduo. Mas o maior risco ao seguir rigidamente uma dieta macrobiótica é a morte em decorrência de uma desnutrição severa.

É hora de mencionar que pesquisas publicadas em 2003, 2013 e 2016 revelaram que a dieta macrobiótica é, infelizmente, uma das mais seguidas por pacientes com câncer. Não há provas que nos levem a crer que essa proposta sirva para prevenir efetivamente o câncer, e muito menos para curá-lo ou contribuir para sua cura. Entretanto, temos motivos para detalhar alguns quantos riscos aos quais qualquer paciente com câncer está exposto ao seguir uma dieta macrobiótica:

- Pode retardar a aplicação de um tratamento médico do qual a vida do paciente pode depender, como foi o caso com Steve Jobs, fundador da Apple, que morreu de câncer no pâncreas em 2011.

          - Pode deteriorar o estado psicológico dos pacientes, devido às limitações sociais que estes devem seguir, pois é complicadíssimo combinar esse padrão dietético com qualquer refeição familiar ou evento social.

        - As severas deficiências nutricionais de quem segue essa dieta de forma rigorosa podem piorar seriamente o prognóstico do paciente com câncer.

- Como parte das chamadas "terapias alternativas", o paciente se expõe a um maior risco de morte, conforme já demostraram diversas pesquisas.

O que nós, profissionais da saúde, devemos fazer quando chega ao nosso consultório um paciente que segue a dieta macrobiótica? Para responder a esta pergunta, nada melhor que recorrer à magistral palestra intitulada "A relação no consultório médico com o paciente que utiliza terapias alternativas", proferida pelo médico Vicente Baos no Hospital de La Paz, em Madri, em 18 de fevereiro. Sua intervenção foi parte do evento de divulgação científica Terapias Perigosas: Parasitando a Saúde, organizado pela ARP Sociedade para o Avanço do Pensamento Crítico e Fisioterapia sem Rede.

Em sua fala, Baos deixou claro que é imprescindível ouvir com amabilidade, com empatia, com compreensão, sem julgar, sem prepotência e sem rejeição, mantendo a todo momento a consciência de que o paciente não passa de uma vítima. Devemos fomentar a confiança mútua, tentar reduzir distâncias, sempre mostrando interesse pela saúde do paciente, para conseguir estabelecer um canal de comunicação e auxílio. É necessário atentar às razões que o paciente apresenta e compreendê-las para, em seguida, aproximar nossos conhecimentos e conselhos, sem imposição alguma, levando em conta que é pouco provável, e inclusive ilusório ou irreal, que o paciente mude em uns poucos minutos as suas crenças ou a sua escala de valores. É o paciente quem precisa reconsiderar, em função dos nossos conselhos, se a via que escolheu é a correta, depois de lhe propormos outras opções que, isso sim, devem estar bem argumentadas e sustentadas nos melhores conhecimentos disponíveis até a data. E, obviamente, se existirem elementos reais na terapia que podem colocar a saúde do paciente em grave perigo (algo que pode chegar a ocorrer no caso da dieta macrobiótica, como vimos), nossa posição deve ser muito clara e devemos alertar sem hesitações sobre os riscos existentes.

  • Baos concluiu sua exposição pedindo a toda a sociedade que, em legítima defesa:

- Denuncie, em todos os âmbitos possíveis, aqueles que promovem terapias perigosas ou delas se beneficiam economicamente.

- Fomente o desprestígio de tais terapias, mostrando publicamente sua irracionalidade.

- Lute por uma legislação que controle sua difusão.

Para finalizar, convém insistir em que qualquer um que ouvir falar da dieta macrobiótica precisa ter consciência de que seus fundamentos contrariam qualquer conhecimento científico sobre a nutrição ou a biologia humana. Podemos afirmar que é um "sofisma nutricional", um conceito que poderíamos definir como: colocação nutricional falsa ou capciosa, que se pretende passar por verdadeira. Um sofisma que, além disso, pode colocar a nossa saúde em risco.

Julio Basulto é um dietista-nutricionista que tenta convencer o mundo de que comer mal não é algo que se compense com uma cenoura. Também profere palestras, atua como docente em várias instituições acadêmicas, colabora com diferentes meios de comunicação e é autor de numerosas publicações científicas e de divulgação (www.juliobasulto.com).

NUTRIR COM CIÊNCIA é uma seção sobre alimentação baseada em evidências científicas e no conhecimento verificado por especialistas. Comer é muito mais do que um prazer e uma necessidade: a dieta e os hábitos alimentícios são atualmente o fator de saúde pública que mais pode nos ajudar a prevenir numerosas enfermidades, como diabetes e muitos tipos de câncer. Uma equipe de dietistas-nutricionistas nos ajudará a conhecer melhor a importância da alimentação e a derrubar, graças à ciência, os mitos que nos levam a comer mal.

Morte de macacos é sinal de novo ciclo de febre amarela, diz ministro

O ministro da Saúde, Ricardo Barros, afirmou nesta segunda-feira, 23, que as mortes de macacos por febre amarela registradas em São Paulo indicam que um novo ciclo da doença está por vir. A confirmação da morte de um primata na região do Horto Florestal, na zona norte da capital paulista, um sinal de que o vírus continua a circular, ocorre menos de dois meses depois de a pasta declarar o fim do pior surto da história da doença.

Apesar da proximidade, o ministro da Saúde afirma que sua equipe não se precipitou. “Tecnicamente, não, porque ficamos 90 dias sem registrar nenhum caso e isso indica o encerramento do surto”, justificou.

Na semana passada, foi confirmada em Itatiba, no interior de São Paulo, a morte de uma pessoa em decorrência de febre amarela. O ministro avalia que o novo ciclo da doença deverá ser “enfrentado com mais cuidado.” “Estão todos muito mais alertas, e as medidas deverão ser tomadas preventivamente”, disse.

Para atender a uma eventual demanda da vacinação, a pasta deverá enviar mais 1,5 milhão de doses para São Paulo. “É para atender o fluxo da população”, disse.

Há uma expectativa de que possa ocorrer um fenômeno semelhante ao que ocorreu no Rio de Janeiro, quando houve uma corrida para vacinação mesmo em locais onde não era recomendada a vacina.

Apesar da fala do ministro, a morte de macacos em São Paulo com suspeita de febre amarela nunca deixou de ocorrer. Como o Estado revelou, enquanto o ministério anunciava o fim do surto, o governo paulista se preparava para estender a vacinação contra a doença para regiões mais vulneráveis. A precaução tinha como justificativa justamente a mudança no comportamento da doença.

O coordenador de controle de Doenças do Estado de São Paulo, Marcos Boulos, em entrevista, observava que, em epidemias anteriores, os ciclos eram definidos, com aumento de casos em animais e posterior redução – bem diferente do que ocorreu neste ano. Semanas antes do anúncio do Ministério da Saúde do fim do surto, mortes de macacos já vinham sendo registradas em Gonçalves, na região da Mantiqueira. Também foram feitos registros na região próximo da Rodovia Anhanguera.

Estudos conduzidos pela equipe de vigilância da secretaria estadual mostram que a febre amarela em São Paulo neste ano ocorreu em três grandes frentes no Estado – uma situação atípica. No passado, casos ficavam concentrados em algumas áreas já tradicionais, sobretudo na região oeste. A doença se expandiu e hoje casos são registrados em áreas próximas de Campinas e da Grande São Paulo.

 

Fonte: El País/Agencia Estado/Municipios Baianos

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