27/10/2017

Brasil eleva emissões e se afasta de meta climática

 

Em 2016, as emissões de gases de efeito estufa no Brasil saltaram de 2,091 para 2,278 bilhões de toneladas de carbono equivalente (tCO2e). Isso representa um aumento de 9%, atingindo o nível mais alto desde 2008, segundo divulgado pelo Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) nesta quarta-feira (25/10).

Os números colocam o país numa situação atípica. Atualmente, o Brasil é único país de grande porte que aumentou a carga de poluição enquanto a economia encolheu. O país atravessa a pior recessão de sua história, com retração de 3,6% no PIB em 2016. No ano anterior, o recuo havia sido de 3,8%. Até então, o padrão registrado era proporcional: as emissões subiam motivadas pelo aquecimento da economia.

O desempenho é anunciado às vésperas da Conferência do Clima (COP), que será realizada em novembro na cidade de Bonn, na Alemanha.

"Patinamos ao redor de 2 bilhões de toneladas por ano e agora saltamos para 2,2 bilhões", comentou André Ferretti, gerente de Estratégias de Conservação da Fundação Grupo Boticário e coordenador-geral do Observatório do Clima.

Segundo Ferreti, o país está se afastando da meta que prometeu cumprir em 2020, quando as emissões não poderiam ultrapassar 2,2 bilhões tCO2e – exatamente a marca de 2016. O receio é de que, quando o país voltar crescer, outros setores, como o de energia, devem adicionar mais algumas toneladas ao patamar atual.

Os pesquisadores do SEEG, uma iniciativa do Observatório do Clima que reúne 35 instituições, dizem que a alta do desmatamento no ano passado (27%) puxou as emissões. Na linguagem científica, o corte da floresta representa "mudança de uso da terra", item que registrou aumento de 23% em 2016 – o que corresponde a mais da metade de todos os gases estufa lançados em território brasileiro.

"O descontrole do desmatamento, em especial na Amazônia, nos levou a emitir, em 2016, 218 milhões de toneladas de CO2 a mais que em 2015", afirmou Ane Alencar, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Um cenário tido como grave: "O desmatamento é em sua maior parte ilegal e não se reflete no PIB do país", complementa.

Como parte do Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal até 2020, além de reflorestar 12 milhões de hectares em áreas degradadas. Uma meta que parece distante.

A atividade agropecuária, aclamada como motor econômico do país, registrou aumento de 1,7% nas emissões em ralação a 2015. Como ela está atrelada ao desmatamento, os pesquisadores somam as emissões diretas da atividade àquelas da mudança de uso da terra – o que resulta em 74% da carga de poluição brasileira.

No Congresso Nacional, os interesses do setor são defendidos pela forte bancada ruralista. "O presidente está fazendo tudo o que esses mais de 200 deputados pedem", criticou Carlos Rittl, diretor-executivo do Observatório do Clima."O pacote de benesses do presidente em troca da libertação das acusações de corrupção tem um impacto muito ruim na política ambiental."

Segundo o SEEG, só o setor do agronegócio brasileiro tem o mesmo peso do Japão no ranking global de emissões, em que o país asiático ocupa a oitava posição (1,6 bilhão tCO2e).

Por outro lado, a agropecuária tem potencial para liderar uma revolução rumo à economia de baixo carbono, aposta Tasso Azevedo, coordenador técnico do SEEG. "O nosso maior desafio no combate à mudança climática é também a nossa maior oportunidade", afirmou Azevedo. Se a atividade empregasse técnicas de baixa emissão – o que inclui o abandono do desmatamento –, os riscos de queimadas e secas cairiam significativamente, destaca Azevedo.

Para fazer os cálculos de estimativas de emissões, o SEEG usa a metodologia baseada nas diretrizes mais recentes do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), conforme publicado no seu quinto relatório (AR5), de 2013. O mesmo método foi usado para calcular a meta brasileira no Acordo de Paris.  Criado no Brasil, o SEEG também é aplicado em cálculos no Peru e Índia.

Tempestade (Geostorm) e o culto reacionário do progresso

Um homem de turbante olha pela janela de um prédio suntuoso em Dubai enquanto uma onda engole a cidade no meio do deserto. O rico empreendedor foi salvo antes que a inundação chegasse até ele, mas as perdas humanas foram gigantescas. O problema de Hollywood é nos trazer temas interessantes e abordá-los de maneira a conservar as relações sociais que sustentam a sua indústria.

Seria surpreendente se nessa cena do filme Tempestade: planeta em fúria (Geostorm), estralado por Gerard Butler, se explorasse o que James O’Connor ainda em 1988 disse: “A maioria dos problemas dos ambientes naturais e sociais são ainda mais urgentes para os pobres, incluídos os trabalhadores ocupados, que para os empregados de ‘colarinho branco’ e os ricos. Em outras palavras, os temas relativos às condições de produção são temas de classe, embora esses sejam mais que questões de classe”.

A degradação do meio ambiente foi abordada pela indústria do entretenimento norte-americana não como uma condição para a acumulação de capital, mas como um fenômeno. Digo isso inclusive para o “meio ambiente construído”, explicitado por David Harvey. É como destaca Elmar Altvater, a natureza é degradada porque ela não consegue reproduzir-se na mesma velocidade do capital, “a desigualdade do regime de tempos em uma dada sociedade é uma das principais razões da destruição ecológica”.

Quando Marx e Engels falam que os capitalistas assemelham-se a feiticeiros, pois evocam forças infernais as quais não podem controlar, eles se referem às crises do mercado que existem como uma doença crônica do capitalismo, mas também podemos relacionar isso à questão ambiental.Os impactos ambientais provenientes da exploração desencadeiam forças naturais incontroláveis, que podem devastar a humanidade, contudo, no filme, entende-se que se todos nos unirmos pela manutenção desse mundo, tudo dará certo.

Em outra camada do longa, propõe-se que a culpa da reação implacável da natureza não é do capital, mas da ganância de um único homem que quer poder, enfim, tornar-se presidente dos EUA. No entanto, o filme procura deixar claro que um homem desse tipo jamais poderá ser o chefe da maior democracia do mundo.

É impressionante que, na trama, após o problema das variações climáticas ter sido resolvido, as pessoas não mudam os seus hábitos. Isto é, todos se uniram para resolver um problema provocado pelo estilo de vida que levavam, mas sem alterá-lo. Como isso é possível?

Trata-se do que Jean-François Lyotard descreveu sobre a pós-modernidade. Pensar é resolver uma questão prática, que é o mesmo que dizer: ciência é resolver uma questão prática. A tecnologia é novamente invocada para reparar os danos da sociedade, jamais para transformá-la. É o culto reacionário do progresso, pois tem como objetivo manter tudo no mesmo lugar, através de uma ilusão de movimento.

O pai solteiro que salva o mundo (que por sinal odeia política) tevea sua presença questionada na nave internacional por ser americano. Mas falar mal dos Estados Unidos significa ser um traidor. O correto é se unir a causa liderada por eles, assim um mexicano faz questão de mostrar que foi ele que salvou os americanos perdidos no espaço.

A própria nacionalidade dúbia dos protagonistas é interessante, pois a ideia é pôr fim aos conflitos de nações e classes, suprimi-los em prol de uma luta contra o que a sociedade industrial produziu de danoso. É a Terceira Via, ideologia presente em todos os filmes americanos que tratam sobre tragédias em escala global. Uma ideologia cuja prova de que é uma farsa pode ser encontrada na realidade. Quando as cidades chinesas ficam insuportáveis devido à poluição do ar, muitos precisam ir para o campo em busca de ar puro. No entanto, “este contexto fez aparecer claramente a separação de classes: antes que a névoa não chegasse a fechar os aeroportos, somente aqueles que possuíam os meios de comprar um bilhete de avião puderam deixar as cidades”.

É possível interpretar que olhar desesperado do homem de turbante quisesse dizer: “Olha só o que eu fiz, preciso mudar minha procedência”. É uma maneira de Hollywood salvar as classes mais poluidoras do mundo. Um socialismo burguês hollywoodiano que passa a ideia de que um dia as classes dominantes irão se compadecer com as agonias populares.

Marx e Engels dizem que esse socialismo conservador é mera “figura de retórica” que “deseja remediar os males sociais para garantir a existência da sociedade burguesa”, “querem as condições de vida da sociedade moderna sem as lutas e os perigos que delas necessariamente decorrem”. Uma ilusão bem articulada que procura “fazer a classe operária perder o gosto por todo movimento revolucionário”. É essa lógica ridícula que vemos com frequência nas telas de cinema e nas interpretações interesseiras da esquerda ambientalista de Hollywood.

 

Por Raphael Silva Fagundes, em Caros Amigos/Deutsche Welle/Municipios Baianos

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