31/10/2017

As escolas que conseguiram vencer o bullying

 

A imagem de um jovem cabisbaixo, isolado em um dos cantos do pátio, ou de uma criança acuada após ter sido vítima de provocações começa a se tornar rara em algumas escolas do País. Apesar de numericamente ainda serem poucas, instituições de ensino têm desenvolvido metodologias específicas para combater a intimidação e se transformado em exemplos na batalha contra a discriminação e a propagação do ódio no ambiente escolar. O caminho não é simples, mas os resultados das iniciativas mostram que é possível coibir a prática.

m desses colégios é o Bandeirantes, um dos mais tradicionais de São Paulo. Lá, as estudantes Mariana Avelar, 14 anos, e Isabela Cristante, de 12, fazem parte dos grupos de ajuda do Programa de Combate ao Bullying. Elas foram escolhidas pelos demais alunos para participar de dois dias de capacitação com uma equipe de professores universitários e psicólogos.

Por meio de situações hipotéticas, o treinamento deixou claro o que é bullying e como elas deveriam agir em diferentes casos. “As pessoas mais isoladas são aquelas com gostos diferentes da maioria. Tentamos nos aproximar até que o colega se sinta confiante para conversar”, diz Mariana, estudante do 9º ano. “Aprendemos que, às vezes, o problema é maior do que parece, e precisamos levá-lo aos orientadores”, conta Isabela, da 6ª série. Os estudantes também conversam com quem presencia ou pratica o bullying. “O agressor se conscientiza mais rapidamente”, afirma Isabela.

Com pulseiras para identificação, os participantes percorrem a escola auxiliando nos casos em que percebem o isolamento. A estratégia está funcionando. “Observamos a redução de casos”, afirma Marina Schwarz, orientadora da escola. “Hoje temos mais acesso aos episódios de provocação, que normalmente ocorrem por trás das autoridades.”

Outro colégio que adotou medidas para coibir o bullying é o Soka, também de São Paulo. Há dois anos, a escola organiza palestras com advogados e psicólogos. “Conversamos com os pais sobre a responsabilidade deles em verificar os celulares dos filhos. É preciso identificar se há indícios de bullying nas conversas em grupos de redes sociais”, afirma o diretor James Jun Yamauti.

A instituição também capacitou orientadores para dar assistência a alunos que chegam de outras escolas. “Trabalhamos com jovens que tiveram dificuldade de adaptação para que tenham um entrosamento melhor”, afirma Edna Zeferino Menezes, assistente de orientação educacional. Na sexta-feira 27, a escola deu início à semana do “Preconceito Não”, com palestras sobre direitos da população negra, questões de gênero e indígenas e a trajetória da população LGBT. “A ideia é que os alunos reflitam sobre questões que interferem diretamente no bullying e identifiquem se já vivenciaram situações semelhantes”, explica Yamauti. “Os constrangimentos diminuíram bastante. Se uma brincadeira passa dos limites, deixa de ser brincadeira”, afirma Igor Seiji Ando Bomfim, 15 anos, que relata ter ajudado colegas que sofreram discriminação.

Descontrole

Em um momento no qual o tema vem à tona mais uma vez após o bullying ter sido apontado pela polícia como um dos fatores que levaram um adolescente de 14 anos a atirar contra colegas em uma escola de Goiânia na sexta-feira 20, é fundamental que iniciativas como essas deixem de ser fatos isolados.

Os colégios devem começar a colocar em prática ações determinadas pela lei contra os atos de perseguição, em vigor desde abril do ano passado. Uma delas é a produção de relatórios bimestrais com eventuais casos. “O bullying não é controlado pelas autoridades pela falta de dados, o que dificulta o diagnóstico da extensão do problema”, afirma advogada Ana Paula Siqueira Lazzareschi, especialista em direito digital. Outro aspecto importante é que, além do suporte à vítima, as instituições devem oferecer assistência ao agressor.

A ocorrência ainda diária das intimidações mostra, no entanto, um descompasso muito grande entre o que faz a maioria das escolas e o que manda a legislação. Casos extremos, como o de Goiânia, evidenciam, porém, a urgência na adoção de medidas efetivas. “O bullying não pode ter sua gravidade subestimada e ser tratado como uma brincadeira de criança”, diz a advogada Ana Paula. “A cultura da vingança ainda é muito presente  na sociedade e é esse desejo que está por trás do comportamento do agressor”, diz.

Terminando em tragédias ou não, casos de bullying têm efeitos indeléveis para a vítima, o agressor e toda a escola. “Ocasionam rachas nas salas de aula, colocam metade dos alunos contra o agressor e a outra parte a favor da vítima”, diz Ana Paula. Por isso, os programas de combate a práticas tão cruéis são fundamentais para reverter o aumento da intolerância em ambientes de aprendizado. Não de destruição.

Disposição para ajudar

Satisfação em ver os colegas enturmados é o que move as alunas Mariana Avelar e Isabela Cristante, do 9º e do 6º ano, respectivamente, do Bandeirantes, em São Paulo. Há um ano, elas foram escolhidas para fazer um treinamento de capacitação e saber como atuar em casos de bullying. Desde então, as estudantes percorrem os espaços da escola e sempre que percebem situações de isolamento ou provocação se aproximam da vítima ou dos que testemunharam a ação. “Saber que consegui ajudar é muito bom”, diz Isabela.

9 maneiras de combater o bullying: Dicas para crianças e responsáveis

O bullying acontece em quase todas as escolas e com crianças de todas as idades. Mas existem diretrizes simples e eficazes para que os alunos aprendam a se defender e a desviar os ataques. O bullying deve ser interrompido antes que ele realmente comece a acontecer.

A partir de pesquisas realizadas por especialistas em prevenção de bullying do Programa Norteamericano de Prevenção do Bullying, foi criado um manual com nove diretrizes que crianças, pais e professores podem usar para combater o bullying na escola e fora dela. Os problemas de violência e queda de rendimento escolar devido a casos de bullying foram significtivamente reduzidos nas escolas que utilizaram as 9 diretrizes do manual, que se encontram abaixo:

  • 1. Entenda  o que é o bullying

Crianças: O bullying acontece quando uma pessoa ou um grupo de pessoas faz ou diz algo com a intenção de machucá-lo fisicamente ou emocionalmente. Se você está sofrendo bullying, lembre-se: Não é culpa sua. Você pode sentir-se impotente quando outra criança te agride, mas você pode evitar esse assédio moral. Para isso você precisa se informar: entender bem o que é o bullying, aprender o que fazer e como agir para se defender.

Adultos Supervisores: A fim de combatê-lo, você precisa saber bem o que é e o que não é bullying. O bullying não é crianças sendo apenas crianças ou uma brincadeira mais bruta. Bullying é um ato intencional de agressão, persistente, de uma ou mais crianças para uma outra criança mais vulnerável em algum aspecto. Bullying é o abuso dos colegas - e a intimidação sofrida pode causar transtornos emocionais devastadores no desenvolvimento de quem é intimidado. Aprenda a reconhecer os sinais de bullying e converse com seu filho ou alunos sobre ele.

  • 2. Detecte o bullying em potencial antes que ele aconteça

Crianças: Em qual local da sua escola ou bairro você acha que as crianças mais implicam umas com as outras?  Na maioria das vezes isso acontece em áreas onde há poucos adultos. Tente evitar esses pontos críticos. Se existem pontos inevitáveis, como o ônibus ou o parque, e você começa a se sentir ameaçado, se posicione próximo a um adulto. Apenas o fato de você estar perto de um adulto reduz as chances de você sofrer bullying. Além disso, mantenha sempre sua cabeça erguida ( evite andar olhando para baixo) e  fique com os olhos atentos. Se você estiver alerta, você terá mais chances de detectar uma situação de bullying antes que ela aconteça.

Adultos Supervisores: “Se você é responsável por supervisionar crianças brincando, nunca fique em pé perto da porta, você deve estar no meio das crianças”, orienta o instrutor senior Patti Barnum, integrante da equipe de desenvolvimento das ações de prevenção ao bullying. "Esteja alerta e mantenha seus olhos e ouvidos abertos, mas também preste atenção especial na linguagem corporal. Se você ver duas crianças isoladas, uma com olhar assustado e a outra com atitute dominadora, você deve intervir o mais rapidamente possível. "

  • 3. Seja confiante

Crianças: Nas aulas de artes marciais, você é instruído a permanecer atento e a projetar confiança. Utilize essas mesmas habilidades no seu dia a dia: na maneira de andar, de ficar em pé e se apresentar na escola e em outros lugares. Se o seu corpo, rosto e atitude demonstrar confiança, você tem menos chance de sofrer bullying. Quando os seus ombros estão para trás, você parece mais forte. Quando seus olhos  estão olhando para frente em vez de para baixo, é menos provável que você seja surpreendido por qualquer tipo de ataque.

Pais: Reforce essas básicas instruções de artes marciais em casa, e suscite a autoconfiança em seu filho. Quando as crianças são escolhidas como alvos, é porque elas são vulneráveis de alguma forma e não são capazes de se defender - e o agressor sabe disso. Os pais precisam reforçar o comportamento confiante, elogiando e apoiando seus filhos quando eles estão mostrando habilidades de assertividade e liderança. Quando é dito para uma criança que ela está demonstrando confiança, ela valoriza e reforça essa confiança para si própria. Mesmo que seu filho ainda não esteja se sentindo confiante, explique  que em casos de  bullying ele deve agir de forma confiante para evitar um ataque, mesmo que ele esteja se sentindo assustado por dentro.

  • 4. Fique calmo

 Crianças: Quando você está sendo chamado de um nome ou empurrado por outra criança, sua reação natural é ficar chateado e usar uma voz assustada. Quando isso acontece, o valentão acha que ganhou. Em vez disso, pratique uma respiração profunda e não demonstre medo em seu rosto, em sua voz ou em sua linguagem corporal. A respiração profunda levará oxigênio para o seu cérebro, para que você possa se controlar e pensar. Se você manter a calma, a situação não pode piorar. Crianças que praticam o bullying não se interessam por vítimas que não pareçam assustadas. Não se esqueça disso. Então, aparente calma.

Pais: Quando alguém está prejudicando o seu filho, você naturalmente vai querer pular em defesa. Respire profundamente antes de pensar em enfrentar diretamente o jovem que está praticando bullying contra seu filho - isso só piora tudo por todos os lados. "Quando os pais ficam chateados e reagem perdendo a calma, eles ensinam a criança que essa é a maneira de responder ao bullying. Só que não é", diz Barnum. Assim que você descobrir o que está acontecendo, converse diretamente com o professor, e se for o caso solicite um encontro com os pais da criança  agressora. "Quanto mais calmo você se mantém em qualquer situação, melhor você pensa, e  melhor passa o valor da estratégia para seu filho." Pergunte diariamente ao seu filho se foi tudo bem na escola - esse apoio é fundamental.

  • 5. Seja amigável

Crianças: Mesmo que você se sinta tímido demais para se destacar na multidão da escola, é importante ter amigos. Além de ser muito importante para sua auto-estima, ter um bom grupo de amigos também pode ajudá-lo em situações de bullying. Quanto mais amigos você tiver, menor a probabilidade de você ser intimidado, especialmente se o “valentão” que te perturba descobrir que vai ter que encarar um grupo de pessoas para mexer com você.  Se você ainda estiver se sentindo nervoso sobre fazer amigos na escola, lembre-se que para ter amigos, você deve ser um bom amigo em primeiro lugar. Seja prestativo e parceiro.

  • 6. Seja Proativo: Fale

Crianças: Se você estiver sofrendo de bullying ou vendo o bullying acontecer na escola com alguém, você deve falar com um adulto. Saber a diferença entre fazer mexerico e reportar vai te dar as palavras e a confiança necessária para denunciar situações de bullying.

Fazer mexerico é quando você diz alguma coisa para um adulto  apenas para chamar a atenção para si mesmo, ou para colocar  alguém em apuros.

Reportar é quando você está em busca de proteção para si mesmo ou para outra pessoa. "Muitas vezes os professores são sufocados com as crianças dizendo-lhes todos os tipos de coisas, e os professores às vezes não respondem porque as abordagens acontecem como mexericos", diz o professor Greg Moody, um membro da equipe de prevenção do bullying. "O professor vai responder quando a criança entender a  diferença de linguagem e reportar com calma e seriedade uma situação real".

 Se acontecer de você não receber a resposta que espera do professor com quem falou, fale com outro adulto responsável, até se sentir seguro.

  •  7. Seja um Protetor

Crianças: Você pode na vida ter aprendido  habilidades pessoais necessárias para se defender contra qualquer tipo de bullying, mas não é toda criança que  tem a confiança que você tem. Então, se você ver uma criança sendo intimidada, sofrendo bullying, que tal pensar que é sua responsabilidade social proteger essa criança mais vulnerável?

Se o agressor estiver  apenas usando palavras, caminhe até o garoto que está sendo intimidado, pegue-o pelo braço, diga “ Vem comigo”, e  simplesmente ande para longe do agressor. Na grande maioria dos casos o episódio simplesmente termina aí. Quando você sentir que alguém pode estar em perigo físico, nesse caso corra e avise imediatamente a um adulto.

Sua confiança em uma situação de bullying pode ser todo o necessário para uma intervenção positiva. "Na nossas classes de Taekwondo nós fazemos as crianças praticarem a atitude da intervenção", disse o técnico Barnum. “ Estamos tentando educar crianças confiantes, que consigam perceber que têm habilidades pessoais que outras crianças não têm, e usar essas habilidades para ajudar outros."

  • 8. Mude a cultura

Professores: Evitar o bullying leva muito mais tempo e esforço do que ações pontuais. É preciso uma mensagem consistente e contínua na sala de aula, nos corredores e pátio da escola. As escolas devem procurar soluções e implantar ações contínuas na prevenção do bullying, e criar o "clima escolar seguro" para todos.

Pais: Você pode se sentir como a única pessoa que tem um filho que é regularmente intimidado - até você conhecer e conversar com outros pais. Muitas vezes você descobre que muitas crianças na mesma sala de aula estão sendo intimidadas pelo mesmo agressor.

Os pais do aluno agressor normalmente vivem em situações domésticas de agressividade, e esse aluno precisa receber atenção especial, para que conheça e se identifique com novas referências. Quanto as crianças que são intimidadas, que sofrem o bullying, converse com outros pais sobre isso. Todos juntos devem participar junto com a escola no fortalecimento das habilidades morais e sociais e seus filhos.

  • 9. Esteja preparado para se defender

Crianças: Quando o bullying cruza a linha verbal e moral e parte para a violência, e você tem medo de ser machucado, é importante saber como se defender. A regra nessa situação de defesa é apenas “fazer o suficiente”: corra e relate. Se “fazer o suficiente” nesse caso é correr, tudo bem. Corra para valer, indo imediatamente na direção de um adulto responsável.  Se o agressor estiver te  atacando de forma mais agressiva e você precisar atacar para se defender, faça, e em seguida corra e relate. Isso é um ato de coragem que será admirado por muitos.

 

Fonte: Por Fabíola Perez, em IstoÉ/IASEA/Municipios Baianos

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