31/10/2017

A febre amarela e o descaso com a saúde pública

 

O Ministério da Saúde esqueceu de combinar com os mosquitos transmissores da febre amarela o que ia declarar sobre a incidência dessa enfermidade no Brasil. Entre a nocividade do inseto e a impensada fala de autoridades está novamente o País – e, nesse momento, sobretudo o estado e a cidade de São Paulo – sob a mira de uma epidemia da doença que recidiva em nosso território após setenta e cinco anos de sua erradicação.

Há um mês, o ministro Ricardo Barros declarou que estava completamente eliminado o surto de febre amarela que se iniciara em dezembro de 2016 e deixara no Brasil o trágico registro de 777 casos relatados com 261 mortes. As provas maiores, mais triste, mais dolorosas e mais revoltantes de que aquilo que a Nação ouvira do ministro não correspondera à realidade puderam ser mensuradas na semana passada nas esticadas filas que se formaram em São Paulo, nas quais cada cidadão teve de esperar, em média, quatro horas para ser vacinado.

A razão de tanto medo da população e das providências imediatas do governo paulista e da administração municipal paulistana foi o aparecimento de macacos mortos no horto florestal e demais parques do município – pelo menos em um animal, até a quarta-feira 25, confirmou-se a infecção.

Na contramão do Ministério da Saúde, os governantes de São Paulo, estadual e municipal, priorizaram a gravidade da situação, mobilizaram-se na primeira hora para vacinar dois milhões e quinhentas mil pessoas, aumentaram diariamente o número de postos de atendimento, fecharam cerca vinte parques e não se acomodaram na conversa deletéria de que os moradores de locais urbanos não devem temer os surtos silvestres da moléstia.

Como não dá para acreditar que alguém creia que vírus saiba ler placas indicativas de cidades, e ficar, então, confinado no mato, é claro que quem errou foi o ministério a minimizar uma situação que continuava carecendo, no mínimo, de combate e controle. A responsabilidade pelo desconforto, pânico e infindáveis filas é, assim, de âmbito federal.

Diante do novo quadro da doença, o ministério declarou que de fato o recente surto se encerrara e que, agora, trata-se de um novo ciclo do vírus. Não é nada disso. Em um mês não viria novo ciclo. Mais: não dá para ficar atado à tese de que vírus silvestre não vai atacar na cidade, tanto que a OMS é clara na profilaxia: onde for encontrado um macaco morto há nas cercanias o vírus silvestre, transmitido pelos mosquitos Haemagogus e Sabeyhes. Se a vacinação for então mantida constantemente, inclusive nas áreas urbanas próximas, o vírus, que indubitavelmente contaminará tais regiões, será inofensivo (transmitido nos grandes centros pelo Aedes aegypti, o mesmo da dengue, da zika e da chikungunya).

Esse modelo preventivo, é claro, o Ministério da Saúde não colocou em prática, assim como não deu sequência na função de extermínio do inseto. Ministérios anteriores também falharam, uma vez que a política do desleixo é uma epidemia nesse setor. As campanhas de vacinação não obedecem periodicidade, as campanhas de informação são inconstantes. Isso dá no que dá, e lá vamos nós, outra vez, brigar com a febre amarela.

Falamos em desleixo na prevenção (o que é vital na saúde pública), e isso se traduz no retorno, além da febre amarela, de doenças antiquíssimas como tuberculose, gonorreia e sífilis. Para se ter uma ideia das contradições que ocorrem na atual gestão, no início desse ano, enquanto a pasta assegurava que a febre amarela estava erradicada, o seu próprio site registrava: “elevado potencial de disseminação em áreas urbanas infestadas por Aedes aegypti”.

Um dos principais fatores que têm levado ao fracasso os gestores federais de saúde pública, com raras exceções, possui origem tão antiga como a maioria das doenças. Trata-se da politização dos cargos no Ministério na Saúde, nisso incluído, geralmente, o do próprio ministro. Deveríamos obedecer o princípio de que ciência e política são duas vocações que devem guardar total independência uma da outra.

Para ficarmos no campo da febre amarela, lutou – e sofreu – pela defesa dessa tese, no início do século passado, o sanitarista Osvaldo Cruz. Em seu tempo, corria a crença de que o Aedes aegypti era filho de fenômeno climático, só aparecia quando as chuvas de verão despencavam sem trovoadas. Com o Rio de Janeiro, então capital do País, ardendo de febre amarela (além da varíola e da peste bubônica), contra tal ignorância levantou-se Osvaldo Cruz, propondo a vacinação obrigatória e a exterminação radical do mosquito, ainda que se tivesse de entrar com força policial nas residências.

Ocupava a Presidência da República no Palácio do Catete, na época, Rodrigues Alves, e seus adversários ideológicos politizaram a questão conclamando o povo a não se vacinar, provocando a chamada Revolta da Vacina. Osvaldo Cruz manteve-se firme em sua ação e no cargo de Diretor Geral de Saúde Pública, erradicou a doença, mas o fato é que, a partir daí e graças aos que incitaram a revolta, muitos políticos aprenderam, há mais de cem anos, que a área da saúde pública rende mais como troca de favores partidários do que no trabalho de zelo pela população. Essa tradição lamentavelmente se manteve. Osvaldo Cruz separava a política da ciência. Mas assim foi ele, só.

A febre amarela voltou e há um detalhe de calendário em nada irrelevante: estamos a dois meses do verão e a quatro do carnaval, festa que congrega, em um único bloco, muita gente, muita chuva, muita bebida, muito calor e… muito Aedes aegypti. Sem pessimismo, mas também sem o otimismo fácil que nos dissocia da realidade, a enfermidade vai inevitavelmente se alastrar.

Além disso, será mais uma ao lado da dengue, da zika e da chikungunya. Nesse exato momento seria imprescindível que o engenheiro Ricardo Barros ouvisse o médico Osvaldo Cruz, que nos ensinou que, na saúde pública, a informação precisa é “exigência do rigor científico”. Ele ouvirá? Para tal questão, só o futuro tem a resposta. Por enquanto, posso dizer: leitor, nesses tristes trópicos, cuide-se.

Febre amarela: sintomas, transmissão e prevenção

Sintomas

A febre amarela é uma doença infecciosa grave, causada por vírus e transmitida por vetores. Geralmente, quem contrai este vírus não chega a apresentar sintomas ou os mesmos são muito fracos. As primeiras manifestações da doença são repentinas: febre alta, calafrios, cansaço, dor de cabeça, dor muscular, náuseas e vômitos por cerca de três dias. A forma mais grave da doença é rara e costuma aparecer após um breve período de bem-estar (até dois dias), quando podem ocorrer insuficiências hepática e renal, icterícia (olhos e pele amarelados), manifestações hemorrágicas e cansaço intenso. A maioria dos infectados se recupera bem e adquire imunização permanente contra a febre amarela.

Transmissão

A febre amarela ocorre nas Américas do Sul e Central, além de em alguns países da África e é transmitida por mosquitos em áreas urbanas ou silvestres. Sua manifestação é idêntica em ambos os casos de transmissão, pois o vírus e a evolução clínica são os mesmos — a diferença está apenas nos transmissores. No ciclo silvestre, em áreas florestais, o vetor da febre amarela é principalmente o mosquito Haemagogus. Já no meio urbano, a transmissão se dá através do mosquito Aedes aegypti (o mesmo da dengue). A infecção acontece quando uma pessoa que nunca tenha contraído a febre amarela ou tomado a vacina contra ela circula em áreas florestais e é picada por um mosquito infectado. Ao contrair a doença, a pessoa pode se tornar fonte de infecção para o Aedes aegypti no meio urbano. Além do homem, a infecção pelo vírus também pode acometer outros vertebrados. Os macacos podem desenvolver a febre amarela silvestre de forma inaparente, mas ter a quantidade de vírus suficiente para infectar mosquitos. Uma pessoa não transmite a doença diretamente para outra.

Prevenção

Como a transmissão urbana da febre amarela só é possível através da picada de mosquitos Aedes aegypti, a prevenção da doença deve ser feita evitando sua disseminação. Os mosquitos criam-se na água e proliferam-se dentro dos domicílios e suas adjacências. Qualquer recipiente como caixas d'água, latas e pneus contendo água limpa são ambientes ideais para que a fêmea do mosquito ponha seus ovos, de onde nascerão larvas que, após desenvolverem-se na água, se tornarão novos mosquitos. Portanto, deve-se evitar o acúmulo de água parada em recipientes destampados. Para eliminar o mosquito adulto, em caso de epidemia de dengue ou febre amarela, deve-se fazer a aplicação de inseticida através do "fumacê”. Além disso, devem ser tomadas medidas de proteção individual, como a vacinação contra a febre amarela, especialmente para aqueles que moram ou vão viajar para áreas com indícios da doença. Outras medidas preventivas são o uso de repelente de insetos, mosquiteiros e roupas que cubram todo o corpo.

Tratamento para Febre Amarela

O tratamento para febre amarela deve ser orientado por um clínico geral e, normalmente, consiste apenas em aliviar os sintomas da doença, como febre, dor de cabeça, náuseas e vômitos.

Assim, é recomendado ficar em casa, de repouso, evitando ir a escola ou ao trabalho e investir na ingestão de 2 litros de água ou de água de coco por dia para evitar a desidratação provocada pelos vômitos.

O chá de jurubeba é uma boa estratégia natural para complementar o tratamento em casa porque ele atua sobre o fígado, purificando-o. Veja como preparar este remédio caseiro aqui.

Remédios para febre amarela

Como não existe um remédio específico para tratar a febre amarela, o médico pode indicar que o tratamento seja feito de acordo com os sintomas que o indivíduo apresenta. A ribavirina é um remédio que atua no fígado e tem bons resultados, trazendo a cura da doença, mas deve ser usada em forma de injeção e no Brasil só é encontrada em forma de comprimido, por isso geralmente não é indicada.

  • Os remédios que o médico pode recomendar para que a pessoa se recupere mais rápido incluem:

Remédios antipiréticos, como o Paracetamol, de 8 em 8 horas para diminuir a febre e a dor de cabeça;

Remédios analgésicos, como Ibuprofeno ou Nimesulida, para aliviar as dores musculares;

Protetores do estômago, como Cimetidina e Ompeprazol, para evitar gastrite, úlcera e diminuir risco de sangramento;

Remédio contra vômito, como Metoclopramida para controlar os vômitos.

Não são recomendados os remédios que contenham ácido acetilsalicílico porque podem causar hemorragias e causar a morte, assim como acontece em caso de dengue. Alguns remédios que são contraindicados em caso de febre amarela são AAS, aspirina, Doril e Calamdor. Veja outros que também não podem ser usados contra febre amarela.

Nos casos mais graves, o tratamento deve ser feito em internamento no hospital com soro e remédios na veia, assim como oxigênio para evitar complicações graves, como hemorragias ou desidratação, que podem colocar em risco a vida do paciente.

Sinais de melhora

Os sinais de melhora da febre amarela surgem 2 a 3 dias após o início do tratamento e incluem diminuição da febre, alívio das dores musculares e da dor de cabeça, assim como redução do número de vômitos.

Sinais de piora

Os sinais de piora da febre amarela estão relacionados com a desidratação e, por isso, incluem aumento do número de vômitos, diminuição da quantidade de urina, cansaço excessivo e apatia. Nestes casos, é recomendado ir ao pronto-socorro para iniciar o tratamento adequado.

Complicações

As complicações afetam de 5 a 10% dos pacientes com febre amarela e neste caso o tratamento deve ser feito com internamento na UTI. Podem ser sinais de complicações a diminuição da urina, apatia, prostração, vômito com sangue e insuficiência renal, por exemplo. Quando o paciente chega neste estado deve ser levado para o hospital para que fique internado porque pode ser necessário fazer hemodiálise ou ser intubado, por exemplo.

 

Fonte: Por Antonio Carlos Prado, IstoÉ/Bio Manguinhos/Tua Saúde/Municipios Baianos

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