01/11/2017

As igrejas católicas que se tornaram protestantes em segredo

 

Em outubro de 1517 Lutero reuniu as 95 teses contra o catolicismo na igreja de Wittenberg na Alemanha, um fato que mudou o curso da História e que completa agora 500 anos. A partir desse momento a Igreja cristã se divide entre o mundo católico e o protestante que se enfrentarão em sanguinárias guerras de religião. A Espanha, o poderoso império católico da época, se transformou o símbolo da reação da Igreja de Roma sintetizada na Contrarreforma, iniciada no Concílio de Trento. O que pouco se sabe, no entanto, é que o império que assumiu a tarefa de reavivar a fé católica no mundo, também teve seus "hereges". E até mesmo uma Bíblia clandestina protestante em castelhano circulou pela Espanha da época.

Valladolid e Sevilha foram dois dos grandes focos de surgimento do protestantismo, primeiro com a curiosidade pelos livros de Erasmo de Roterdã, mais tarde incluídos no Índice de livros proibidos, e depois com o seguimento clandestino das doutrinas de Lutero e Calvino. As duas cidades eram à época as mais importantes do império. Valladolid era considerada a capital política, já que Madri ainda não havia sido proclamada como sede permanente da corte. E Sevilha podia ser definida como a capital econômica por controlar o monopólio comercial do Novo Mundo e ser a porta de entrada das riquezas das Índias. As duas cidades de ambiente cosmopolita, abertas aos novos horizontes e à reformulação do mundo conhecido, foram contagiadas pela febre reformista. O pensamento reformista espanhol foi muito influenciado por Erasmo, como afirmou Marcel Bataillon e mais tarde José Luis Abellán. Essa Espanha da Reforma desapareceu nas fogueiras do Santo Oficio como se nunca tivesse existido.

Esse protestantismo muito marcado pelo humanismo cristão contou com figuras como os irmãos Valdés, Francisco de Enzinas e o doutor Cazalla, que impulsiona o foco protestante em Valladolid. Em Sevilha Constantino Ponce de la Fuente, cônego magistral da Catedral e anteriormente capelão de Carlos V, pregava em uma igreja secreta criada na cidade e que recebia a presença de personagens da nobreza. Mas a igreja clandestina foi descoberta e Ponce de la Fuente foi preso com outros. Morreu na prisão do castelo de São Jorge em Triana, sede do Santo Ofício, mas seus ossos foram desenterrados e queimados em um dos autos de fé realizados na cidade para extirpar a heresia protestante.

Em Sevilha o episódio reformista teve participantes muito singulares, já que todo um monastério católico esteve envolvido, o de San Isidoro del Campo, que praticou a Reforma em segredo. Existiu até um comércio de livros proibidos que entravam em Sevilha através de um tropeiro chamado Julianillo Hernández, que escondia os exemplares no fundo de odres de vinho que trazia de Borgonha. Um episódio herético que quatro anos mais tarde culminou em uma empreitada notável: a tradução completa pela primeira vez ao castelhano dos Livros Sagrados com a publicação da Bíblia do Urso, um texto que ainda hoje os protestantes de língua castelhana continuam utilizando.

A Bíblia do Urso, publicada em Basileia no ano de 1569, é forjada nessa Espanha convulsionada, mas profundamente influenciada pelas novas leituras, pela revolução que significou o humanismo cristão e pela consciência de que a luz do Renascimento deveria entrar nas doutrinas católicas, muito desacreditadas pelos casos de corrupção e o negócio das indulgências. Casiodoro de Reina é o grande protagonista dessa revolução espanhola. Casiodoro é o monge da Ordem de São Jerônimo que inicia a tradução da Bíblia no monastério sevilhano, apesar da Igreja Católica proibir a tradução às línguas românica e vulgares tal como fazia a Reforma protestante. Se Lutero traduziu a Bíblia ao alemão, os monges sevilhanos decidiram realizar o mesmo projeto na Espanha.

Não puderam

A Inquisição descobriu a heresia praticada no monastério de San Isidoro del Campo em Santiponce, em um monumental convento que ainda hoje se levanta diante das ruínas romanas de Itálica. Alguns monges conseguiram fugir, entre eles Casiodoro de Reina, mas outros foram presos no castelo de São Jorge para serem queimados em diversos autos de fé que acabaram com a semente da heresia protestante na Espanha.

Casiodoro de Reina e outros colegas – como Cipriano de Valera e Antonio del Corro, um dos primeiros britanistas – se estabeleceram na Europa reformada. Mais tarde, nessa Europa protestante, Casiodoro de Reina e Cipriano de Valera protagonizam a grande aventura da Reforma espanhola com a versão calvinista da Bíblia do Urso. Uma história que remete não só à religião, mas a um episódio da História da Cultura europeia. A história de espanhóis esquecidos e perseguidos por seu humanismo heterodoxo, por pensarem e se atreverem a ler o proibido e seguir o espírito de seu tempo: o Renascimento clássico na época das intolerâncias religiosas.

“Por que os evangélicos só pensam em sexo?” Por  Magali Nascimento Cunha

Eis uma pergunta que ouço com muita frequência. Ela certamente deriva dos episódios ultimamente retratados pelas mídias a envolver evangélicos: ações parlamentares por retrocessos na legislação sobre a sexualidade, manifestações públicas contra expressões sobre sexualidade humana em teatros e museus, apelos por boicotes à TV Globo e à revista Veja, classificadas como “comunistas” e “gayzistas” (?!), vociferações contra ativistas culturais, feministas ou LGBTIs por sua oposição às formas de censura e à negação dos direitos humanos sexuais.

Preocupa que boa parte do conteúdo crítico divulgado por esses grupos não é verdadeira (informações vagas ou falsas e sem referência) e é, de forma iníqua, usada para instrumentalizar a boa-fé de evangélicos que se tornam suas multiplicadoras.

Claro que a crítica “só pensa em sexo” também resulta do fato de que outros fatos que representam verdadeiros riscos à vida e à dignidade humana não são consideradas por esses religiosos. O número recorde de assassinatos de crianças e adolescentes no Brasil não provoca reações no mesmo nível das listadas acima, muito menos as estatísticas a respeito dos altos índices de violência doméstica, estupro e feminicídio. Indignação ainda menor é identificada com os assassinatos e espancamentos de LGBTIs, por conta de intolerância. Para listar apenas algumas.

Vale aqui enfatizar que outros cristãos também assumem as mesmas posturas (falo dos católicos romanos, que também têm suas lideranças midiáticas e seus parlamentares), bem como os não religiosos. Por isso, é sempre bom lembrar que qualquer tema ligado à sexualidade humana desperta paixões, particularmente quando se tem um modo de vida construído sob os princípios patriarcais (domínio do masculino) de forma tão intensa. As bases culturais cristãs ocidentais estabeleceram o corpo e o ato sexual como elementos cuja finalidade exclusiva seria a procriação. E os filhos seriam a garantia de existência da família e sua herança.

A dimensão da corporeidade e da sexualidade relacionada à realização plena do prazer é descartada e classificada como perversão e desvio do objetivo maior. O resultado é a submissão da mulher ao poder do homem (pai, marido, irmãos, tios, filhos), a repressão do corpo e o rechaço da homoafetividade.

Esse processo milenar experimenta, porém, históricas pressões por mudança. Já no século XVIII tem início, com as noções humanistas de cidadania, igualdade, liberdade, um movimento de transformação na compreensão de família e no direito de família, com a inserção da dimensão da afetividade.

Os movimentos feministas dos séculos XIX e XX consolidam esse processo, auxiliados, entre vários elementos, pela psicanálise (com Sigmund Freud), pela desnaturalização do controle/poder masculino e jurídico sobre o corpo (com Michel Foucault) e pelo desenvolvimento da biociência (separação da sexualidade da reprodução humana, com a pílula anticoncepcional).

Daí foi um passo para a consolidação da noção de gênero, para além da biologia, e da concepção de homoafetividade, e a busca por direitos sexuais, que têm marcado o século XXI em todos os continentes.

No Brasil, essas transformações manifestaram-se muito recentemente. Basta recordar que o direito ao voto foi conquistado pelas mulheres apenas em 1932 (há menos de um século) e que o divórcio direto foi aprovado somente em 1977 (diante de forte oposição da Igreja Católica). E apenas na passagem dos anos 1990 para os 2000 é que emergiram políticas governamentais, leis e decisões jurídicas mais contundentes para a garantia de direitos sexuais e para o enfrentamento da violência de gênero.

O que experimentamos no tempo presente é uma reação a esses avanços da parte de grupos conservadores, defensores da cultura patriarcal de controle dos corpos e da negação da ampliação de direitos civis sexuais. Mas não só: reação também aos direitos de crianças e adolescentes, às ações afirmativas (cotas, por exemplo) e às políticas de inclusão social e cidadania. Tudo dentro de um contexto de fortalecimento de posturas conservadoras na esfera pública brasileira, observado nos recentes movimentos pró-impeachment de Dilma Rousseff, de grupos que demandam intervenção militar, o livre uso de armas mortíferas e explicitam apoio a políticos portadores de discursos fascistas.

Nessa articulação há o alinhamento de grupos religiosos. Eles tornam-se personagens de um processo sem precedentes na vida do País, com plataformas baseadas na retórica do terror (“querem acabar com a família”), pelo impedimento da garantia de direitos sexuais e reprodutivos e das ações de superação da violência de gênero.

O que se desenha, como vemos, pouco ou nada tem a ver com a defesa das famílias. Acaba por ser uma armadilha (instrumentalização) de grupos políticos para quem professa uma fé. Os segmentos da sociedade civil, incluídos os inúmeros evangélicos não identificados com este projeto, e que defendem um Estado laico e socialmente justo, têm grandes tarefas pela frente.

 

Fonte: El País/CartaCapital/Municipios Baianos

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