07/11/2017

Estudos mostram quando o hospital faz o doente adoecer

 

A gente já abre este texto dizendo: "Que (insira a sua divindade aqui) o livre, mas..." Verdade seja dita: é bem provável que, em algum momento da vida, você ou alguém ligado ao seu cotidiano pare no hospital. Por internamento mesmo. E aí, além da doença em si, outro problema pode dar as caras: a desnutrição.

A chamada desnutrição ‘hospitalar’ tem sido alvo de estudos nos últimos anos e, agora, uma revisão inédita de 49 estudos produzidos em 19 países foi publicada na última edição da revista espanhola Nutrición Hospitalaria. A pesquisa foi liderada pelo gastroenterologista Dan L. Waitzberg, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Residência Médica de Nutrologia do Hospital das Clínicas, e apresentada pela primeira vez no Brasil no XXII Congresso Brasileiro de Nutrição Parenteral e Enteral, que aconteceu no Bahia Othon Palace, em Salvador, no mês passado.

“Estar no hospital é o melhor lugar para você desnutrir. Quer emagrecer um pouco?”, provoca o professor. De fato, é bem isso: em 2016, a desnutrição atingiu de 40% a 60% dos pacientes que dão entrada em hospitais da América Latina. E esse quadro tem sido o mesmo há anos. Em 1996, quando Waitzberg conduziu o Inquérito Brasileiro de Avaliação Nutricional Hospitalar (Ibranutri), que avaliou quatro mil pacientes em 14 cidades brasileiras, os resultados foram similares.

Tipos

De acordo com ele, há três categorias de desnutrição, que é a falta de nutrientes essenciais para o corpo humano. A primeira é a desnutrição ‘primária’ – quando alguém que não tem condições de comprar alimentos chega ao hospital. “Então, ele procura um hospital público, mas, economicamente, ele está numa linha muito frágil e acaba comendo mais carboidratos. Não come vitaminas e minerais. Muitas vezes, é até um indivíduo obeso, mas é um desnutrido porque a massa magra é muito reduzida”.

A chamada desnutrição ‘secundária’ é causada pela  doença que levou o paciente ao hospital, a exemplo de câncer, infecções, doenças inflamatórias, renais, hepáticas e cardíacas. Há, ainda, a desnutrição terciária, que é quando a pessoa fica desnutrida durante a estadia no hospital.

“São várias razões. Você tem jejuns que as pessoas ficam para fazer exames que, às vezes, não são feitos, e o jejum fica cada vez mais prolongado; tem a reação a certos tratamentos, que levam a náuseas e vômitos; tem a possibilidade de não gostar da comida do hospital e os hábitos alimentares que podem ser diferentes da comida servida lá”, explica Waitzberg.

No Hospital das Clínicas de São Paulo, 30% dos pacientes que dão entrada na unidade já chegam com um quadro de desnutrição. À medida que o tempo de internação aumenta, o percentual de desnutridos cresce também. Entre os que ficam uma semana, a taxa chega a 50%. Quem passa mais do que isso chega a 60%, de acordo com o médico.

Além disso, de acordo com o estudo, os pacientes oncológicos são os que mais apresentam desnutrição – o índice chega a 66,3%. Logo em seguida, vêm os pacientes com mais de 60 anos (52,8%) e pacientes com infecções (61,4%).

No estado

Na Bahia, as coisas não são diferentes, de acordo com o oncologista Robson Moura, presidente da Associação Bahiana de Medicina (ABM). “Quanto mais o doente tem uma doença avançada, maior a desnutrição. E você tem um estado mais pobre, tem menos acesso ao tratamento de saúde e tem uma dificuldade maior”.

O caso de Feira de Santana, no Centro-Norte do estado, é emblemático. No Hospital Geral Clériston Andrade, cerca de 50% das pessoas que dão entrada já têm desnutrição. Nos hospitais privados, o percentual de pacientes que chegam desnutridos cai para a metade: vai para 25%, segundo o cirurgião e nutrólogo Joaquim Paulo, coordenador das Equipes Multidisciplinares de Terapia Nutricional (EMTN) do Clériston Andrade e dos hospitais privados Emec, São Matheus e Incardio.

“Hoje mesmo vi os pacientes no Clériston e, dos 30, 10 eram jovens vítimas de traumatismo cranioencefálico por conta de acidente de moto e um por bicicleta. Em geral, metade é por queda de modo e atropelamento. São jovens que já não são bem nutridos e entra cirurgia, entra dieta por cinco dias e ele some. O grande desafio é fazer terapia nutricional precoce, com equipe adequada”, dizia ele, no dia que conversou com o CORREIO. 

Mesmo assim, ele acredita que o quadro hoje é melhor do que há 21 anos, quando o Ibranutri foi produzido. Naquela época, diz, a situação era “caótica”. Os pacientes ficam mais tempo no hospital – a revisão de estudos indicou que os custos com um paciente desnutrido podem aumentar até 308,9%, se comparados aos pacientes bem nutridos – por atuar em funções hormonais e de defesa.

“Um paciente desnutrido tem menos produção de linfócitos, reage pior a uma infecção, reage mal a uma antibioticoterapia. O que não podemos fazer hoje é baixar a guarda. Ainda existem profissionais que fazem uma cirurgia e exigem que o paciente fique dias de jejum desnecessariamente. A gente vai atrás e conversa com esse profissional”.

Terapia nutricional

A solução para evitar a desnutrição hospitalar, de acordo com o estudo do professor Dan L. Waitzberg envolve diferentes aspectos: é importante uma avaliação nutricional nos hospitais para que a condição seja detectada logo no início e dar início a uma suplementação oral, se for necessário – a chamada terapia nutricional, que é escolher os melhores alimentos ou forma de nutrir o paciente. “A nossa primeira opção é sempre comer, mas se o paciente não consegue, o suplemento é a segunda opção”, diz o médico.

Nem todos os pacientes vão precisar da terapia nutricional. “Um paciente com apendicite que vai rer alta em dois dias provavelmente não vai precisar. Se for alguém que tem 50 kg e mede 1,90 cm e fizer a mesma cirurgia, a coisa pode mudar porque a reação à cirurgia vai ser pior”, diz o médico Joaquim Paulo.

De acordo com a fonoaudióloga Thais Titonel, coordenadora da EMTN do Hospital Geral Roberto Santos, nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), por exemplo, todos os pacientes costumam precisar da terapia nutricional.

“Na avaliação, são identificados os pacientes que têm risco e os que não têm, que são reavaliados a cada semana. A gente trabalha com educação permanente, para capacitar todos os profissionais. Tem que envolver os enfermeiros, falar sobre a importância de colocar certo os acessos, de cumprir o que diz o nutricionista e o médico tem que estar presente. Tudo precisa ser feito em equipe para dar certo”.

  • Três mitos sobre a desnutrição

Existem alimentos que ‘desnutrem’?

Não. A terapia nutricional é individual e cada paciente tem que ser avaliado. Até mesmo os hábitos alimentares dele devem ser observados. Se está usando o alimento na sonda, precisa garantir que o alimento está sendo colocado, bem como o volume. No caso de pacientes que podem comer pela via oral, a variedade de alimentos é bem-vinda. Mas se um paciente não puder receber fibras, por exemplo, um pão integral poderia ser um alimento prejudicial.

Soro engorda?

Não. O soro é utilizado para hidratar os pacientes, não para alimentar. Não faz sentido que o peso do paciente aumente, a menos que se trate de alguém com retenção de líquidos ou que não consiga urinar.

Desidratação é um tipo de desnutrição?

Não. A desidratação é a falta de líquidos, enquanto a desnutrição é a falta de nutrientes. Mesmo assim, é um problema sério que, se não tratado, também pode levar a complicações.

Centro de Pesquisas do Rio testa a glicose para detectar a diabetes

O CCBR Brasil Centro de Pesquisas Clínicas inicia, na próxima segunda-feira (6), uma campanha para identificar possíveis portadores de diabetes. Moradores do Rio de Janeiro poderão realizar exames gratuitamente para descobrir se seu nível de glicose na corrente sanguínea ultrapassou ou não o limite aceitável: uma pessoa tem diabetes tipo 2 quando dois exames em jejum estão acima de 126 mg/dL.

A campanha do CCBR acontece no mês em que são realizadas mundialmente diversas ações de prevenção à doença, já que a Organização Mundial de Saúde aponta a diabetes e as doenças cardiovasculares como as principais causas de morte no mundo. No Brasil, a diabetes tipo 2 é uma das doenças que mais preocupam as autoridades de saúde porque ela cresce de forma preocupante segundo os médicos e autoridades sanitárias.

Pesquisa de abril do Ministério da Saúde mostra crescimento de 62% entre 2006 e 2016. E o Rio de Janeiro é a cidade com a maior prevalência da doença. “Essa é uma doença silenciosa, que muitas vezes só é diagnosticada se a pessoa faz check-up e exames de rotina. E sabemos que 30% da população nunca fez um exame de sangue na vida”, afirma Luiz Augusto Russo, endocrinologista e Diretor do CCBR.

Além dos exames gratuitos, o CCBR também irá realizar uma palestra de esclarecimento sobre a doença no dia 11 de novembro, às 8h, com o objetivo de dar informações sobre a diabetes e seu tratamento.

O CCBR é um centro de pesquisa que realiza testes com voluntários para medicamentos de diversas doenças. E, nesse momento, participa de um experimento global de um novo remédio para pacientes que acabaram de identificar a diabetes. Além de ajudar no diagnóstico precoce da doença, o centro também pretende selecionar novos voluntários para testar o remédio. Trata-se de um teste clínico que já aprovado pelo FDA (agência reguladora de medicamento dos Estados Unidos) e pelas autoridades brasileiras (Ministério da Saúde e Anvisa) e que está sendo realizado aqui no Brasil e na Coréia do Sul. “É um medicamento de última geração e que já está em uma das últimas fases de testes. Poderá ajudar muitos pacientes a ter uma vida melhor, já que essa é uma doença crônica que precisa ser controlada sempre”, explica Russo.

A diabetes tipo 2 é uma doença que não tem cura e, uma vez diagnosticada, tem que ser tratada pelo resto da vida do doente. Ela tem mais prevalência em mulheres, em obesos e em pessoas com baixa escolaridade. Está associada com fatores genéticos e com sedentarismo. Mulheres e homens adultos têm mais chances de ter a doença. Se não tratada, a doença após alguns anos pode levar à cegueira, à insuficiência renal e a problemas coronarianos. “É uma doença que tem que ser parada antes que ela faça um dano maior ao paciente”, explica Russo.

O teste de glicose é bem simples. Basta um pequeno furo no dedo, e o sangue recolhido colocado num pequeno aparelho que mede a glicose quase que imediatamente. Para fazer o exame gratuito, o interessado deve marcar pelo telefone 25277979 (CCBR). Os testes serão realizados entre o dia 6 e 30 de novembro. A palestra acontece no dia 11 de novembro no auditório do CCBR (rua Mena Barreto, 33), e a inscrição também é gratuita com vagas limitadas.

 

Fonte: por Thais Titonel, coordenadora da Eequipe Multidisciplinar de Terapia Nutricional do Hospital Geral Roberto Santos/Jornal do Brasil/Municipios Baianos

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