08/11/2017

Igreja deformada, sempre passível a se reformar

 

Diante da aurora positiva que embriagou das festividades dos 500 anos da Reforma Luterana, comemorada no dia 31 de outubro deste 2017, muito se disse sobre o valoroso evento. No entanto, convém sair um pouco do espírito utópico-carnavalesco que tomou conta das festividades e olhar mais crítico nas igrejas/memória que se tem no Brasil. Antes de qualquer comemoração, acredito ser importante lembrar das práticas de violências, do racismo, da xenofobia e da homofobia que levam sua grande maioria de igrejas que, no hoje, afirmam-se no espectro da Reforma. Suas violências fundamentalistas e extrermismos alastram centenas de vítimas das demais religiões (principalmente as afro) e nas grandes cidades, seus templos anestesiam ainda mais os clamores dos pobres. Por isso, como teólogo submerso nessa tradição protestante-evangélico brasileira, levantei abaixo vinte elementos antidemocráticos que mereceriam ao menos ser pensados no meio de tão glamorosa festividade. Assim, destaco que:

  • Em 500 anos da Reforma, não se fez uma igreja qualquer!

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez uma igreja que não estivesse 100% preocupada com suas doutrinas;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se construiu uma igreja que pedisse perdão pelo massacre, em conjunto com os governantes, das vítimas das Revoltas Camponesas no âmbito das Reformas dos seiscentos;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez preocupada com os “pequeninos do Reino”, mas sempre com a individualização desarticuladora da fé;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se faz uma igreja que lute pela igualdade de gênero em todas as esferas;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez nenhuma igreja sem preocupação com o Estado e/ou estados nacionais. Ao contrário, o que se percebe são igrejas que se aliam aos governantes e às elites;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez qualquer igreja sem preocupação com os dízimos, ofertas, cartões e cheques no geral;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez qualquer igreja cuja liderança não se preocupasse em se autoproclamar ante aos seus consumidores de fé;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez qualquer igreja preocupada com os que sofrem perseguição de estados, impérios, como fora morto o próprio Jesus, em crucificação pelos romanos;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez qualquer igreja preocupada – seja no Brasil ou na América Latina ou na Europa – com a crítica aos massacres nas colônias contra os povos dos continentes americano, africano e asiático;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez uma igreja preocupada com a questão da moradia, que obriga milhares de pessoas a acampar na luta pelas reformas Agrária e Urbana;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez uma igreja realmente preocupada com os moradores de rua;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez uma igreja realmente preocupada com nossa população carcerária, sem interesse evangelístico;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se vê uma igreja preocupada com a morte de Amarildo (presente!) e outros/outras vitimas das UPPs no Rio de Janeiro;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se vê uma igreja preocupada com a carceragem e a situação de Rafael Braga (entre nós!);

       •     Em 500 anos da Reforma, não se vê uma igreja em promover a memória de Cícero Guedes (presente!), Regina dos Santos (presente!) e outros (presente! presente! presente!), vítimas do latifúndio escravocrata brasileiro;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se produziu uma igreja realmente preocupada com a violência contra a mulher e engajada contra o feminicídio;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se inventou uma igreja realmente preocupada em acolher integralmente a comunidade LGBTQI;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se testemunhou uma igreja preocupada com a crítica do capital e do imperialismo;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se fez uma igreja que fez autocrítica dos racismos cometidos contra negros, negras, índios e índias;

       •     Em 500 anos da Reforma, não se construiu uma igreja que não se fale de missão e evangelização, chamariz indecoroso de justificativas imperialistas e colonizadoras;

Por tudo isso, em 500 anos da Reforma, infelizmente, não se desenvolveu uma igreja profundamente ligada ao rito democrático. Uma Reforma que tivesse como verdadeira “missão” a luta contínua por justiça sem qualquer vínculo com os aparatos jurídicos e governamentais.

Agora, no contexto das comemorações pelos 500 anos da Reforma, escutei alguns entusiastas citando o dito do teólogo Gilbertus Voet, ao arvorarem por uma “Igreja reformada sempre se reformando” (“Ecclesia Reformata et Semper Reformada est”). Quando ouvi a citação fui tomado de um arrepio completo. Sim, porque me lembrei das violências recentes contra os terreiros e do histórico vínculo das igrejas com as ditaduras na América Latina. Ocorre que eu, todo protestante, queria algo mais. Sim, (até) reconheço que Reforma Luterana “funcionou” muito bem ao ajustar-se ao Antigo Regime em favor dos governantes, das elites, das burguesias e de seus cleros – por definição, imundos. Assim, por tudo, creio que uma Reforma seja muito pouco. O que se quer não se tem nome. Por isso, o pedido, só por hoje... sem quaisquer citações às Reformas.

A Igreja de Lutero na América Latina, 500 anos após a Reforma

protestantismo na América Latina vai além da imigração alemã. Ele é bastante diversificado e inclui muitas igrejas e missões diferentes. Ao mesmo tempo, o continente é o mais forte bastião do catolicismo. De quase 1,3 bilhão de católicos no mundo, cerca de metade vive na América Latina. Por causa disso, o maior desafio para o protestantismo é ser percebido. A celebração dos 500 anos da Reforma em 2017 é uma ótima oportunidade para isso.

A maioria das igrejas luteranas é ligada à Federação Luterana Mundial (FLM). "Na América Latina, temos cerca de 850 mil membros, em 17 igrejas afiliadas de 15 países", disse a pastora Patricia Cuyatti à DW. Ela lidera a seção da América Latina e Caribe na FLM. Muitas igrejas membros na região têm uma longa tradição. As mais antigas, na Guiana e no Suriname, existem há 275 anos.

Protestantismo fragmentado

Além das igrejas evangélicas de origem alemã, há também as que vieram de outros países europeus ou dos Estados Unidos, como o Sínodo de Missouri. "Ambas as ramificações fundaram suas próprias igrejas e nem sempre estavam em contato, o que explica a fragmentação do protestantismo na América Latina", esclarece o teólogo e cientista político Daniel Lenski.

As comunidades com maior número de fiéis se concentram nas regiões onde foi mais forte a imigração dos países de língua alemã: na Argentina, com a Igreja Evangélica do Rio da Prata, e no Brasil, com a Igreja Evangélica de Confissão Luterana (IECLB).

Nos últimos anos, Cuyatti vem observando também uma disseminação crescente em outros países: "Existe uma forte presença evangélica na América Central, especialmente na Nicarágua, em El Salvador e na Costa Rica, e com um forte envolvimento no processo de paz e no equilíbrio social." A pastora salienta ainda a contribuição ecumênica das igrejas protestantes na Colômbia e no Peru para o Ano da Reforma e o engajamento em prol da população indígena na Bolívia.

Nem todas as igrejas protestantes estão ligadas à Federação Mundial. Um exemplo é a Igreja Evangélica Luterana da Argentina, fundada no final do século 19 por imigrantes teuto-russos da região do Volga.

Isolamento e ideologia

No início, as comunidades religiosas dos imigrantes eram bastante fechadas. "Com muito zelo, os imigrantes procuraram preservar sua cultura, sua fé e seus costumes, e foi difícil se abrir a quem não fosse de origem alemã", observa o pastor argentino Carlos Nagel, filho de um alemão e uma lituana que emigraram para a Argentina nos anos 1920.

"Assim como o idioma, a religião tem um papel importante na preservação da identidade", explica Lenski, cujo trabalho de doutorado é sobre a história da Igreja Protestante no Chile. "Para muitas comunidades, divulgar o evangelho e preservar a cultura alemã eram a mesma coisa", diz.

Isso se refletiu também na época do regime nazista na Alemanha: "Na Argentina, no Brasil e no Chile, muitos pastores se opuseram ao nazismo, mas não foi a maioria", explica o teólogo.

Também a relação com as ditaduras militares latino-americanas revelaram discórdias dos evangélicos. Para Lenski, essa disparidade já havia sido estabelecida pelo próprio pai da Reforma.

"Lutero tinha opiniões bastante diferentes e contraditórias sobre a situação política de seu tempo. E as igrejas evangélicas interpretaram essas declarações de forma muito variada. Algumas achavam que era dever da Igreja ajudar as vítimas da opressão. Outras preferiram se concentrar nos serviços religiosos", conta Lenski.

"Uma razão importante para a divisão da Igreja protestante nos anos 1970 no Chile foi a disputa sobre a atitude em relação aos direitos humanos e também a falta de consenso sobre como a própria Igreja se via", explica o teólogo.

Enquanto isso, a Igreja Evangélica de El Salvador, liderada pelo carismático bispo Medardo Gómez, trilhou um caminho muito diferente: apesar da forte pressão da ditadura naquela época, ela insistiu firmemente nos direitos humanos, servindo de modelo para outras Igrejas.

Embora ainda modesta, a Igreja Protestante representa uma alternativa real à onipresente hegemonia da Igreja Católica na América Latina, de um lado, e às inúmeras igrejas pentecostais, do outro, aponta Lenski.

"A Igreja Evangélica é uma opção para os cristãos à procura de pastores bem formados. É uma alternativa intelectual à Igreja Católica, e oferece uma teologia mais sofisticada que a dos pentecostais", analisa.

Engajamento social

As igrejas protestantes da América Latina apoiam uma série de atividades, que vão desde o setor social, passando pela política ambiental, direitos das mulheres, redução da pobreza, prevenção da violência e plataformas ecumênicas. Isso a torna atraente para quem busca um cristianismo participativo.

Os preparativos para o Ano do Jubileu da Reforma começaram há vários anos. "Um dos lemas do aniversário é 'a salvação não está à venda'", conta Lenski, referindo-se aos movimentos pentecostais que clamam por ricas doações em seus cultos.

"A crença central da fé luterana é completamente o oposto: Deus te ama, sem olhar para o que você é ou o que você tem. Considerando a pobreza no mundo e a vontade de algumas pessoas de enriquecer usando a religião, esta mensagem hoje é tão relevante quanto no século 16", conclui o teólogo.

 

Fonte: Por Fábio Py, em Caros Amigos/G1/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!