09/11/2017

Após um ano de Trump, Democratas e Socialistas dominam eleições nos EUA

 

Um advogado de direitos civis que tem especial prazer em processar a polícia é o novo promotor da Filadélfia. Um socialista democrático arrasou um Republicano em exercício na Virgínia. Uma mulher negra que processou um policial branco por atirar em um adolescente negro foi reeleita como procuradora. Três meses depois dos eventos de Charlottesville, um vice-governador negro foi eleito na Virgínia. Uma mulher trans dedicada a combater problemas de trânsito desbancou um tradicional reacionário que se preocupava com banheiros. Um reformador da justiça penal deu aos Democratas a maioria no Senado estadual de Washington. Na Virgínia, um saco molhado de serragem derrotou um lobista conhecido pelas declarações racistas, com uma impressionante diferença de nove pontos. Os eleitores do Maine ampliaram o sistema Medicaid. Posições há muito tempo detidas por Republicanos na Georgia mudaram de lado numa eleição especial que ocorre em caso de vacância do cargo. New Jersey, cansada de Chris Christie, elegeu um Democrata por ampla maioria.

O Partido Democrata, diante do que parecia aos especialistas uma diferença insuperável de 32 vagas, está prestes a tomar de volta a Câmara da Virgínia, um resultado que agora depende de recontagens.

Nas eleições especiais realizadas desde novembro de 2016, os Democratas tiveram vitórias arrasadoras nas pesquisas, mas os Republicanos desdenharam de cada cadeira que mudou de lado, considerando todas como eventos isolados, e não, evidências de um padrão. Vai ser bem mais difícil apagar o que aconteceu nesta terça-feira.

Tome-se como exemplo duas eleições especiais que ocorreram no estado da Georgia, um dos chamados “estados vermelhos” (tradicionalmente redutos do Partido Republicano). Dois assentos na Câmara estavam disponíveis, ambos deixados vagos por Republicanos, e ambos foram ocupados por Democratas. Deborah Gonzalez, uma desses Democratas, captou 55 mil dólares em doações para sua campanha; seu oponente não conseguiu derrotá-la, mesmo tendo captado cerca de 200 mil.

Um ano atrás, Bernie Sanders começou uma campanha insurgente que ajudou a popularizar o socialismo democrático e o populismo entre os progressistas dos Estados Unidos. Na terça-feira, candidatos populistas venceram em lugares inesperados – de Manassas, Virgínia a Knoxville, Tennessee.

Na Virgínia, o candidato apoiado pelos Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America, DSA), Lee Carter, derrotou um dos líderes do Partido Republicano na Câmara estadual, Jackson Miller. Patrick Wilson, repórter do jornal Richmond Times-Dispatch, destacou que o Partido Democrata estadual deu pouco apoio a Carter. Ainda assim, ele saiu vencedor. Vários aliados do Partido Democrata se uniram em torno de Carter, incluindo facções como a Planned Parenthood, organização de planejamento familiar que apoiou Hillary Clinton nas eleições presidenciais.

Candidatos do DSA conseguiram mandatos em todos o país, vencendo pelo Partido Democrata ou como candidaturas independentes. A socialista Seema Singh Pereza conquistou uma vaga na Câmara de Vereadores de Knoxville. Em Pittsburgh, uma dupla de candidatos apoiados pelo DSA venceu, incluindo Mik Pappas, um candidato independente que derrotou um Democrata que estava no cargo há 24 anos para se tornar o 31º juiz federal de primeira instância. Pappas concorreu com uma plataforma pesada de reforma do sistema penal e foco na justiça restaurativa no lugar das medidas punitivas.

Em Somerville, Massachusetts, JT Scott e Ben Ewen-Campen , membros do DSA, desbancaram vereadores em exercício há vários mandatos e ingressaram na Câmara Municipal. Charles Decker, membro do DSA, irá integrar a Câmara de New Haven, Connecticut.

Na Filadélfia, o promotor Larry Kresner – que foi apoiado pelo DSA – logo tomará posse, prometendo reformar radicalmente o sistema de justiça penal da cidade.

Os populistas tiveram algumas baixas. Em Ohio, um referendo pelo controle de preços dos medicamentos sofreu uma enorme derrota movida pela oposição da indústria farmacêutica, que teve gastos da ordem de 60 milhões de dólares nessa empreitada. Uma lista de candidatos apoiados pelo Our Revolution foi derrotada nas eleições locais em Columbus.

Na eleição para prefeito em Atlanta, o populista Vincent Fort foi derrotado por uma pequena margem pela conservadora Mary Norwood e pela Democrata Keisha Lance-Bottoms, que tem boas relações com o empresariado e é a sucessora escolhida pelo atual prefeito, e que irão ao segundo turno. Embora Fort não tenha vencido a corrida eleitoral, sua campanha foi bem-sucedida ao pressionar a Câmara de Atlanta a aumentar os salários dos funcionários da cidade para 15 dólares por hora, e descriminalizar a posse de pequenas quantidades de maconha.

Na eleição para prefeito e vereadores de Minneapolis, Ray Dehn, progressista e reformador do sistema penal, e Ginger Jentzen, candidata do partido Alternativa Socialista (Socialist Alternative), tiveram bons resultados como primeira preferência, mas pelo sistema de voto preferencial adotado na cidade os resultados só devem estar disponíveis perto do fim da semana – o que abre a possibilidade de que o Partido Democrata mantenha seu controle.

Em Seattle, o socialista Jon Grant foi derrotado na eleição para vereador, mesmo tendo construído uma campanha forte, com financiamento público e organizada com a ajuda dos sem-teto; além disso, o candidato mais favorável ao empresariado foi eleito prefeito. Em Brooklyn, o socialista Jabari Brisport, do Partido Verde, tornou a disputa acirrada, mas não conseguiu derrotar o membro do Partido Democrata em exercício; Brisport, no entanto, recebeu mais votos do que qualquer outro candidato de terceiros partidos a concorrer na cidade.

Reação anti-Trump garante vitória a democratas nas eleições de Nova York

Os democratas receberam um empurrãozinho na noite desta terça-feira. Sua vitória nas eleições para a prefeitura de Nova York e para os importantes Governos estaduais de Nova Jersey e Virgínia serve como um primeiro sinal de alerta para o presidente Donald Trump, exatamente quando completa um ano da sua surpreendente vitória na última eleição presidencial. Resta ver se foi o prenúncio de uma tendência mais ampla na eleição legislativa de 2018.

Esta primeira ida às urnas depois da eleição de Trump serve como indicador do panorama político geral nos Estados Unidos. Em Nova Jersey, a escassa popularidade do até agora governador Chris Christie, o primeiro político importante a apoiar o magnata na disputa do ano passado, permitiu uma vitória tranquila de Phil Murphy, ex-executivo do banco Goldman Sachs e embaixador na Alemanha durante a Administração de Barack Obama. Murphy superou por mais de 10 pontos a sua rival, a vice-governadora Kim Guadagno. O resultado repetiu o da última eleição presidencial, quando os republicanos perderam Nova Jersey com uma margem de 14 pontos.

Na Virgínia, a distância foi mais curta daquela vez, inferior a seis pontos. Lá, a batalha para substituir o democrata Terry McAuliffe foi travada entre seu vice, Ralph Northam, e o republicano Ed Gillespie, ex-presidente do Comitê Nacional do partido. A diferença desta vez subiu para nove pontos em favor do democrata. Trump esperava uma vitória republicana para preservar o legado da Virgínia, em referência à sua condição de confederada na Guerra Civil do século XIX.

Mais do que um referendo sobre Trump, as eleições para os Governos estaduais ajudarão a entender as chances democratas de reverterem daqui a um ano o poder dos republicanos no Capitólio. As pesquisas de boca de urna mostram que, para metade dos eleitores que votaram nesta terça-feira, Trump foi um fator em sua decisão por um ou outro candidato.

“A América está um pouco mais azul esta noite”, disse o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, que venceu com facilidade uma eleição municipal previsível e com baixíssima participação. Apesar de a cidade ser um bastião liberal muito sólido, é a primeira vez desde Ed Koch, há 32 anos, que um democrata renova o seu mandato. A ampla margem lhe permitirá manter sua agenda social.

“Os outros candidatos eram até piores”, diz o eleitor Rodney Rigoli, “mas não há alternativa”. Votou em De Blasio, comenta, porque não queria que um apoiador de Trump virasse prefeito. Se por um lado alguns mostram empatia, outros não votam porque consideram que a cidade está melhorando. “As pessoas que questionam a gestão dele são aquelas que no final das contas não saem de casa para votar”, avaliou Jack D’Orio.

As eleições nova-iorquinas ocorrem apenas uma semana depois de a cidade sofrer um atentado terrorista pela primeira vez desde o ataque de 11 de setembro de 2001. Mas o atropelamento deliberado numa ciclovia de Manhattan, que deixou oito mortos, não afetou as preferências dos eleitores. Na véspera, o senador Bernie Sanders respaldou a agenda liberal e progressista do atual prefeito.

Anti-Trump

Bill de Blasio passará mais quatro anos à frente da maior metrópole dos Estados Unidos. O prefeito se apresentou durante a campanha como a antítese de Donald Trump e dos republicanos. Em seu último comício, atacou o plano fiscal da Casa Branca. “O perigo para a cidade não está aqui”, advertiu, “está nas políticas que emanam de Washington”.

Menos de 20% dos nova-iorquinos votaram em Trump um ano atrás. “A criminalidade diminui, as escolas melhoram, empregos são gerados, não podemos nos arriscar a perder estes progressos”, disse o prefeito ao apresentar um balanço do primeiro mandato. “Se você contrariar os valores da nossa cidade, os nova-iorquinos vão reagir”, disse, dirigindo-se a Trump.

“Ele não foi espetacular como prefeito, pode fazer muito mais”, diz o eleitor Matthew Tutrone. Bill de Blasio promete proteger a diversidade de Nova York e preservar seu status de cidade-santuário para a imigração. “Juntos podemos dar os passos necessários para fazer de Nova York um lugar melhor e mais justo para todos, não importa quanto dinheiro você ganhe ou em que bairro more”, concluiu.

O crescimento econômico dá oxigênio ao Governo de Donald Trump

“Uma vitória para Donald Trump.” A manchete que encabeçava a notícia com o dado de crescimento do terceiro trimestre nos Estados Unidos, que coincidiu com o golpe dos furacões Harvey e Irma, não era da rede ultraconservadora Fox News nem do portal Infowars. Quem a publicava era The Washington Post, um dos órgãos da mídia mais críticos da sua política. O presidente norte-americano não tem nenhum escrúpulo ao se atribuir o mérito. O objetivo de conseguir um crescimento de 3% se efetivou nos dois últimos trimestres do mandato de Trump. Os economistas antecipam até que este ritmo se manterá na reta final do ano e talvez durante mais tempo. E se a economia é o grande bolo, as empresas dão sua mordida. O aniversário de sua vitória eleitoral coincide com Wall Street em máximas históricas.

A noite eleitoral foi uma vertigem. Mas as perdas se esfumaçaram na manhã seguinte. Os investidores ignoraram em seguida suas propostas mais polêmicas em comércio e imigração para apostar nas promessas favoráveis aos negócios. O índice S&P 500 teve uma apreciação de mais de 20% desde as eleições. É o terceiro melhor rendimento de um novo presidente, atrás de George H.W. Bush e de John F. Kennedy. O grande debate é quanto desta melhora se deve realmente à mudança política na Casa Branca.

“Há múltiplos fatores em jogo”, como apontam os analistas da DS Economics. A euforia no pregão nova-iorquino se explica, primeiro, pela solidez dos resultados trimestrais. O bom desempenho das empresas mostra, por sua vez, a confiança que há em relação ao conjunto da economia em escala global. Como afirma a Standard & Poor´s (S&P), “é a primeira vez desde a crise que todas as regiões do mundo crescem de um modo sincronizado”. O presidente, portanto, herdou uma economia nos trilhos. A expansão está a caminho de superar o período de 10 anos de Bill Clinton. Estão sendo criados 207.000 empregos em média por mês e os salários cresceram 2,3% no ano, melhor que com Barack Obama. Mas a agenda econômica de Donald Trump segue, dez meses depois de sua chegada à Casa Branca, sem concretizar a adoção de medidas legislativas.

O que não negam na S&P é que a melhora dos indicadores econômicos pode ser atribuída também em parte ao otimismo dos investidores, empresários e consumidores em geral de que possam ser adotadas políticas favoráveis ao crescimento. “A ausência de uma mudança na política fiscal nem apoiou nem prejudicou a economia no momento”, avaliam os analistas da UniCredit Research em Nova York. A única decisão relevante de Donald Trump até agora em matéria econômica foi nomear o governador Jerome Powell para a presidência do Federal Reserve quando expirar o mandato de Janet Yellen, no início de fevereiro.

É mais importante neste momento, de fato, que o Fed se incline por manter uma política monetária flexível, apesar de ter começado a retirar os estímulos. O desemprego está em 4,1%, o nível mais baixo em 17 anos. Que o mercado de trabalho esteja em uma situação de pleno emprego é outro fator que incentiva as empresas a ampliarem os investimentos em equipamento e tecnologia para aumentar a produtividade.

Isto eleva, por sua vez, a confiança do consumidor, que está no nível mais alto em 12 anos. Mas, como diz o economista Richard Curtin, da Universidade do Michigan, não é que as pessoas antecipem que o crescimento se acelerará. “A baixa taxa de desemprego e a baixa inflação fazem com que se aceite um ritmo de crescimento mais modesto”, afirmam. “Depois da crise se dá mais preferência à estabilidade.”

Trump promete que alcançando um crescimento sustentável de 3% poderá criar 12 milhões de novos postos de trabalho e 10 bilhões de dólares (3,23 bilhões de reais) em atividade econômica nova. “É possível até que vá mais alto. Não há motivos para que não possa”, disse o presidente em um discurso no Missouri, no qual apresentou os princípios de sua reforma de impostos que quer combinar com investimentos em infraestrutura e a desregulamentação financeira. É uma incógnita quando entrará em vigor a reforma fiscal e como será aplicada.

A Goldman Sachs acredita que o impulso “não será enorme”. Jim O´Sullivan, da High Frecuency Economics, observa que os níveis de confiança atuais são típicos de uma economia que se expande a um ritmo de 5%. “Mas não é um indicador confiável”, advertem, “embora confirmem uma tendência”. A National Association for Business Economics considera que o objetivo dos 3% é “irrealista” quando se veem as taxas de produtividade e a evolução demográfica. Esta associação antecipa em seu último relatório que os EUA crescerão 2,3% em 2018, que coincide com as eleições de meio de mandato. É um ritmo que não aportará a arrecadação necessária para compensar o corte de impostos.

O ponto crucial está, portanto, no que acontecerá a partir de agora. A Casa Branca se atribui crédito pela boa marcha da economia, mas também sabe que é preciso que a agenda do presidente siga em frente. “A economia pode manter este impulso se nosso programa for adotado”, reitera o secretário do Tesouro, Stephen Mnuchin, ao mesmo tempo que alerta que a recuperação em Wall Street pode desmoronar se fracassarem. No entanto, se o ritmo do crescimento se consolida e entram em jogo os estímulos fiscais, o Fed poderia ver-se obrigado a elevar as taxas de juros mais depressa para evitar que a economia se aqueça demais. O corte de impostos, segundo a DS Economics, “adicionará mais açúcar”. Por isso insistem em que a reforma tem de estar bem equilibrada para sustentar os pilares da economia e não permanecer como um impulso temporário.

 

 

Fonte: The Intercept/El País/Municipios Baianos

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