10/11/2017

A volta do Centrão amplia a “sarneyzação” de Temer

 

Foi no governo José Sarney que o então deputado Roberto Cardoso Alves subverteu os versos da oração de São Francisco dando um triste e novo sentido à frase “É dando que se recebe”. De máxima da caridade pregada por São Francisco virou máxima do fisiologismo, do toma-lá-dá-cá, de um tipo de relação política que foi ficando cada vez mais descarada.

Roberto Cardoso Alves era então o líder do Centrão, um grupo de deputados conservadores e do baixo clero que se moveu numa reação conservadora a artigos que um núcleo mais à esquerda pretendia implementar na Constituinte.

Havia temas que diretamente não interessavam a Sarney. Especialmente a ideia de reduzir de seis para quatro anos o tempo do mandato presidencial. No governo militar, o mandato do presidente João Batista Figueiredo foi de seis anos, e a ideia da Constituinte era tungar dois anos do próprio mandato de Sarney.

Com a ajuda do Centrão, Sarney tratou de reagir a isso. Promoveu uma farta distribuição de benesses, principalmente concessões para emissoras de rádio, para viabilizar o “É dando que se recebe”. Obteve para si uma meia vitória na história do mandato. O seu não foi de quatro anos, mas também não foi de seis. Ficou em cinco anos. É por isso que em 1989 houve eleição somente para presidente da República, em vez das eleições casadas para deputado, senador, governador e presidente a que estamos acostumados.

Agora, em torno da difícil aprovação da reforma da Previdência, eis que se move outra vez um grupo batizado de Centrão. Novamente, é um grupo que emerge do baixo clero, das sombras de uma região obscura do plenário que os próprios deputados batizaram de “Valle de Los Caídos”. Já para o atendimento desse grupo, houve cessões conservadores como a flexibilização da fiscalização do trabalho escravo.

E, dentro da troca de benesses, o novo Centrão agora pressiona fortemente o governo por mais cargos no governo. Cobiça ministérios, principalmente diante da perspectiva de ver o PSDB fora do governo. Se prevalecer a pressão dos grupos ligados ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ao senador Tasso Jereissati (CE) contra os grupos mais próximos do governo capitaneados pelo senador Aécio Neves (MG), os tucanos deixam o governo para se desligaram de qualquer compromisso com Temer na eleição do ano que vem. E é por aí que o Centrão espera engordar a sua participação.

Temer fica, assim, bem próximo de ficar no final do seu governo tão refém do atual Centrão quanto Sarney ficou refém do antigo liderado por Roberto Cardoso Alves nos últimos dias do seu governo. E cada vez mais visível vai ficando a penugem preta abaixo do bigode de Sarney abaixo do nariz de Michel Temer…

Impopular também nas redes sociais, Temer lança plano para se salvar. Por Ricardo Miranda

Em vídeo divulgado no Twitter, na noite de terça, 7, o presidente Michel Temer, com o olhar inexpressivo e a voz embriagante que lhe são peculiares, pediu apoio dos cidadãos do país – não os 3% que, segundo o Ibope, aprovam o seu governo, a todos mesmo – para levar adiante a reforma da Previdência, em tramitação no Congresso.

“Você, meu amigo que está me ouvindo, quando possa, converse com seu amigo, no seu trabalho, na sua atividade, na sua casa, converse onde estiver, mostrando a todos que a reforma previdenciária é fundamental para o nosso país”, apelou Temer, que parecia mesmo acreditar no que estava dizendo. Temer tentava corrigir o sincericídio da véspera. Na segunda, 6, na abertura de reunião com líderes da Câmara dos Deputados, admitira que talvez não consiga votar a reforma-fetiche em seu mandato.

A bolsa despencou e o mercado espetou mais um alfinete no vodu presidencial. Em nova tentativa de melhorar a imagem – inclusive, e principalmente, nas redes sociais -, o governo vai anunciar nesta quinta-feira, 9, o Projeto Avançar, que prevê investimentos de R$ 42,15 bilhões até o fim de 2018, ano eleitoral.

O uso de redes sociais e plataformas alternativas de mídia por chefes de estado em todo o mundo é hoje uma ferramenta obrigatória e banal de comunicação, distanciando-nos dos tempos em que a “semana do presidente” na TV ou a “conversa ao pé do rádio” eram iniciativas modernas de diálogo com a população.

Basta lembrar da “Semana do Presidente”, presente de Silvio Santos à ditadura, transmitida durante o governo de João Figueiredo, na agonia do regime militar.

Não que TV e rádio não tenham seu alcance específico, mas não dá pra viver hoje fora dos notebooks e celulares dos brasileiros.

Temer, reconheça-se, tem sido impelido por seus assessores a se comunicar pelas redes sociais. Geralmente adota o arquétipo terno e gravata, e tem visível dificuldade em falar coloquialmente. Em julho, chegou a arriscar um visual mais informal, de camisa azul, sem gravata, dirigindo-se ao telespectador como “minhas amigas e meus amigos”. Falou de inflação e juros em queda. Deu o que pareciam ser boas notícias. Mas, convenhamos, continuava sendo o Temer.

O problema, dizem especialistas, não está nas redes sociais, está no personagem. Ou, para atualizarmos também nosso discurso, na marca Temer. Por isso a estratégia para suavizar a imagem de Temer e torná-lo “gente como a gente” até agora não deu certo.

“As marcas entenderam que precisam das redes sociais pra se comunicar, e os políticos, claro, foram na carona. É uma estratégia comunicacional, num meio muito potente, disseminável, rastreável, metrificável. O problema é que o Temer, como outros políticos, entrou no digital porque está na moda, não porque é genuíno dele estar no digital. É um leitor de teleprompter, e pronto”, opina Marcos Hiller, sócio-fundador da Hiller Consulting, especialista em estratégia de marcas e pesquisador de cultura digital.

“Acho que a questão aí tem mais a ver com o presidente do que com a estratégia”, avalia Luiza Fischer, especialista em estratégia e comunicação digital da LGA Comunicação. “E mídias sociais viraram território cruel, principalmente para políticos”, acentua.

“O problema do Temer com as redes sociais é que nelas você depende do engajamento de outros usuários para propagar sua mensagem. E hoje ninguém quer se associar de forma positiva à marca Temer. Grande parte do engajamento é negativo, o que acaba replicando aquela mensagem para segmentos que são contrários a ele e o aumento do alcance acaba sendo mais negativo do que positivo”, explica Vitor Conceição, CEO da startup de jornalismo Meio. “Ele precisaria de uma estratégia de longo prazo para reconstruir sua imagem. Mas tempo, como sabemos, é um luxo a que ele não pode se dar hoje”, completa.

O Twitter de Temer registra uma conta desde 2009, mas foi quando assumiu a Presidência que passou realmente a usa-la. A conta registra 13,3 mil tweets, 891 mil seguidores e 1.022 curtidas. Temer segue, por outro lado, 561 pessoas, entre elas os apresentadores Ratinho, do SBT, Mariana Godoy, da RedeTV!, e Joice Hasselmann, da Jovem Pan. Não se sabe se é ironia, mas a rede social sugere que quem segue Temer também passe a acompanhar a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, onde Temer anda enrascado. Já na sua página oficial do Facebook, Temer registra 603.501 seguidores – inclusive 19 amigos meus que prefiro não revelar. Em ambos os casos, muitos vídeos, mostrando que Temer tem passado boa parte de sua agenda na frente de um tripé.

No Youtube, o perfil sorridente de Michel Temer tem vídeos quase diários, alguns feitos especialmente para o canal, quando se dirige na primeira pessoa ao internauta.

Temer deve persistir no uso das redes sociais, e está certo em fazer isso. Não faria muito sentido propor ao Silvio Santos outro programa televisivo ufanista. O difícil será manter a, digamos, assepsia virtual de seus perfis. Cada vez mais grupos de guerrilha virtual, ou simplesmente internautas inconformados, promovem vomitações nas redes sociais do presidente na internet. Os internautas usam o emoji, símbolo do vômito, nos comentários dos posts da página de Temer como forma de protesto.

Até uma foto do presidente ao lado de seu cachorro Thor – postada no Twitter, no último dia 15/10, – foi alvo de críticas implacáveis. Intitulada “Domingo de Carinho”, a mensagem do peemedebista dizia: “A jornada é difícil, mas sempre há tempo para o Thor.” Os internautas não perdoaram. “Sua cara de felicidade é contagiante. Parece a minha sendo governado por uma junta golpista”, escreveu um. “Thor recebendo energia ruim, tadinho, olha a cara do dog. Deve ser uma zica danada esta mão de traíra de gente e da pátria”, torpedeou outro. Haja estômago até 2018.

Com Temer, PF muda sob aplauso de suspeitos

Antigamente, a briga entre os políticos era para saber quem ficaria com os melhores ministérios e as estatais mais vistosas. Hoje, é preciso saber também quem ficará com o controle da Polícia Federal. Depois de enterrar duas denúncias criminais na Câmara, Michel Temer finalmente atingiu o objetivo de trocar o comando da PF. Nomeou Fernando Segóvia.

Muitos se perguntam: o que será do futuro da Polícia Federal? O futuro, como se sabe, a Deus pertence. A indagação mais inquietante é outra: E quanto ao passado? Quem irá investigá-lo. A passagem do PT pelo poder foi uma farra. Como toda farra, acabou em detritos. O PMDB participou da fuzarca. E deu continuidade a essa esbórnia antes que o país pudesse fazer um exame de consciência e uma boa faxina.

Embora todos neguem, o novo diretor da Polícia Federal tem o apoio de personagens notórios. Entre eles o chefe da Casa Civil Eliseu Padilha e o ex-presidente José Sarney. Mal comparando, é como se o detrito aplaudisse a escolha da vassoura. Por enquanto, Fernando Segóvia é apenas um certo homem que o denunciado Michel Temer colocou no comando da PF. Parte da corporação levou o pé atrás. É preciso aguardar o que ele fará no cargo para saber se esse certo homem é o homem certo.

Nome de novo diretor da PF desagrada ao “lavajatismo”

Nem foi confirmada ainda a nomeação de Fernando Segóvia para o cargo de diretor-geral da Polícia Federal, já desperta reações negativas. Há dois meses, um site de extrema-direita publicou que Segóvia era “homem de José Sarney” e iria “destruir a PF de uma vez por todas.” O Painel da Folha noticiou que um dossiê sobre – de conteúdo ignorado – tinha sido entregue a Abin.

A Associação dos Delegados de Polícia Federal, sem mencionar seu nome, diz que o indicado deve estar na lista dos que foram votados pelos próprios delegados, uma lista encabeçada pela Delegada Érica Marena, ex-Lava Jato e que tenta, na Justiça, censurar matérias jornalísticas. Segóvia foi vice-corregedor da Polícia Federal e candidatou-se à presidência da Associação que hoje critica sua provável indicação.

Possivelmente, logo vai se levantar sobre ele uma denúncia feita pela Istoé em  2011, a de que teria se “escalado” para uma suposta investigação sobre crimes ambientais e de tráfico de drogas por um mês em….Fernando de Noronha.

Para dirigir a Polícia Federal, Temer nomeia superintendente ligado a Sarney

Ex-superintendente da Polícia Federal no Maranhão é escolhido por Temer para comandar corporação no lugar de Leandro Daiello, segundo revelou a jornalista Eliane Cantanhede, do Estadão. O delegado Fernando Segóvia foi  anunciado nesta quarta-feira, 8, como o substituto de Leandro Daiello no comando da Polícia Federal, segundo revelou a jornalista Eliane Cantanhede, do Estadão. Um novo nome para a diretoria-geral da PF já era negociado desde maio, quando o ministro da Justiça, Torquato Jardim, assumiu a pasta. Alegando estar cansado, o diretor-geral da PF — que é responsável pelas principais investigações de combate à corrupção — pôs o cargo à disposição e disse que iria se aposentar.

PRESSÃO TOTAL

A pressão do PMDB sobre o ministro para que trocasse o comando da pasta se intensificou desde a deflagração da Operação Tesouro Perdido, no dia 5 de setembro, que descobriu o bunker dos R$ 51 milhões atribuídos ao ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA). Além disso, o Palácio do Planalto também não escondeu a irritação com o “vazamento” de um relatório da Polícia Federal sobre o chamado “quadrilhão do PMDB”, que embasou a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer enterrada em votação na Câmara Federal.

O Planalto chegou a cotar Rogério Galloro, número 2 de Daiello, que chegou a ser fotografado em um almoço com Torquato e o diretor-geral. No entanto, ele vai assumir a diretoria Américas da Interpol.

Além de Galloro, Torquato havia dito, em entrevista, que outros dois delegados estariam cotados para a sucessão. O Estado  apurou que um deles era o ex-superintendente da PF no Maranhão, o delegado Fernando Segovia.

RESISTÊNCIAS

Na PF, o delegado enfrentava resistências para ocupar o posto por causa da relação com o ex-presidente José Sarney. Nos bastidores, Segovia era visto como o nome que o PMDB queria indicar para a vaga de Daiello. Segovia assumiu a Superintendência da Polícia Federal no Maranhão em agosto de 2008. Entre as Operações conduzidas por ele estão a Rapina III, que prendeu ontem 24 pessoas envolvidas em um esquema de fraudes em contratos públicos nas áreas de saúde e educação, que agiam em três cidades do interior do Maranhão. Durante um ano e meio de investigações, os agentes apuraram desvio de R$ 30 milhões dos cofres públicos. A operação da PF atingiu três municípios onde as fraudes teriam ocorrido – Imperatriz, Ribamar Fiquene e Senador La Rocque – e também a capital, São Luís.

Polícia Federal terá saudade dos governos petistas. Por Tereza Cruvinel

O novo diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segóvia, teve encontro pessoal com Temer, algo inusitado quando se trata de cargos do segundo escalão.   Nada mais revelador de que algo mudará na relação entre o governo e a PF do que este encontro de beija-mão.  Segóvia foi indicado pelo ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, contrariando o ministro da Justiça, Torquarto Jardim, que sugeriu o nome de Rogério Dalloro.  Agora, o diretor-geral da PF é um vassalo do Planalto e a corporação terá saudades das prerrogativas que conquistou nos governos do PT.  E a Lava Jato também, pois o nome de Segóvia é fruto de uma articulação para "estancar a sangria", da qual participaram também Sarney, Jucá, Moreira Franco e outros encalacrados.

Lula e Dilma nunca se reuniram com diretores da instituição, oficialmente subordinada ao ministro da Justiça. Foi com Lula na Presidência e Marcio Thomás Bastos no Ministério da Justiça que a PF começou a ganhar a independência de  que hoje desfruta, e que já lhe permitiu, inclusive,  invadir o escritório da Presidência da República em São Paulo sem que o Planalto fosse informado. O alvo era Lula e Dilma era a presidente.

Sob Temer, e com Torquarto Jardim na pasta da Justiça,  os tempos vão mudar.  Indo bater continência para quem o nomeou, Segóvia está reconhecendo que é devedor do cargo a Temer e Padilha,  e como tal se comportará.  Duvido que ele determine ou aprove operações que atinjam pessoas do governo sem informar pelo menos o ministro, como faziam seus antecessores.

Se a independência tão cara à corporação começar a ser ferida, vamos ter crises, obviamente.  Em algum momento, o Estado brasileiro terá que enfrentar o dilema da natureza jurídica da PF. Como Polícia Judiciária, ela precisa de independência para investigar,  quando demandada pelo Ministério Público ou pelo Poder Judiciário. Mas cabe-lhe também atuar como polícia do Poder Executivo Federal, no combate a crimes afetos à autoridade da União, como combate ao tráfico de drogas e armas, tráfico de pessoas, crimes de fronteira e imigração  e outros ilícitos. Ocorre que, tão grande é hoje o apego às tarefas “judiciárias” , que conferem prestígio e popularidade aos delegados e agentes,  que as demais atribuições foram ficando em segundo plano. A  meu ver, no futuro o Brasil terá que ter duas polícias na esfera federal. Uma que seja exclusivamente judiciária, e outra que atenda ao próprio Governo Federal na execução da política nacional de segurança pública, naquilo que for de responsabilidade da União.

 

Fonte: Por Rudolfo Lago, em Os Divergentes/ BlogdoJosias/Tijolaço/Agencia Estado/Brasil 247/Municipios Baianos

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