11/11/2017

3 situações de racismo que continuam invisibilizadas

 

Se ”raça” não é mais validada pela ciência para classificar seres humanos, a ideia continua presente no cotidiano do país com 54% de população negra, segundo dados de 2015 do Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE).

”Quando as pessoas falam que o cabelo liso é ‘mais bonito’ e que o cabelo crespo é ‘ruim’, elas usam o conceito de raça para falar que há superioridade de um grupo em relação a outro”, afirma Lia Schucman, psicóloga social e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) sobre relações raciais no Brasil.

Para Maria Aparecida Silva Bento, doutora em psicologia social pela Universidade de São Paulo e coordenadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), o racismo tem uma dimensão cotidiana que o faz ser “naturalizado” e cujo contexto pode dificultar ainda mais o seu apontamento:

“Quando um empregador ou uma empregadora fala algo para um subordinado, há uma situação hierárquica anterior à situação e que contribui para moldá-la. Por medo de ser demitido, o empregado não fala. Mas são situações que não passam despercebidas para quem sofre o racismo, mesmo que a pessoa não fale”, pontua.

Você trabalha aqui?

Segundo Schucman, há no Brasil um “imaginário” de que existem trabalhos para negros e outros para brancos, entrar em uma loja e perguntar a uma pessoa negra o preço de um produto, associar pessoas negras a trabalhos precarizados, por exemplo. “Enquanto um homem branco de terno e gravata é pensado como advogado, empresário e médico, um homem negro com a mesma roupa é associado a manobrista ou segurança”. Para ela, falta uma “resposta crítica” de ver essa configuração como resultado do racismo.

“As pessoas veem em seu cotidiano cargos de poder ocupados em sua maioria por brancos e pensam que isso acontece porque brancos são melhores. Falta uma resposta crítica de ver essa configuração como uma relação de poder, fruto do racismo’‘, avalia a pesquisadora.

Segundo Maria Aparecida, essa associação é um mecanismo para marcar a diferença entre o ”eu” e o ”outro”. ”Mesmo que esse outro divida espaços comigo, eu não o vejo como igual, mas em posição de subalternidade. Há uma positividade ligada às pessoas brancas: um imaginário sobre quem é competente, bonito, confiável”, afirma.

Para Ângela Figueiredo, o racismo continua quando essa pergunta é feita a negros em posições de poder. Em seu doutorado, sobre a classe média negra, ela ouviu relatos de empresários negros que se depararam com a mesma pergunta.

Ao descobrirem que eles eram os gerentes do estabelecimento, as pessoas perguntavam se eles trabalhavam ali, com um ar de surpresa. Mesmo vendo uma minoria negra em posições de poder, as pessoas não constroem nada que se oponha a essa naturalização de negros em lugares de subserviência –avalia.

História Geral?

Outra situação se refere à elaboração dos currículos escolares. Mesmo com a Lei 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura de negros e indígenas, o espaço dedicado a elas ainda é pequena se comparada à da Europa. “O que chamamos de ‘história geral’ é, na verdade, a história da Europa. A civilização branca europeia representa toda a humanidade, enquanto outras histórias são particulares – ‘da África’, ‘das Américas’, ‘da Ásia'”, avalia Lia Schucman.

Segundo ela, esse processo de escolarização fortalece a construção de ideias generalistas sobre “grupos racializados”. Se brancos, “especialmente europeus”, são conhecidos em sua diversidade, o mesmo não ocorre com negros e indígenas. “Nós aprendemos que há poloneses, alemães, italianos, espanhóis, franceses, mas ainda pensamos negros e indígenas de forma homogênea. É um racismo colocá-los como um tipo social enquanto os brancos podem ser múltiplos.”

Para Ângela Figueiredo, pesquisadora docente da Universidade do Recôncavo da Bahia (UFRB), a Lei 11.645 foi uma “conquista” que deve ser ampliada a partir de “tratamentos igualitários”. “Em função da condição de escravos em que os africanos chegaram, fala-se dos negros a partir de referências genéricas. É como se não houvesse sujeitos antes da escravidão. Devemos ter ‘história da Europa’ assim como temos ‘história da África’. Acho interessante deslocar a Europa dessa suposta universalização, já que a história dela é particular como as outras”, avalia.

O que você acha do Barack Obama?

Perguntar para um negro o que ele acha de figuras públicas negras é outra situação corriqueira de racismo que, para Schucman, revela a visão de um negro como “porta-voz” do grupo.

Ninguém pergunta a uma pessoa branca o que ela acha de Donald Trump, presumindo que o Trump representa os brancos. Isso será visto como uma generalização. Enquanto um negro é visto como representante dos negros, um branco é indivíduo, representante apenas dele mesmo –  afirma.

Segundo Figueiredo, a pergunta reflete o baixo número de negros em posições de comando, o que faz os que estão nesse lugar se tornarem “vitrines” para falar da questão racial. Para a docente, outro erro é pensar que a opinião de um negro vale para todos os outros. “Os negros, assim como outras minorias sociais, tem divergências e complexidades que não são encerradas por uma única pessoa”, enfatiza a docente.

Racismo: branquitude deveria se reconhecer como herdeira de um legado ultrajante. Por Joice Berth

É fato que o racismo brasileiro tem um jeitinho próprio de ser e agir. É regado de malícias e gingas que permitem ao racista, se safar do confronto com a própria consciência que deveria questionar incessantemente, seu lugar de dentro da hegemonia supremacista branca.

E é fato também, que ao longo da história, a tradicional covardia do povo brasileiro em momentos de enfrentamento de suas questões mais urgentes, foi ficando mais e mais visível, gerando inclusive, a reação que o habitual complexo de vira-latas mais teme: o questionamento internacional já que, no ranking de piores lugares para uma pessoa negra viver, o Brasil se destaca entre as primeiras posições.

Mas algumas mudanças, ínfimas para a estrutura embora muito significativas para a população negra, foram conquistadas, tardiamente é verdade.

Nas últimas semanas, mapas e estatísticas circularam em grandes e respeitáveis veículos de comunicação, deixando matematicamente claro o óbvio ululante que o cinismo do racismo brasileiro finge não ver:

As desigualdades sociais são fruto inegável das opressões estruturais e estruturantes que construíram esse país

No Mapa das Desigualdades da ONG Rede Nossa São Paulo, a constatação técnica da explanação historicamente inaudível de mulheres negras sobre sua condição social: abandono político, descaso público e notável, acúmulo de prejuízos sociais em detrimento da manutenção dos privilégios da branquitude.

No estudo divulgado pelas Fundação João Pinheiro, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) outra reverberação numérica da resultante de várias violências combinadas e atuantes que confinam  a população negra no Brasil nos lugares de subalternidade racista:

Para uma pessoa negra atingir o índice de desenvolvimento humano que uma pessoa branca desfruta hoje, vai levar pelo menos dez anos(cabe lembrar que não irá se igualar, já que a condição da pessoa branca não retrocede e só avança)

Esses dados não são apenas a atualização numérica da condição da pessoa negra dentro da sociedade que nega a existência do racismo. São também mais uma prova cabal de que o racismo é estrutural e estruturante, atuando em diversas frentes e com diversas estratégias que vão desde apagamento e exclusão histórica até violências físicas e simbólicas.

Um dos exemplos de violência simbólica cometida contra a população negra é a articulação institucional do racismo que permite práticas deseducadoras nas instâncias educacionais, como a aplicação mal feita e/ou inexistente da Lei 10.639/03, o uso de autores assumidamente racistas como Monteiro Lobato ou a permissividade para com materiais didáticos que ferem a dignidade da criança negra e imputam na criança branca o sentimento de ódio racial através da propagação de estereótipos desumanizadores referentes a pessoas negras além de distorções sérias da discussão racial em curso.

Um caso gritante foi flagrado em uma editora de Blumenau, Santa Catarina, e exposto em uma página de rede social destinada a veiculação do debate racial, denominada Gente Preta, que publicou um livro de conteúdo duvidoso que exalta um dos argumentos mais inverossímeis usado por brancos que se recusam a discutir racismo e estão convictos de que o crime racial é legítimo: o racismo reverso.

O livro conta a história de uma garota negra que ao ser levada a cabeleireira, recusa-se a ser atendida por uma profissional branca apenas porque ela é branca, configurando assim um suposto caso de racismo reverso.

A mãe repreende a criança e explica que #SomostodosHumanos e a criança aceita que seu cabelo seja trançado pela profissional branca (loira, há que se enfatizar) e ainda se desculpa pela rejeição inicial dando uma flor, no mais demagogo dos gestos a la “Mais amor por favor”(jargão hipócrita da esquerda branca).

O livro além de reforçar o estereótipo da negra raivosa e dar ênfase para o suposto desprazer que é cuidar de cabelos crespo, ainda invisibiliza a questão identitária por trás da escolha de profissionais negros para cuidar da beleza de mulheres negras justificando que seria racismo reverso.

Como se pessoas brancas não estivesses no protagonismo do mundo racista, excluindo a presença negra nos espaços o tempo todo. Como se pessoas brancas aceitassem serem cuidadas por pessoas negras nas mais variadas profissões, quando sabemos que pessoas brancas excluem pessoas negras da maneira mais covarde, do mercado de trabalho.

Pois bem, afirmar que existe racismo reverso é inicialmente a assunção da prática racista de quem afirma. Ora, se racismo não existe, como em geral essas pessoas que usam esse argumento afirma, então o “reverso” não se aplicaria, já que não se pode reverter o que não existe, o que evidencia a falácia burra e frágil que sustenta o argumento.

Em segundo lugar, racismo não é uma prática simples de rejeição a pessoas negras.

É também a rejeição a pessoas negras por questões outras vinculadas ao ato, que em muitos casos é até imperceptível por quem pratica. Quer dizer, o racismo é um conjunto de práticas e técnicas de exclusão, apagamento, segregação, anulação, aniquilamento de toda uma camada da sociedade com fins exclusivamente políticos, embora perpassem diversas áreas correlatas, como a cultura e a afetividade, por exemplo.

Mas o que falta para todas as pessoas brancas entenderem o porque não é minimamente razoável e tampouco lógico e racional falar em racismo reverso?

Falta a toda pessoa branca o entendimento de que estamos falando de relações de poder que hierarquizam a sociedade estabelecendo quem constrói privilégios e quem os usufrui.

É opressor porque desenhou uma linha invisível que  limita o pleno desenvolvimento de ser humanos tendo como princípio a distinção de cor e o fenótipo que se distancia da figura do caucasiano europeu.

Falta entender que a rejeição a uma pessoa branca, não limita a mobilidade social dela e não a coloca em um lugar de subalternidade naturalizada e desumanizadora, simplesmente porque ela está no grupo pautado pela hierarquia que recebe e usufrui dos privilégios que outro grupo constrói e/ou sustenta, ou seja, está no topo da pirâmide social.

Falta para a branquitude, esse conjunto de pessoas que pela ação da escravização de outras pessoas seguida do pós-abolição criminoso se tornou o grupo hierárquico que usufrui de poder e privilégios, se reconhecer como herdeiro de um legado aberrante e ultrajante que solidificou a barbárie que assola nossa sociedade ainda hoje.

Falta na pessoa branca a humildade inteligente para entender que enquanto não se permitirem discutir privilégios sociais acumulados às custas da exploração de sujeitos negros e redesenhar a sociedade de maneira equitativa e solidária, sob as bases da empatia e do reconhecimento da humanidade do outro (no caso o negro e o indígena), não vai dormir em paz, o gozo dos privilégios acumulados e defendidos com unhas e dentes não será permanente e nem pleno.

Falta aos pais das crianças que tiverem contato com esse lixo que simula uma obra literária infantil, a lucidez e a coragem de levarem para dentro de seus lares essa discussão urgente, tendo em vista que não podem permitir a continuidade de um legado sangrento e extremamente desonroso que a raça branca carrega, pois como diz um homem branco no documentário “A 13° emenda” da brilhante Ava Duverney:

“A história não se faz de coisas que aconteceram acidentalmente.

Somos o produto do que nossos antepassados escolheram, se somos brancos.

Se somos negros, somos produtos do que nossos antepassados não escolheram.

Mas aqui estamos todos juntos, produtos das escolhas feitas.

E precisamos entender isso para poder escapar”

E falta para a Editora Todolivro e a todas as escolas onde esse material racista está sendo usado como instrumento de ódio racial, na função de portal da educação e pleno desenvolvimento intelectual e humano que lhes cabem, bom senso e honestidade no auto-questionamento a respeito de seus racismos que acaba por ser extravasado como lixos intelectuais.

Além disso, é carregado de ideologia de ódio ao próximo com o consentimento de um grupo acrítico diante de sua condição social de opressor, que permite ir para salas de aula um crime disfarçado de livro e pensado como instrumento da manutenção de suas práticas cotidianas.

 

Fonte: Por Alessandra Goes Alves - jornalista, no Justificando/Municipios Baianos

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