11/11/2017

2018: rumo a um admirável mundo novo?

 

O que as ascensões de Donald Trump, Michel Temer, Bispo Marcelo Crivella e João Dória estão nos dizendo? Deu a louca no mundo? Os insensatos entregaram o sanatório à administração dos loucos depois de tantos panelaços? Se olhamos bem, a pergunta inevitável é o que há de comum entre quatro indivíduos distantes e aparentemente tão diferentes? Que fragmentos de discursos os aproximam ou distanciam? Da perspectiva da totalidade, o que as suas ascensões políticas estão a nos dizer?

  • Vejamos em um esforço de tentar responder.

Trump, em diversos discursos, tem se mostrado ferozmente nacionalista e crítico da velha classe política. No discurso de posse disse estar transferindo o governo de Washington para o povo e se torna mais visto fora da Casa Branca, do Capitólio e do Pentágono. Passa a ideia de ser um milionário despido de outros interesses que não os de proteger o povo americano dos negócios globais do império americano. Conforme diz as necessidades de sua gente devem ser colocadas como prioridades máximas, o american way of life haverá de ser o produto número um de exportação e a tarefa fundamental de sua administração. Em palavras simples e fortes tem dito ao povo comum que cuidará mais da qualidade de vida que das guerras, que os jogos da política e da economia internacional passam a ser secundários em relação ao modo de viver dos americanos. Tudo para os americanos, incluindo a volta para casa dos seus milhares de soldados espalhados pelo mundo afora.

O novo prefeito de São Paulo, igualmente milionário, também faz a promessa de cuidar do povo paulistano na contramão da desgastada e velha política. Sua riqueza como a de Trump é sinônimo de realização pessoal e de desprezo a roubalheiras contumazes, o que deverá leva-lo a se dedicar por inteiro aos interesses da população, jamais de si mesmo. Ele e Trump, segundo é possível pensar, estariam despidos de outras ambições senão a de concretizar as promessas involucradas em seus discursos. Não seriam demagogos como outros tantos, mas espetaculares. Neste sentido Dória se aproxima do estilo de governar consagrado por Jânio Quadros, muito embora a inspiração do novo prefeito seja o milionário Michael Bloomberg, o ex-prefeito de Nova Iorque. Em seus poucos dias de governo já produziu alguns espetáculos mirabolantes contra as ciclovias, pichações de muros, calçadas sem rampas para cadeirantes; de concreto nada que altere e melhore estruturalmente a vida paulistana. Mas o povo gosta e aplaude. Trump, por sua vez, vem se notabilizando por suas gafes e ativa participação no Twitter, mais encrencado com os pitacos da Rússia em sua campanha é impossível.

Trump e Dória, mesmo com todo destrambelhamento, se colocam na contramão da velha e burocratizada política de matiz weberiana. Suas ações parecem existir na exterioridade das pachorrentas licitações, intermináveis debates nos plenários legislativos e apropriadas às nervosas objetivas dos jornais e televisões ansiosas por notícias de última hora plenas de audiências. Para ambos os fins justificam os meios utilizados. Às favas com os governos enclausurados em gabinetes e longe do calor popular; não por acaso o prefeito paulistano deixa de lado os seus Armani para se vestir de gari, sentar-se numa cadeira de rodas ou pintar no asfalto um ponto de táxi. E isto faz a alegria do povo que sempre sabe que o espetáculo é imperdível e truanesco. As imagens de Trump e Dória favorecem os risos; a peruca ou cabeleira de Trump e o jeitinho janota de Dória, ou o histrionismo dos dois, por si sós, dão garantias de boas gargalhadas. São de fato espetaculares, ou pouco mais do que isto.

O Bispo Crivella, sempre distante de seu gabinete, também se apresenta como forte promessa de rompimento com a velha política. Suas ações como missionário na África, na fazenda Canaã no Nordeste brasileiro ou com a Bíblia nas mãos respaldam a sua insistência de cuidar das pessoas. Da mesma forma que Dória e Trump ganha espaços na mídia com ações espetaculares, ou factoides à moda César Maia, seja suspendendo verbas para o carnaval, nomeando a merendeira para a subsecretaria de transportes e dois mortos para cargos importantes na prefeitura. Da mesma forma que Trump e Dória, Crivella se mostra agradável enquanto vai engambelando os mais ingênuos e crentes.

Temer é quem tem um estilo diferente, dada a sua natural antipatia, distanciamento do povo e o medo de vaias. A impopularidade que conquistou a partir do golpe o encastela no Planalto onde se dedica diuturnamente a produzir pacotes de maldade e distribuir polpudas prebendas para rechaçar acusações bem fundamentadas e comprovadas . Se precisasse de votos para assumir a presidência teríamos dificuldade de saber qual personagem político construiria para si, sabendo-se ser naturalmente rígido, de gestos nervosos e trejeitos esquizofrênicos. Mas, mesmo assim não está muito distante dos demais; também ele assume o discurso de cuidar do Brasil e de seu desenvolvimento econômico; as demandas mais imediatas da sociedade, porém, estão longe de constar de sua agenda de preocupações. Seu governo nada nacionalista vem se caracterizando pelas maldades político-sociais, entreguismo ao estrangeiro, favorecimento aos bancos, empresários da indústria e do agronegócio. A ascensão de tais personagens ao poder, a despeito das diferenças de caminhos e estilos, parece mesmo evidenciar de imediato uma ênfase na crítica à velha política burocratizada. Mas não apenas fazem críticas, buscam concretizar novas formas de fazer política tendo os fins, e não os meios, como prioridade máxima; a ética e a moral nem sempre merecem a devida consideração de nenhum deles.

Trump, Temer, Crivella e Dória parecem, de fato, constituir uma novidade no cenário político como uma trupe que ainda poderia contar com a inclusão dos presidentes da Argentina, Maurício Macri, e da França, Emmanuel Macron. Mas apenas parecem, a direita está jogando todas as suas fichas em seus modos de ser e governar. Os “think tanks” e marqueteiros de plantão, por sua vez, são os seus produtores e saberão com astúcia e inteligência aproveitar e promover as críticas à velha política e produzir candidatos com novas roupagens discursivas e práticas demagógicas que pareçam reproduzir a aspiração popular. Há um campo fértil para candidatos do mesmo naipe, conforme se pode observar em eleições brasileiras. Em 2014, aqui no Brasil, as estatísticas mostram que a renovação parlamentar espontânea foi superior a 40%; imagine quando passar a ser a bandeira principal dos marqueteiros… Todos estão de olho em tal percentual, não sendo, pois, por acaso que a direita brasileira tenta maquiar o empresário e apresentador de televisão, Luciano Huck, para apresenta-lo como candidato em disputa com o ex-presidente Lula nas eleições de 2018. Lula será o velho, corrupto e favorecedor dos saques à Petrobras e a Furnas e o Huck o novo, a esperança cozida em um caldeirão de sucesso. Além será incensado como um homem bom e honesto, que procura fazer o bem aos mais necessitados, tem ficha limpa e, tanto quanto a população, deseja que as demandas sociais sejam atendidas com criatividade e inovação, a despeito das suas complexidades. Os movimentos fortes (“Renova BR” e “Agora”) que já ocupam as redes sociais, com bons financiamentos externos, estarão em sua retaguarda se encarregando de preparar-lhe o caminho para o Palácio do Planalto.

Tais ascensões e revelações parecem, portanto, evidenciar a definição de novos rumos e perfis de candidatáveis ao poder a partir de 2018. De novo está em alta o velho pragmatismo peirciano que valida quaisquer meios para atingir os fins, com imenso desprezo aos debates democráticos que consideram evasivos e filosóficos. Para os futuros candidatos há um estado ideal de coisas a fazer que, entretanto, não são distinguíveis em termos de bem ou mal, mas de admiráveis e inadmiráveis; o que será determinante nas suas ações práticas deverá ser a coerência entre pensamento e a ação para a construção de um admirável mundo novo.

Como em todos os ensaios literários e cinematográficos, parece estar em curso uma nova ordem organizada sob a lógica produtiva do capital, na qual seremos destinados a desenvolver algumas competências e habilidades, a ter papeis funcionais bem demarcados, estudar em escolas sem partidos, ser impedidos de interagir com a “arte degenerada”, discutir às questões de gênero. Talvez a esperança derradeira seja ter acesso a alguma droga do tipo “soma”, que nos dizeres de Aldous Huxley, pode acalmar, tranquilizar e condenar à eterna letargia para a aceitação do tipo de sociedade construída; pelo menos até alguém ler às escondidas algum fragmento de Shakespeare.

Quem vai mandar nas eleições de 2018: redes sociais, TV ou jornais?

A disputa presidencial de 2018 aproxima-se cada vez mais. Com a mais nova reforma política, a internet e as redes sociais terão um papel ainda mais importante no voto: agora os políticos podem pagar para impulsionar seu conteúdo nas redes sociais. Mas, será que a televisão e os jornais deixaram de ter importância no xadrez eleitoral?

A Sputnik Brasil entrevistou com exclusividade Nina Santos, doutoranda em comunicação pela Universidade Paris II e ex-editora de mídias sociais do Instituto Lula, para entender melhor a questão. Nina aponta que não existe uma dicotomia entre grandes meios de comunicação e redes sociais já que boa parte do conteúdo de mídias como Facebook e Twitter foi produzido por meios de comunicação tradicionais que estão na internet, como jornais, revistas e canais de televisão. As redes sociais foram responsáveis pela popularização da comunicação. Se no passado era necessário um patrimônio milionário para fundar um jornal ou uma revista, hoje basta uma conexão com a internet para ter sua voz ouvido. Entretanto, existe um fenômeno no ambiente digital que tem causado preocupação: as notícias falsas.

Um levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP mostrou como o fluxo de informação na internet pode ser perigoso em momentos importantes da política nacional. Na semana da votação do impeachment da então presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, em 2016, 3 das 5 notícias mais compartilhadas no Facebook eram falsas.

"Ao mesmo tempo em que temos uma coisa muito positiva que é a pluralização do debate, com cada vez mais pessoas publicando suas opiniões, o controle sobre a qualidade e a veracidade dessas informações se torna cada vez mais complicado", afirma a doutoranda em comunicação.

Nina Santos acredita que uma das principais tarefas das equipes de campanha e dos veículos de comunicação em 2018 será checar as informações publicadas nas redes sociais. Acesso, concentração e desigualdade. Apesar da atenção que as mídias sociais recebem, muitos brasileiros ainda estão de fora deste ambiente. Segundo pesquisa da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), 120 milhões de brasileiros estão na rede mundial de computadores, enquanto a população já ultrapassa 200 milhões de pessoas. Já a televisão é o meio de comunicação mais popular do país. Segundo o IBOPE, 96% dos brasileiros são donos de ao menos uma televisão. E na popular televisão, os brasileiros estão acostumados a assistir poucos canais. A pesquisa Media Ownership Monitor do Intervozes e do Repórteres Sem Fronteiras mostrou que os quatro principais grupos de mídia concentram uma audiência nacional que ultrapassa 70% no caso da televisão aberta. A presença de candidatos no rádio e na televisão foi discutida no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta quinta-feira (9).

Busca por ‘terceira via’ na presidência pode dar giro radical em pesquisas eleitorais

Na última semana, a corrida presidencial mais imprevisível em quase duas décadas ganhou dois novos nomes potenciais, em mais um sinal de que, até agora, se desenha um panorama tão pulverizado de candidatos que lembra o visto às vésperas do pleito de 1989, com as devidas salvaguardas históricas. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, confirmou em uma entrevista à revista Veja ser, sim, presidenciável, mas disse que tomaria sua decisão "no momento adequado", dando um passo a mais para além das especulações que rondam seu nome em um momento de recuperação econômica. Do lado oposto do espectro político, a deputada estadual Manuela D'Ávila foi anunciada como pré-candidata de seu partido, o PCdoB, que deve romper a tradicional aliança partidária com o PT existente desde a redemocratização, num gesto ainda com efeitos mais simbólicos do que práticos.

A um ano de um pleito em que nem os candidatos mais óbvios estão definidos de fato, a tradicional  polarização PT X PSDB se desfaz, alimentando o sonho do voo solo de muitos de seus parceiros. Marina Silva (Rede), que na última eleição se apresentava como a única terceira via plausível, encontra agora concorrentes, seja à esquerda ou à direita, com chances mais reais que os anteriores de chegar a um segundo turno. Em um cenário de crise econômica severa e de descrédito dos partidos políticos tradicionais, todos parecem crer ter mais chances na disputa às margens dos partidos tradicionais. Incluindo nomes nada tradicionais da política, como o do apresentador Luciano Huck, cuja potencial candidatura se assemelha a de Silvio Santos, também em 1989— apesar de bem colocado nas pesquisas na época, o apresentador do SBT acabou desistindo da disputa por divergências partidárias.

No momento, a alternativa ao tradicional “Fla Flu” de véspera (tucanos X petistas) parece estar ocupada pelo polêmico militar reformado, Jair Bolsonaro (PSC). Dono de uma presença impactante na internet e de um discurso conservador radical, é ele quem desponta até agora como o opositor do petista Luiz Inácio Lula da Silva em um possível segundo turno, com 13% das intenções de voto, segundo a última pesquisa Ibope, divulgada no final do mês passado, que repete o resultado obtido pelo Datafolha no final de setembro— Lula teria 35%.

Mas a um ano da eleição, o cenário ainda promete mudar completamente, como já aconteceu em outras eleições, conforme aponta um levantamento feito pela consultoria econômica MCM. Dos sete pleitos presidenciais ocorridos no país após o fim da ditadura, em quatro o eleito aparecia na liderança das intenções de voto um ano antes. Mas em três deles os candidatos tentavam a reeleição, algo que já os favorecia naturalmente: Fernando Henrique Cardoso (1998), Lula (2006) e Dilma Rousseff (2014) — na outra eleição mais previsível um ano antes, a de 2002, o candidato que aparecia como preferido em 2001 era Lula, o único nome visto como alternativo em um contexto em que o PSDB estava desgastado pela crise econômica (apagão de energia, inflação a 12,53% e desemprego de 10,5%) vivida no fim da gestão FHC.

Em 1993, por exemplo, um ano antes da eleição que levou Fernando Henrique à presidência pela primeira vez, o candidato tucano aparecia com 7% das intenções de voto, enquanto Lula e José Sarney disputavam a liderança; o Plano Real, grande marca de FHC, foi lançado em fevereiro de 1994.  Em 1988, as pesquisas também indicavam um empate entre Silvio Santos e Leonel Brizola, mas Fernando Collor, o "caçador de marajás", arrebatou a disputa no ano seguinte. "A pesquisa de 88 foi a que mais se distanciou do cenário efetivo verificado no ano eleitoral", explica o levantamento da MCM. "A situação atual tem semelhanças com a de 1989", aponta Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria. "Há uma grande rejeição aos partidos políticos tradicionais, um Governo desgastado, assim como o de Sarney na época, o que impossibilitou que candidatos governistas se apresentassem com chances reais de ganhar", destaca ele. "Essa situação de 1989 gerou espaço para a candidatura de um outsider, como Collor. Agora, o outsider com mais chances de concorrer até o momento é Bolsonaro." Mas Ribeiro também aponta diferenciais importantes entre os dois pleitos. "A eleição de 1989 foi uma eleição solteira, apenas para presidente, o que favorecia candidaturas sem respaldos partidários fortes. No contexto atual, é preciso ter uma rede para levar adiante uma campanha presidencial e para isso é importante ter esses apoios cruzados [de palanques de governadores e deputados]. Além disso, a legislação de campanha era diferente da atual, o que permitiu a Collor ter um tempo grande de TV. Bolsonaro deve ter um tempo ínfimo sem alianças partidárias", ressalta ele.

Outro fator diferencial é o comportamento da economia, lembra Ribeiro. "Em 1989 a economia só piorou. Daqui até a eleição a economia deve melhorar e o desemprego diminuir. Teremos um ambiente econômico melhor em 2018 do que o atual", afirma. Por isso, a candidatura de Meirelles poderia ganhar fôlego e desbancar a de Bolsonaro, caso convença as massas que foi ele o responsável por essa melhora. E o "momento adequado" para que ele anuncie sua decisão poderá ocorrer apenas no limite permitido pela legislação para o registro de candidatos (15 de agosto do ano que vem).

Além da distância temporal, outra questão que pode embaralhar as eleições no próximo ano é o fator Lula. O ex-presidente, um dos grandes atingidos pela Operação Lava Jato, tem uma porcentagem de eleitorado fiel, mas aguarda a decisão de segunda instância sobre a condenação de 9 anos e seis meses recebida por corrupção e lavagem de dinheiro. Isso impossibilitaria sua candidatura e, segundo as projeções, a decisão só deve acontecer na metade do ano que vem. "Essa questão é interessante porque o Lula está acima do PT. Embora o PT esteja com descrédito, Lula acaba tendo ainda um certo eleitorado cativo. Mesmo que ele não ganhe a eleição, o que pela sua taxa de rejeição é possível [59%, segundo pesquisa Ipsos de setembro], ele passou por três anos de um desgaste incessante e, mesmo assim, ainda consegue liderar a corrida", destaca Pedro Cavalcante, professor e doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB).

Caso Lula seja impossibilitado de disputar, ele liberará às vésperas do pleito um estoque de eleitores cujas preferências também não são fáceis de prever. Nenhum dos nomes alternativos apresentados pelo PT desperta, até o momento, grandes paixões nos eleitores lulistas. E o tempo de campanha que restará poderá não ser suficiente para se construir uma alternativa como Fernando Haddad (1% das intenções de voto no último Ibope). Por isso, para os demais partidos de esquerda, talvez seja esse o momento de começar a construir uma alternativa a Lula, e uma candidatura própria do PCdoB, para disputar com nomes do PSOL, pode ser estratégica.

 

Fonte: Por Zacarias Gama, no Justificando/Sputinik Brasil/El País/Blogdo Josias/Municipios Baianos

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