12/11/2017

Memórias da Ditadura e a Imprensa Alternativa - XV

 

A imprensa alternativa foi um espaço importante de crítica ao regime militar, de divulgação de denúncias, e de debate das organizações de esquerda. Por meio do humor, da análise política ou da informação, esses jornais e revistas alternativos cumpriram um papel fundamental de oposição e resistência à ditadura no Brasil.

O surgimento da imprensa alternativa e seu fim repentino

Uma das primeiras consequências do golpe militar de 1964 foi o sufocamento da imprensa de esquerda, comunista, socialista, nacionalista. Deixaram de circular imediatamente após o golpe jornais e revistas, como Novos Rumos, Semanário, A Classe Operária, Política Operária, de organizações comunistas, ou Ação Popular, da organização de mesmo nome, e Movimento, da União Nacional dos Estudantes (UNE), entre muitos outros.

O jornal Última Hora, de Samuel Wainer, por exemplo, nacionalista e de apoio ao governo de João Goulart, de grande circulação em suas cinco edições regionais (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul), foi empastelado, e entregue a grupos jornalísticos golpistas.

A maioria esmagadora dos meios de comunicação (da imprensa escrita, do rádio e da TV) apoiou a ditadura e se submeteu aos ditames da censura oficial e dos patrões. Mas a imprensa liberal-conservadora que deu sustentação ao golpe, depois de quatro anos, também veio a conhecer a tesoura da censura estatal. Mesmo jornais conservadores, como O Estado de S. Paulo e o Tribuna da Imprensa, foram duramente censurados, principalmente a partir de 1970.

A ditadura não utilizou apenas a censura contra os meios de comunicação. Também recorreu à pressão econômica a órgãos e empresas que não aderiram ao regime. A TV Excelsior, por exemplo, a de maior audiência no país, pertencente a um grupo industrial nacional (Simonsen) foi fechada, em represália ao apoio que o grupo dava ao governo Goulart. Seus equipamentos e instalações foram entregues à nascente Rede Globo. Apoiada por capital dos EUA e por farta publicidade oficial, a emissora viria a ser a porta-voz oficiosa da ditadura.

Mais adiante, o jornal liberal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, arrependido de ter apoiado o golpe, e que se tornara crítico do regime, foi fechado e sua proprietária, Niomar Moniz Sodré, presa.

Muitos jornalistas de esquerda que não queriam trabalhar para os grandes jornais comerciais, por se sentirem tolhidos em suas opiniões e em sua militância política, se organizaram para fundar pequenos jornais. Eram publicações em formato tabloide, um modelo mais barato, com matérias que iam do humor contra o regime à análise política aprofundada. Nascia, assim, a imprensa alternativa.

Um movimento que em poucos anos se tornou uma onda incontrolável. Chegaram a existir centenas de jornais, pelos menos 150 mais representativos, que se espalharam por todo o país, desde as metrópoles até os seringais do Acre. Podiam também ser contados às centenas os jornais, revistas, boletins, panfletos, cartazes, produzidos em outros países por exilados e seus apoiadores, em países como França, Itália, Portugal, Estados Unidos.

Mas com o recuo da ditadura, a anistia, a volta dos líderes da oposição que estavam exilados, as grandes greves de trabalhadores, a reorganização partidária, e a reanimação dos movimentos populares produziram uma rápida mudança no cenário político. A ampla frente pela democratização foi se desmanchando antes mesmo de alcançar plenamente seus objetivos, mérito da astúcia política da ditadura decadente, que conseguiu recuar em ordem, graças a medidas que promoveram a divisão da oposição.

A nova conjuntura, com cada força política procurando ocupar seu espaço, já não demandava jornais generalistas, jornais de frente. Cada partido ou tendência tratava de produzir órgãos de comunicação de massas com suas próprias propostas. A consequência disso foi que, entre 1979 e 1981, a imensa maioria dos jornais da imprensa alternativa foi deixando de existir. A grande imprensa, que tratou de tomar suas bandeiras (e descaracterizá-las), logo recuperou sua hegemonia diante do público. Além disso, uma onda de atentados a bancas de jornal, na mesma época, amedrontou os jornaleiros que vendiam publicações de esquerda.

Entretanto, é inegável que, sobretudo ao longo dos anos 1970, a imprensa alternativa foi um espaço importante de crítica ao regime militar, de divulgação de denúncias que não chegavam aos jornais comerciais e de debate das organizações de esquerda.

  • Os jornais da época

Os pioneiros da imprensa alternativa

Não tinham se passado nem dois meses do golpe, quando um grupo de jornalistas, ilustradores e chargistas, liderados por Millôr Fernandes, em maio de 1964, lançou a revista Pif Paf. Uma publicação de humor crítico, que circulou por oito edições antes de ser apreendida.

Em 1966, surgiu em São Paulo a revista Realidade. Embora fosse um produto da grande imprensa, assumiu, graças à sua equipe jovem, uma postura contestadora do conservadorismo vigente. Caso semelhante foi o do carioca O Sol, jornal encartado no Jornal dos Sports. Também no Rio de Janeiro, passou ser publicada a revista de temas culturais Civilização Brasileira.

No movimento estudantil, foram editados pequenos jornais. Um deles, com pauta mais abrangente para o público em geral, era escrito com a contribuição de jornalistas e vendido em bancas. Era o Amanhã, do Grêmio da Faculdade de Filosofia da USP. O AI-5 iria pôr fim a essas iniciativas ou descaracterizá-las completamente.

Os clandestinos

As organizações políticas de esquerda, mesmo mergulhadas na clandestinidade, não demoraram a retomar ou a lançar seus jornais. Eles não iam às bancas, mas circulavam clandestinamente, de mão em mão ou enviados pelo correio.

O Partido Comunista Brasileiro (PCB) continuou a publicar o Voz Operária e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) manteve em circulação o periódico A Classe Operária. Além disso, a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop) retomou o Política Operária, e a Ação Popular, em 1º de maio de 1968, lançou o Libertação. Pela mesma época, surgiu o jornal O Guerrilheiro, da Ação Libertadora Nacional (ALN), e o Bandeira Vermelha, do Movimento Comunista Internacionalista.

  • Os veículos alternativos

– O Pasquim

Em junho de 1969, nas barbas do AI-5, surgiu no Rio de Janeiro O Pasquim, semanário de humor político. A publicação era feita por uma equipe de renomados ilustradores, chargistas e jornalistas, como Jaguar, Ziraldo, Millôr Fernandes, Fortuna, Tarso de Castro. Vendido em bancas de jornal, fortemente crítico ao regime, tornou-se desde o início um grande sucesso de vendas.

O Pasquim teve o mérito de fazer o povo rir da ditadura. Sofreu bastante com a censura e, em mais de uma ocasião, seus realizadores foram presos. Em determinado momento, toda a redação foi presa. Chegou a vender 200 mil exemplares em meados dos anos 1970. O Pasquim sobreviveu à ditadura, parando de circular só em 1991, já bastante descaracterizado.

– O Bondinho e Ex

Em 1971, surge em São Paulo O Bondinho, revista irreverente na linha d’O Pasquim, feita por remanescentes da revista Realidade. Sem recursos, fechou, dando lugar a Grilo e Jornalivro, que também fecharam pressionados pela censura. A mesma equipe lançou Ex, em novembro de 1973. Sua 16º edição, de novembro de 1975, se tornou histórica, pela denúncia do assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Parte dessa edição foi apreendida. A equipe recusou a exigência de censura feita pelo governo e encerrou a circulação do jornal.

– Opinião

Em 1972, no auge da repressão da ditadura, surgiu o Opinião, um jornal político abertamente de oposição, também do Rio de Janeiro. Sua criação foi fruto de uma aliança entre um empresário nacionalista, Fernando Gasparian, e um grupo de jovens jornalistas de oposição, liderados por Raimundo Rodrigues Pereira.

Contou com a colaboração de grande número de intelectuais brasileiros e estrangeiros e apresentava uma sessão fixa, com artigos do francês Le Monde. Fez grande sucesso, chegando a vender quase 40 mil exemplares em bancas. A partir da oitava edição, começou a sofrer pesada censura prévia, o que prejudicou muito a qualidade do semanário.

Em 1975, a aliança se rompeu, Gasparian demitiu o editor chefe Raimundo Pereira, e a maior parte da redação se demitiu em solidariedade a ele. O Opinião continuou a circular até 1977, quando Gasparian decidiu fechar o jornal por não suportar mais a opressão da censura.

– Movimento

Em 1975, Raimundo Pereira e sua equipe lançaram o semanário Movimento, em São Paulo. Um jornal em forma de sociedade anônima, cujos proprietários eram os próprios jornalistas e seus apoiadores, donos de ações.

Foi submetido à censura prévia desde a primeira edição, ao longo de três anos, até o nº 153, de 5 de junho de 1978. A redação fez um balanço do estrago: 6 mil artigos e ilustrações vetados, 4,5 milhões de palavras proibidas, prejuízo de milhões de cruzeiros. O objetivo do regime claramente era o de inviabilizar o jornal.

Com o fim da censura, cresceu a fiscalização da receita federal. Depois, veio o terrorismo de direita, com invasão de sucursais e, para piorar, bombas nas bancas que vendiam jornais alternativos. Muitos jornaleiros deixaram de vender o semanário e a circulação de Movimento sofreu grande queda. Mas nada disso impediu que o jornal contribuísse para o movimento pela democracia ao denunciar os crimes da ditadura, promover a luta pela anistia e a campanha pela assembleia constituinte. Circulou por seis anos até novembro de 1981, totalizando 334 edições.

– O São Paulo

O jornal O São Paulo, da Cúria Metropolitana de São Paulo, comandado pelo arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, se destacou na denúncia dos atentados aos direitos humanos no Brasil e em países vizinhos. O veículo tinha grande capilaridade, por ser distribuído nas igrejas e comunidades eclesiais de base (CEBs) da região. Também foi submetido à censura prévia, suspensa em junho de 1978.

– Em Tempo, Amanhã, Hora do Povo

O Em Tempo foi lançado, em 1978, por um grupo de jornalistas e intelectuais que haviam rompido com o semanário Movimento. Aglutinava grupos políticos que posteriormente participaram da formação do Partido dos Trabalhadores (PT). Experiência mais radical de participação da redação nas decisões editoriais, também sofreu com cisões que deram origem a outros jornais: Amanhã e Hora do Povo. O Amanhã teve apenas uma edição. Já o Hora do Povo, órgão oficial do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), circula sem interrupção até os dias atuais (2014).

– Politika e os nacionalistas

No Rio de Janeiro, circulou desde 1971 o jornal nacionalista Politika. Fechado por falta de recursos, os nacionalistas insistiram lançando Crítica e o Jornal de Debates.

– Versus e Cadernos do Terceiro Mundo

Em 1976, em São Paulo, surgiu também a revista Versus, focada na solidariedade latino-americana. Desde 1973, já circulava a revista Cadernos do Terceiro Mundo. Escrita em três idiomas, distribuída em 50 países, que circulou até 2007.

Os alternativos sociais

O Brasil Mulher, produzido por um coletivo de mulheres, surgiu em 1975 e tinha como objetivo fazer a campanha da anistia, liderada por Terezinha Zerbini. Discordando do que considerou tendências feministas no jornal, ela rompeu com o veículo e criou o jornal Maria Quitéria. Em 1976, surgiu o Nós mulheres, um jornal declaradamente feminista. Em 1981, passou a circular o Mulherio, um jornal de reflexão sobre a condição da mulher.

Todos os setores sociais queriam se manifestar. Em 1978, apareceram jornais da comunidade afrodescendente: Tição, no Rio Grande do Sul, Jonegro, em São Paulo, e Sinba, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lançou o jornal Porantim, em defesa dos direitos dos indígenas, que circula até os dias atuais. Ainda em 1978, jornalistas homossexuais criaram o Lampião, jornal que rompeu barreiras de comportamento e circulou com sucesso por todo o país. Nessa onda aparece uma série de publicações de contracultura, como Beijo, Flor do Mal, Rádice, entre outros.

Jornais de partidos, de sindicatos e de estudantes

Aproveitando o recuo da ditadura, as organizações políticas clandestinas começaram a lançar jornais legais. Em 1976, a Ala Vermelha lançou o ABCD Jornal. Os trotskistas, por sua vez, colocaram em circulação O Trabalho. Em novembro de 1979, o PCdoB lançou o Tribuna da Luta Operária. E, em março de 1980, o PCB fez circular o Voz da Unidade.

Reapareceram, respaldando as greves operárias, os jornais de sindicatos como o Tribuna Metalúrgica, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP). Em pouco tempo, passaram a ser numerosos: o Luta Sindical, da oposição sindical dos metalúrgicos de São Paulo, o Unidade, dos jornalistas de São Paulo, o dos portuários de Santos, o dos químicos, entre outros.

O movimento estudantil, em seu período de reorganização, produziu muitos jornais em todo o país. Já em 1972, estudantes da USP fizeram A Ponte. Em Londrina (PR) surgiu o Terra Roxa. Em 1977, o Avesso, do DCE da USP. Na Bahia, o Metanóia, e assim por diante.

Os jornais regionais

Alternativos importantes surgiram em diversas regiões, como o Varadouro, no Acre, a partir de 1977, em apoio à luta dos seringueiros em defesa da floresta. Chico Mendes era um de seus animadores.

Em 1974, a 4 mil quilômetros dali, em Porto Alegre, 66 jornalistas se reuniram numa cooperativa e formaram um dos jornais mais sólidos do período, o CooJornal, que chegou a circular com 60 páginas. Muito pressionado pelos militares, teve diretores processados e presos.

Em 1976, em Belo Horizonte, um grupo de jornalistas inconformados abandonou seus empregos na grande imprensa e foi fazer o De Fato, que denunciava as más condições da população, os crimes da ditadura e fez campanha pela anistia e pela assembleia constituinte.

No mesmo ano, surgiu o Cidade Livre, em Brasília. Em 1979 apareceram o Berrante, em Campo Grande (MS), o Mutirão, em Fortaleza (CE), o Jornal do Povo, no Recife (PE), de 1978, assim como o Resistência, de Belém. Cabramacho, uma revista de Natal (RN), começou a circular em 1974.

No Rio de Janeiro, surgiu em 1976, o Repórter, talvez o mais irreverente de todos os alternativos. Defensor dos direitos humanos dos trabalhadores da baixada fluminense, agredia, provocava, navegava pelo sensacionalismo e pela escatologia. Chegou a vender 100 mil exemplares. Teve edições apreendidas, processos judiciais, foi alvo de atentados, deixou de circular em 1980. O editorial de sua primeira edição é o retrato daquela época obscura: “Nós somos uma geração de jornalistas formados no AI-5, na paranoia. Nós somos o medo. Ele escorre por cada linha que escrevemos. E mancha o papel de vergonha.”

 

Fonte: Memórias da Ditadura.com/Municipios Baianos

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