15/11/2017

O mito da democracia racial brasileira

 

Caetano Veloso, tratando sobre o nascimento de sua amizade com Gilberto Gil, no livro Verdade Tropical conta que sua mãe um dia lhe disse: “Caetano, venha ver o preto que você gosta”. E o cantor registra ainda: “Eu sentia a alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele, e por minha mãe saudar tudo isso de forma tão direta e tão transcendente”.

Esse trecho do livro me veio à lembrança após o episódio com o jornalista da Rede Globo, William Waack, que tem sido assunto dos últimos dias.

Evidentemente, o “preto” de Waack e da Dona Canô possui conotação bem diferente.

Expressões do tipo ” sai pra lá que não sou tuas nega”, “negro dominó: negro com pinta de branco”, “esse tem o pé na África”, “coisa de negro” são tão naturais no linguajar do brasileiro que, para quem fala, não carregam conteúdo, portanto, estariam supostamente isentas de preconceitos.

Esse comportamento brasileiro foi identificado por Florestan Fernandes (sociólogo brasileiro do séc. XX, autodenominado mestiço) ao se opor a ideia de democracia racial, cunhada por Gilberto Freyre. Para Freyre, o Brasil possuía uma interrelação racial adequada, a ser admirada por outros países, especialmente por aqueles que viviam nos seus esquemas jurídicos de segregação racial e Apartheid, como EUA e África do Sul.

Fernandes, por outro lado, denunciava a existência do racismo velado por meio de comportamentos sutis e cruéis da democracia racial. Apontava que, diante da verticalização das relações da sociedade brasileira, ao escravo liberto não fora dada a condição de trabalhador livre e cidadão, por não ter sido efetivamente integrado a essa sociedade.

Ainda atualmente, a discriminação se mostra de forma tanto aberta quanto velada. A primeira é objeto de conflitos diretos e pode ser facilmente medida, a exemplo dos resultados do Atlas da violência de 2017. Por causa dos números e da clareza dos fatos é mais difícil negar a existência desses comportamentos.

São inúmeras as fontes formais, leis em sentido amplo, no âmbito internacional e nacional, que combatem essas práticas discriminatórias, especialmente relacionadas à questão racial. A internacionalização da proteção dos direitos humanos teve início após a Segunda Guerra Mundial, sendo um dos objetivos da ONU acabar com a ideia de raça e valorizar a ideia de ser humano.

Um dos primeiros instrumentos do direito internacional relacionado com o combate direto à discriminação racial, de forma específica, foi aprovado no âmbito da Organização Internacional do Trabalho (OIT), agência especializada da ONU. A Convenção nº 111, relativa à Discriminação em matéria de Emprego e Ocupação, de 1958, representa um dos marcos no combate à discriminação racial, por tratar de um dos campos mais importantes da vida social e no qual, efetivamente, a discriminação se dá de forma corriqueira e com ampla repercussão na trajetória dos indivíduos.

No Brasil, há numerosos dispositivos constitucionais e infraconstitucionais que dispõem sobre o racismo e as mais variadas formas de discriminação, inclusive prevendo sanções penais.

É, no entanto, a forma velada que tem o alcance mais devastador na autoestima do ser humano. Gera o paradoxo do preconceito inconsciente. Por um lado, o uso de expressões e ditados são socialmente aceitos, porque não tinham intenção ofensiva, não passando de um mal-entendido. De outro lado, evitam-se expressões como racismo, pele preta, negro, numa atitude de esquiva, para evitar a problematização do preconceito em nome da manutenção de uma falsa paz.

Esse pensar e agir de um modo automático se tornou uma armadilha óbvia da cultura da indiferença, uma espécie de anestesia com a existência de outro ser humano, especialmente quando não há pontos de contato entre eles.

Tais atitudes acabam criando um estado de corrosão social, por encolhimento. E mais e mais discriminações e preconceitos são introduzidos na experiência humana, afinal é isso o que o exemplo arrasta.

O preconceito inconsciente está enraizado de tal modo na nossa sociedade que, no ambiente de trabalho, já se pode inclusive medir. Segundo o IBGE, em 2013, só em Porto Alegre a diferença salarial entre negros e brancos chegava a R$ 669,78, já em São Paulo essa diferença era ainda maior e girava em torno de R$ 1021,85.

Ainda que muitas empresas estejam atentas para a necessidade de implementação de boas práticas, os processos de contratação são subjetivos e por isso tendem a refletir dentro dos muros corporativos os mesmos padrões existentes fora do ambiente laboral.

Essas situações acontecem comumente em ambientes empresariais de relações de poder verticalizadas, de submissão ou subordinação, passando a se enraizar na cultura da empresa de tal modo a assumir um caráter de naturalidade, normalidade ou, quando descobertas, de mal-entendido, mais uma vez refletindo o caráter velado do preconceito.

Não raro as empresas fazem uso de contratações como plataforma, pretendendo demonstrar a existência de um ambiente de diversidade e de igualdade de condições por merecimento, sem subjetivismos. Muitas destas estabelecem condutas de não discriminação, bem como de respeito às diferenças, fazendo constar, inclusive, nos seus códigos de ética e regimento interno. Mas mascaram o preconceito e a discriminação nos processos de gestão, com critérios diferentes para salário, promoções, transferências, além da prática de assédio moral. Note-se que essa última tem sido identificada como uma das maiores causas de adoecimento no trabalho.

Todavia, não é só no ambiente laboral que a tônica da discriminação aparece quando surge a disputa de espaço, também acontece na educação, na saúde, na cultura, entre outros. A luta de classe é só mais um fator.

Quando atitudes como a do jornalista vem a público, também vem a reboque a crítica, mas julgar o outro é fácil, o que deveria acontecer é auto-crítica. Em que posição eu estaria? Quantas vezes já fui partícipe dessas ofensas, ainda que com risadas ou olhares discriminatórios?

Alguém que pretenda viver em ambiente democrático tem que se abrir para dialogar com o outro, e, nesse aspecto, não vale o espelho.

Elisa Lucinda: Coisa de branco, até quando?

Escroto, consciente, ativo, legitimado, estrutural, septicêmico em todos os órgãos da nação, o racismo de William Waack não é só dele. Essa é a pior notícia. “Coisa de preto” é subtexto corrente na mente de grande parte de uma sociedade criada sob os parâmetros da Casa Grande. O diabólico plano que começou com tráfico, tortura e assassinato do povo negro e que durou quatrocentos anos, é mais nefasto e homicida do que os cinco ou seis anos do holocausto judeu e essa dor a humanidade respeita mais. Não estou dizendo que uma dor é menor do que a outra. Mas afirmo que o holocausto da escravidão negra continua até hoje e não comove nossa sociedade. Não importa, em geral, a quantidade de negros sem nome, sem sobrenome nobre que é assassinada diuturnamente nas favelas e periferias deste país. Ainda rola no imaginário brasileiro a ideia obsoleta de que “preto bom é o de alma branca”, é o sem voz, e há neste imaginário uma desvalorização da etnia negra como se houvesse para isso alguma defesa científica que apontasse no DNA de uma raça sua propensão à sub-humanidade.

O que impressiona muito no vídeo do Willian é sua falta de conflito com o tema, seu conforto escancarado e muito bem acomodado dentro de sua convicção. Quando a Globo que, felizmente, com muita rapidez, prontamente se posicionou repudiando e afastando o jornalista, afirma que vai pedir esclarecimentos dos fatos, dá vontade de ser uma mosquinha na cabeça deste profissional para ver qual será o melhor argumento nos bastidores dessa saída. A situação é indefensável. Não falou sem querer, não estava nervoso. Repito: trata-se de uma convicção. Absolutamente consciente e levemente temeroso de que sua fala pudesse comprometê-lo, ele, textualmente, quase evita falar abertamente: “Tá buzinando por quê? Ô seu merda do cacete! Deve ser um... Não vou nem falar quem. Eu sei quem é... Você sabe quem é né?” Mas não resistiu. Saiu. Pulou da boca. Pensa assim. Concorda com o racismo. É porta voz dele. Estamos diante de um vazamento e por ele podemos supor quantas dessas atitudes não chegam a público e fazem a graça de muitos bastidores. Não seria leviano de minha parte afirmar que essa não é uma atitude isolada deste jornalista. Um detector de discriminação racial afinado talvez não tivesse dificuldade em encontrar na educação, dele e de sua família, a ideologia revelada no patético vídeo gravado em frente à Casa Branca. Ele estava nos Estados Unidos, ele falava português, ele estava em seu “camarim” e não imaginou que a máscara Waack estava sendo retirada antes do público deixar o teatro. Sou atriz, vivo no teatro, e sei que se o público por algum motivo avista o truque, a ponta da carta escondida sob o manto do mágico, não há outra saída para o artista se não render-se à verdade. Já era. O público viu. Fodeu. É melhor admitir. Flagrantes são inegáveis. Qualquer tentativa de desqualificar a verdade flagrante é constrangedoramente impotente.

O que está em jogo aqui é como deter o escravagismo moderno, esse que foi trazido através da linguagem das escrotíssimas expressões que destroem a auto estima do povo negro a cada minuto, e que vão mantendo a obra da escravidão na cabeça de jovens brancos, de crianças brancas, em pleno 2017. A semente do mal é reproduzida em todos os lugares, inclusive nos jornalismos, inclusive nas ficções. Sou jornalista também de formação, e sei da responsabilidade pública que temos com a informação, sei do poder de influência da palavra jornalística na formação de opiniões. Diante disso numa democracia, ter um jornalista que apresenta um jornal importante numa emissora que alcança milhões de espectadores diariamente, defendendo posturas racistas, expondo-se inclusive judicialmente a um processo, aponta para uma demissão sumária deste profissional. Não vejo outra saída. Para mim, é tão grave quanto um médico que não atende um paciente preto e pobre na emergência. Para William Waack, a vida do preto, o pensamento do preto, a atitude do preto, os direitos do preto são menores e tudo nele vale menos. Está entranhado em seu DNA cultural branco e dominador tal aberração intelectual. Sua ignorância é sofisticadamente tosca, uma vez que ocupa um cargo nobre na tele informação. E essa ignorância é tão sofisticada quanto perniciosa, representa um pensamento vigente que raramente tem coragem de mostrar a cara, de sair do armário. Mas é este pensamento que gera a atitude prática de fechar portas, e de provocar em nós, em nossas organizações civis e nas leis, a feliz estratégia dos sistemas de cotas. Quando Cazuza diz que a burguesia fede é a isso que ele se refere. Há uma hipocrisia católica, disfarçada de caridosa, ornada dos aparentes bons costumes, mas que chafurda na lama tóxica de seus preconceitos e na sua luta pela preservação das senzalas, dos quartos de despejos e da persistência variada das chibatas. Presídios, quartos de empregadas, entulhos das favelas e periferias, tudo têm como modelo os porões da escravidão.

Eu teria vergonha de ensinar racismo aos meus filhos, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista em meu local de trabalho, William não tem. Eu teria vergonha de ser racista sendo brasileira e estando trabalhando em terras estrangeiras, William não tem. De usar a minha língua contra o povo que construiu a minha nação, William não tem. E por isso representa uma vergonha para o povo brasileiro. Sua declaração bate na cara dos negros que labutam para o sucesso da história desse país e da empresa que ele trabalha; sua declaração é um acinte, um achincalhe no talento de grandes atores negros que deram e dão sua arte à teledramaturgia brasileira contribuindo para um sucesso de público que atravessa décadas. Sua declaração atinge também em cheio a consciência de brancos a quem ele não representa, os constrange, os convoca a limpar a própria barra. Puni-lo com uma demissão me parece uma atitude equivalente ao crime. Condiz. Sua opinião provoca um grande estrago e põe o dedo numa chaga acesa. Se ele trabalha numa empresa que não apoia o racismo, o seu flagrante delito o torna naturalmente afastado da emissora. Se a Rede Globo não quer compactuar com uma atitude discriminatória não pode ter em seus quadros quem pensa diferente disso, uma vez que tal quesito está espargido em todos os conteúdos de sua programação. Neste momento, estou fazendo a campanha da ONU chamada Vidas Negras. Os números são alarmantes, perdemos grandes exércitos de meninos que saem da escola para o crime e, entre estes, milhares são assassinados sendo inocentes, só por serem negros. E só. Por valerem menos.

Mas a tragédia só se realiza, só chega a virar sangue, a virar tiro de fuzil, só chega a matar depois de se consolidar na mente de muita gente, e muita gente que manda neste país. É este jogo que nós temos que desmontar. Quando se diz “coisa de preto” como sinônimo de inferior ou ruim, no fundo estamos produzindo um conteúdo que dará autorização para matar. William Waack não é o único a pensar assim, é isso que o vídeo veio nos revelar. É coisa de branco e aos bons brancos deve envergonhar. O assunto está bombando. A questão racial no novo  filme de Daniela Thomas vai ser assunto nessa sexta no Pedro Bial. Não dá mais pra segurar. O mundo pede abolicionistas modernos e quer saber de que lado você está.

A "questão Waack", por Eduardo Ramos

Acompanhei ao largo a "questão Waack". Por me parecer banal. Um jornalista é gravado falando uma imensa bobagem (todo preconceito desse tipo, incluindo aí o racismo, será sempre uma tolice sem tamanho, além de odioso), revela seu preconceito contra os negros e é demitido pela empresa. Ponto. Isso sequer revela que o jornalista seja de fato um racista, revela apenas que é capaz de em ambientes privados emitir conceitos racistas - são coisas diferentes que não vou tentar explicar aqui porque não vem ao caso.

O bom de não ter tido opinião a respeito no início da repercussão do episódio é assistir a tudo como espectador, essa é uma boa forma de tentar aprender vendo o todo e não apenas uma parte do fato.

Ponto um

Tirando o ódio e os desejos de vingança, todos os que se manifestaram contra a AÇÃO de Waack, bem o fizeram: porque o racismo é uma praga a ser combatida de modo determinado pela sociedade, como são todos os preconceitos.

Mas elevar o combate à fala deplorável ao ódio doentio da direita, soa como uma "contaminação" de algo que a esquerda deplora. Nesse aspecto, vejo o "discurso" do Nassif como uma tentativa de expor os excessos e seguir sua natureza - e a de muitos aqui... - de ir contra o linchamento, o apedrejamento do sujeito, o famoso "chutar a cara do inimigo caído no chão" - qual o mérito disso, afinal?

Ponto dois

Um bom ponto jornalístico, social, filosófico, etc. etc. a ser debatido, me parece vermos quais os preconceitos hediondos, além do racismo, praticados, espraiados não só por e entre jornalistas, mas nas classes sociais que têm força e voz no Brasil. Por exemplo, o termo "petralhas" - tão carregado de nojo e ódio quanto os preconceitos ancestrais da humanidade.

Sem querer comparar os indizíveis sofrimentos das pessoas negras, há séculos vítimas dessa chaga, o racismo, com os outros preconceitos havidos entre nós, podemos e devemos tentar enxergar a RAIZ desses sentimentos na alma de muitos brasileiros - porque se tornou uma FORMA DE PENSAR / SENTIR / AGIR, rotular as pessoas com termos pejorativos - ou assim tornados... - por aqueles que se sentem SUPERIORES à pessoa agredida ou grupo social agredido. Assim, Dilma vira "a vaca", "a anta", "o poste de Lula". Lula vira o "molusco", e numa alusão perversa, doentia, ordinária, na boca de Sérgio Moro e de milhões de brasileiros, vira o "NINE"..... - ISSO NÃO É TÃO GRAVE, E NÃO PERTENCE À MESMA FONTE do "só pode ser preto", do Waack??? - eis uma das grandes questões. Porque, como, chegamos a esse ponto, porque a Globo, que agora banca a defensora do "não-preconceito", - hipócritas! - nunca se importou, por exemplo, que pixulecos de Lula em roupas de presidiário fossem ostentados em programas da Globo News, como todos pudemos assistir...?

Ponto três

Personificar a estupidez de Waack, demonizá-lo, odiá-lo, é apenas isso - fazer uma catarse de ódio aproveitando o vazamento de sua fala tosca e odiosa, num movimento que se torna reduzido e reducionista - daí a necessidade dos contrapontos, como o trazido pelo Nassif - que, obviamente, não está "defendendo o Waack" - apenas nos lembra da pobreza que é a coisa do linchamento - porque é!

Ponto quatro

FHC chamou aposentados de "vagabundos", após a eleição de 2014, ofendeu de modo grotesco aos nordestinos, chamando-os de "burros" e que teriam "vendido seus votos pelo bolsa família". Eu e todos aqui, escreveríamos centgenas de exemplos de pessoas públicas em cenas igualmente lamentáveis.... Ora, não "odeio" FHC, Waack e assemelhados por essas falhas de caráter, esse narcisismo, odeio suas ações, a elas devo e quero combater. Como à intolerância de uma classe média enferma em relação aos nossos pobres, que faz com que rejeitem todos os políticos e partidos progressistas, que trazem programas, ideologias, intenções inclusivas, nas suas ações.

A "questão Waack" é MUITO MAIS do que alguém a ser massacrado por "ser pego em flagrante". Em si, é apenas um fato particular, que deve sim ser punido pela empresa - Globo - para que sirva de lição - hipocrisia à parte..... - Devemos repudiar a fala racista? Evidente que sim! Mas se não AMPLIAMOS o debate, perdemos uma oportunidade de enxergar quem somos como sociedade, como nação.

 

Fonte:  Por Mônica Fenalti Delgado Pasetto, no GGN/RBA/Municipios Baianos

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