16/11/2017

A quem interessa a onda de intolerância religiosa que sacode o Brasil?

 

O Brasil está destruindo um dos seus maiores valores, sua proverbial tolerância religiosa e a coexistência pacífica entre as diferentes confissões. A quem interessa essa onda iconoclasta que - como este jornal publicou - cresceu 4.960% em apenas cinco anos, que registra uma denúncia de hostilidade ou profanação de locais de culto e pessoas que os dirigem a cada 15 horas?

Os mais perseguidos são os locais de culto das religiões de matriz africana, mas também atinge templos católicos e protestantes, igrejas evangélicas, centros espíritas e sinagogas judaicas. Imagens de orixás são queimadas, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida é destruída a golpes de martelo, os sacrários das igrejas católicas são violados e as hóstias consagradas são jogadas no chão e nem os cemitérios são respeitados.

Estamos diante de um fato novo e é urgente descobrir o que se esconde por trás dessa nova guerra contra o sagrado. Que a um Brasil atravessado por uma perigosa corrente de ódio político e social se queira acrescentar a intolerância e a agressão física aos símbolos e pessoas religiosas poderia ser a última etapa da barbárie. A tolerância e a riqueza de entidades religiosas convivendo em paz neste país foi resultado da feliz conjunção histórica do encontro de três crenças trazidas pelos três povos que engendraram o Brasil: a indígena, a cristã - contribuição dos europeus -, e a africana, dos quatro milhões de escravos.

O longo e perigoso trabalho realizado pelas diferentes crenças religiosas para defender seus deuses produziu o milagre do sincretismo pacífico. Não foi realizado sem dor, mas o Brasil conseguiu manter a essência das três raízes espirituais caminhando juntas e até misturadas, dando vida a uma riqueza religiosa e cultural talvez única no mundo.

Isso fez com que o Brasil fosse um dos países mais permeados pelo sagrado e, de acordo com muitos estudiosos das religiões, com uma diferença significativa, pois colocou o sagrado no coração da vida para libertá-la dos medos das religiões monoteístas injetando doses de felicidade e amor pela Terra e pela vida, a de carne e osso.

Foram as crenças africanas que ajudaram os brasileiros a ver, por exemplo, com novos olhos, não só a vida, mas também o seu fim, pois nelas os mortos, como escreveu o poeta senegalês Birago Diop, “não estão sob a terra, eles estão na árvore que geme”. Eles continuam vivos e ao nosso lado para nos proteger.

Triste paradoxo o de que um Brasil fazendo terrorismo com as crenças religiosas de origem africana quando elas começam a ser importadas pelo Ocidente racionalista. A mãe de santo alemã Gabriela Hilgest confessou, por exemplo, à minha colega Carla Jiménez, que os brasileiros “são espiritualmente mais desenvolvidos do que os alemães”.

Hoje é possível ser crente, agnóstico ou ateu, mas queiramos ou não, é impossível evitar a pergunta de por que se morre, que segundo os especialistas foi a origem de todas as religiões. O Nobel de Literatura, o ateu José Saramago, disse que se os homens deixassem de morrer, as religiões acabariam. Mas continuamos morrendo, e as crenças, todas elas, com suas luzes e sombras, com seus símbolos sagrados e credos diferentes, nos lembram que a vida continuará atravessada pela dúvida, já que ninguém ainda resolveu o enigma do além.

Existem símbolos e arquétipos como os da vida e da morte, da mãe terra ou do sagrado, que, se não forem respeitados, deslizaremos para uma nova barbárie tão perigosa, se cabe a expressão, quanto a política ou a social. Somente os animais não têm cemitérios nem rendem cultos a seus mortos, embora pareça que os elefantes se afastem para morrer em um lugar especial para isso. Perseguir ou desprezar qualquer tipo de busca espiritual é querer apagar com violência a curiosidade, e talvez a necessidade, que o homem continua tendo pelo mistério.

Umbanda, a religião brasileira que chegou à Alemanha

O coração segue caminhos misteriosos e foi por um desses mistérios que a terapeuta alemã Gabriele Hilgers se casou com o Brasil. O casamento foi selado através da umbanda, a religião brasileira que ela conheceu há dez anos e pela qual se apaixonou de tal forma que a levou para a sua terra natal. Gabriele se tornou a primeira mãe no santo alemã, status das sacerdotisas desta prática religiosa, depois de ser coroada em 2006 por um pai no santo brasileiro. Dois anos depois inaugurou o primeiro terreiro de umbanda da Alemanha. A dança alegre, o som dos atabaques e a linguagem simples para aflorar o amor ao próximo “têm quebrado paradigmas dos alemães que frequentam esta casa”, comenta mãe Gabrielle.

A religião brasileira, que acaba de completar 107 anos no último dia 15, nasceu sob influência dos negros trazidos da África para cá na época da escravidão. Ela trabalha a espiritualidade sob a inspiração de espíritos antigos e um panteão de orixás, as divindades cantadas em verso e prosa no Brasil. De Vinícius de Moraes (era adepto da religião), a Gilberto Gil, de Chico Buarque a Gal Costa, todos já renderam homenagem às figuras de Iemanjá, a rainha do mar, Oxum, que mora nas cachoeiras, ou pai Xangô, que vive na pedreira... Hoje os alemães também ‘batem cabeça’ – expressão usada para discriminar a saudação aos guias espirituais na umbanda – a todo o panteão de divindades desta religião, que lembra, em alguns aspectos, a mitologia grega.

Dezenas de alemães vestidos de branco se reúnem semanalmente na Casa de Irradiações Espirituais de São Miguel, o centro de umbanda de Gabriele, que funciona atualmente em Viehl, mas está de mudança para Colônia, a quarta maior cidade alemã, onde será reinaugurada em janeiro.

Pele branquinha, olhos azuis e cabelos negros, Gabrielle é natural de Düsseldorf. Chegou à umbanda quando pesquisava novas religiões pelo mundo. Era uma etapa em que se encontrava inquieta, disposta a aprofundar sua capacidade de cura, que até então estava restrita aos conhecimentos da psicologia pela física quântica, uma divisão da física tradicional que enfatiza o poder da energia do pensamento, positivo ou negativo, sobre as pessoas.

Ironicamente, foi durante uma imersão de meditações na Índia que ela sentiu o impulso de aprender português e vir ao Brasil, onde nunca havia pisado antes. “Foi assim. Tive vontade de aprender a língua portuguesa. Não sei por que tive essa vontade se nunca havia tido contato com o país”, lembra. Seguiu a intuição e pediu indicações de espaços que desenvolvessem a espiritualidade. Chegou a um centro que lhe foi recomendado, na zona sul de São Paulo. Ao ouvir o som do atabaque que acompanha os ritos de umbanda, e a atmosfera de dança e de entrega à incorporação, disse a si mesma: “Isto é pra mim!”. “Eu dancei o tempo todo, algo que nunca havia feito antes, e pensava internamente: ‘É uma loucura’. E me senti feliz, como sempre me sinto quando estou com a umbanda.”

Sair do controle para uma representante da cultura germânica foi, ao mesmo tempo, inesperado e libertador. “É uma chance para nós, alemães, de viver a nossa verdade pelo coração, numa religião que não tem dogmas, como é a umbanda”, afirma. Ao contrário do catolicismo, por exemplo, onde os referenciais de transcendência são santos tão bondosos que beiram à perfeição, os filhos da umbanda conhecem a luz e a sombra dos orixás que regem a sua vida. Na luz, as qualidades afloram. Na sombra, os defeitos. Oxum, por exemplo, tem infinita amorosidade pelo outro. Mas é ciumenta, e não gosta de ser contrariada. Ogum é guerreiro, forte e determinado. Mas também instável e impulsivo e por vezes arrogante.

A simplicidade com que são apresentados os torna mais próximos das pessoas, que se enxergam nesse espelho ao ver seu potencial, ao mesmo tempo em que se sentem mais à vontade ao reconhecer suas falhas quando percalços da vida coloca o equilíbrio em risco. Um bálsamo para seu seguidores no Brasil e para a rigidez alemã, assegura Gabriele. “Os alemães se sentem confortáveis com a umbanda porque podem ter um contato com Deus sem ter o peso de serem 100% corretos e perfeitos o tempo todo. Traz leveza para a sua realidade”, afirma. O erro se transforma numa fonte de aprendizado e não mais de penitência, compara.

A religião brasileira vive a crença de que os médiuns incorporam espíritos antigos de uma dezena de entidades, como o preto velho – espíritos de negros idosos, quase sempre escravos que morreram e guardam sabedoria para lidar com os problemas terrestres –, ou o caboclo (índios guerreiros), e com a inspiração desses ancestrais se comunicam com as pessoas que procuram o centro de umbanda para dividir suas preocupações ou tristezas, em busca de uma orientação ou apenas um ombro amigo. “Temos recebido gente da Alemanha inteira e também de outros países vizinhos”, contou Gabriele ao EL PAÍS em sua passagem por São Paulo. Como no Brasil, as pessoas que buscam um 'atendimento' na umbanda vão atrás da cura de todo tipo de dor. Mágoa, raiva, ansiedade, depressão, dívidas... aquele momento confuso em que não se vê nenhuma saída. Quase sempre a porta de entrada para as religiões. A umbanda, porém, parece mais descomplicada a seus fieis e trabalha com elementos muito familiares ao Brasil.

Os médiuns alemães atendem os seus invocando a energia das entidades conhecidas dos brasileiros, mas também trabalham com arquétipos da cultura local, como druidas e wikas, da mitologia celta. Hoje, centenas de alemães frequentam a Casa de Gabriele, que já vislumbra a coroação de três novos sacerdotes: duas mães no santo e um pai no santo, todos nascidos na terra da chanceler Angela Merkel. Quando questionada se os alemães não deveriam se sentir menos à vontade diante de um credo vindo de um país tão diferente, Gabriele responde certeira: “Os brasileiros são muito mais evoluídos espiritualmente que os alemães”, garante.

Mas, nem todos têm essa leitura e algumas provações começaram a aparecer no caminho desta mãe no santo. Depois de uma acolhida calorosa no início, com fieis seguidores e um público crescente, há um ano começou a sentir na pele o preconceito que a religião também desperta no Brasil. Os vizinhos do endereço atual onde se encontra o terreiro começaram a reclamar da movimentação no entorno, do barulho dos tambores, do canto e a estranhar as vestimentas do grupo. “Começaram a me chamar de ‘líder de seita’, a reclamar na prefeitura, a enviar cartas para os jornais locais”, conta. Nada, porém, a faz desanimar da sua missão. “Me aguardem, não vou desistir jamais”, afirma, que já sonha com novos espaços dentro em breve.

 

Fonte: El Pais/Municipios Baianos

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