19/11/2017

Porque o tal do mercado não despreza Bolsonaro

 

O namoro do tal do mercado com Bolsonaro obedece à palavra mágica: business. Há tempos, o mercado se deu conta de que figuras histriônicas, acidentes da política, se prestam a grandes jogadas de negócio. É o que explica o apoio a figuras desprezíveis, como Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco.

É o caso do Credit Suisse na Rússia. Recentemente, publicou um relatório sobre o problema da desigualdade na Rússia.

Mas quando se desmanchou a ex-URSS e teve início o desmonte perpetrado por Boris Yeltsin, o Credit Suisse foi o grande beneficiário.

Em 19923 criou o Credit Suisse da Rússia liderado por um jovem banqueiro americano, Boris Jordan, neto de russos brancos, que imigraram no início do século 20.

Jordan mantinha relacionamento estreito com os responsáveis pelas privatizações da ex-URSS. Na primeira onda de privatizações, foram distribuídos vouchers, para serem transformados em ações das empresas recém-privatizadas. Apenas o Credit Suisse de Jordan adquiriu 17 milhões de vouchers, ou 10% do total.

As duas conexões de Jordan, com apoio dos EUA, foram o primeiro-ministro Yegor Gaidar e Anatoly Chibais, cérebro do programa de terapia de choque que desorganizou a economia russa e criou a nova classe dos oligarcas e levou ao empobrecimento da população russa.

Em entrevistas concedida anos depois, Jordan admite que a criação dos vouchers visou garantir que o parlamento da Rússia não iria impedir as privatizações.

Houve todo tipo de jogada com os vouchers. A mais conhecida foi dos irmãos Chandler, atraindo vouchers para empresas russas super-avaliadas, diluindo assim o valor dos vouchers, e revendendo suas participações com grandes lucros.

Os irmãos Chandlers bancam o Instituto Legatum, um grupo de neocons com sede em Dubai, que se vale das redes sociais para uma guerrilha de informação contra o governo russo.

Essa terapia de choque, de 1992, resultou em 1998 na corrida contra o rublo que desorganizou mais ainda a economia russa. Acabou confiscando as economias das classes média e baixa, gerando um processo agudo de concentração de renda.

Segundo o Blog The Exilated, que publica análise sobre a economia russa, em 1994, Jordan concendeu uma entrevista à Forbes sobre um esquema que tentava emplacar junto a Yeltsin. Era o "empréstimos por ações", considerado o maior saque da história contra a economia russa. As principais empresas russas, óleo, gás, recursos naturais telecomunicações, bancos estaduais foram entregues a um grupo reduzido de banqueiro.

No final de 1995, Yeltsin anunciou leilões através dos quais os banqueiros emprestariam dinheiro ao governo em troca do controle "temporário" sobre os fluxos de receita das mais valiosas empresas russas.

Cada leilão foi manipulado pelo banco vencedor, que passou quase nada pelo controle. E ainda tiveram o benefício de passar a gerir folhas de salários e outros fundos públicos. Houve atrasos de salários por meses ou mesmo anos, quando se valiam dos fundos para especular ou para comprar ativos em leilões manipulados.

Quando os empréstimos por ações foram implementados, no final de 1995, Boris Jordan associou-se a um dos oligarcas, Vladimir Potanin, criando o seu próprio banco de investimentos, o Renaissance Capital. Criaram o primeiro fundo de private equity, a Sputnik Capital, tendo como investidores George Soros e a Universidade de Harvard.

Segundo o Blog, essa terapia de choque teve um custo imenso para a Rússia. Nos primeiros dois anos de terapia de choque e privatização de vouchers a inflação foi de 1.354% em 1992 e 896% em 1993, enquanto os rendimentos reais caíram 42% apenas em 1992. Os salários reais em 1995 foram reduzidos à metade do valor de 1990. E as pensões foram reduzidas a 25%.

Os investimentos em bens de capital cairam 85% na década. A produção de alimentos domésticos desabou para metade dos níveis durante a perestroika. Em 1999, metade dos russos se alimentavam em alimentos cultivados em seus próprios jardim, retornando à agricultura de subsistência.

A expectativa de vida masculina russa caiu de 68 anos durante a era soviética tardia, para 56 em meados da década de 1990, mesmo índice dos tempos do czar. E a taxa de mortalidade infantil bateu recordes mundiais. Mais de 6 milhões de russos morreram prematuramente durante as reformas de mercado.

Jair Bolsonaro vem mesmo aí, desempenhando o papel do anti-Lula

Falta menos de um ano para as eleições de 2018. Não falta quem diga que qualquer análise sobre as perspectivas do ano que vem são ainda prematuras, que as eleições não estão definidas faltando tanto tempo para o pleito. Espero que essas análises estejam corretas, mas temo que a premissa esteja baseada nos dados de eleições passadas que tão pouco parecem ter em comum com o que está por vir em 2018. No último fim de semana, o jornal Folha de São Paulo publicou matéria sobre o apoio que Jair Bolsonaro tem recebido do mercado diante do risco de retorno de Lula à Presidência da República.

É fato que Bolsonaro vem se posicionando como o “anti-Lula”. Além disso, o candidato possui poderoso discurso valorizando a lei e a ordem e sabe apelar para a emoção dos eleitores nos vídeos que veicula nas redes sociais.

UMA BOA ARMA

O apelo emocional é arma para lá de importante na batalha por votos – em 2016, Donald Trump revelou como a arte da retórica inflamada, com ou sem fundamento na realidade, é capaz de superar a racionalidade de qualquer argumento em contrário. A isso soma-se a capacidade de mexer com os valores morais da sociedade e de tocar nas feridas das guerras culturais, hoje em voga no Brasil.

A agenda econômica de Bolsonaro, que, por falta de informação e conhecimento do próprio candidato, parece mistura esquisita de nacional-desenvolvimentismo e liberalismo, com pitadas de repúdio protecionista à China, deve ficar à margem do eleitorado não-participante do mercado.

E o que é possível dizer sobre o papel dos valores morais nas eleições? Artigo acadêmico recente de um jovem professor e economista da Universidade de Harvard destrincha o impacto dos valores morais nas eleições presidenciais americanas. Ao fazê-lo, o estudo conclui que as decisões dos eleitores foram menos motivadas por razões puramente econômicas – a desigualdade, o declínio dos estados do chamado cinturão de ferro, a perda de empregos associada ao encolhimento da indústria tradicional – do que muitos analistas supõem.

VALORES MORAIS

O papel dos valores morais, comumente ignorado pelos economistas, explica parte relevante do comportamento do eleitorado Trumpista. Essencialmente, há dois tipos de considerações morais delineadas por sociólogos e psicólogos que trabalham com ciência política: de um lado, considerações que dizem respeito a princípios morais universalmente aceitos, isto é, valores que se aplicam igualmente a todos, como a justiça ou a caridade; de outro, valores que correspondem à lealdade a um determinado grupo da sociedade.

O autor mostra, por meio de minuciosa análise de dados, que o comportamento do eleitorado norte-americano em 2016 esteve fortemente associado a essa moralidade tribal, ao sentimento de fidelidade e responsabilidade dos eleitores com seu grupo ou comunidade – ainda que os valores desse grupo pudessem apresentar algum conflito com os valores universais.

E NO BRASIL?

Não temos o mesmo tipo de análise para o comportamento dos eleitores no Brasil, mas a polarização evidente e crescente sugere que as próximas eleições poderão ser influenciadas por elementos semelhantes. Basta considerar os argumentos dos que se dizem a favor de Bolsonaro. Para esses eleitores, o discurso inflamado contra criminosos e corruptos (na linha “bandido bom é bandido morto”) supera a contradição com valores supostamente universais.

O fato de ter Bolsonaro defendido a saída do Brasil de tratados internacionais de direitos humanos não parece influenciar a visão sobre o candidato – ou, se o faz, influencia de forma inversa: “defesa de direitos humanos é coisa da esquerda”. A recente guinada aparentemente liberal do candidato tem forte apelo para aqueles que acreditam que o Brasil precisa de uma “direita forte” para combater a praga de uma suposta “esquerdopatia” tupiniquim.

E OS OUTROS?

Do outro lado do espectro, entre os defensores de candidatos que se posicionam à esquerda de Bolsonaro – Lula é um caso à parte de tribalismo –, estão  os que enxergam nos movimentos autodenominados de direita uma afronta aos valores de seu grupo.

Independentemente de Lula vir ou não a ser candidato, o fato é que Bolsonaro parece até agora ter tido mais sucesso em apelar diretamente para os valores comunitários do grupo que se identifica com sua linha de raciocínio do que os candidatos representantes de outros moldes de pensamento.

Caso a importância dos valores morais de grupo nas eleições de 2018 se sobreponha à evolução da economia – espelhando o ocorrido nos EUA e em outros países – qualquer análise que desconsidere as chances reais de Bolsonaro em 2018 estará cometendo o profundo e mais humano dos erros: o autoengano. O mesmo vale para todos os que acreditam que Bolsonaro será o reformista de segunda mão, caso não vinguem as candidaturas de centro-direita.

Ao fazer alerta contra Bolsonaro, FHC tenta renegar a paternidade da candidatura fascista. Por Kiko Nogueira

Uma pesquisa recente constatou que 70% dos brasileiros não levam FHC a sério.   Alguma surpresa? Como confiar em alguém que muda de opinião como uma biruta de aeroporto e que faz questão de manchar sua biografia política a cada dia?

A última do ex-presidente foi numa palestra na Universidade Brown, nos EUA, na quinta, 16.

Fernando Henrique Cardoso falou que não se pode descartar a possibilidade de o Brasil repetir a experiência italiana, que depois da Operação Mãos Limpas elegeu um Silvio Berlusconi. O mesmo ocorreria aqui como saldo da Lava Jato. Sem citar o nome de Jair Bolsonaro, fez um alerta. “Eu não quero entrar em detalhes, mas há pessoas da direita que são pessoas perigosas”, declarou.

“Um dos candidatos propôs me matar quando eu estava na Presidência. Na época, eu não prestei atenção. Mas hoje eu tenho medo, porque agora ele tem poder, ainda não, ele tem a possibilidade do poder.”

Ele se referia à célebre entrevista de Bolsonaro de 1999, em que JB diz que o voto não mudaria o Brasil. “Você só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando 30 mil, e começando por FHC”, afirma. “Essa pessoa está comprometida com a Constituição, com o respeito das leis, com os direitos humanos?”, questiona Fernando Henrique.

Não é necessário exame para saber que a candidatura de Bolsonaro tem o DNA do PSDB. Após um doce constrangimento republicano, FHC embarcou na aventura golpista com um Aécio Neves estuporado, canalha, apostando todas as fichas na instabilidade.

O fascismo eclodiu nas ruas com protestos financiados pelos tucanos, que bancaram os milicianos do MBL, entre outros. O ambiente de ódio foi cultivado e estimulado por Aécio, Carlos Sampaio e demais jagunços de terno, enquanto conspiravam com Temer e Cunha. O discurso demagógico contra a corrupção, o PT, a esquerda, o bolivarianismo, o Lula, o sítio, o pedalinho, a organização criminosa — ia dar no quê? Num Churchill? Num De Gaulle? Num Ulysses Guimarães? A antipolítica ia resultar no quê?

O que FHC fez para servir de contraponto a isso, para oferecer uma reflexão ponderada como o “elder statesman” que nunca foi? Nada. Caímos num extremista boquirroto, burro e violento com reais chances de subir a rampa do Planalto. O script estava desenhado, FHC leu, assinou, sentou em cima e, agora que o PSDB está na draga, reclama.

 

Fonte: Jornal GGN/Poder 360/DCM/Municipios Baianos

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