19/11/2017

Globo simula troca de comando para não perder concessões

 

Com o desdobramento do escândalo da Fifa na Justiça de Nova York, os irmãos Marinho sabem que vão acabar sendo alcançados  diretamente, ou seja, serão denunciados e responderão a processo. Mesmo que façam como o parceiro J. Hawilla, confessando os crimes e pagando multas milionárias para ressarcir os prejuízos das emissoras prejudicadas, eles ficarão com a ficha suja. Isso significa que, de acordo com as rigorosas leis brasileiras, não poderão mais ser concessionários de emissoras de rádio e de televisão, conforme já informamos aqui no blog, no artigo desta sexta-feira.

Foi justamente por isso que Roberto Irineu e João Roberto Marinho decidiram simular que se afastaram do controle da TV Globo, para garantir que suas concessões não sejam cassadas, na forma da lei.

NA MIRA DO FBI

As investigações do FBI começaram em 2011, abrangendo atos de corrupção cometidos na Fifa desde 1991, ainda na época do brasileiro João Havelange. Foi quando acendeu o sinal vermelho na cúpula da Globo, devido ás negociatas realizadas na Fifa através de seu procurador Marcelo Campos Pinto, diretor da Globo Esportes,  e do parceiro/laranja J. Hawilla, da Traffic.

Quando constatou que seria apanhado, J. Hawilla se adiantou e, em 12 de dezembro de 2014, confessou-se culpado perante a Justiça norte-americana. Assumiu as acusações de extorsão, conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da justiça, aceitando restituir US$ 151 milhões, para ressarcir as emissoras prejudicadas nas licitações vencidas por ele. Com patrimônio avaliado em R$ 2 bilhões, Hawilla saiu ileso e sem fazer delação premiada, para alívio da Globo.

DIRETOR DEMITIDO

O chamado Fifagate foi crescendo e em 3 de novembro de 2015 o presidente da CBF, José Maria Marin, foi extraditado para os Estados Unidos, depois de ser preso em Zurique com outros seis dirigentes da Fifa. Por coincidência, é claro, dois dias depois da extradição de Marin, em 5 de novembro de 2015, o presidente do Grupo Globo, Roberto Irineu Marinho, distribuiu comunicado informando o afastamento de Marcelo Campos Pinto da direção da Globo Esportes.

Na mesma época, outra importante iniciativa dos irmãos Marinho foi encaminhar ao governo brasileiro, então presidido por Dilma Rousseff, um requerimento transferindo as ações de Roberto Irineu e João Roberto para seus filhos, que passariam a ser os supostos controladores da Rede Globo de rádio e televisão.

DILMA NÃO ASSINOU

O tempo foi passando e Dilma Rousseff não assinou o decreto transferindo as concessões. Era a época do impeachment e a Globo inicialmente ficou em cima do muro. Mas depois aderiu e passou a participar ativamente do movimento para derrubar a presidente. Coincidência ou não, o fato concreto é que um dos primeiros atos do presidente interino Michel Temer, em junho de 2016, foi a assinatura do decreto solicitado pela Globo.

A volúpia de atender aos irmãos Marinho era tamanha que o decreto saiu mambembe, nem indicava os nomes dos novos sócios controladores da Rede Globo, formada pelas emissoras próprias no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Brasília, além de centenas de afiliadas estaduais e municipais.

No ato assinado por Temer, ficou determinado que as alterações societárias deveriam ser efetivadas e registradas, perante o órgão competente, no prazo de 60 (sessenta) dias, contado da data de publicação, sob pena de  invalidade. E os irmãos Marinho cumpriram essas exigências.

UMA SIMULAÇÃO

Na realidade, nada mudou. O controle acionário da TV Globo continua com os três irmãos Marinho, porque a alteração societária estrategicamente incluiu uma cláusula de “reserva de usufruto vitalício”. Portanto, quem permanece à frente das próximas atrações da Rede Globo não é a nova geração da família Marinho, muito pelo contrário.

Mais de um ano se passou e até agora ninguém sabe o que os herdeiros de Roberto Marinho estão fazendo. Chegou a ser noticiado que o diretor da Globo Esportes, no lugar do denunciado Marcelo Campos Pinto, seria Roberto Marinho Neto, que está perto dos 40 anos e nunca trabalhou em nada, literalmente nada. Mas quem na verdade assumiu foi Pedro Garcia, que desde novembro de 2015 passou a ser responsável pelas negociações com os cartolas do futebol.

Na verdade, os sete filhos dos irmãos Marinho continuarão a ser apenas figurantes de uma novela que pode acabar bem, mas também pode acabar mal. Como dizia o pensador madrilenho Ortega Y Gasset, na vida tudo depende das circunstâncias.

Marcelo Campos Pinto, ex-diretor da Globo, era membro de Comitê da FIFA

O ex-diretor da Globo Esporte, Marcelo Campos Pinto, tornou-se uma das peças-chave para a emissora de televisão ser posta contra a parede no escândalo da FIFA, com o julgamento do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, em Nova York, nesta semana. A Rede Globo nega participação nos ilícitos. Mas o GGN comprovou que o executivo chegou a ocupar posto no Comitê de Imprensa da FIFA em 2014.

O ex-diretor da Globo era o responsável por negociar os contratos da emissora para as transmissões dos torneios de futebol. Sua relação de grande amizade com cartolas como Marco Polo Del Nero levantou suspeitas contra o executivo. Passou a ser alvo direto das acusações, durante os depoimentos de Alejandro Burzaco, empresário argentino da Torneos y Competencias (ex TyC).

Burzaco narrou que o  então diretor da Globo Esporte reuniu-se com os dirigentes para aceitar repasses da ordem de US$ 600 mil a Marín e Del Nero, e que, posteriormente, a emissora aceitou pagar outros US$ 15 milhões ao vice-presidente da FIFA na época, Julio Grondona, juntamente com a Televisa e Torneos y Competencias para as transmissões das Copas do Mundo de 2016-2030 no Brasil e América Latina.

O GGN mostrou durante esta semana reportagens que comprovam o elo, que ia para além de cortesias profissionais, entre Marcelo e os cartolas do esquema criminoso e que somente hoje faz a emissora se tornar alvo direto das investigações da FIFAgate. Em comunicado, a Globo nega as irregularidades e que "não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina".

Agora, o GGN comprova que Marcelo Campos Pinto não apenas era o responsável pelos contratos da Globo e mantinha relação de amizade com os investigados do escândalo, como ainda chegou a ocupar posto no Comitê de Imprensa da FIFA.

A informação foi divulgada, primeiramente, pelo jornalista Jamil Chade, em sua conta no Twitter.

Na página oficial da Fifa, o nome de Marcelo Pinto aparece ao lado da bandeira do Brasil e caracterizado como "membro" do Comitê. Entretanto, sem a especificação da data em que o executivo integrava comitê de decisões internas da FIFA, e nenhuma outra informação sobre o tema foi divulgada.

Os esforços para apagar o nome do empresário em associação à FIFA mostraram-se ainda maiores. Em uma consulta, por meio Google, sobre o nome de Marcelo dentro do site da FIFA, um único resultado. Ao clicar no endereço, uma página relacionada ao ex-diretor da Globo ainda resta resquícios do site. Entretanto, nada além é apresentado. Por meio de uma análise do código HTML, o GGN identificou que a data de criação daquela página, relacionando Marcelo Pinto ao Comitê de Imprensa, é de 2014.

Naquele ano da Copa do Mundo realizada no Brasil, Marcelo comandou o Comitê de Imprensa da FIFA, fazendo parte da equipe diretiva da Rede Globo ao mesmo tempo. Um documento produzido à época, reproduzindo as informações que constavam no site oficial, ainda trazem os dados.

"Quem são os membros da FIFA?", pergunta o título que antecede a tabela com os nomes. Trata-se de um trabalho escolar de inglês, sobre a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, confirmando o ano em que o empresário ocupou Comitê interno da FIFA.

Dois anos antes de Marcelo Campos aparecer como membro da FIFA, para a Copa do Mundo no Brasil, o então diretor da Rede Globo afirmou em entrevista que a emissora estava "muito orgulhosa de trabalhar em parceria com a FIFA em muitos projetos relacionados à Copa das Confederações da FIFA 2013 e à Copa do Mundo FIFA 2014".

"Consideramos que o projeto envolvendo eventos de exibição pública é fundamental, pois servirá para reunir o país e aumentar o espírito alegre dos brasileiros em torno das Competições da FIFA", completava.

Burzaco, “homem-bomba” da Fifa, incrimina os dirigentes da CBF e a TV Globo

O homem que desabou em lágrimas no julgamento do escândalo de corrupção da Fifa, em Nova York, já foi uma das figuras mais poderosas do futebol na América do Sul. Na cadeira de testemunha da acusação, onde deu o depoimento mais bombástico do caso até o momento, Alejandro Burzaco chorou ao relatar ameaças de morte que diz ter recebido na Argentina e ao lembrar como sua vida virou do avesso há dois anos.

Ele não esquece o dia no fim de maio de 2015 em que policiais prenderam sete dirigentes do futebol mundial num hotel de luxo em Zurique, na Suíça, detonando a atual investigação da Justiça dos Estados Unidos.

PRISÃO DE MARIN

Burzaco estava no restaurante do Bar au Lac e viu de perto a captura de José Maria Marin, ex-presidente da CBF acusado de receber propina em negociações de contratos da Fifa – um dos três réus desse caso, ao lado do paraguaio Juan Ángel Napout, ex-presidente da Conmebol, e do peruano Manuel Burga, ex-chefe do futebol de seu país, que ainda se declaram inocentes.

No comando da Torneos y Competencias, empresa de marketing esportivo de Buenos Aires, o empresário argentino disse ter distribuído ao longo das últimas duas décadas pelo menos US$ 160 milhões em propina de grupos de mídia a 30 poderosos da Conmebol, confederação que gerencia o futebol na América do Sul, e dirigentes do esporte, irrigando uma extensa rede de crimes financeiros.

Seus tentáculos tocavam todos com algum poder na indústria do futebol, dos dirigentes da Fifa em Zurique a poderosos da TV no Brasil, no México e nos Estados Unidos, além de políticos da região.

VIDA DE REI

Burzaco, que dava ingressos da Copa do Mundo ao presidente paraguaio e diz ter tentado armar um encontro entre executivos da Fox e Cristina Kirchner, então no comando da Casa Rosada, dizia estar acostumado com um “tratamento presidencial”.

Ele voava de jatinho entre encontros da Fifa, ficava hospedado em hotéis transbordando de estrelas e fechava negociatas de milhões de dólares em jantares no Cipriani, no Copacabana Palace, no Rio, e no Al Hamra, no bairro de Mayfair, em Londres.

Na corte do Brooklyn, Burzaco parecia frio relembrando esses encontros e os cifrões associados a eles, mas também deixou transparecer seu lado mais argentino ao dizer a um dos advogados que o River Plate era o “melhor clube do mundo” e que “Argentina e Brasil” – nesta ordem – tinham as melhores seleções da América do Sul.

MENINO RICO

Muito antes de se apaixonar por futebol e se tornar um dos nomes centrais do desvio de verbas na indústria desse esporte, no entanto, Burzaco já somava poder e dinheiro.

Ele estudou no St. George’s College, um colégio interno para filhos da elite argentina, teve uma ascensão meteórica no Citibank, onde ganhou seus primeiros milhões negociando fusões e aquisições nos anos de privatização de estatais em seu país, e só depois passou a investir em futebol, comprando uma parte da Torneos y Competencias.

Em 2004, o ano em que entrou para a empresa de marketing esportivo que viria a controlar pouco depois, Burzaco já tinha acumulado uma fortuna de US$ 30 milhões.

ASCENSÃO E QUEDA

Mas sua verdadeira ascensão financeira – e entrada no mundo do crime – coincidiu com o momento em que o governo argentino estatizou os direitos de transmissão de futebol no país e escolheu a Torneos como responsável pela negociação deles no exterior.

Enquanto delata seus ex-amigos, Burzaco aguarda uma sentença – ele sabe que pode pegar até 60 anos de prisão. Sua única esperança, ele disse no tribunal, é de um dia poder voltar para casa.

 

Fonte: Por Carlos Newton, na Tribuna da Internet/Jornal GGN/Folha/Municipios Baianos

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