21/11/2017

Hepatite A: como se proteger dessa doença

 

A cidade de São Paulo vive um surto de hepatite A. De janeiro a outubro deste ano, houve um aumento de 960% no número de casos confirmados da doença, se comparado com o mesmo período de 2016. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, até 28 de outubro, foram registrados 604 casos, enquanto no mesmo período do ano passado foram reportados apenas 57. A doença infecciosa, causada pelo vírus VHA, desenvolve um processo inflamatório no fígado. O surto já causou duas mortes e colocou quatro pessoas na fila de emergência para transplante. Ao todo, 155 pessoas foram hospitalizadas.

A disparada da hepatite A na capital paulista vem sendo atribuída principalmente à prática de sexo oral e anal sem proteção, além da ingestão de alimentos e água contaminados. A maioria das ocorrências foi registrada entre homens de 18 a 39 anos - grupo que responde por 80% das contaminações. Segundo a Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), pelo menos 45% dos casos foram transmitidos por meio de relações sexuais sem proteção. Outros 10% se deram pela ingestão de alimentos e líquidos contaminados. A forma de contágio dos 45% restantes ainda está sendo investigada. "A hepatite A é uma doença febril, aguda, viral, de transmissão fecal-oral, que ocorre em locais com baixa qualidade de saneamento básico e condições precárias de higiene", explica a médica Geraldine Madalosso, coordenadora da área técnica de doenças transmitidas por alimentos da Covisa.

"É muito comum em crianças, mas os números são geralmente baixos. Em locais com melhores condições de saneamento e higiene, ela se desloca para o grupo adulto", acrescenta.

  • Como se proteger

A hepatite A não tem tratamento específico - os medicamentos disponíveis hoje se dirigem apenas aos sintomas da doença. Geralmente, o organismo é capaz de lutar contra o vírus sozinho e, nesses casos, ganha imunidade permanente. Porém, em cerca de 1% dos casos, a doença pode evoluir para quadros graves, como a hepatite fulminante, que pode levar à morte. Apesar de a hepatite A não ter cura, há formas de preveni-la. Especialistas ouvidos pela BBC Brasil compartilham algumas recomendações para evitar a doença:

1 - Verifique a procedência de líquidos e alimentos

A transmissão da hepatite A é oral-fecal. Sendo assim, a ingestão de alimentos e líquidos contaminados por resíduos de coliformes fecais é uma das formas mais comuns de se contrair a doença. Por isso, preze pelo consumo de comidas e bebidas de estabelecimentos que tenham condições de higiene aprovadas por órgãos sanitários. Esse cuidado é fundamental para evitar a exposição ao vírus.

Na hora de beber água, escolha sempre a opção potável. "Na prevenção, é importante a higienização dos alimentos, evitar o consumo de itens crus ou mal cozidos e não consumir produtos de origem duvidosa", afirma Madalosso.

2) Lave sempre as mãos

Como o vírus da hepatite A está presente nas fezes, outra recomendação importante é higienizar corretamente as mãos após ir ao banheiro. "Se a pessoa está doente, ela tem que redobrar os cuidados com essa higiene, porque, se não lavar as mãos corretamente, pode contaminar familiares na hora de cozinhar os alimentos, por exemplo", afirma o professor Paulo Abrão, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), membro do Comitê Científico de Hepatites Virais da Sociedade Brasileira de Infectologia. Além disso, melhorias no sistema de saneamento básico também são essenciais para evitar a contaminação.

3) Vacine-se

Desde 2014, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza gratuitamente vacina contra hepatite A para crianças de até cinco anos. Grupos considerados de risco - como pessoas com doenças imunossupressoras, como hepatite B e C, e portadoras de HIV - também têm direito à vacina. "Com a vacinação, a pessoa ganha o anticorpo contra a doença e deixa de ser suscetível. É assim com outras doenças virais, como o sarampo, rubéola e a caxumba", explica José Cerbino Neto, chefe do laboratório de pesquisa em imunização e vigilância em saúde do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Quem não faz parte desses grupos pode fazer a imunização na rede privada. No entanto, a vacina está em falta nas clínicas particulares da capital paulista há pelo menos três meses. As empresas farmacêuticas que comercializam a vacina no Brasil - GlaxoSmithKline, MSD e Sanofi Pasteur - afirmam que houve um aumento inesperado da demanda, tanto no Brasil quanto no exterior, o que gerou o problema de desabastecimento. Em nota, a MSD disse que disponibilizou para o mercado "todo o estoque de vacinas existentes no país" e que novos lotes já foram solicitados à matriz, "a fim de regularizar o abastecimento do mercado nacional." Já a Sanofi Pasteur informou por meio de sua assessoria de imprensa que, como o imunizante é produzido fora do país, "é necessário que se cumpram diversas regras sanitárias de importação." A GlaxoSmithKline avisou, por sua vez, que a previsão para regularizar os estoques da vacina (pediátrica e adulta) é 2018.

4) Opte sempre por sexo protegido em todo tipo de relação

A hepatite A não é transmitida por fluidos corporais ou secreções - e, sim, pelo contato com as fezes de uma pessoa contaminada. Por isso, é importante manter relações sexuais sempre com proteção, principalmente casais que praticam sexo anal e oral- seja gay ou heterossexual. A fase de incubação da doença pode durar até quatro semanas, período no qual costuma ser assintomática. No entanto, duas semanas antes de manifestar os sintomas, a pessoa já pode transmitir o vírus, o que ocorre pelas fezes. "A relação sexual precisa ser segura e a pessoa precisa ter condição de higiene adequada. O sexo oral também precisa ser protegido, porque uma forma clara de transmissão dessa hepatite é por sexo oral. Se a pessoa que pratica não é vacinada, ela está suscetível a contrair a doença", explica Paulo Abrão, da Unifesp.

Sintomas

Os primeiros sintomas da hepatite A podem ser inespecíficos, semelhantes aos de um resfriado, como febre baixa, falta de apetite, enjoo, vômito, dor de barriga, desconforto abdominal e fraqueza. Mas podem evoluir para sintomas claros, que indicam possível contaminação. "Os sintomas específicos são a icterícia (cor amarelada) da pele e dos olhos e urina escura com cor de Coca-Cola. As fezes também podem se tornar esbranquiçadas ou acinzentadas. Com esses sintomas, a pessoa deve procurar um hospital", explica Madalosso, da Covisa. O vírus da hepatite A se multiplica dentro das células do fígado. Ao combater o corpo estranho, o sistema imunológico acaba atacando o próprio órgão, o que pode levar à falência hepática. A condição demanda transplante emergencial e, em casos mais graves, pode levar à morte. O diagnóstico da doença é feito por meio de exame laboratorial, que indica a presença do vírus.

'Ela tinha 24 horas': três aviões e transplante salvam menina com hepatite fulminante

Tatiana Nascimento da Silva não se alarmou quando a filha chegou do colégio se sentindo indisposta. Ela imaginou que os sintomas de Andrea, na época com dez anos, fossem resultado de uma virose que corria no bairro onde vivem em Natal (RN). Mas a menina não melhorava. Depois de uma semana, notou que a filha estava inchada. O sinal de alerta veio quando os olhos da criança ficaram amarelos. "Ninguém notava, era só eu mesmo como mãe que via", diz à BBC Brasil.

Ao chegar no pronto-socorro na tarde do último dia 25 de março, Andrea foi diagnosticada com hepatite A e, com a constatação de que suas plaquetas estavam baixas, foi internada. Após cinco dias, o quadro se deteriorou ainda mais. "As outras crianças vinham e saíam e ela ficava, só piorava, piorava. E a gente ali esperando. No quinto dia, ela não queria mais andar. Havia sangue no xixi." A menina foi então enviada para a UTI do Hospital Universitário Onofre Lopes, e Tatiana recebeu a notícia de que ela precisaria de um transplante de fígado de emergência. O procedimento, porém, não é realizado no Estado. Teria de ser feito em Fortaleza (CE).

Mas a falta de um avião oficial para o transporte de Andrea atrasou a cirurgia em três dias. Ao fim, o governo do Rio Grande do Norte liberou um avião para a viagem. Às 20h do dia 5 de abril Andrea entrou na fila de emergência para o transplante de fígado. Tinha 24 horas de vida. À meia-noite do dia 6, apareceu um doador - um homem de 46 anos de Mossoró (RN), que teve morte cerebral. A família do doador disse "sim", e Andrea conseguiu o transplante a tempo. Um decreto assinado em 18 de outubro pelo presidente Michel Temer, que regulamenta a atual Lei dos Transplantes, reforça justamente o papel dos parentes próximos nesse processo de doação. Na prática, o novo texto exclui a "doação presumida" - por meio da qual todo brasileiro que não registrasse a vontade de doar seus órgãos era presumidamente um potencial doador -, reforçando a importância da família na decisão de doar ou não seus órgãos. Outra novidade com o decreto recém-assinado é a inclusão do companheiro como autorizador da doação, por ele ser, atualmente, "equiparado à condição de esposo ou esposa para efeitos civis". Dessa maneira, não é necessário estar casado oficialmente para dar essa autorização.

No caso de Andrea, a doação foi fundamental, como relembra a mãe: "A minha filha só tinha 24 horas de vida quando entrou na fila de transplante. Estava praticamente morta, já estava entubada, inchada, eu não a enxergava mais. Ela não tinha tempo, precisava que alguém morresse. E isso deu vida a ela".

'Urgência absoluta'

Uma verdadeira operação foi montada para viabilizar o transplante da menina. Duas aeronaves, uma do Rio Grande do Norte e outra do Ceará, foram utilizadas nos esforços para que o fígado chegasse a tempo de salvar a vida dela. A primeira levou a equipe de cirurgiões para retirar o órgão e levá-lo a Natal. Dali, o fígado então partiu no segundo avião para Fortaleza. Na capital cearense, o médico Huygens Garcia, chefe do Serviço de Transplante Hepático do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), aguardava para realizar o transplante. "Recebi a ligação da Central de Transplante do Ceará, informando que havia a oferta de um fígado em Mossoró, e aceitei de imediato. A Andrea estava com uma hepatite fulminante, que leva à morte quase 100% dos pacientes em 48 horas se não houver transplante. É uma urgência absoluta."

Andrea, que havia sido primeiro enviada a um hospital pediátrico na cidade, foi transferida novamente, entubada e em ventilação mecânica, para o Hospital São Carlos para finalmente receber o novo fígado. Quando acordou da cirurgia, o receio era a possibilidade de sequelas resultantes do coma hepático em que ela se encontrava antes do transplante. "Estava com medo de ela não me reconhecer, de ter perdido a memória", relembra Tatiana. "Mas ela estava normal. Acho que, depois do transplante, ficou até mais bonita. Digo que sou mais apaixonada por ela agora do que era antes."

Uma fila de 32,9 mil vidas

O Brasil possui hoje o maior sistema público de transplantes no mundo e é, em números absolutos, o segundo maior transplantador, atrás apenas dos Estados Unidos, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Se considerada proporcionalmente a população, no entanto, a realidade muda. De acordo com dados da IRODaT (sigla em inglês para Registro Internacional de Transplantes e Doação de Órgãos), o país tem 14,1 doadores efetivos por milhão de população - é quase metade do registrado nos Estados Unidos (28,5). Com isso, aparece na 27ª colocação em meio a 46 países. Os EUA estão em 4° lugar na lista, encabeçada por Espanha e Croácia, ambas com uma taxa de 39 doadores por milhão. "Falta muito para a gente dar conta da nossa lista", observa Sergio Meira, coordenador de transplante de intestino e de transplante multivisceral do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

No primeiro semestre deste ano, 1.662 famílias que perderam parentes próximos autorizaram a doação de órgãos no Brasil. O número representa um recorde no país e um crescimento de 16% em relação ao mesmo período do ano passado. Mas muitos familiares ainda dizem não para o procedimento, que pode salvar vidas. O Brasil tem hoje 32.956 pessoas na lista de espera por um órgão. A maior demanda é por rim: mais de 20 mil pessoas aguardam por um doador. A segunda maior é a de córnea, na qual há mais de 10 mil pacientes em compasso de espera. Entre janeiro e junho desse ano, apenas três de cada dez possíveis doadores no Brasil tiveram seus órgãos de fato transplantados, de acordo com informações do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT).

Há diferentes razões para a grande espera por órgãos no país. A recusa das famílias é um dos entraves: das mais de 3 mil entrevistas realizadas entre janeiro e junho para pedir permissão de familiares, houve recusa em 43% dos casos, segundo dados do RBT. Mas outros fatores também contribuem para o baixo número de transplantes no Brasil. "O maior problema com doador é a recusa familiar, mas também perdemos muito na manutenção do doador. Assim como um paciente, o corpo do doador precisa estar bem cuidado, hidratado, recebendo antibiótico. Isso é muito importante, principalmente para alguns órgãos sensíveis", afirma Sergio Meira. "Há órgãos mais fortes, como o fígado, o rim. Mas o coração, o intestino e o pâncreas são mais sensíveis. Precisam de cuidado maior", explica. Ou seja: a alta recusa familiar, combinada com a falta de estrutura para manter em funcionamento órgãos possíveis de serem transplantados, deixam o Brasil bem distante da taxa de países desenvolvidos quando o assunto é salvar vidas por meio de doação de órgãos.

Desafio de diminuir resistência das famílias

A recusa familiar está muitas vezes ligada ao medo de que pessoas serão deixadas à morte para que seus órgãos sejam utilizados. Outra crença popular é que, mesmo após a morte cerebral, haja esperança caso alguns órgãos ainda estejam em funcionamento. "O conceito de morte não é quando o coração para - é quando o cérebro para", explica Garcia, do HUWC, do Ceará. "Quando há morte cerebral, os órgãos podem continuar funcionando por algumas horas, e o cuidado com esses órgãos é essencial." Esse funcionamento, que é alimentado artificialmente por equipamentos médicos, leva muitos familiares a crerem que ainda há uma chance. Porém, argumenta Garcia, é necessário explicar à família que a morte cerebral é definitiva. "Podemos diminuir o índice de recusa das famílias explicando o que é a morte cerebral e que, mesmo após a morte, é possível a manutenção do doador."

A recusa também pode melhorar quando as pessoas tomam conhecimento de um caso no seu entorno em que uma vida foi salva por um doador de órgãos. Tatiana afirma que só decidiu virar doadora após vivenciar o drama de Andrea, e que conhecidos também foram transformados pelo ocorrido. "As pessoas no meu bairro mudaram de opinião. Uma mulher aqui faleceu e imediatamente os filhos me avisaram que iriam doar os órgãos da mãe, que não era doadora. Eu agradeci. Muita gente mudou depois de ver como essa ação salva vidas", afirma.  No decorrer do tratamento de Andrea, a mãe descobriu que a hepatite fulminante da filha tinha como causa a doença de Wilson, um distúrbio hereditário raro que provoca um acúmulo excessivo de cobre no organismo. Suas outras duas filhas, de sete e de cinco anos, também têm a doença e estão em tratamento. É provável que também precisem de um transplante de fígado em algum momento. Sua esperança é que, como ela, outras pessoas mudem de opinião sobre a importância de doar órgãos. "Eu mesma achava que ser doadora era algo estranho. Achava que iam me matar para tirar os órgãos. Não imaginava como é que poderia o órgão estar funcionando e você já estar morta. Mas se está funcionando depois da morte, hoje penso, é porque vai servir para alguém e vai salvar vidas", diz. "Eu não era doadora, mas hoje, se me perguntarem, eu digo que sou doadora de tudo."

Quem pode ser doador de órgãos?

A doação de órgãos ou tecidos pode advir de doadores vivos ou falecidos. Doador vivo é qualquer pessoa saudável que concorde com a doação, desde que não prejudique a sua própria saúde. Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores. Fora desse critério, somente com autorização judicial. Já o doador falecido é a pessoa em morte encefálica cuja família pode autorizar a doação de órgãos e/ou tecidos, assim como a pessoa que tenha morrido por parada cardíaca, que poderá doar tecidos.

Quais órgãos podem ser doados?

Doador falecido: Coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córnea, vasos, pele, ossos e tendões. Portanto, um único doador pode salvar inúmeras vidas. A retirada dos órgãos é realizada em centro cirúrgico, como qualquer outra cirurgia.

Doador vivo: um dos rins, parte do fígado ou do pulmão e medula óssea.

 

Fonte: BBC Brasil/Ministério da Saúde/Municipios Baianos

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