22/11/2017

A morte do Velho Chico ameaça a Convivência com o Semiárido

 

A Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) soma-se às muitas vozes das lideranças, comunidades ribeirinhas, povos tradicionais, movimentos sociais, comitês de bacias, pastorais sociais e especialistas para denunciar a morte do Rio São Francisco e exigir do Estado brasileiro ações imediatas para reverter tal quadro de penúria, abandono, exploração, descaso e privatização de suas águas.

O rio totalmente brasileiro sustenta milhares de ribeirinhos nos 160 municípios que banha, ao longo dos cinco Estados que percorre: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. O rio é fonte de vida e renda para quem vive em seu entorno e garante vida digna para muita gente que vive no Semiárido. Passa, no entanto, por um dos piores momentos de sua existência.

Ao analisar todos os números de vazão do rio desde  1931, constata-se que, atualmente, o Velho Chico apresenta seus piores índices: menor quantidade de água no seu leito; menor quantidade de água no conjunto dos reservatórios (em torno de 5% do volume útil); menores vazões praticadas, com destaque para Sobradinho, que foi construída para garantir uma vazão segura de 2.100 m³/s e hoje não garante sequer 590 m³/s.

Na foz, a vazão média que antes era de 2.943 m³/s, não ultrapassa os 554 m³/s. Como consequência, o mar avança “rio adentro” por mais d e 50 Km e já causa um colapso no abastecimento de água potável para as populações rural e urbana e aumento dos casos de hipertensão dos moradores por conta da alta taxa de salinidade da água.

Esta situação não é resultado apenas dos seis anos prolongados de estiagem que passa a região, mas, sobretudo, do desmatamento do Cerrado e dos usos ligados à irrigação, mineração e transposição de águas.

Quando se amplia o olhar para a Bacia do São Francisco, a situação parece ainda mais grave. O rio e seus afluentes ocupam uma área de 64 1.000 Km², ou seja, 7,5% do território brasileiro. Neste percurso que abrange o Distrito Federal e os Estados de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, o manancial contava com mais de 150 afluentes ou rios tributários. Muitos destes não existem mais ou estão em vias de extinção. Sua diversidade biológica é formada em grande parte pelo Cerrado e pela Caatinga, e nestes espaços vivem mais de 16,5 milhões de pessoas, entre povos originários, povos negros e europeus, espalhados pelos campos e cidades.

A exploração degradante da Bacia teve início com a chegada dos colonizadores por volta de 1.500 e se prolonga e se mantém até os nossos dias, com a mineração, os vários projetos de barragens, derrubada da Caatinga e do Cerrado. Com essas construções, todo ciclo biológico foi alterado, com duas finalidades principais: gerar energia e segurança hídrica para grandes perímetros irrigados. Instala-se na Bacia o Projeto Desenvolvimentista lastreado pelas grandes obras de infraestrutura.

Em 2012, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF) encomendou ao setor de engenharia do Exército Norte-Americano um estudo sobre a navegabilidade do rio. Um dos pontos do estudo era descobrir se o forte assoreamento, implicando grande quantidade de dejetos no rio, era resultado do desmoronamento das margens ou do assoreamento dos afluentes. A conclusão, divulgada apenas parcialmente neste final de 2017, é devastadora: pelo assoreamento são despejados no curso do rio, a cada ano, nada me nos que 23 milhões de toneladas de sedimentos, sendo a maior parte causada pelo assoreamento dos afluentes resultante da ampliação dos perímetros irrigados. O que vem ocorrendo com o São Francisco nada mais é do que a consequência de um modelo de desenvolvimento baseado na depredação acelerada das condições básicas das diversas formas de vidas, em nome do que chamam de progresso.

Os mais de 500 anos de exploração do rio, em especial o barramento de suas águas, provocaram o assassinato e expulsão de povos originários dos seus territórios, escravização de povos negros, alagamento de grandes áreas e inundação de cidades ribeirinhas, devastação das matas, águas demandadas e poluídas. O Cerrado está sendo destruído! Em seu lugar, implanta-se o agronegócio com suas monoculturas para exportação e a mineração, o que provoca a destruição das áreas de recargas de águas da Bacia. A Caatinga está sendo retirada para dar lugar à fruticultura e à cana-de-açúcar irrigada. Este desmonte da cobertura vegetal natural provoca o entulhamento do rio e, neste cenário de devastação e exploração das águas do Velho Chico, espalham-se diversos conflitos por terra e águas dos povos tradicionais que resistem em luta. Ao analisar a iminente morte do São Francisco, pesquisadores/as apontam que a solução é paulatina e se dará a médio e a longo prazos, com o processo de desconstrução das barragens instaladas ao longo do curso do rio. Mas, para que o manancial volte ao seu leito natural, é necessária muita vontade política.

A agenda em pauta é a disputa de projetos e as sociedades brasileira e internacional precisam se posicionar! Vivenciamos a disputa injusta entre o projeto do lucro que a qualquer custo prioriza a acumulação de riqueza por meio do saque dos bens naturais públicos e da concentração e o projeto do Bem Viver que tem na sua gênese o equilíbrio nas relações entre humanos e natureza. Neste âmbito , a ASA Brasil se manifesta denunciando o projeto que provoca o assassinato paulatino da Bacia do Rio São Francisco e se posiciona firmemente na defesa e na construção do projeto de vida da Bacia, tendo como base o paradigma da Convivência c om os biomas que a compõem.

Semiárido Brasileiro, 20 de novembro de 2017.

Rio São Francisco ganha alento com a chegada das primeiras chuvas

A notícia não deixa de ser boa, apesar da severa crise hídrica que assola a grande bacia do Rio São Francisco.  Na leitura de ontem, o reservatório da hidrelétrica de Sobradinho cresceu de meros 1,62% para 2,15%.  Sinal que o resultado das últimas chuvas já chegaram ao grande lago artificial.

Espera-se que a grande bacia hidrográfica, que atinge regiões distantes no centro-norte de Minas, Brasília (no DF) e nas águas vertentes da Chapada Diamantina possa realimentar o reservatório para valores acima dos 30% verificados em abril deste ano.

Segundo as determinações do Comitê da Bacia do São Francisco, neste ano de 2018 os reservatórios de Três Marias, Sobradinho, Itaparica e outros, ao longo do rio, terão como missão prioritária a perenização, com a regulação do fluxo. As hidrelétricas deixam de priorizar a geração de energia para manter a vazão constante ao longo do ano. É provável que seja determinada uma vazão bem inferior aos 550 m³/segundo, quando a vazão média do rio chega a 2.850 m³/s

Com as chuvas chegando, os grandes equipamentos de irrigação, principalmente à margem esquerda do São Francisco também deixam de operar, o que alivia os contribuintes do rio.

III Encontro Internacional de Revitalização de Rios e o I Encontro das Bacias Hidrográficas de MG, em BH

Entre os dias 28 e 30 de novembro, Belo Horizonte será sede do III Encontro Internacional de Revitalização de Rios e do I Encontro das Bacias Hidrográficas de Minas Gerais. Os eventos, que serão realizados simultaneamente no Minascentro, objetivam apresentar as melhores experiências sobre a preservação e revitalização de rios no mundo, dentro da concepção sistêmica de bacia hidrográfica.

Durante três dias, serão realizadas diversas atividades técnico-científicas, tais como: palestras, mesas redondas e exposições técnico-culturais, onde serão abordados temas relacionados à revitalização, como: Integridade Biótica e Biomonitoramento; Processos Ecológicos e Mudanças Globais; Manejo Integrado de Bacias Hidrográficas; Regimes de Vazão, Planejamento e Gestão de Bacias Hidrográficas; Gestão de Águas Urbanas; Gestão da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco e das Bacias Hidrográficas do Estado de Minas Gerais; Políticas de Financiamento; Experiências Exitosas no Brasil e no Mundo de Revitalização de Rios. Os encontros tem como meta contributiva a elaboração de documento final contendo os relatos das experiências apresentadas.

O III Encontro Internacional de Revitalização de Rios e o I Encontro das Bacias Hidrográficas irão reunir pesquisadores dos Estados Unidos, Europa e América Latina. O evento é direcionado para estudantes, gestores públicos, membros de comitês de Bacia Hidrográficas, ONGs, acadêmicos e público em geral.

Agricultura eficiente: uma realidade no oeste baiano

Com o advento da tecnologia, o homem do campo tem utilizado a modernidade a seu favor. Tratores computadorizados e máquinas de última geração compõem, hoje, o arsenal dos agricultores na hora de formarem suas lavouras. A mecanização e informatização, contudo, não se resumem apenas ao plantio e colheita, os produtores rurais têm investido cada vez mais em equipamentos que garantem informações precisas sobre clima, mercado, qualidade do solo, quantidade de água e fertilizantes a serem utilizados, entre outros subsídios que ajudam os agricultores e agrônomos a tomarem a decisão certa, no tempo certo, e, assim, diminuir custos e aumentar a produtividade nas fazendas.

O uso dessas ferramentas aliado às boas práticas, como técnicas de conservação do solo e da água, resulta em benefícios não só para o produtor rural, mas principalmente para o meio ambiente. Se produzir mais com um custo menor é bom, elevar o volume produzido e de forma sustentável é ainda melhor. É a chamada agricultura eficiente, uma realidade visível nos campos do oeste da Bahia.

Quando aqui chegaram, há pouco mais de 30 anos, os sulistas encontraram terras praticamente inférteis, e as transformaram em uma das maiores áreas produtivas do País. É aqui que está situado, por exemplo, o maior produtor de algodão, segundo maior produtor de feijão e quarto maior produtor de soja do território brasileiro. O oeste baiano tem uma agricultura variada e papel de destaque não apenas nas safras de grãos e fibra, mas também de produtos como café e mandioca, além de ser o maior produtor de frutas como banana, mamão, manga, maracujá e coco. O agronegócio é a principal atividade da região e mola propulsora da economia local.

Mas essa vocação agrícola se deve aos elevados investimentos, sobretudo na fertilização do solo e no manejo adequado do mesmo. A aplicação de fertilizantes, aquisição de equipamentos e, principalmente, a adoção de práticas conservacionistas compõem a “fórmula de sucesso” que tem garantido uma melhora significativa na qualidade das terras, aperfeiçoando o perfil do solo e transformando o cerrado em região agricultável.

Adepto às boas práticas de conservação solo, o agricultor Luiz Pradella vê, ano após ano, os resultados positivos em sua propriedade. Na fazenda, ele realiza a descompactação do solo, através do plantio direto e da rotação de cultura. Segundo ele, a combinação dessas técnicas permite a estruturação dos solos (abertura dos poros), o que ajuda na melhora do seu nível.

“Como ganho direto eu poderia citar a economia operacional, já que reduz os gastos com combustível, além da segurança de se obter uma produção média maior e mais estável, pois se tem um solo mais fértil e melhor em quantidade e perfil, comprovado por análises em laboratório”, elencou o produtor.

Sequestro de Carbono

De acordo com Pradella, além dos ganhos diretos, há incalculáveis benefícios à natureza, já que tais práticas são ambientalmente favoráveis, por conseguirem aprisionar mais dióxido de carbono na terra. “A esse processo damos o nome de sequestro de carbono (CO2), pois percebemos um acréscimo de até 0,01% de matéria orgânica ao ano no solo”, explicou.

Um estudo realizado recentemente por pesquisadores da Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob), Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e da Faculdade São Francisco de Barreiras (Fasb) comprova a tese do agricultor. A pesquisa analisou uma área de aproximadamente 1,98 milhão de hectares e o resultado desmistificou a ideia de que a agricultura é o principal contribuinte para o efeito estufa, mostrando que a atividade agrícola praticada no oeste da Bahia reduz a emissão do gás poluente, através da absorção e retenção do mesmo no solo.

Segundo o diretor de Águas e Irrigação da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), o engenheiro agrônomo José Cisino Lopes, o aprisionamento de CO2 na terra favorece as plantas para que elas tenham mais acesso à agua e aos nutrientes, uma vez que desenvolvem um sistema radicular mais forte. “Com solo de maior qualidade e raízes bem desenvolvidas e mais profundas o resultado é uma lavoura mais saudável e com uma produtividade maior. Isso é bom para o produtor e melhor ainda para o meio ambiente”, explicou.

Eficiência

O agrônomo compartilha a “fórmula da eficiência”: fazer plantio na palha, monitoramento de pragas e de doenças, terraceamento e rotação de cultura. Ele defende que estas práticas não só melhoram o solo como ajudam a deter a água da chuva, evitando, assim, o escoamento de boa parte desta água que causa erosões, além de contribuir para a recarga dos aquíferos.

“Mais recentemente os agricultores do oeste têm adotado o plantio de adubo em período seco (sem chuva), onde se coloca o adubo em linhas, e posteriormente, na época da chuva, se planta a semente na mesma linha. Isso só é possível porque os tratores são dotados de GPS, que identificam com precisão o local exato, usando sementes de altíssima qualidade, que frutificarão em sua totalidade, pois precisamos desse ganho de tempo na semeadura para garantir a boa produtividade e manter-se competitivo, já que, devido a fatores climáticos só temos uma safra por ano” explica, denominando o feito de “agricultura de precisão ou de eficiência”.

Irrigação

Ao falar em boas práticas conservacionistas, o tema logo nos remete aos recursos hídricos. Esta também é uma preocupação dos produtores rurais do oeste baiano. A fim de praticar uma agricultura sustentável, muitos irrigantes da região adquiriram as próprias estações agrometeorológicas, cuja finalidade é garantir a eficiência na irrigação. As estações automatizadas e de baixa manutenção fornecem os dados climáticos necessários que, juntamente com informações levantadas, pelo produtor, sobre o solo, a cultura e o sistema de plantio, alimentam modernos softwares de gestão de irrigação que irão auxiliar o operador a tomar decisões assertivas ao estabelecer a lâmina d’água, momento adequado e tempo de irrigação, evitando desperdício, tanto de água quanto de energia elétrica.

“São sistemas inteligentes que calculam o volume hídrico e o tempo a ser irrigado, para que não haja excessos nem uma sublâmina incapaz de atender a demanda mínima da planta, interferindo no seu desenvolvimento, ou seja, é um sistema de gerenciamento de irrigação que ajuda a minimizar as perdas hídricas”, pontuou o engenheiro agrônomo e membro do Conselho Técnico da Aiba, Orestes Mandelli.

Segundo ele, os sistemas de irrigação mais modernos podem atingir até 98% de eficiência (aproveitamento da água). Contudo, ele ratifica que uma agricultura eficiente é resultado da combinação de tecnologia e decisões humanas, como o manejo do solo, construção de curvas de nível, plantio na palha, rotação de cultura e o escalonamento do plantio.

“Escalonar as áreas de plantio em semanas diferentes, por exemplo, resulta na obtenção de plantas em diferentes fases de crescimento e demandas hídricas, o que permite otimizar a irrigação. Esse uso racional é bom para o agricultor e para os rios”, pontua.

 

 

Fonte: Coordenação Executiva da ASA Brasil/O Expresso/CBH Velhas/Ascom Aiba/Municipios Baianos

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