24/11/2017

América Latina joga 145 mil toneladas de lixo por dia em aterros

 

Todo dia, 145 mil toneladas de resíduos orgânicos são jogadas em lixões e aterros controlados na América Latina e no Caribe. Essa montanha diária de restos de comida não processados, que colocam em risco a saúde e a vida de 170 milhões de pessoas, é um dos temas da 3ª Assembleia do Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU), que será realizada em Nairóbi, no Quênia, de 4 a 6 de dezembro.

Os números estão no Atlas de Resíduos da América Latina, relatório da ONU Meio Ambiente; que está para ser lançado. Um resumo do trabalho foi apresentado preliminarmente em São Paulo em evento realizado na terça-feira pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

Estudo

O estudo mostra um cenário preocupante. Segundo Jordi Pon, coordenador regional de resíduos e químicos do organismo das Nações Unidos; as 540 mil toneladas de lixo produzidas atualmente na região serão 671 mil toneladas em 2050. Se, de um lado, há avanços na coleta, que na média supera 90% do lixo urbano, o processamento fica abaixo dos 70%. O restante, formado essencialmente por dejetos orgânicos; vai para locais inadequados, produzindo poluição do ar, do solo e da água.

– Os dados apresentados pela ONU Meio Ambiente mostram que, mesmo com algumas melhorias alcançadas nos últimos anos; cerca de 170 milhões de pessoas ainda estão expostas às consequências desse problema, em decorrência dos graves impactos causados ao meio ambiente e à saúde da população – explica Carlos Silva Filho; diretor-presidente da Abrelpe e membro do Comitê Diretivo do Atlas de Resíduos.

A análise

A análise dos despejos sólidos das cidades latino-americanas mostra que o lixo orgânico representa mais da metade de todo o resíduo descartado. Esse índice varia de acordo com o potencial econômico do país. “Em nações de baixa renda, 75% do lixo descartado são provenientes de matéria orgânica, enquanto em países com renda mais elevada esse índice é de 36%”, comentou Pon. A diferença é reflexo da maior ou menor atividade industrial e comercial.

O lixo doméstico tem ainda o agravante de concentrar resíduos perigosos, como baterias, celulares, equipamentos elétricos e eletrônicos e remédios vencidos, entre outros,

Parte do lixo doméstico é formada por elementos secos, como metais, papéis, papelão, plásticos, vidro e têxteis. A reciclagem desses itens ainda é reduzida, em geral abaixo de 20%. O índice só é alcançado em cidades onde existe coleta e seleção informais, feita por catadores autônomos, o que mostra a pequena participação do Poder Público e de políticas voltadas para o problema.

No entanto, o estudo da ONU revela que a maior parte dos países da América Latina; e do Caribe tem legislação específica que define as responsabilidades de geradores e manipuladores e prevê punições; que quase nunca são aplicadas. Além disso, mostra o relatório, os investimentos em gestão de resíduos são insuficientes. “Isso cria um vácuo de responsabilidades governamentais, com poucas ações de acompanhamento e monitoramento, resultando; entre outras coisas, em uma aplicação deficiente da lei; tanto pelo setor público quanto pelo privado”, explica Jordi Pon.

Gestão de resíduos

De acordo com Carlos Silva Filho, o financiamento é uma questão fundamental para a melhoria da gestão de resíduos. Ele ressalta que na América Latina e no Caribe os modelos são financiados por recursos municipais e; em muitos casos, os custos não são plenamente recuperados. “Ainda não há uma consciência clara do fato de que o custo econômico dos impactos negativos causados pela gestão inadequada dos resíduos é maior do que o custo de investimento em um sistema adequado”.

O relatório faz parte de um projeto da ONU Meio Ambiente e é parte do Atlas Global de Gestão de Resíduos de 2016, que inclui relatórios sobre a situação dos resíduos sólidos na América Latina e Caribe, Ásia, Ásia Central, África, Regiões Montanhosas e Pequenas Ilhas-Estado (Sids).

Produção de lixo cresce no país e Brasil já é o 4o maior gerador de resíduos do mundo

A quantidade de resíduos sólidos urbanos gerada no país em 2015 totalizou 79,9 milhões de toneladas, 1,7% a mais do que no ano anterior. No período, foi registrado também aumento de 0,8% na produção per capita de resíduos sólidos: de 1,06 quilo (kg) ao dia em 2014, para 1,07 kg ao dia em 2105. Os dados foram divulgados pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

“O resultado coloca o Brasil como o quarto maior gerador de resíduos sólidos no mundo, é muita coisa, e o que nós percebemos é uma rota ascendente, que tem vindo dessa forma na última década, e que ainda não demonstrou uma linha de reversão. É um dado preocupante”, disse o diretor presidente da Abrelpe, Carlos Roberto Vieira.

De acordo com o levantamento, houve uma leve melhora nos números sobre a destinação final dos resíduos sólidos. Em 2015, 58,7% do lixo produzido foi destinado para locais adequados, como aterros sanitários. Em 2014, esse índice foi 58,4%. No entanto, os dados mostram que cerca de 60% das cidades brasileiras ainda destinam seu lixo inadequadamente, ou seja, para lixões ou para os chamados aterros controlados.

“Uma das pistas que temos para explicar esse problema, essa nossa deficiência e porque temos levado tanto tempo para avançar, está no volume de recursos aplicados no setor de resíduos sólidos, que em 2015 foi de R$ 10 por habitante por mês para fazer frente a todos os serviços de limpeza urbana”, ressaltou Vieira.

Os serviços de coleta mantiveram o alto índice observado nacionalmente nos anos anteriores, de 90,8%. No entanto, ainda persistem as diferenças regionais: no Sudeste, 97,4% do lixo produzido é coletado; em seguida vêm as regiões Sul (94,3%); Centro-Oeste (93,7%); Norte (80,6%); e Nordeste (78,5%).

Crise econômica diminui geração de lixo pela primeira vez em 13 anos

A geração de lixo no Brasil reduziu 2,04% em 2016 na comparação com 2015, segundo panorama divulgado Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Foram gerados 78,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos no ano passado.

Carlos Silva Filho, presidente da Abrelpe, não atribuiu a redução do lixo à conscientização ambiental da população, mas à crise. “É a primeira vez que temos decréscimo de resíduos sólidos no Brasil desde 2003, fruto da crise econômica, que afetou diretamente o poder de compra da população e trouxe, como consequência, o menor descarte de resíduos sólidos.”

Outro aspecto negativo atribuído à recessão econômica foi o aumento do uso de lixões, com 2.976 ainda presentes em todo o país. Tiveram destinação inadequada, em 2016, 81 mil toneladas de lixo. O uso de lixões a céu aberto cresceu de 17,2% em 2015 para 17,4% no ano passado.

Os aterros controlados, que ainda existem no país, são semelhantes a lixões, por vezes cercados, com cobertura de terra para esconder os resíduos, mas sem captação de gás e chorume. Houve ligeiro aumento, passando de 24,1% em 2015 para 24,2% no ano passado. O tratamento de lixo ideal, em aterro sanitário, feito em ambiente confinado para reduzir o volume de resíduos conforme os anos, caiu de 58,7% para 58,4%.

Sete municípios, não revelados pelo panorama, abandonaram o uso de aterros sanitários e passaram a usar lixões, em razão da redução de receitas municipais. O custo do uso de aterro gira em torno de R$ 90 a R$ 100 por tonelada. “É uma economia burra, pois deixa de pagar o aterro, mas, automaticamente, vai contaminar o meio ambiente e a pessoas, vai pagar mais no Sistema Único de Saúde”, disse o presidente da Abrelpe.

Segundo o panorama, 96 milhões de pessoas terão a saúde afetada por contaminação dos lixões. “São doenças como alergias, infecções estomacais, doenças causadas por vetores que se proliferam no lixo como dengue, zika, chikungunya, câncer, pressão arterial. Bastante preocupante.”

A coleta seletiva no Brasil estava presente em 69,3% em 2015, e registrou ligeiro aumento em 2016, passando a 69,6%. Entre as regiões brasileiras, o Sul foi o que mais implementou coleta seletiva (89,8%), seguido pelo Sudeste (87,2%), Norte (58,4%), Nordeste (49,6%) e Contro-Oeste (43,3%).

RECICLAGEM NOS ESTADOS UNIDOS: DESAFIOS SEMELHANTES AO BRASIL

Estados Unidos: 4o maior país do mundo em área e 3o mais populoso. Brasil: 5o maior país do mundo em área e 5o mais populoso. Duas nações com dimensões continentais e realidades muito diferentes em seu território, tanto do ponto de vista cultural quanto educacional e econômico. Essa diversidade torna desafiadora a aplicação políticas abrangentes que deem conta das particularidades de seus Estados e regiões.

“No que diz respeito à reciclagem, enfrentamos problemas e desafios muito semelhantes quando se trata de impulsionar os índices de coleta e reaproveitamento dos diferentes tipos de materiais”, comenta o diretor do Cempre, André Vilhena. Dados publicados na edição de dezembro da revista “Resource Recycling” mostram como essa realidade se apresenta hoje nos Estados Unidos, onde a taxa de reciclagem se manteve praticamente estagnada entre 2013 (34,3%) e 2014 (34,6%), segundo estatísticas divulgadas pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) norte-americana. A geração de resíduo ssólidos urbanos somou 258,5 milhões de toneladas em 2014, um aumento de 1,4% em relação ao ano anterior. Enquanto isso, o volume direcionado à reciclagem e à compostagem (não incluindo a combustão com recuperação de energia) chegou a 89,4 milhões de toneladas, um crescimento de 2,2% frente a 2013. Se isolada, a reciclagem recebeu 66,4 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, o que representa um índice de 25,6%. Quando analisados por tipo de material, os resultados apresentam uma diferença marcante no comportamento individualizado da reciclagem.

  • Veja, a seguir, os comparativos entre a situação nos Estados Unidos e no Brasil em relação a alguns materiais.

Vidro

EUA: As embalagens de vidro tiveram uma redução de 1,5 ponto percentual em sua taxa de reciclagem em relação a 2013, atingindo a marca de 32,5%, em 2014.

BRASIL: Dados de 2011 apontam um índice de reciclagem de 47%, num total de 470 mil toneladas anuais, sendo 40% oriundas da indústria de envase, 40% do mercado difuso, 10% do “canal frio” (bares, restaurantes, hotéis etc.) e 10% de sobras da indústria.

Papel Ondulado

EUA: Os índices de reciclagem de papel ondulado estão entre os maiores no relatório de 2014 da EPA, com 89,5% em 2014.

BRASIL: No mesmo ano, o Brasil reciclou 84,7% do volume total de papel ondulado consumido no país, o que corresponde a 4,7 milhões de toneladas.

Latas de aço

EUA: As latas de aço têm índice de reciclagem de 70,7%.

BRASIL: No Brasil, em 2015, 46,7% do total das latas de aço consumidas foram recicladas, incluindo 82% de latas de aço para bebidas (latas de duas peças). Cerca de 200 mil toneladas de latas de aço pós-consumo retornaram para o processo de reciclagem no país.

Latas de alumínio

EUA: A reciclagem dessas embalagens é de 55,1%.

BRASIL: Em 2015, 97,9% das latas de alumínio disponíveis no mercado brasileiro foram recicladas. Foram 292,5 mil toneladas, o que corresponde a 23,1 bilhões de unidades, ou 63,3 milhões por dia ou 2,6 milhões por hora.

Embalagens PET

EUA: Esse segmento teve uma pequena queda (de 0,1 ponto percentual), ficando com uma taxa de reciclagem de 31,2%.

BRASIL: 59% das embalagens pós-consumo foram recicladas em 2012, totalizando 331 mil toneladas. As garrafas são recuperadas principalmente através de catadores e cooperativas, além de fábricas e da coleta seletiva operada por municípios. O volume de reciclagem desse material apresenta crescimento consistente: de 1994 a 2002, o percentual de reciclagem subiu de 19% para 35% do total comercializado; de 2003 a 2006, subiu de 43% para 51% e, desde então, a alta anual tem variado de 1,5% a 2%.

Resíduos per capita

EUA: Dados de 2012 da EPA indicam que cada morador dos Estados Unidos produz 4,38 libras (cerca de 2 quilos) por dia de resíduos.

BRASIL: No Brasil, segundo o IBGE, cada morador gera cerca de 1quilo por dia de resíduos.

Geração de trabalho e renda

EUA: A EPA também divulgou uma atualização para o seu “Relatório de Informações Econômicas da Reciclagem” que descreve o impacto mais amplo dos esforços de recuperação de materiais nos Estados Unidos. O relatório observa que, a partir dos dados mais recentes disponíveis, se verifica que as atividades de reciclagem e reutilização geram 757 mil postos de trabalho, US$ 36,6 bilhões em salários e US$ 6,7 bilhões em receitas fiscais. “A reciclagem não é apenas um trunfo para nossos objetivos ambientais e sociais, mas um impulso para a nossa economia”, destacou Mathy Stanislaus, administrador assistente?da EPA, em um comunicado de imprensa.

BRASIL: No Brasil, a geração de trabalho e renda também é um dos pilares da Política Nacional de Resíduos Sólidos, com ênfase para a inclusão social dos catadores de materiais recicláveis, organizados em cooperativas. O apoio a esses trabalhadores é um dos principais focos do Acordo Setorial para Implantação do Sistema de Logística Reversa de Embalagens, promovido pela Coalizão Embalagens

 

Fonte: Correio do Brasil/Agencia Brasil/Municipios Baianos

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