25/11/2017

A indústria do açúcar está há décadas manipulando a ciência

 

Durante a história da humanidade morrer de câncer de pulmão era uma verdadeira raridade. No entanto, o consumo em massa de tabaco, que começou no final do século XIX, causou uma epidemia mundial. A relação entre o hábito de fumar e o câncer começou a ser demonstrada nos anos 40, e no final dos 50 as provas já eram irrefutáveis. Em 1960, porém, somente um terço dos médicos dos Estados Unidos acreditavam que o vínculo entre a doença e o tabagismo fosse real. Para essa confusão dos médicos e da população a ciência também contribuiu. Em 1954, o pesquisador Robert Hockett foi contratado pelo Comitê de Investigação da Indústria do Tabaco, dos EUA, para pôr em dúvida a solidez dos estudos sobre os malefícios dos cigarros.

Apesar dos esforços daquela indústria, a acumulação de provas conseguiu fazer com que a consciência sobre os perigos de fumar seja quase universal e que as campanhas tenham reduzido significativamente o número de fumantes. Mas o negócio do tabaco não é o único que manipulou a ciência para proteger seus lucros. Como o tabagismo, o consumo desenfreado de açúcar é um hábito doentio moderno. E embora a consciência sobre os danos do açúcar seja algo muito mais recente, parece que a própria indústria está ciente deles há muito tempo. De fato, Hockett, antes de buscar a proteção do tabaco por meio da confusão, tinha feito o mesmo com o açúcar. Nesse caso, ao não poder negar a relação entre a sacarose e as cáries, tentava promover intervenções de saúde pública que reduzissem os dados no açúcar em vez de restringir seu consumo.

Esta semana, uma equipe da qual participam Cristin Kearns e Stanton Glantz, pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco conhecidos por apontar as maracutaias do negócio açucareiro, recuperou antigos documentos que mostram sua forma de trabalhar. Segundo explicam em um artigo publicado na revista PLOS Biology, a Sugar Research Foundation (SRF), conhecida agora como Sugar Association, financiou em 1965 uma revisão no New England Journal of Medicine na qual eram descartados indícios que relacionavam o consumo de açúcar, os níveis de gordura no sangue e doenças cardíacas. Essa mesma fundação também realizou estudos em animais em 1970 para analisar esses vínculos. Seus resultados encontraram um maior nível de colesterol em ratos alimentados com açúcar em relação a outros alimentados com amido, uma diferença que atribuíam a distintas reações dos micróbios de seu intestino. Quando a SRF conheceu os dados, que indicavam uma relação entre o consumo de açúcar e as doenças cardíacas, e até um maior risco de câncer de bexiga, interrompeu as pesquisas e nunca publicou seus resultados.

Glatz e seus colegas comentam que este tipo de trabalho propagandístico, direcionado a semear dúvidas sobre qualquer relação entre o consumo de sacarose e as doenças crônicas, continua hoje. Como exemplo citam uma nota à imprensa divulgada pela Sugar Association em 2016 como resposta a um estudo publicado na revisa Cancer Research. Nela, eram questionados os dados obtidos por uma equipe do Centro para o Câncer MD Anderson da Universidade do Texas, nos quais se observou em ratos que o consumo de açúcar favorecia o crescimento de tumores e a metástase.

Estratégias em vigor

As estratégias da indústria açucareira do passado continuam vigentes. Como quando Hockett propunha mitigar o impacto do consumo do açúcar nas cáries sem reduzir seu consumo, hoje, empresas como a Coca-Cola focam na necessidade de se fazer exercícios para reduzir a obesidade, deixando de lado a de diminuir o consumo de açúcar.

Em uma entrevista a El País, Dana Small, uma cientista da Universidade Yale que trabalha para entender a maneira como o entorno moderno, desde a alimentação à poluição, favorece a obesidade, comentou sua experiência colaborando com a Pepsi. Apesar de reconhecer que os dirigentes da empresa tinham boas intenções quando começaram a financiar projetos sobre alimentação e saúde, conta que tudo andou bem até que tiveram “resultados que indicavam que seus produtos poderiam estar causando danos”. Não podiam assumir que conheciam os perigos de seus produtos para a saúde porque essa informação poderia ser utilizada contra eles em futuras ações judiciais. “Deixaram de financiar-me na semana seguinte e confiscaram os computadores dos cientistas com os quais estava trabalhando”, relatou.

Glanz considera que a atitude das entidades açucareiras “questiona os estudos financiados pela indústria do açúcar como uma fonte confiável de informação para a elaboração de políticas públicas”. Small, no entanto, considera que a indústria do açúcar e a da alimentação em geral são grandes demais para serem ignoradas. Em sua opinião é necessário buscar meios de proteger este tipo de colaboração de tal maneira que ambas as partes possam trabalhar de forma honesta “sem ter que se preocupar com segredos comerciais ou ser alvo de ações judiciais”.

Consumo de três xícaras de café por dia pode trazer benefícios à saúde, diz pesquisa

Estudo publicado no British Medical Journal, importante revista acadêmica de medicina do Reino Unido, aponta que beber uma quantidade moderada de café todos os dias pode ser melhor que ficar sem ingerir nada de café. O consumo de três ou quatro xícaras diariamente está associado a uma menor probabilidade de desenvolver problemas cardiovasculares como ataques do coração e derrames cerebrais. Se comparados aos que não bebem café, o risco de desenvolver doença cardíaca para os que consomem regularmente a bebida é 19% menor. No caso de morte por derrame, o risco chega a ser 30% menor.

Também há uma associação positiva entre o consumo de café e um menor risco de desenvolver alguns tipos de câncer e doenças do fígado. As evidências, contudo, indicam que mulheres grávidas e as propensas a fraturas ósseas devem evitar a ingestão de cafeína uma vez que, para esses dois grupos, foram identificados mais malefícios que benefícios.

O estudo faz uma análise estatística de 218 pesquisas anteriores, que apresentaram mais de 70 resultados diferentes, e foi conduzido na faculdade de medicina de Southampton, no Reino Unido. Apesar de apontar que beber uma quantidade moderada é melhor que ficar sem café, os pesquisadores alertam que as pessoas não devem começar a consumir a bebida apenas se pretendem evitar doenças. E esqueça acompanhamentos! Os pesquisadores aconselham evitar cremes e bolos que normalmente acompanham a bebida.

O professor Paul Roderick, coautor do estudo, pondera que, apesar da associação positiva apontada pelos diferentes estudos, não é possível afirmar que o café é o principal responsável pela menor incidência de doenças. Fatores como idade, tabagismo e prática de exercício físico, explica Roderick, podem também ter efeito no maior ou menor risco de desenvolver doenças. As descobertas respaldaram outras pesquisas recentes e trazem uma mensagem reconfortante para os que gostam de tomar café. "Os benefícios do consumo moderado de café parecem superar os riscos", diz o professor.

O NHS, serviço público de saúde do Reino Unido, recomenda que mulheres grávidas não consumam mais que 200 miligramas de cafeína por dia. Isso equivale a duas canecas de café solúvel. A ingestão de uma grande quantidade de café, dizem os pesquisadores, podem aumentar o risco de aborto. O estudo aponta ainda que mulheres com risco de fraturas também devem cortar a cafeína. Mas, para adultos em geral, o consumo de até 400 miligramas de cafeína por dia não traz malefícios, dizem os pesquisadores. O café, no entanto, não é o único item que possui cafeína. Energéticos, chocolate, coca-cola, e alguns tipos de chá também contém o composto químico que funciona como estimulante.

* Quanto há de cafeína em:

- Uma caneca de café solúvel: 100mg

- Uma caneca de café filtrado: 140mg

- Uma caneca de chá preto: 75mg

- Uma lata de coca-cola: 40mg

- Uma lata de 250ml de energético: até 80mg

- Uma barra de chocolate puro: cerca de 25mg

- Uma barra de chocolate ao leite: menos de 10mg

Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que ainda é necessário mais pesquisas clínicas para identificar relações causais entre o consumo de café e benefícios para a saúde. Os pesquisadores admitem que, com base nas pesquisas feitas até o momento, é difícil dizer exatamente como o café impacta positivamente na saúde. O máximo que conseguiram foi apontar associações positivas entre quem bebe café e a incidência de determinadas doenças, se comparado aos que não consomem a bebida ou consomem em menor quantidade.

Eliseo Guallar, da escola de saúde pública John Hopkins Bloomberg, é comedido ao comentar os resultados do estudo publicado na British Medical Journal. Ele afirma os efeitos da ingestão de grande quantidade de cafeína ainda são incertos. "O consumo moderado parece ser notavelmente seguro, e pode ser incorporado como parte de uma dieta saudável pela maioria da população adulta".

 

Fonte: El País/BBC Brasil/Municipios Baianos

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