26/11/2017

Bispos da Bacia do São Francisco irão discutir situação do rio

 

A situação dramática do Velho Chico está preocupando os bispos da região da Bacia do São Francisco. Nesta semana, os líderes religiosos da Igreja católica no território que engloba o norte de Minas Gerais, boa parte da Bahia e de Sergipe, reuniram-se no Santuário de Bom Jesus da Lapa, para discutir o processo de morte do rio e o que pode ser feito. O encontro, encerrado na última quarta-feira (22), dará origem a uma Nota que será lida em todas as igrejas da região no próximo dia 03 de dezembro.

Dez bispos e um administrador diocesano estiveram presentes no encontro, ocorrido nos dias 21 a 22 de novembro. A Diocese da Lapa foi escolhida pela influência do Santuário do Bom Jesus da Lapa que fica às margens do Rio São Francisco, reunindo todos os anos milhares de romeiros, grande parte deles ribeirinhos que vivem e dependem das águas do rio da integração nacional.

O evento contou com a presença de Dom João Santos Cardoso – Bom Jesus da Lapa/BA , Dom José Moreira da Silva – Januária/MG, Dom Guido Zendron – Paulo Afonso/BA, Dom Luiz Cappio – Barra/BA, Dom José Roberto Silva Carvalho – Caetité/BA, Dom Beto Breis OFM – Juazeiro/BA, Dom Josafá M. da Silva – Barreiras/BA, Dom Gabriel – Floresta/PE, Dom Vitor de Menezes – Propriá/SE, Pe. Antônio Malan de Carvalho (Administrador diocesano de Petrolina/PE).

Segundo Dom Beto Breis, bispo da Diocese de Juazeiro/BA, a teologia e orientação pastoral da Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, repercutiram no encontro. “O Papa Francisco tem nos chamado à uma “conversão ecológica”, ao cuidado com a casa comum e à ética da responsabilidade ambiental. Na conclusão do encontro, alguns encaminhamentos foram apresentados, como: (1) Lançamento da Carta do Bom Jesus da Lapa no Primeiro Domingo do Advento; (2) Ações de sensibilização e educação junto às comunidades e ao povo para o cuidado, defesa e revitalização do São Francisco; (3) Ações junto às autoridades e aos governos para responder ao SOS do São Francisco”, escreveu em nota o bispo de Juazeiro.

O Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do São Francisco contou ainda com a presença de peritos, estudiosos e agentes de pastorais sociais que apresentaram um diagnóstico sobre a conjuntura hídrica da Bacia do São Francisco, com diversos dados da realidade da região, especialmente do Cerrado, principal fonte de abastecimento do Velho Chico. Entre os assessores estavam Roberto Malvezzi (“Gogó”) da Diocese de Juazeiro/BA e especialista no tema, o Prof. José Alves Siqueira da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) em Petrolina e membros da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

CADA DIA A GENTE OUVE A VOZ DO RIO SÃO FRANCISCO MAIS BAIXO, DIZ PESCADOR

Emocionado ao falar da eminente morte do Rio São Francisco, o pescador sergipano e militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Damião Rodrigues desabafa: “cada dia a gente ouve a voz do rio mais baixo, a gente não vê ele cantar nem mais ouve a sua voz a conversar com a gente da forma que conversava antes e, com isso, a gente vai lamentando e vai morrendo junto com ele. Mas a gente vai continuar lutando pra um dia ver o rio voltar a falar alto, ouvir mais forte o barulho das suas águas, porque o sangue que corre no rio São Francisco é o mesmo que corre em nossas veias”.

A possibilidade de ver o rio que há anos alimenta gerações e faz parte da vida e do imaginário popular morrer aterroriza comunidades ribeirinhas de pescadores, indígenas e vazanteiros. Isso porque a ação nociva dos homens tem contribuído para que, além de mudar o seu curso, o rio mingue por conta do desmatamento, poluição e extração irregular de suas águas seja para irrigação, mineração ou geração de energia.

“Eu nem quero pensar no rio morrer porque quando a gente pensa tem até sonho ruim. Mas eu acredito muito em Deus e sei que ele não vai esquecer da gente e nós ainda vamos ver ele com água”, diz emocionada a pescadora Alice Borges que mora na cidade de Juazeiro (BA), no médio São Francisco.

Sobre o assunto, o ecológo vegetal e professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), José Siqueira, alerta: “Há um blackout histórico em Sobradinho que já não está funcionando nenhuma turbina. A gente está no auge do período seco. A previsão de entrar em dezembro num volume morto de Sobradinho, como nunca se viu na história”.

Ao longo do percurso de 2.800 quilômetros em que atravessa os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, o rio São Francisco tem sido vítima de diversos crimes ambientais. No Alto São Francisco, que vai das cabeceiras até Pirapora (MG), a extração de água por mineradoras tem secado nascentes e córregos. O rio Paracatu, um dos principais afluentes do Velho Chico, está com o leito seco e é atingido pelo derramamento de arsênio - material tóxico liberado na extração de ouro. Segundo moradores da região, os efeitos no metal liberado na mineração é o aumento no número de casos de câncer.

A agonia do Velho Chico

A recente redução de 650 m³ por segundo para 550 m³ por segundo da vazão diária de água da barragem de Sobradinho, no Norte da Bahia - o menor patamar já adotado pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) - poderá afetar diretamente as populações ribeirinhas dos municípios pernambucanos. São quase 70 cidades do Sertão do Estado banhados pelo Velho Chico - sendo Petrolina o primeiro a ser atingido por ser o mais próximo, a 40km da barragem. A situação para Pernambuco é preocupante, alerta o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), visto que o Estado é totalmente dependente da vazão de Sobradinho. É essa usina hidrelétrica que regula o nível de água não só para o baixo, mas para toda a parte submédia da bacia do rio, onde Pernambuco está inserido.

As chuvas abaixo da média nos últimos cinco anos, justifica a ANA, tem sido o motivo principal para a instituição vir autorizando a redução da vazão mínima defluente (água que sai). A vazão de Sobradinho, que começou a operar em 1979, vem diminuindo desde abril de 2013, quando passou a ser menor do que 1,3 mil metros cúbicos por segundo, a vazão ambientalmente correta. E agora, passa a operar com 550 m³/s. De acordo com a ANA, a nova regra vale até 30 de novembro, quando finaliza o Dia do Rio.

O marco, instituído no último dia 20 de junho, estabelece a suspensão da captação d’água no rio São Francisco todas as quartas-feiras, a partir do dia 28, com exceção das indústrias e mineradoras que utilizam acima de 13 horas por dia, que reduzirão em 14% o volume recolhido. O objetivo é preservar os estoques nos reservatórios da bacia do rio São Francisco. A medida é mais um esforço para evitar recorrer ao volume morto de Sobradinho até novembro, quando está previsto o fim do período seco.

Porém, caso não haja a regularidade das chuvas a partir de novembro na região norte de Minas Gerais e Oeste da Bahia, a situação se tornará ainda pior, avalia um dos membros do comitê e reitor da Univasf, Julianeli Tolentino de Lima. “Na realidade, já vivemos grande dificuldade para a manutenção das atividades, especialmente, agrícolas, pesqueiras e de navegação. A falta de chuvas, aliada à diminuição significativa do volume de água em Sobradinho, agravará ainda mais a situação do rio e quem depende dele”, prevê. Hoje, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) abastece 39 municípios no Sertão pernambucano, atendendo cerca de 800 mil pessoas por meio da captação de água do São Francisco.

A escassez no reservatório de Sobradinho, que hoje opera com 13% da sua capacidade total, obrigou outras barragens a suprirem a demanda de abastecimento. De acordo com a Compesa, desde março, a captação do Sistema Adutor do Pajeú, situado no município de Floresta, passou a atender também a cidade de Princesa Isabel, na Paraíba.

Em Pernambuco, segundo a companhia, os custos com a instalação de equipamentos para a adequação das captações, tendo em vista a estiagem prolongada, giram em torno de R$ 14 milhões. O relatório foi encaminhado ao Ministério da Integração Nacional e o Governo de Pernambuco está no aguardo da liberação do recurso. “É muito importante a liberação dos recursos e que os serviços sejam executados para que a população não corra o risco de ficar sem o abastecimento de água”, reconhece a Compesa em nota.

Salinização

A seca prolongada também tem contribuído para um outro grave problema: a salinização. O fenômeno já atingiu a foz do Rio São Francisco, em Sergipe, espalhando-se até regiões vizinhas, como o município de Piaçabuçu, em Alagoas, realidade apontada pelo CBHSF. Devido à redução da vazão das barragens, especialmente da hidrelétrica de Sobradinho, faz com que o rio perca a força e a água do mar passe a “invadir” o seu leito.

Sobre esse problema afetar Pernambuco, Julianeli Lima afirma que as chances são, praticamente, nulas. “Por conta de dois fatores. Primeiro é a distância da foz até o curso do rio em Pernambuco, entre os municípios de Petrolândia e Petrolina. Segundo, é a existência de dois obstáculos, as barragens de Xingó, no Baixo São Francisco, e o complexo de Paulo Afonso, entre o Baixo e o Submédio São Francisco”, explica.

Mau uso da água e do solo é agravante

No caso de Pernambuco, o mau uso da água e do solo (desmatamento irregular, com a degradação da mata ciliar) ainda continuam sendo os principais responsáveis pela escassez da água em Pernambuco. “O mau uso da água também inclui o manejo inadequado, com a pesca predatória, desrespeito ao período de defeso e a introdução de espécies exóticas, que acabam por dizimar espécies endêmicas”, diz Lima. Um levantamento do comitê, inclusive, aponta que de 360 espécies de peixes nativos que existiam na bacia do rio, apenas 152 ainda são encontradas. E escassamente.

No estudo, as áreas baixa e submédia da bacia são as mais críticas. Antes encontrados em abundância nas águas que cortam Petrolina, Belém do São Francisco, Cabrobó e Jatobá, o mandi-bagre, piaba, pacamão, cascudo, cambeva e barrigudinho não são mais encontrados. Até espécies endêmicas, como o pirá, peixe símbolo do Velho Chico, já não é mais visto nas redes dos pescadores artesanais. João dos Santos, 41 anos, é um desses pescadores artesanais.

No ofício há 30 anos, hoje aposta em outras fontes de renda. “Tive que ser criativo, começar a construir embarcações e tecer redes de pesca. Dá um aperto no coração ver o Chico assim. Antes, num dia bom para a pesca, eu tirava 10 kg facilmente. Hoje, não pego a metade”, lamenta.

Na intenção de “salvar” o rio São Francisco, o Ministério da Integração Nacional instituiu o “Plano Novo Chico”, um programa de revitalização das bacias do rio São Francisco. De acordo com a pasta federal, só este ano, foram inclusos cerca de três milhões de alevinos das espécies piau, xira, matrinxã, curimatã pioa, surubim, pacamã e pirá nos trechos do rio São Francisco dos estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Minas Gerais, Goiás e região do Distrito Federal. De acordo com o ministério, a soltura constante dos peixes nativos possibilitou que espécies antes sumidas na região, como a curimatã pioa e a matrinxã, voltassem a ser pescadas. Desde 2007, foram reproduzidos aproximadamente 150 milhões de alevinos.

 

Fonte: Ação Popular/BlogdoGeraldoJosé/Folhape/Municipios Baianos

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