26/11/2017

Antibiótico impede em ratos câncer que mata 800.000 pessoas/ano

 

Concentre-se em sua boca. Passe a língua entre seus dentes e a mucosa de suas bochechas. Nesses meandros vive a Fusobacterium nucleatum, uma bactéria comum na boca humana associada a infecções das gengivas. Somos, segundo uma velha brincadeira científica, mais microbianos do que humanos: no corpo de uma pessoa existem 39 trilhões de bactérias e somente 30 trilhões de células humanas. E a ciência está apenas começando a compreender esse complexo mundo microscópico.

A última descoberta pode ser importantíssima. Há cinco anos a comunidade científica suspeita do cada vez mais evidente vínculo entre a Fusobacterium nucleatum e o câncer colorretal, responsável por 775.000 mortes por ano no mundo. A bactéria aparece habitualmente no ecossistema microbiano desses tumores no intestino grosso. E uma equipe internacional de cientistas acaba de descobrir que a bactéria também viaja com as células tumorais que provocam metástase no fígado.

“Esses dados sugerem que as bactérias, mais do que companheiras de viagem, podem ser as causadoras dessas metástases”, afirma Paolo Nuciforo, coautor do estudo e pesquisador no Instituto de Oncologia Vall d’Hebron, em Barcelona. As bactérias, afirma, poderiam provocar alterações moleculares que causariam tumores nas células humanas.

“Não é a primeira vez que bactérias são associadas ao câncer. A relação entre a Helicobacter pylori e o câncer de estômago é conhecida desde 1994”, explica Nuciforo. A infecção por H. pylori é considerada, de fato, a principal causa de câncer gástrico, um tumor responsável por outras 750.000 mortes por ano no mundo. “Agora estamos constatando também a relação entre a Fusobacterium e o câncer colorretal”, frisa o oncologista.

A equipe de Nuciforo detectou a Fusobacterium em 70% de uma amostra de 200 tumores colorretais humanos. Nas metástases hepáticas desses tumores primários também aparecem as mesmas cepas da bactéria, dentro das próprias células tumorais.

“Se não existisse uma relação, seria quase impossível que a flora microbiana de um tumor no cólon fosse igual à de um tumor no fígado. São órgãos totalmente diferentes”, diz o pesquisador. O trabalho, publicado na sexta-feira na revista Science, é comandado por cientistas do Instituto do Câncer Dana-Farber, em Boston (EUA).

Os autores deram um passo adiante. Injetaram esses tumores humanos em ratos e os trataram com um simples antibiótico, o metronidazol, utilizado habitualmente em infecções de uretra e vagina. O antibiótico por si só conseguiu algo insólito: impedir em 30% o crescimento dos tumores nos ratos, como detalha Nuciforo.

“Uma nova estratégia contra os tumores colorretais associados a Fusobacterium seria uma combinação de quimioterapia e antibióticos. Mas para confirmar isso precisamos de mais testes clínicos”, diz o oncologista. Um primeiro passo seria desenvolver um antibiótico específico contra a Fusobacterium, já que o metronidazol também mata outras bactérias da flora intestinal. “Tratamentos preventivos com antibióticos já são utilizados no carcinoma gástrico. O mesmo poderia ser feito com a Fusobacterium se nossos resultados se confirmarem”, diz Nuciforo.

As limitações das novas terapias contra o câncer

Há quase uma década, a imunoterapia é a grande estrela dos medicamentos contra o câncer. Do ponto de vista comercial, o interesse dos laboratórios farmacêuticos se justifica. Alguns analistas calculam que o mercado potencial desses tratamentos pode alcançar os 50 bilhões de dólares (156,5 bilhões de reais) por ano. Entretanto, alguns especialistas, como os autores do editorial deste mês da prestigiosa revista médica The Lancet, consideram haver em torno dessas terapias uma “febre do ouro” que deveria ser controlada.

A imunoterapia é um sistema que ajuda as defesas do próprio organismo a atacarem os tumores. Há mais de um século sabe-se que é possível combater alguns tipos de câncer através de uma reação imunológica induzida. William Coley, um cirurgião norte-americano, injetava bactérias em seus pacientes após observar que algumas infecções fortuitas tinham ajudado doentes de câncer a se recuperar. Entretanto, durante várias décadas não foi possível organizar testes rigorosos que provassem a eficácia desse enfoque. Até 2008.

Naquele ano, na reunião da Sociedade Americana de Oncologia, os primeiros resultados na fase inicial de ensaios com um fármaco chamado ipilimumab levavam a crer que finalmente seria possível comprovar a eficácia de uma imunoterapia. Três anos depois, um ensaio em fase 3 com o mesmo medicamento provou as possibilidades de um enfoque que consistia em desmontar as defesas das células cancerosas e deixá-las à mercê dos glóbulos brancos. Desde então, os grandes laboratórios se empenham em desenvolver seus próprios fármacos com base nessa ideia. Conforme recordava recentemente um artigo no Financial Times, há atualmente cerca de 800 ensaios clínicos testando diferentes imunoterapias em mais de 100.000 pacientes só nos EUA . Para os editorialistas da The Lancet, esse imenso esforço pode estar afogando financeiramente outras linhas de pesquisa e acelerando a realização de ensaios em humanos sem a necessária pesquisa pré-clínica e com falta de rigor.

“Um problema fundamental com a atual velocidade de desenvolvimento é a falta de tempo e pesquisa a fim de compreender as razões pelas quais um ensaio falhou ou por que ele deu certo”, aponta o editorial. “Além disso, como a reprodutibilidade dos estudos pré-clínicos [feitos com animais] e as conclusões que podem ser transferidas aos ensaios clínicos [com humanos] são frequentemente superestimadas, é necessária uma pesquisa transnacional mais completa, com validação independente, para assegurar uma boa compreensão da correlação clínica”, acrescentam.

Os autores também recordam tudo o que se desconhece sobre o sistema imunológico, com suas grandes variações entre indivíduos, e como é pouco apropriado que a combinação entre as imunoterapias se baseie em filosofias desenvolvidas para os medicamentos da primeira etapa da luta contra o câncer, que destruíam as células tumorais gr O artigo cita também as limitações das imunoterapias. Por um lado, “muitos dos antigos ensaios, depois de pelo menos cinco anos de acompanhamento, estão descobrindo uma série de efeitos secundários pouco frequentes que exigem intervenções de apoio diferentes”, afirma o texto. “Essas conclusões enfatizam a importância de acumular uma quantidade suficiente de informação antes de pôr em marcha um novo estudo, especialmente ao combinar várias terapias imunológicas, cada uma com características de segurança desconhecidas.”

Por último, o editorial ressalta que, embora a resposta de alguns tumores a esse tipo de tratamento seja extraordinária, os estudos de longo prazo mostram que a maioria dos pacientes morre por causa da doença. Um desses trabalhos, em que se empregou o ipilimumab – o fármaco que iniciou a revolução da imunoterapia –, mostra que a taxa de sobrevivência cinco anos depois do início do tratamento é de 18,2%, o que significa que mais de 80% dos doentes não tiveram bons resultados em longo prazo. “Embora se anuncie como uma tentadora oportunidade de tratamento, é essencial levar em conta que a atual geração de imunoterapias só prolonga a vida de uma pequena percentagem de pacientes”, alertam. Isto, sustentam, deveria reduzir o uso de alguns destes fármacos contra tipos de câncer para os quais não foram passados, algo que se faz e que pode dar “falsas esperanças”. Outra consequência desse uso indiscriminado seria limitar o investimento a uma só linha de pesquisa, deixando de lado outras com potencial.aças a uma toxidade que também danificava intensamente as células saudáveis.

Diagnóstico e tratamento de HIV avançam; abandono de terapia se mantém alto

Um relatório do Ministério da Saúde mostra que o diagnóstico e o tratamento de pessoas que vivem com HIV-aids melhorou no Brasil nos últimos quatro anos, embora deixe claro que há ainda inúmeros desafios a serem enfrentados. De acordo com o trabalho, o número de pessoas com HIV que sabem da sua condição aumentou. Também é maior a parcela dos que estão em tratamento com medicamentos antirretrovirais. Ao mesmo tempo, as taxas de abandono à terapia ainda são altas e continua significativo o número de pessoas que descobrem a infecção pelo HIV de forma tardia – o que dificulta o sucesso no tratamento.

“Há conquistas, mas também desafios”, constata a diretora do Departamento de Prevenção e Controle das ISTs, HIV/Aids e Hepatites Virais, Adele Benzaken.

Um dos maiores avanços apontados pelo trabalho é a melhora no diagnóstico. Estima-se que 830 mil pessoas vivam com HIV no Brasil. Desse total, 694 mil (84%) sabem que são portadoras do vírus – um aumento de 18% quando comparado com dados de 2012.

Em 2016, 72% das pessoas diagnosticadas estavam em tratamento. Uma proporção bem maior do que em 2012, qu A supressão viral (quando a proporção de vírus circulante no sangue é considerada pouco expressiva, o que indica o sucesso do tratamento) também avançou. Dos pacientes tratados, 91% apresentam carga mínima de vírus.

Os dados indicam que o Brasil está próximo de atingir pelo menos duas das três metas do Programa das Nações Unidas para Aids (UnAids, na sigla em inglês), batizado de 90-90-90. O compromisso dos países é chegar até 2020 com 90% das pessoas com HIV-aids diagnosticadas; desse grupo, pelo menos 90% em tratamento e, dos que estão em tratamento, 90% com supressão viral.ando 62% das pessoas vivendo com HIV-aids estavam em terapia com antirretrovirais.

A supressão viral (quando a proporção de vírus circulante no sangue é considerada pouco expressiva, o que indica o sucesso do tratamento) também avançou. Dos pacientes tratados, 91% apresentam carga mínima de vírus.

Os dados indicam que o Brasil está próximo de atingir pelo menos duas das três metas do Programa das Nações Unidas para Aids (UnAids, na sigla em inglês), batizado de 90-90-90. O compromisso dos países é chegar até 2020 com 90% das pessoas com HIV-aids diagnosticadas; desse grupo, pelo menos 90% em tratamento e, dos que estão em tratamento, 90% com supressão viral.

“Estamos a seis pontos porcentuais para alcançar a meta do diagnóstico”, constata Adele. A meta da supressão viral já foi atingida e agora precisa ser mantida até 2020.

Um dos maiores desafios é tentar garantir que as pessoas diagnosticadas entrem em tratamento – e mantenham essa condição. A diretora chama a atenção para os dados da população entre 18 e 24 anos. Nesse grupo, apenas 56 “É preciso fazer um esforço para melhorar esses indicadores.”

A ideia é fazer uma campanha para mobilizar pessoas nessa idade a se testar e manter o tratamento. Tão importante quanto isso, ressalta Adele, é tentar identificar as falhas do sistema que levam jovens a se manter afastados dos sistemas de saúde. As estratégias, afirma a diretora, serão adotadas em conjunto com serviços estaduais e municipais de saúde.% dos diagnosticados estão em tratamento e 49% têm carga viral em níveis considerados ideais.

Para Veriano Terto, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, os indicadores apontam um bom resultado. “Mas esses dados se contrastam com outros dados chocantes, como que 30% da população transexual vive com HIV/aids, ou o crescimento da prevalência da infecção entre população de homens que fazem sexo com homens”, disse. “O Brasil vive um paradoxo. Qual epidemia vamos descrever? A que em números gerais já está próxima de atingir o 90-90-90 ou a que mostra o avanço da epidemia entre jovens?”

 

Fonte: El País/Agencia Estado/Municipios Baianos

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