28/11/2017

Profetas de Aleijadinho sofrem com poeira de minério e vândalos

 

As agressões ao acervo do Santuário Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, na Região Central, reconhecido como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, servem para ampliar as discussões sobre a necessidade ou não de remoção das estátuas dos profetas esculpidas por Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A cidade está cercada de mineradoras e a poeira do minério causa uma série de danos às obras de arte. “A situação é diferente de décadas atrás”, assinala o diretor do Museu de Congonhas, Sérgio Rodrigo Reis.

O escaneamento digital feito em 2011 e 2012 permitiu o registro completo das esculturas, a exemplo das perdas na pedra-sabão e marcas deixadas por vândalos, como rabiscos feitos com pregos, chaves etc.. “Mesmo com vigilância 24 horas, houve novas inscrições nas esculturas”, lamenta o diretor.

Ele diz que o museu é também espaço de pesquisas sobre monumentos pétreos. Num seminário internacional realizado recentemente, os especialistas revelaram que o biocida usado na década de 1990 para limpar as esculturas e evitar lesões e ataque principalmente de líquens tem contraindicações, por ser corrosivo. Com preocupação, o diretor diz que os líquens voltaram à superfície das peças.

Contemplando o adro pela primeira vez, em especial o profeta Daniel, o engenheiro paulista Oswaldo Pastore observou as marcas na pedra. E se surpreendeu com o estado de conservação. “A deterioração é grande, tem marcas de riscado. São obras de arte, precisam de cuidado permanente.” Fotografando tudo e fazendo selfies, os amigos Márdio dos Santos, médico, e Rafael Soares Peçanha, de Feira de Santana (BA), servidor público, consideraram o conjunto “impressionante”. Para Márdio, a beleza enriquece o patrimônio barroco do país. “É mais bonito do que se imagina”, acrescentou Rafael.

SEGURANÇA

No segundo andar do Museu de Congonhas fica a Galeria das Réplicas, com Joel e Jonas a postos; as sombras plotadas na parede vermelha aguardam Amós, Abdias, Daniel, Baruc, Isaías, Oseias, Ezequiel, Jeremias, Naum e Habacuc. O cenário é a deixa para Sérgio esclarecer que, desde a década de 1940, foram feitas réplicas dos profetas, e as pioneiras, que estavam na Fazenda Boa Esperança, em Belo Vale, do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), se encontram hoje no Museu de Congonhas, em sistema de comodato com a instituição. As condições do material, no entanto, são de degradação.

Para quem estranha ver os originais bicentenários ao ar livre e as réplicas em museu, Sérgio esclarece que as segundas guardam informações e conhecimento, sendo, na verdade, peças de segurança. No caso de algum dano às esculturas saídas do gênio de Aleijadinho – há recibos assinados por ele no Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana –, os restauradores podem recorrer tanto ao material digital, que guarda minúcias das 12 esculturas, quanto às feitas “à imagem e semelhança” dos originais.

Quem visitar o Museu de Congonhas, que completará dois anos no dia 15 e fica perto do Santuário Bom Jesus de Matosinhos, poderá ver, a partir de quinta-feira, uma exposição com vídeos, desenhos e fotografias que contam a história das réplicas dos profetas. O local funciona de terça a domingo, das 9h às 17h (com entrada a R$ 10), na quarta-feira, das 13h às 21h (entrada franca).

Congonhas busca recursos para bancar réplicas dos profetas de Aleijadinho

Novo capítulo na história dos profetas esculpidos há mais de 200 anos por Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e obra-prima do Santuário Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, na Região Central, reconhecido como patrimônio cultural da humanidade.

Está em andamento, e já com aprovação do Ministério da Cultura (MinC), projeto para produção de réplicas de 10 das 12 peças barrocas – entre 2011 e 2012, foram feitas as dos profetas Jonas e Joel. Nos últimos dias, uma equipe do Museu de Congonhas, vinculado à Fundação Municipal de Cultura, Lazer e Turismo (Fumcult), esteve em Brasília (DF) buscando parceiros para a empreitada, orçada em R$ 4,1 milhões.

A iniciativa quer garantir a preservação do acervo e não deixa de reacender o debate: o conjunto visitado por gente do mundo inteiro deve continuar ao ar livre ou ser transferido para o museu.

O projeto entusiasma o diretor do Museu de Congonhas, Sérgio Rodrigo Reis, que esteve também na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro (RJ), e se mostra esperançoso, pois o agente financeiro colocara como condicionante a aprovação pelo MinC. No pacote da possível parceria, além da produção das réplicas, está a ampliação, prevista no projeto original do arquiteto Gustavo Penna, do atual anfiteatro da instituição.

Nesse espaço do museu, deverá ser instalado um segundo andar para abrigar a Galeria dos Profetas, com as 12 peças, na mesma disposição da existente no adro do santuário. Só a elaboração do projeto para a intervenção custará R$ 500 mil. A busca de patrocínio para os projetos é feita em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Ainda não sabemos que tipo de material será usado nas 10 réplicas, mas descartamos a resina e o pó de pedra-sabão das duas anteriores. O resultado plástico ficou artificial, pode ser melhorado”, explica Sérgio. Todo o aparato tecnológico adotado há cinco anos para escaneamento em 3D das esculturas, inclusive com ajuda de um robô da indústria automotiva, não será mais necessário.

“Temos armazenadas todas as informações e o processo é muito caro. Em 2011 e 2012, por exemplo, foram feitos os moldes em silicone, as cópias de segurança em gesso e depois as réplicas.”

DEGRADAÇÃO

Expostos a céu aberto e atraindo milhares de pessoas anualmente – só na romaria, em setembro, são 250 mil visitantes –, os profetas e seus rumos, segundo o diretor do Museu de Congonhas, exigem muita reflexão. “A retirada ou não das peças divide a opinião dos especialistas, mas tem alguns que eram contra e hoje defendem a transferência. O conjunto, sem dúvida, é a obra mais iconográfica do Brasil, criada pelo artista mais importante da América Latina e símbolo de Minas”, afirma Sérgio.

Para o diretor do museu, a discussão deve pavimentar o caminho: “Vistos como obras de arte, os profetas devem ser preservados e mantidos sob controle, enquanto, como peças devocionais, complementam a basílica, representam o local de maior peregrinação do estado.”

Turistas de todo canto ficam “de boca aberta” diante dos profetas, conforme disse a gaúcha Vera Moretti, de Porto Alegre, ao lado do marido, Norival Moretti, e olhando para o profeta Ezequiel. “Não dá para acreditar. Na minha terra, aprendemos desde criança, nas aulas de história, sobre a importância desse conjunto. Mas acho que nem as professoras tiveram a oportunidade de admirá-los”, contou Vera.

MEMÓRIA

1800 a 1805 - Aleijadinho esculpe os 12 profetas para o adro do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas

1938 - O conjunto do santuário é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

1950 a 1970 - São feitos moldes e réplicas dos profetas, mas a maioria se perde ou sofre degradação

Início de 1980 - O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) promove limpeza mecânica dos profetas, com técnicas não mais usadas (escova de náilon, sabão de coco etc.)

1985 - Conjunto do santuário é reconhecido como patrimônio cultural da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)

1996-1998 - Numa parceria Brasil-Alemanha, entra em ação o Projeto Ideas, para estudo de degradação dos materiais pétreos e edificações históricas. Começa a ser usado um biocida para limpar as esculturas e evitar lesões e ataque principalmente de líquens

2002-2003 - Surge a polêmica de substituição dos profetas originais pelas réplicas, devido ao ataque de líquens, fungos e outros micro-organismos. Em 2003, é lançado o projeto de construção do Museu do Barroco, que, com o tempo, se tornou Memorial Congonhas/ Centro de Referência do Barroco e Estudo da Pedra e depois Museu de Congonhas

2011-2012 - Profetas são digitalizados e são feitas as réplicas dos profetas Jonas e Joel, com a chancela da Unesco

2015 -  Em 15 dezembro, é inaugurado o Museu de Congonhas, fruto da parceria entre Unesco, Iphan e Prefeitura de Congonhas

Na noite fria de 18 de novembro de 2011, Congonhas, na Região Central, foi palco de um encontro inédito e histórico envolvendo duas gerações. Frente a frente, um robô usado na indústria automotiva e Amós, um dos 12 profetas esculpidos por Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, para o adro do Santuário Bom Jesus de Matosinhos. O primeiro contato entre as partes, embora com uma distância de mais de 200 anos de “idade”, foi tranquilo, atraiu muita gente e despertou curiosidade na cidade. Todos os dados coletados também no ano seguinte estão em poder do Museu de Congonhas, administrado pela Prefeitura de Congonhas e nascido da parceria entre a administração municipal, a Unesco e o Iphan. Hoje não seria necessária tanta parafernália, já que há equipamento manual para fazer esse serviço.

 

Fonte: em.com/Municipios Baianos

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