30/11/2017

A advocacia que desceu a ladeira da mentira

 

Na última sexta-feira, foram às bancas de todo país um desserviço enorme para a classe dos advogados e advogadas. A Revista Veja trouxe uma matéria de capa que trata advogados como magnatas. Na capa, a foto de um sujeito engravatado fumando um charuto, sorrindo para o repórter, ostentando seu “sucesso” profissional. No corpo da matéria, além de outras fotos constrangedoras de profissionais que mimetizam de forma patética as maiores “excentricidades” de Eike Batista, informações inverídicas de advogados que sequer foram consultados pela publicação.

O que era para ser a concretização do sonho tacanho de poucos, tornou-se a injusta exposição de outros e a mentira sobre toda uma classe composta por centenas de milhares de pessoas. Uma irresponsabilidade típica de quem não pensa fora do próprio umbigo, como também de quem vê nessa revista um outdoor relevante para seus anseios vazios.

Algumas reflexões vieram-me à mente nesses últimos dias. Antes disso, gostaria de externar toda solidariedade aos advogados que tiveram mentiras contadas sobre sua atividade profissional e vida pessoal. Combativas figuras da advocacia, como Alberto Zacharias Toron, Antônio Claudio Mariz de Oliveira, Augusto Arruda Botelho e Fabio Tofic Simantob foram citados na matéria sem serem ouvidos. Ou seja, solidariedade a eles nesse caso é categórica. Tiveram não apenas a própria vida, como a de suas famílias expostas com informações inverídicas. Ainda que fosse verdade o que a revista queria dizer, o mínimo de ética no jornalismo é ouvir quem será citado.

Mas não, esses foram injustos alvos colaterais da má-fé jornalística e da irresponsabilidade de outros advogados, como Adriano Bretas e Kakay, que não apenas conversaram com a matéria sobre um tema absolutamente despropositado.

Em nota, Adriano Bretas afirmou que: “Aceitei tirar algumas fotos para a Revista. Depois de algumas fotografias, na biblioteca do escritório, acendi um charuto, como faço habitualmente, no final do expediente. Nesse contexto, o fotógrafo captou, num momento de descontração, algumas imagens que, infelizmente, acabaram por ilustrar a matéria”.

Fique com essa imagem quando for lembrar que em seguida à publicação, sucederam notas exaltadas de defesa aos advogados, indistintamente, e colocando a revista, de péssima qualidade sabida por todos, como único alvo de protesto. Santa hipocrisia. Até quando o óbvio é latente e o caso é injustificável, surge o conhecido corporativismo, compadrio, cumplicidade da classe jurídica em não se rever e estimular suas próprias graves falhas. Há tempos escrevo que a docilidade, servilidade e corporativismo da advocacia de elite está levando-a para o fundo do poço, mais fundo do que já está. É a antítese do que Sobral Pinto dizia que “a advocacia não é profissão para covardes”. Infelizmente, nos tempos atuais é sim. Uma profissão de covardes.

Pois não é possível que não haja criticidade quando nos deparamos com advogados vaidosos e autocentrados em posar como magnatas para a revista que tem sido historicamente um enorme desserviço para o direito de defesa, para a Constituição e para o exercício da profissão em geral. Advogados Criminalistas ainda, imagine. Como que pode, a não ser por puro ego, um sujeito aceitar ser o garoto propaganda da desinformação que atinge toda uma classe que já está castigada, subestimada e acovardada?

Advogados e Advogadas que atuam na elite da advocacia, nos grandes casos, tem que ter a dimensão de suas responsabilidades jurídicas. São, por muitas vezes, a única barreira que separa a Lava Jato de avassalar todos os direitos e garantias desse país. Está na hora de portar-se tal qual o peso dessa responsabilidade sobre suas costas e pararem de se deslumbrarem pelos mais pueris desejos burgueses de se colocarem como reis do camarote jurídico. Defender publicamente a delação premiada em tempos de acusação tresloucada com completo descompromisso com a Constituição Federal? Não, obrigado. Ir à grande mídia dizer que a Lava Jato “tem seus méritos”, colocando todos os profissionais que estão dando murro em ponta de faca frente a uma super estrutura acusatória em posição desconfortável? Não, obrigado.

Retidão é a grande qualidade que se espera de um Advogado Criminalista em tempos de exceção.

É preciso girar esse olho direto para a classe que está passando fome. Esse, sim, é o Advogado de verdade. Precarizado, matando cachorro a grito, muito, mas muito longe de qualquer sala de estar chiquetosa onde um burguês alienado exibe seus dotes. A advogada frente à reforma trabalhista, temendo o fim de seus casos e, consequentemente, do valor de sobrevivência que como profissional liberal recebe. Os advogados e advogadas negros e negras que contaram sempre com ínfimas ações afirmativas pela classe, se é que contaram. Me enoja saber que quando esse é o cenário da advocacia atual, a preocupação de alguns profissionais seja ostentar sua riqueza. O pior é que, como estamos no Brasil, esse tipo de atitude é tida como objeto de solidariedade. Que risível, que revoltante.

A Ordem dos Advogados do Brasil, como sempre, contribui para o desserviço. Gostaria de entender como uma entidade que teria uma função importante na sociedade consegue se tornar uma coisa tão asquerosa como essa. Ficará para sempre marcada por seu apoio ao golpe, ao governo Temer e a outras sandices que estão a galáxias de distância dos efetivos anseios de uma classe abandonada e precarizada. Não me surpreende que ela, dentre tantas outras entidades de classe que só protegem a si mesmas e seus hábitos detestáveis de ostentação, entre na onda de tratar a revista como única culpada, isentando politicamente profissionais responsáveis pela existência dessa matéria.

Vale dizer, pois quem critica algo nesse país é constantemente deslegitimado como “raivoso”, “louco” e outros adjetivos que só existem para confirmar o ditado “o poste mijando no cachorro”, que critico classe como um todo. Óbvio que existem advogados e advogadas combativos nesse momento tão doloroso ao país. Torço para que continuem seu bom trabalho e se engajem ainda mais na disputa política do campo de batalha jurídico.

Torcer para maior consciência crítica da classe é estratégia de sobrevivência ante o desânimo que toma o peito ao ver a advocacia descendo a ladeira.

Justiça Eleitoral é um fracasso e não consegue fiscalizar nem as contas dos partidos

O Brasil tem dois grandes problemas a resolver nas próximas eleições. O primeiro deles está no Supremo, que terá de decidir se é constitucional a nova legislação permitindo que um candidato financie até 100% dos custos da própria campanha, fato que legaliza a figura do abuso do poder econômico. E o segundo problema é a deficiência na fiscalização dos gastos em campanhas eleitorais.

Na verdade, um dos maiores desafios do combate à corrupção política é a quantidade de candidatos frente ao precário sistema de fiscalização das finanças eleitorais. Os órgãos de controle, como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Receita Federal, terão a difícil tarefa de fiscalizar mais de 20 mil candidatos, média de cada eleição, que devem envolver milhões de pessoas na captação de recursos.

LAVA JATO

O emaranhado de estratégias e ações para desviar dinheiro dos cofres públicos, injetar nas próprias campanhas e repassar para demais associados no crime, surpreende até mesmo os especialistas.

No âmbito da Lava-Jato foram denunciadas 282 pessoas sem foro privilegiado, entre elas, candidatos a cargos públicos, políticos que já cumpriram os mandatos e empresários. Além disso, 92 pessoas com foro em decorrência do cargo, como ministros, deputados e senadores foram denunciados por envolvimento no esquema.

CAIXA DOIS

O cientista político Lucas de Aragão, mestre em Campanhas Eleitorais e Governo pela Fordham University, de Nova York (EUA), afirma que, para evitar ilegalidades nas campanhas, é necessário investir em fiscalização.

“Os crimes se reinventam de acordo com as normas. Restringir as doações das empresas é importante por conta do momento político que o Brasil vive. Mas quando se trata de dinheiro, eleição e política, sempre vai ter uma porta para fazer caixa 2. Os candidatos podem usar essa possibilidade do autofinanciamento para receber dinheiro ilegal e injetar em suas campanhas, com o disfarce da legalidade. O problema não é o sistema político, mas, sim, a fiscalização”, afirma.

 

 

Fonte: Por Brenno Tardelli, no Justificando./Correio Braziliense/Municipios Baianos

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