07/12/2017

Crise? EUA reconhecem Jerusalém como capital israelense

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira (06/12) que decidiu transferir a embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, um passo arriscado que pode pôr em risco futura solução de paz no Oriente Médio, segundo alertou a comunidade internacional. A decisão tem um peso importante: com a mudança de endereço, Washington passa a reconhecer Jerusalém – cidade marcada por uma frágil coexistência entre israelenses e palestinos – como a capital de Israel, contrariando o posicionamento de seus aliados árabes e ocidentais.

Trump anunciou a decisão em um aguardado discurso na Casa Branca. "Eu determinei que é hora de reconhecer oficialmente Jerusalém como capital de Israel", declarou, acrescentando que a medida apenas reconhece o "óbvio": que a cidade disputada é sede do governo israelense. "Não é nada mais que o reconhecimento da realidade." Apesar dos alertas de líderes estrangeiros, Trump destacou que os EUA seguem profundamente comprometidos em ajudar a facilitar um acordo de paz que seja satisfatório tanto para israelenses como para palestinos. "Farei tudo em meu poder para ajudar a firmar tal acordo", disse. Até o momento, Israel foi o único governo a manifestar apoio à decisão de Trump. "Parabenizo o presidente por seu anúncio. Não há presente mais bonito, nem adequado, quando nos aproximamos dos 70 anos da independência do Estado de Israel", disse o presidente do país, Reuven Rivlin.

Nesta quarta-feira, Trump ordenou que o Departamento de Estado americano dê início ao longo processo de transferência, fazendo com que os EUA passem a ser o único país em todo o mundo a assumir Jerusalém como sede do governo israelense. Estima-se que pelo grande número de funcionários da embaixada – cerca de mil – e das dificuldades de se encontrar um lugar para a construção de uma nova sede, levando-se em conta as preocupações com segurança e logística, o processo de mudança deverá levar de três a quatro anos. Uma lei americana de 1995 já estabelece a transferência da embaixada americana para Jerusalém, mas a medida nunca foi aplicada. Os presidentes Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama e o próprio Trump adiaram sua implementação a cada seis meses, alegando "interesses nacionais".

Mais cedo, antes do discurso, o líder afirmara que a decisão de reconhecer Jerusalém como capital israelense "deveria ter sido tomada há muito tempo". "Muitos presidentes disseram que queriam fazer algo, mas não o fizeram, talvez por falta de coragem ou porque mudaram de opinião", declarou o presidente a repórteres durante uma reunião com seu gabinete.

Enquanto isso, líderes árabes e muçulmanos debatiam a possível escalada de violência na região. Em Gaza, centenas de manifestantes palestinos queimaram bandeiras dos EUA e de Israel e ergueram cartazes proclamando Jerusalém sua "capital eterna", expressão comumente usada por israelenses.

Cidade disputada

Jerusalém é tida como a capital do Estado judeu desde a antiguidade e é atualmente a sede do governo israelense, apesar de nunca ter sido reconhecida internacionalmente como capital. Israel considera a Cidade Sagrada a sua capital "eterna e indivisível", enquanto os palestinos defendem que a porção leste de Jerusalém deve ser a capital de seu almejado Estado, sendo este um dos maiores desentendimentos entre as duas partes. As Nações Unidas estabelecem que o status de Jerusalém deve ser definido em negociações entre israelenses e palestinos, razão pela qual os países com representação diplomática em Israel têm suas embaixadas em Tel Aviv e imediações.

A transferência da embaixada americana para a cidade disputada foi antecipada por Trump durante a campanha eleitoral e, nesta terça-feira, ele confirmou sua intenção ao presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, e ao rei da Jordânia, Abdullah 2º, por telefone. A notícia logo provocou reações consternadas na comunidade internacional. Líderes de diversos países, bem como a União Europeia (UE) e a Liga Árabe, expressaram intensa preocupação de que a medida possa prejudicar a estabilidade da região. Muitos acreditam que o ato pode minar por completo o papel dos EUA como mediador da paz no Oriente Médio, além de insuflar as atuais crises em países como a Síria, Iraque, Iêmen e Catar.

Em telefonema com Trump, Abbas alertou o presidente americano para "consequências perigosas" de tal decisão para os esforços de paz no Oriente Médio, bem como para a segurança e estabilidade da região, segundo informou um porta-voz da ANP. A Liga Árabe alertou que o reconhecimento de Jerusalém como capital é visto como uma "agressão clara à nação árabe, os direitos dos palestinos e de todos os muçulmanos e cristãos", e pode causar uma nova escalada de violência na região. A União Europeia, por sua vez, destacou que "qualquer ação que possa prejudicar" os esforços para a criação de dois Estados para israelenses e palestinos "deve ser absolutamente evitada". "Devemos encontrar um caminho por meio do diálogo para resolver a questão de Jerusalém como futura capital dos dois Estados, de forma que se possa fazer cumprir as aspirações de ambas as partes", disse a chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini.

Após o primeiro conflito árabe-israelense (1947-49), a Cisjordânia e Jerusalém Oriental ficaram sob o domínio da Jordânia, e a parte ocidental da cidade ficou sob o domínio de Israel. Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, os israelenses reconquistaram Jerusalém Oriental – que, na época, era praticamente toda habitada por palestinos –, uniram-na à parte ocidental da cidade, ocupada por judeus, em 1980 e declararam Jerusalém a capital indivisível de Israel.

Trump: “Estamos aceitando o óbvio. Jerusalém é a sede do Governo de Israel”

O vento da ira volta a ameaçar o Oriente Médio. Em um gesto tão simbólico como demolidor, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reconheceu nesta quarta-feira a milenar Jerusalém como capital de Israel e ordenou um plano para transferir para lá a embaixada do país. Embora a mudança da sede diplomática vá levar anos e talvez nunca se materialize, a proclamação rompe com décadas de política externa norte-americana e abre um ciclo sombrio para as agonizantes negociações de paz entre israelenses e palestinos. “Estamos aceitando o óbvio. Israel é uma nação soberana e Jerusalém é a sede de seu Governo, Parlamento e Tribunal Supremo”, disse Trump.

O presidente voltou a agir de costas para o mundo. Com exceção da Rússia, que já aceitou no início do ano a capitalidade de Jerusalém, Europa, China, as grandes potências muçulmanas e até o Papa alertaram para o vulcão que está a ponto de entrar em erupção. “Faço um forte chamado para que todos respeitem o status quo da cidade, em conformidade com as resoluções pertinentes da ONU”, afirmou Francisco. “Isto é um disparate de dimensões históricas que ameaça toda a região”, sentenciou o ex-diretor da CIA John Brennan (2013-2017).

Ante a tempestade que se avizinha, Trump se refugiou no argumento de que se trata do “reconhecimento de uma realidade histórica”, a aceitação de um fato consolidado tanto pelo passado como pelo presente. “Jerusalém é o coração de uma das mais bem-sucedidas democracias do mundo, um lugar onde judeus, muçulmanos e cristãos podem viver conforme suas crenças. Em 1995 o Congresso aprovou por esmagadora maioria reposicionar a embaixada e desde então todos os presidentes adiaram a decisão por medo de afetar as negociações de paz, mas décadas depois não estamos mais perto do acordo. Este é um passo longamente adiado que permitirá avançar no processo de paz e trabalhar na consecução de um acordo”, disse o presidente. “Durante anos mantivemos a ambiguidade para facilitar o processo, mas está claro que a localização física da embaixada não é matéria de um acordo, e de todo modo nada muda em nossa política na região”, especificou um porta-voz da Casa Branca.

Poucos especialistas acreditam que o passo dado nesta quarta-feira seja tão asséptico. O reconhecimento atinge a medula das relações palestino-israelenses. Jerusalém não é só uma cidade ou uma capital. É um símbolo. Um lugar esgarçado pela história, esquartejado por séculos de lutas e ocupações até formar um quebra-cabeças que ninguém conseguiu resolver. Reivindicada por israelenses e palestinos, a comunidade internacional havia contornado o dilema edificando suas embaixadas em Tel Aviv e dando a esta terra milenar um estatuto mais próprio do limbo que de uma nação desenvolvida.

A decisão de Trump acaba com esta distância e mexe em carne viva. De um golpe impõe um novo equilíbrio de forças. O tabuleiro pró-israelenses ganha fichas e os palestinos retrocedem, abrindo outra vez a ferida do conflito.

Para amortecer as reações adversas, Trump insistiu em que os EUA continuam apoiando um acordo de paz e que a decisão não afeta o estatuto de soberania de Jerusalém nem a demarcação de fronteiras. “Continuamos comprometidos com um pacto aceitável para ambos. É tempo de diálogo, não de violência”, clamou o presidente.

Nessa tentativa de reduzir a tensão, os porta-vozes da Casa Branca enfatizaram que a realocação da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém vai levar anos. Alegaram para isso todo tipo de motivos de segurança, burocráticos e de construção, e o presidente até voltou a assinar o adiamento de seis meses que o Congresso exige para manter a legação atual. Tudo isso não conseguiu ocultar que nesta jogada houve um ganhador: Israel e seus falcões na Casa Branca. Entre eles, o próprio presidente.

A declaração de Jerusalém é uma promessa eleitoral do republicano. Não pôde levá-la adiante em maio, quando expirava o prazo da prorrogação anterior, mas desta vez não deixou passar a ocasião. Embora a mudança vá demorar e, talvez, como tantas coisas no Oriente Médio, nunca chegue a se tornar realidade, aproveitou para mostrar-se diante de seus financiadores eleitorais e seus eleitores, sobretudo judeus e evangélicos, como o homem que cumpre sua palavra. Para os seus, reafirmou a imagem de político sem travas e quase marginal, capaz de quebrar tabus do passado e construir uma estrutura de relações internacionais fiel exclusivamente ao que ele considera interesses dos Estados Unidos. As consequências, como já ocorreu com a saída do pacto contra as mudanças climáticas, não importam muito. “Podem tentar limitar os danos o quanto quiserem, mas não poderão porque Jerusalém é um ponto quente demais”, declarou o antigo enviado especial às negociações Martin S. Indyk.

Para os palestinos a mensagem é devastadora. Com um processo de paz empobrecido, Washington se fez de surda às grandes potências europeias e muçulmanas e indicou uma vez mais seu distanciamento dos compromissos históricos. A interpretação é clara. Neste novo período tudo é mutável e nem sequer a solução dos dois Estados é certa. “Continuamos comprometidos com a solução dos dois Estados se ambas as partes a aceitam”, afirmou o presidente, repetindo o que já disse na visita do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em fevereiro a Washington

Mas colocar os palestinos de cara contra a parede, embora só seja no terreno simbólico, não deixa de ser uma aposta arriscada. Uma estratégia que no Oriente Médio, onde os problemas se medem por séculos e não por anos, pode falhar. Ou o que é pior, reativar a espiral de violência. A chama eterna.

Líderes condenam decisão de Trump de reconhecer Jerusalém

Líderes de todo o mundo reagiram com críticas, nesta quarta-feira (06/12), à decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de transferir a embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, reconhecendo, assim, a cidade disputada como capital do governo israelense.

O anúncio, realizado em aguardado discurso na Casa Branca, é contrário ao posicionamento dos aliados árabes e ocidentais de Washington, que nos últimos dias já vinham proferindo alertas a Trump de que a medida colocaria em risco uma futura solução de paz no Oriente Médio.

Israel foi o único governo a manifestar apoio à medida, descrevendo-a como "justa e corajosa". "A decisão do presidente é um passo importante para a paz, porque não há paz que não inclua Jerusalém como capital do Estado de Israel", disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Confira as reações de outros líderes, grupos e entidades internacionais:

Autoridade Nacional Palestina

O presidente da ANP, Mahmoud Abbas, afirmou que, ao reconhecer a cidade disputada como capital israelense, Trump abdicou de seu papel como mediador da paz no Oriente Médio. "Jerusalém será a capital eterna do Estado da Palestina", disse o líder em discurso na televisão.

Abbas adiantou que a liderança palestina se reunirá nos próximos dias e consultará os líderes árabes para formular uma resposta adequada à decisão do presidente americano.

Hamas

"Esta decisão vai abrir os portões do inferno para os interesses americanos na região", declarou Ismail Radwan, do movimento palestino Hamas. O grupo, que controla a Faixa de Gaza, havia dito antes do anúncio que um reconhecimento de Jerusalém como capital ameaçaria iniciar uma nova Intifada (levante popular dos palestinos da Cisjordânia contra Israel).

Nações Unidas

O secretário-geral da ONU, António Guterres, também condenou o reconhecimento, alertando que o status de Jerusalém deve ser resolvido por meio de negociações diretas entre israelenses e palestinos.

"Desde o primeiro dia como secretário-geral das Nações Unidas, eu tenho consistentemente contestado qualquer medida unilateral que possa colocar em perigo a perspectiva de paz para o conflito israelo-palestino", disse Guterres.

União Europeia

O bloco econômico europeu reagiu ao anúncio de Trump expressando "preocupações sérias". "As aspirações de ambas as partes [no conflito israelo-palestino] devem ser cumpridas e, por meio de negociações, deve ser encontrada uma maneira de resolver o status de Jerusalém como a futura capital dos dois Estados", declarou a chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini.

França

O presidente francês, Emmanuel Macron, descreveu o passo de Washington como uma "decisão lamentável que a França não aprova". A medida, segundo o líder, "viola as leis internacionais e as resoluções do Conselho de Segurança da ONU".

Macron acrescentou que o status de Jerusalém "terá que ser determinado por israelenses e palestinos em negociações sob a tutela das Nações Unidas".

Reino Unido

"Não concordamos com a decisão dos EUA de transferir sua embaixada para Jerusalém e de reconhecer a cidade como capital israelense. Acreditamos que [a medida] não ajudará em termos de perspectivas de paz na região", afirmou a primeira-ministra britânica, Theresa May, em comunicado.

Jordânia

O governo em Amã seguiu o mesmo tom, afirmando que a "decisão do presidente americano de reconhecer Jerusalém como capital de Israel e transferir a embaixada para essa cidade constitui uma violação das decisões do direito internacional e da Carta das Nações Unidas".

Egito

"Decisões unilaterais como essa violam as resoluções de legitimidade internacional e não mudarãao o status legal da cidade de Jerusalém", disse o Ministério do Exterior egípcio. "O Egito está extremamente preocupado com os possíveis efeitos dessa decisão para a estabilidade da região."

Nesta quarta-feira, o presidente do país, Abdel Fattah al-Sisi, recebeu uma ligação do líder palestino, Mahmoud Abbas, para discutir as repercussões da medida americana. Sisi expressou a rejeição do Egito à decisão e a "qualquer implicação resultante dela", diz uma nota da presidência.

Líbano

Em comunicado, o presidente libanês, Michel Aoun, também disse que a atitude de Trump é perigosa e ameaça a credibilidade dos Estados Unidos como intermediário no processo de paz na região. A decisão coloca em risco a estabilidade regional e, talvez, a estabilidade mundial, acrescentou.

Catar

Para o ministro do Exterior do Catar, Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel é uma "escalada perigosa", que representa a sentença de morte para uma solução de paz. Segundo ele, o emir Tamim bin Hamad al-Thani alertara Trump sobre as implicações sérias de tal decisão, em conversa anterior por telefone.

 

Fonte: Deutsche Welle/El País/Municipios Baianos

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