07/12/2017

De olho no mercado, Bolsonaro se veste de liberal

 

Jair Bolsonaro, ainda sem partido para se candidatar à Presidência, anda paquerando o mercado. Sua viagem aos Estados Unidos em outubro foi um balão de ensaio para testar a acolhida de suas novas e desconhecidas teses econômicas. Durante a turnê, Bolsonaro criticou a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e elogiou o modelo americano que não contempla benefícios como férias ou licença maternidade. Defendeu também a extinção e privatização de estatais, inclusive da Petrobras. Já no Brasil, e amparado por assessores econômicos, o discurso se ampliou para incluir a independência do Banco Central, abrir o Brasil ao comércio internacional, mas com restrições à China, e a redução de impostos e da intervenção estatal.

Até para seus assessores, Bolsonaro estava demorando em mergulhar na pauta econômica. Hoje, aparentemente decidido a abraçar o liberalismo, suas propostas causaram estranheza pelo contraste com seu histórico em mais de duas décadas de atividade política. O Bolsonaro de hoje anuncia um "namoro hétero" com o economista Paulo Guedes, considerado um dos mais liberais economistas brasileiros, e diz que poderia ser seu ministro da Fazenda. Mas o Bolsonaro do ontem foi contra medidas de austeridade fiscal e restrição de benefícios trabalhistas durante os mandatos de Dilma Rousseff. Também chegou a defender o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso por privatizar a Vale do Rio Doce e “entregar nossas reservas petrolíferas para o capital externo”.

Um levantamento da Folha de S. Paulo revelou que dos 166 projetos de lei que o deputado propôs na Câmara dos Deputados entre 1991 e 2017, apenas 15 tratavam sobre economia, demonstrando uma visão mais intervencionista do que liberal. Segundo a pesquisa, Bolsonaro, entre 1999 e 2010, concordou com o PT em votações de projetos sobre concessões de benefícios para o setor privado, como incentivos tributários, parcelamento de créditos e subvenções. Na década de 90, como divulgou O Globo, Bolsonaro votou e militou contra o Plano Real, contra a quebra dos monopólios do petróleo e das telecomunicações e contra a reforma da Previdência, que buscava dar racionalidade às contas públicas.

A virada liberal do deputado busca apoio no mercado, nos investidores e nos agentes econômicos que veem mais do que incertezas num candidato de posições radicais, mas que avança nas pesquisas para 2018 em segundo posição –com 17% das intenções de voto– na última pesquisa Datafolha. Poderia se pensar que parte dos seus eleitores, a maioria assalariada, entre os quais há também muitos militares e 60% de jovens menores de 34 anos, não vissem com bons olhos a nova face liberal do candidato. Mas não. “Eles são eleitores muito convictos. Mais ou menos como os eleitores de Lula no Nordeste. Eles adotaram o candidato como se fosse uma religião”, avalia o diretor do Datafolha, Mauro Paulino.

“Nós somos conservadores nos costumes e liberais na economia”, explica o oficial reformado Pedro Werneck, de 70 anos, que sustenta ser um equívoco achar que há um pensamento nacionalista homogêneo entre os militares. “Tem um grupo que acha que o Governo deve ser mais intervencionista, outro grupo menor acredita que o Governo tem que mandar na economia e, depois, estamos os que somos a favor de medidas mais liberais, como a privatização das empresas estatais”, diz. Ele fala no plural, em referência ao grupo de cerca de 300 membros que representa, o Fênix Brasil. “Nós não somos contra a privatização da Petrobras, se bem a gente não vai lutar por ela. Acredito que você não precisa ter uma estatal para extrair ou distribuir o petróleo, sempre que o Governo controle a fonte”.

O militar Werneck, crítico com o Governo Temer pelos casos de corrupção, mas defensor das suas reformas, é também administrador de empresas agropecuárias. Ele, assim como seu candidato, cobra maior segurança no campo. “Pode ter certeza de que a penetração de Bolsonaro no mundo rural é até maior que nas zonas urbanas, mas isso não sai nas pesquisas”, alerta. Werneck também é favorável à reforma trabalhista. “Só não pode acabar com aqueles pontos que estão na Constituição, como o décimo terceiro, as férias, o fundo de garantia, a licença maternidade ou auxilio desemprego. Mas não existe dúvida de que nós temos que fazer uma reformulação na CLT, é da década de 1940”, argumenta.

Numa reunião recente com deputados do setor agropecuário, Bolsonaro, no entanto, desapontou. Após prometer que distribuiria fuzis para os fazendeiros se protegerem dos "invasores" em referência ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), alguns deputados qualificaram o pré-candidato como “genérico” e “inconsistente", conforme divulgou o Estadão. “Essa campanha está nascendo como uma guerra de marketing. Estão mais preocupados em dar declarações que comovam a opinião pública do que fazer análises profundas”, disse o deputado Domingos Sávio (PSDB-MG). “Às vezes somos estigmatizados. O setor agropecuário não pode e não tem o egocentrismo de pensar o Brasil só sob o olhar do campo e da produção. Olhamos questões como saúde, educação e segurança.”

"Ele é o único que não faria mais do mesmo”

Da periferia do Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, Gléiser de Souza, eletricista desempregado de 26 anos, concorda em flexibilizar o mercado de trabalho. “Sou contra o fim da CLT, porém sou a favor de que se enxugue. E não só a CLT, também os impostos associados para contratar um funcionário que acaba prejudicando a contratação”, defende, em uma aproximação do discurso do pré-candidato que costuma pregar: “Hoje em dia é muito difícil ser patrão no nosso país”. Bolsonaro já se gabou de ser o único deputado a votar contra a ampliação de direitos trabalhistas das empregadas domésticas, profissão da mãe de Gléiser. “Não é porque eu sou eleitor dele que eu vou concordar com tudo. Mas não cogito votar em nenhum outro. Ele é o único que não faria mais do mesmo”, diz.

Souza, jovem negro criado em Nilópolis apenas pela mãe, também é contra programas de distribuição de renda. “O Bolsa Família no Brasil foi usado pelos 13 anos do PT como barganha para os mais pobres. Não foi usado como um projeto social. Foi construído como uma boa ideia mas foi deturpado na implementação, tem muita fraude e não é fiscalizado”, critica. O que Bolsonaro deve fazer com o mais polêmico programa social do Brasil ainda é incerto. Mas Abraham Weintraub, um dos assesores que orienta o pré-candidato em matéria econômica defende o benefício: "Não vamos extinguir nada. Bolsa Família é um programa liberal baseado em propostas de Milton Freidman. Estamos 100% alinhados com o Bolsa Família. Porém, o maior programa social que existe, reconhecido em qualquer país do mundo, é crescer e gerar empregos".

Para Danilo Cersosimo, diretor de Public Affairs do instituto de pesquisa Ipsos, não surpreende que os eleitores de Bolsonaro abracem essa pauta liberal. “Quando olhamos para dados de aprovação, as pessoas que aprovam Bolsonaro não o aprovam mais ou menos, o apoio é total. Ou seja, qualquer coisa que ele disser e pregar vai contar com apoio. Ele já atingiu um status, e as pessoas querem o pacote Bolsonaro, não o que ele pensa sobre economia. O mesmo se aplicaria para Lula. São figuras que contam com um apoio quase incondicional”, afirma Cersosimo.

Em Goiânia, Thiago Borges, engenheiro de sistemas de 36 anos, acredita que as intenções de Bolsonaro são muito melhores do que as de qualquer outro candidato. Ele é favor da reforma da Previdência, mas não nos termos de Temer, cuja proposta teria como objetivo "saquear" e não atualizar o sistema. "Se a expectativa de vida do brasileiro aumentou é natural que se mexa na Previdência. Mas fixar em 65 anos? É um crime. Tem lugar no Brasil onde a expectativa de vida é de menos de 60 para os homens. A vida em Roraima é muito diferente de Rio Grande do Sul", adverte. "E aí vem outra proposta em que Bolsonaro acerta. Ele é a favor de cada Estado poder ter suas leis, assim como acontece nos EUA. Um país continental como o Brasil não pode ter só uma legislação".

Crise e corrupção, o diagnóstico da crise

Para simpatizantes de Bolsonaro, o diagnóstico da situação do país passa pelo binômio corrupção-segurança. No caso dos eleitores do deputado, as propostas de privatização, por exemplo, são vistas como uma vacina não tanto contra o a crise econômica, como contra os políticos corruptos. “Não seria contra a privatização da Petrobras. Sei que por um lado a base da pirâmide iria sofrer, pois os trabalhadores perderiam benefícios, mas não existe uma forma de fazer as coisas melhorarem sem que alguém sofra”, avalia um soldado da Polícia Militar do Rio sob anonimato. “Hoje a Petrobras, nas mãos de corruptos, tornou-se cabide de emprego dos poderosos, contratos firmados às escuras em troca de apoio político. É uma sangria infinita de recursos”. Este entendimento pode ser percebido nas pesquisas. No Brasil, segundo Datafolha, o principal problema para todos os grupos de eleitores é a saúde (24%). Em segundo lugar empatam desemprego e corrupção com 18%, mas entre os anti-Lula, que votam preponderantemente em Bolsonaro, a corrupção preocupa ao 20% dos eleitores, dois pontos acima da média. Vê-se essa diferença também no quesito segurança: 10% do total dos eleitores mostra preocupação por esse assunto, mas no grupo anti-Lula essa preocupação atinge 13% dos entrevistados. “O eleitor está preocupado em ver quem vai resolver ou atrapalhar menos na resolução dos problemas. Os anti-Lula, como estão mais preocupados com corrupção e segurança, acabam pendendo mais ao Bolsonaro”, avalia Paulino que acredita que a candidatura do ex-militar perderá fôlego. “Nesse momento da corrida, vale mais a marca que o candidato conseguiu estabelecer do que as propostas. Será depois, durante os debates e o horário eleitoral, que serão expostas as contradições”.

Doria: a ruína da ambição sem caráter

Alguém pode se surpreender com o fato de o Datafolha revelar que João Doria Júnior, depois de 11 meses no cargo que usa como plataforma de suas ambições, tenha saído da condição de “grande novidade” da política para se tornar um governante rejeitado pelo povão e sustentado apenas pela elite rica de São Paulo? Ainda sustentado, diga-se, porque à medida em que se evidenciar que Doria é fósforo queimado, ela o abandonará por algum brinquedo novo, por um novo boneco que com que possa engambelar a classe média  e manter o poder. Fósforo queimado, sim, porque os 39% de ruim e péssimo que a pesquisa publicada hoje pela Folha lhe atribui se iguala, dentro da margem de erro, à avaliação que tiveram Celso Pitta (42%), Maluf (41%) e Jânio Quadros (40%).  E iguala, pelo avesso,  à que teve Haddad, com seu erro de crer que a São Paulo “cult” é maior que a São Paulo do povão, com o qual não soube dialogar e se fazer entendido.

O fracasso rotundo de João Doria é um destes momentos em que, nos tempos duros que vivemos, realimenta a convicção de que a seriedade política tem seu valor e que os aventureiros estão fadados a desmascararem-se em sua farsa. Essa é a diferença que faz com que Dória, em 11 meses de comando da maior cidade do país, com farta promoção e publicidade, atinja um nível de rejeição que exigiu anos e anos de acusações, perseguições e morices  a construírem para Lula e que vai se desfazendo, porque o Lula real sobrevive, enquanto o Doria “gestor” se desfaz. A verdade, dizia sempre Leonel Brizola, é a realidade. E a realidade teima em surgir, teimosa,  mesmo quando sobre ela se derrama a crosta da propaganda e da manipulação. Doria é, de fato, o “anti-Lula” que apregoaram ser. Não porque pudesse vencê-lo eleitoralmente, o que nunca pôde,  mas porque é fugaz como tudo o que não brota da vida real. Ah, e na fria realidade da política, que descarta o inservível, o ex-candidato a presidente caminha para ser, também, o ex-candidato a Governador.

Ou para, aventureiro que é, empurrar todas fichas à mesa e levar junto Geraldo Alckmin, que chora lágrimas de arrependimento de ter criado seu “gremlin”.

Reprovação de Doria triplica e iguala a de Haddad, aponta Datafolha

A reprovação do prefeito de São Paulo João Doria (PSDB) chegou a 39%, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira, 5. O número negativo é três vezes maior que o registrado em fevereiro, quando apenas 10% dos paulistanos avaliavam a gestão tucana como ruim ou péssima. Com 11 meses de Prefeitura, Doria alcançou o mesmo nível de reprovação do primeiro ano da gestão anterior, do ex-prefeito Fernando Haddad (PT), que também era de 39%. A pesquisa apontou, ainda, que 70% dos moradores consideram que o prefeito fez menos “do que se esperava”, número que era de 64% em outubro. Outros 17% consideram que ele fez “o que se esperava”, enquanto 10% declararam que Doria atuou acima das expectativas. A pesquisa ouviu 1.085 moradores e tem margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos. Nas gestões anteriores, o primeiro ano de mandato de Gilberto Kassab (hoje no PSD) teve reprovação de 27%, enquanto o número foi de 23% na gestão José Serra (PSDB), de 34% na de Marta Suplicy (hoje no PMDB), de 42% na de Celso Pitta (PP) e de 41% na de Paulo Maluf (PP).

Perfil

De acordo com o Datafolha, a reprovação de Doria é maior entre a população mais pobre (44%), feminina (44%), formada por pessoas entre 35 e 44 anos (44%) e com ensino médio completo (41%). Já a aprovação ao prefeito é maior entre os moradores de alta renda (45%), homens (32%), jovens entre 16 e 24% (32%) e com formação no ensino superior (33%).

  • Realizada entre os dias 28 e 30 de novembro, a pesquisa apontou ainda que:

29% da população consideram a gestão de Doria ótima ou boa

31% dos paulistanos a avaliam como regular

1% não soube responder.

Nos levantamentos anteriores, a reprovação do tucano começou em 10% (em fevereiro), dobrou para 20% (abril), aumentou para 22% (junho) e 26% (outubro) e, por fim, chegou a 39% no fim de novembro.

Alckmin patina e o centro está se guardando para quando o carnaval chegar

Ao mesmo tempo em que viabiliza sua candidatura à Presidência da República, Geraldo Alckmin patina nas pesquisas e atrai pressões e ataques especulativos de dentro e de fora do PSDB e até mesmo de adversários. Isso significa fraqueza, mas também pode significar força. Se Alckmin não empolga, está em quarto lugar e não consegue criar a expectativa de vitória, por que ele incomoda tanto, preocupa tanto, mobiliza tanto os adversários? Porque, em uma política polarizada como continua sendo a brasileira, um candidato do PSDB, qualquer que seja, ainda é um fator relevante na eleição. Especialmente se o PT é quem lidera.

BOLSONARO

Ao dizer que os antilulistas estão migrando para Jair Bolsonaro, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, não faz uma mera constatação e sim exercita uma estratégia: insuflar Bolsonaro e minimizar Alckmin. Apesar dos pesares, para Lula é melhor Bolsonaro do que Alckmin no segundo turno. Bolsonaro se consolidou e não faltam relatos de como é recebido em festa pelo País afora e estimula anônimos a lançarem camisetas para ele no Aeroporto de Brasília, outdoors em Criciúma (SC) e adesivos de carro em Natal, para ficar em poucos exemplos. Mas Bolsonaro não tem a estrutura partidária, as alianças, o tempo de TV, os recursos e a experiência de Alckmin. E, ao contrário de quem é governador de São Paulo, também não tem muito o que mostrar em uma campanha. Logo, o tucano Alckmin é “mais perigoso” para um candidato petista do que um deputado que vive há 25 anos da política, mas se diz antipolítico. Por isso, os petistas vão martelar o oposto: que Bolsonaro é o anti-Lula e Alckmin não está com nada. Para bom entendedor, basta: eles temem Alckmin.

NADA FÁCIL

A vida do tucano, porém, não está nada fácil e a cobrança sistemática é de que Alckmin tem prazo: ou encorpa nas pesquisas até fevereiro, ou vai enfrentar competição interna. Ali ao lado, na espreita, estarão João Doria e Luciano Huck. Eles estão praticamente fora do páreo, mas “praticamente” não quer dizer “totalmente”. Hoje, é surpreendente que Alckmin esteja empatado com Ciro Gomes, apesar das gritantes diferenças de condições entre eles, a começar do óbvio: um tem a exibição de governador do principal Estado, o outro está sem mandato. Mas nem os mais críticos a Alckmin creem que isso se manterá assim.

O foco das articulações é aglutinar forças políticas, mas as forças disponíveis estão com o pé atrás. Bolsonaro não agrega, Lula está vendo o PSOL, a Rede e até o PCdoB lançarem candidatos próprios e Alckmin tenta uma articulação malandra: quer que o governo e o PMDB o apoiem, mas sem ele e o PSDB apoiarem o governo e o PMDB. Ou seja: ele quer usufruir das facilidades do governo, mas sem dividir o desgaste de popularidade. A política não costuma funcionar assim. Aliás, nem as relações comerciais e pessoais.

NO TABULEIRO

As mexidas no tabuleiro de 2018, onde já estão colocados Lula (na dependência da Justiça) e Bolsonaro, são o lançamento de Marina Silva em uma cerimônia simplória, o anúncio de que o PCdoB vai de Manuela D’Ávila e a expectativa do PSOL de trocar Luciana Genro por Guilherme Boulos na cabeça de chapa. Henrique Meirelles? Ex-presidente do BC nos oito anos de Lula, ele não tem um só voto no PT. Ministro da Fazenda de Temer, nunca teve uma só palavra de apoio público à sua candidatura. Filiado ao PSD, vê Gilberto Kassab, presidente do partido, se guardando para quando o carnaval chegar. Meirelles diz que o governo terá candidato, mas não será Alckmin. Pode até não ser, mas depende do cenário em fevereiro. Ou melhor: depende da capacidade de Alckmin empolgar e se afirmar como “o cara” para unir o centro contra “a ameaça” Lula versus Bolsonaro.

 

Fonte: El País/Tijolaço/Agencia Estado/Municipios Baianos

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