09/12/2017

Brasil: Educação para manter a desigualdade

 

A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em colégios influenciados por ele. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX. Esta é a nossa realidade. Pipas de várias cores enfeitam o céu. Alunos observam algumas subirem e outras caírem, enquanto tentam compreender como a direção do vento influencia o movimento, além de verificarem na prática conceitos científicos como aerodinâmica, resistência do ar e força da gravidade. Tudo na base da experiência concreta, envolvendo tentativas e erros. Voltando à sala de aula, professor e alunos discutem, organizados em círculo, o que se aprendeu com aquela vivência. A diferença hierárquica entre mestre e estudantes se dilui, e o professor mostra-se mais como um mediador ou um facilitador do processo de aprendizagem.

Pano rápido. Vamos nos deslocar para outra realidade. Alunos uniformizados prestam continência e dirigem-se aos policiais, que também são professores, utilizando os termos “senhor” e “senhora”. Nos corredores da escola, com paredes cinzentas, não se veem bedéis, mas guardas, alguns armados. Todos os meninos usam o mesmo corte de cabelo, todas as meninas têm o cabelo preso. Na sala de aula, o professor fala e os alunos ouvem. Todos os estudantes sentam-se enfileirados e qualquer contato entre eles durante a explanação gera uma advertência. Contabilizadas, as advertências podem provocar a expulsão do aluno.

As primeiras cenas são parte do cotidiano de um grande colégio de elite, recém-chegado à cidade de São Paulo. As seguintes são exemplares da realidade vivida em colégios estaduais administrados pelas polícias militares de cada estado.

As descrições revelam duas tendências – contraditórias – cada vez mais presentes no panorama escolar brasileiro. As escolas particulares mais caras investem em metodologias ativas, considerando os interesses e as individualidades dos alunos, partindo do pressuposto de que eles, alunos, são os protagonistas da aprendizagem. Já escolas públicas de muitos estados brasileiros estão terceirizando sua administração às polícias militares e apostam na disciplina mais rígida e no ensino mais tradicional. Grandes empresários e grupos de investimento estrangeiros compram ou erguem escolas com tecnologia moderna e formação de ponta, onde os alunos aprendem a explorar o mundo por uma interação lúdica. Enquanto isso, o deputado Jair Bolsonaro espalha nas redes sociais vídeos propagandeando as virtudes das escolas administradas pela PM, cujo mantra é lei e ordem. Uma agridoce ironia: o ponto cego dos discursos das escolas de elite é admitir que as metodologias que propõem são em grande medida inspiradas em teorias da educação que tiveram Paulo Freire como um de seus expoentes. Geralmente, esses colégios mencionam programas de formação de universidades norte-americanas, como Harvard e Stanford. O que não dizem é que obras como Pedagogia da Autonomia, um clássico do pensador pernambucano, estão na bibliografia básica das faculdades de educação inspiradoras de seus projetos pedagógicos.

A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em escolas em muito influenciadas por ele, bem como por outros pensadores considerados progressistas no campo da educação, como Jean Piaget ou Maria Montessori. A ironia continua. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX. Ainda que justamente pensando neles Paulo Freire tenha elaborado suas teses, a eles são negadas sua influência e seu prestígio. Mas a diferença talvez não seja tão despropositada ou surpreendente como se pode pensar à primeira vista. Afinal, nas escolas públicas estudam os pobres, que serão no futuro funcionários dos alunos ricos.

E o que se espera do trabalhador pobre, a não ser obediência? Aos ricos, proporciona-se liberdade. Dos ricos, esperam-se criatividade, “empreendedorismo”, autonomia. Ao pobre, destinamos o adestramento, a normalização foucaultiana de condutas, a padronização de comportamentos. Acima de tudo, não se deve incentivar o questionamento, tampouco uma perspectiva crítica dos filhos das classes menos favorecidas. Isso deve ser reservado àqueles capazes de pagar mensalidades astronômicas, que compram um desenvolvimento cognitivo “diferenciado” para seus filhos. Assim a educação brasileira cumpre seu papel: o de continuar sendo um dos instrumentos mais terríveis de manutenção da desigualdade social.

Educação para reduzir as desigualdades sociais. Por Priscilla Bonini Ribeiro

Durante os anos de transição da ditadura militar para o regime democrático, evidenciou-se o papel da Educação como ferramenta de transformação de uma sociedade marcada por profundas desigualdades sociais, uma realidade desconhecida por muitos por ter sido escamoteada anos a fio. Estava claro que cabia a nós, cidadãos brasileiros, refletir e agir para mudar aquele cenário no quadro da nascente democracia. Inicialmente, discutiu-se a importância de acabar com o analfabetismo adulto. Depois, houve a preocupação com a formação dos professores. Mas ações emergenciais adotadas naquele contexto acabaram prejudicando soluções realmente abrangentes para aqueles graves problemas. A pressa foi inimiga da perfeição e hoje é preciso realinhar o ensino brasileiro com metas iguais para condições desiguais.

Os problemas sociais que o Brasil enfrenta se agravam a cada dia. Assim, é provável que, nos próximos anos, deva aumentar ainda mais o número de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Essa população não está apenas concentrada nas periferias; ela se espalha pelas cidades, instalando-se em todos os bairros e saindo de uma cidade para outra, o que dificulta muito sua mensuração. A extensão territorial e a diversidade socioeconômica e cultural do país, por outro lado, dificultam ações locais. Para reduzir a distorção na oferta de ensino de qualidade, essas ações necessitam de incentivos federais ou estaduais. É importante frisar também que a qualidade de ensino no Brasil é avaliada por exames padronizados que não consideram as diferenças culturais e muito menos as multiplicidades que cada região do país apresenta. Quando se propõe aumentar a oferta e ampliar o acesso à escola esbarramos em questões financeiras e administrativas, de difícil solução em muitos municípios de nosso país. O fato é que por mais incentivo que se possa dar ao ensino, como ocorre nas metas do PNE, o respaldo social, administrativo e político não é tão animador assim. Então, a educação tem o seu caminho para a equidade social interrompido não por uma pedra, mas por uma cadeia de fatores cuja superação só é possível com a colaboração social, empresarial e principalmente, dos entes federados – União, Estados e Municípios. Como dissemos, a Educação deve ser entendida como solução, ou pelo menos como atenuante para as desigualdades sociais. Para tanto, é necessário ajustar a Educação brasileira às novas tendências educacionais. Os desafios são muitos e as escolhas das estratégias farão a diferença.

Convivemos com um quadro educacional em que é mais “fácil” entrar na escola do que “sair” dela com a conclusão total do ciclo. Sem falar na qualidade de ensino que também não é igual em todas as escolas do país. Quanto mais avança a educação, mais se escancaram as enormes evidências de desigualdades sociais e regionais. Diante desse quadro, é preciso refletir sobre algumas questões: o quanto a educação crescerá realmente, com este quadro de desigualdade social não considerado no PNE? Como ajustar as metas padronizadas de universalização quando as divergências regionais tornam-se grandes entraves? Qual a perspectiva que a atual geração tem ao ser tratada como igual num mundo de desiguais?

As metas do PNE visam à universalização do ensino, com cada aluno matriculado e cursando os ciclos escolares de acordo com a idade certa. Antigamente, o aluno só entrava na escola aos sete anos; hoje ele frequenta os bancos escolares com meses de idade, primeiro em creches, seguindo para a pré-escolar, ensino fundamental 1 e 2, no conjunto de ciclo denominado ensino básico obrigatório; depois vem o ensino médio e o ensino superior.

Logo na primeira fase as diferenças sociais ficam evidentes. A demanda para creche aumenta a passos largos e a oferta de vagas nas redes municipais não consegue acompanhar essa procura. A fila de espera por uma vaga é grande e injusta, em determinados casos, quando ocorre a judicialização. No ensino fundamental a dificuldade é terminar a primeira e a segunda etapa. São gargalos diferenciados. Entretanto, muitas crianças não conseguem acompanhar o ritmo escolar devido às condições sociais em que vivem. Já está mais do que provado que a alimentação, o ambiente domiciliar, a participação da família, entre outros, são fatores determinantes na vida de um aluno. Quando esses fatores são afetados pela condição social da família o resultado é percebido nas salas de aulas, onde as dificuldades aparecem e persistem. No ensino fundamental 2 o problema fica ainda mais flagrante quando percebemos que, apesar de os alunos terem chegado a essa etapa de ensino, ainda não sabem interpretar textos e apresentam muita dificuldade para entender cálculos. Sair do ensino fundamental com uma formação de qualidade não é, ainda, a realidade da educação brasileira.

Com os problemas surgidos no ensino fundamental, entrar no ensino médio torna-se cada vez mais distante e a evasão escolar cresce nesta passagem de nível escolar. Muitos dos que conseguem entrar no ensino médio carregam a bagagem de despreparo para enfrentar as novas disciplinas. O resultado são alunos que saem do ensino médio sem condições acadêmicas suficientes para encarar o ensino superior. E temos, então, no ensino superior, a mesma situação. Muito embora o número de pessoas que entra em uma faculdade tenha aumentado, incentivados pelos programas nacionais de financiamentos e bolsas de estudos em instituições particulares, a qualidade do aluno é precária e as dificuldades, que se iniciaram lá atrás, no ensino fundamental, ficam gritantes. Os gestores educacionais têm metas a cumprir e as penalidades inerentes do descumprimento das metas não consideram as condições sociais dos alunos. Iguala-se, portanto, os desiguais sem a devida preparação para que esses desiguais possam ter condições de aprimorar o aprendizado, ante as condições sociais em que vivem. Será difícil, então, reverter esse quadro de desigualdades sociais com a obrigatoriedade no cumprimento de metas que visam muito mais a quantidade da oferta do que a qualidade do ensino.

Sem dúvida, a educação escolar é a ferramenta que gera a cidadania e que é capaz de mudar destinos. Sem dúvida, é por meio da educação que uma nação se torna desenvolvida. Mas não se pode exigir que a educação seja a grande responsável por tudo aquilo que as políticas públicas não fizeram: gerar condições de desenvolvimento pessoal pleno e em todos os sentidos. Enfim, é fato que a educação é capaz sim de resolver as desigualdades sociais que existem em nosso país, mas ela não poderá arcar sozinha com o ônus que há anos está batendo à nossa porta. Os educadores, gestores e administradores, principalmente da esfera municipal, são os que mais serão responsabilizados pelo não cumprimento das metas do PNE. Não é uma questão de ser isso justo ou injusto. É preciso reconhecer que, paraque as metas do PNE fossem factíveis, as condições sociais da população precisariam ser muito melhores do que são hoje. Metas iguais para desiguais só irá ampliar o problema e protelar sua solução. Não resolveremos as desigualdades sociais com o atual PNE, que impõe o fardo à Educação. Não resolveremos as desigualdades sociais sem que haja uma política pública apartidária que elabore e implemente um regime de colaboração condizente com as diversas realidades que cada município enfrenta e enfrentará para cumprir metas e mais metas.

Não podemos tratar os desiguais como iguais, como se as diferenças não existissem. Para combater as discrepâncias sociais é preciso uma educação de qualidade com iguais oportunidades para todos, dentro dos parâmetros de universalização do ensino defendido pelo PNE. Mas é necessário mais do que isso. A educação pode sim modificar toda a nossa sociedade e nos dar melhores condições de vida, mas, enfatizo, se em seus parâmetros as desigualdades sociais não forem consideradas, a educação não dará o seu grande salto.

Falácia 99%: Os privilégios da classe média alta. Por Richard V. Reeves

As desigualdades sociais se tornaram um assunto político quente. Com muita frequência, no entanto, os debates que elas alimentam permanecem concentrados no “1%” mais abastado dos norte-americanos, como se os 99% de “baixo” formassem um grupo homogêneo. Não é raro que os detratores mais veementes do pequeno clube empoleirado no alto da pirâmide pertençam às classes sociais que estão mais próximas deles: mais de um terço dos manifestantes que desfilaram no 1º de Maio de 2011 atendendo ao chamado do Occupy Wall Street tinham renda anual superior a US$ 100 mil.2 Uma parte considerável da energia política mobilizada à esquerda por Bernie Sanders e à direita pelo Tea Party provém igualmente da classe média alta. A atenção obsessiva conferida à ostentação dos super-ricos permite às elites que desfrutam uma riqueza um pouco menos colossal se esquivarem da questão de seus próprios privilégios. Contrariamente, muitos norte-americanos têm a impressão de que a classe média alta só se preocupa com seus próprios interesses. Eles não estão errados. Os lares cuja renda anual ultrapassa US$ 112 mil – um quinto da população – constituem um bloco cada vez mais distinto do resto da população e que vive entrincheirado. Não é somente pela conta bancária que eles se isolam da massa, mas também pela educação, a estrutura familiar, a saúde e a expectativa de vida, e até pela implicação na vida social e comunitária. O fosso econômico é apenas o sintoma mais visível do aprofundamento das desigualdades de classe.

À primeira vista, o sucesso eleitoral de Donald Trump no seio das classes populares brancas poderia surpreender, tendo em mente a fortuna do magnata do meio imobiliário. Mas não foi o dinheiro que fez a diferença, foi seu discurso de classe. Trump adulou a cultura operária, e foi por isso que gostaram dele. Seus apoiadores não são hostis aos bilionários – ao contrário, eles os admiram. Seus inimigos são as figuras de destaque de uma elite menos opulenta: jornalistas, acadêmicos, tecnocratas, administradores, burocratas, todos aqueles cuja função, com ou sem razão, evoca uma vida de honras e favores na proximidade de um poder exercido por outros. As queixas feitas contra a minha categoria social podem ser expressas de forma excessiva, não são sem fundamento. Gostamos de celebrar o livre-comércio, o progresso tecnológico e a imigração, sabendo muito bem que somos os maiores beneficiários disso. Equipados com um “capital humano” de primeira classe, podemos com toda a segurança florescer na economia globalizada. Os bairros residenciais onde nos espreguiçamos foram concebidos para proteger nossos bens e dissuadir os menos afortunados de quererem sua parte naquilo. O sistema das ordens profissionais e uma política de migração apoiada na exploração de uma mão de obra pouco qualificada nos colocam ao abrigo da competição feroz que devasta o mercado de trabalho. Estaríamos errados em ficarmos surpresos pelo fato de que as pessoas nos apreciam moderadamente.

Políticos e acadêmicos não escondem sua preocupação diante da falta de mobilidade social nos Estados Unidos. De fato, as chances de uma criança de origem modesta chegar um dia a uma condição mais favorável que a de seus pais é estatisticamente pouco encorajadora. O mais impressionante, no entanto, é que a mobilidade social em nenhum lugar é tão fraca que entre os mais ricos. “Mais que armadilha da pobreza, seria mais certo falar em imobilismo na outra ponta do espectro; uma ‘armadilha da riqueza’, se assim preferir”,3 escreve o economista Gary Solon. O problema não é somente a separação das classes, mas sua perpetuação.

Nós nos preocupamos, assim, em monopolizar os empregos que nossas posições nos permitem identificar e antecipar, sem excesso de escrúpulos quanto aos meios de manter os “bons planos” em família. A cada vez que proporcionamos a um dos nossos um lugar na universidade, um estágio numa empresa ou um cargo qualquer, seja por indicação ou por transmissão hereditária, puxamos um pouco mais o tapete sob os pés daqueles que não têm nosso trânsito social. Como classe, detemos um poder inigualável. De início, porque somos eleitores assíduos, com uma taxa de participação de quase 80%. Em seguida, porque nossa área de influência excede largamente as cabines de votação. Somos poderosos porque temos, segundo a fórmula de Bertrand Russell, o “poder da opinião”. Todas ou quase todas as posições-chave nos meios que orientam a vida pública são ocupadas por um membro da classe média alta – nos meios de comunicação, na universidade, na ciência, na publicidade, nos institutos de pesquisa ou nas artes. Muitas fortalezas onde ela consagra uma boa parte de seu poder a reforçar suas posições e seus atributos.

Em sua obra sobre a história recente da América branca, o cientista político Charles Murray clama por um “grande salto cívico” que incitaria a classe média alta a “olhar mais de perto a maneira como ela vive” e a “refletir sobre os meios de modificá-la”.4 O autor não especifica exatamente o que espera dela, senão que ela deve pregar a virtude e se mostrar mais adulta em seus modos de consumo. “Não estou sugerindo que ela deve sacrificar seus interesses pessoais”, ele se preocupa em explicar. E por que não? Sacrificar nossos interesses – só um pouco, só para ver – não seria necessariamente algo ruim. Não precisa muito esforço para adivinhar por que Murray nos testemunha tanta benevolência. Afinal, somos nós que lemos seus livros e temos vocação para seguir seus conselhos. Se você deseja construir uma força política destinada a mudar o país, não é sábio atacar um eleitorado tão tentacular quanto o da classe média alta. Mas vale escolher como alvo um grupo mais esparso ou que não tenha uma opinião para oferecer. Essa é a razão pela qual os conservadores acusam os pobres e os imigrantes de todos os males, enquanto a esquerda segue repetindo que é o “1%” dos super-ricos que arruína a América. Em todos os casos, a classe média alta mantém a garantia de estar na chuva sem se molhar. No entanto, o medo paralisante de assustar essa força social lhe permite continuar a prosperar, enquanto a maioria enfrenta dificuldades crescentes. Admitir essa realidade é uma primeira condição para criar um clima propício para uma mudança real.

 

 

Fonte: Por José Ruy Lozano, no Le Monde Diplomatique/Direcional nas Escolas/Municipios Baianos

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