10/12/2017

Jerusalém, a cidade com o destino despedaçado

 

Impossível uni-la, impossível dividi-la. Só resta esperar a intervenção do Onipotente, mas ele também pode se colocar de enviesado, por causa do excesso de emoções e interpretações dos humanos. Diz-se que, em junho de 1967, Moshe Dayan, o então ministro da Defesa de Israel, tinha feito aos colegas do governo a pergunta: “Realmente precisamos desse Vaticano?”. Ele se referia à Cidade Velha e ao quilômetro quadrado onde se concentram, em Jerusalém, os lugares santos dos três monoteísmos.

O próprio primeiro-ministro, Levi Eshkol, hesitou antes de dar a ordem de conquistar aquele pedaço de terra. Como acabou, já se sabe: é história. Mas, novamente em 1993, Shimon Peres, na época ministro das Relações Exteriores e arquiteto dos acordos de reconhecimento entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina, questionado pelo enviado da revista L'Espresso sobre o que fazer com o quilômetro quadrado onde se encontram a Esplanada das Mesquitas, também chamada de Monte do Templo, o Muro das Lamentações e a Igreja do Santo Sepulcro, respondeu: “É preciso transferi-lo para a soberania de Deus”. Ele queria dizer: às vezes, a razão deve se render ao símbolo.

É fácil falar, exceto que as pessoas, os quase 900 mil habitantes daquela que Donald Trump reconheceu, contra o mundo inteiro, como a capital do Estado hebraico, vivem não só de símbolos e sonhos de Redenção. A realidade da cidade eleita como morada de Deus é feita de divisões e conflitos. Desde a sua estrutura, Jerusalém, mais do que uma aglomeração urbana coesa (uma praça, um centro de poder secular e um espiritual, ruas de comércio e lugares residenciais), é um conjunto de ilhas e de enclaves: cada uma com os seus usos e costumes e em guerra com os outros.

Não é só culpa da ocupação militar. A cidade estava dividida desde a segunda metade do século XIX, época em que as potências europeias redescobriram, no coração do decadente Império Otomano, o seu valor simbólico e geopolítico. Investiram dinheiro e cultura, enviaram para lá missionários e arqueólogos, espiões e comerciantes, construíram igrejas e hospitais.

Cada um – Rússia e Alemanha, Áustria-Hungria e Grã-Bretanha – por conta própria e contra os outros; tantos pequenos enclaves. E, de acordo com o livro de Vincent Lemire, Gerusalemme. Storia di una città-mondo [Jerusalém. História de uma cidade-mundo] (Ed. Einaudi), até mesmo durante a guerra de 1948, tanto os líderes judeus quanto os árabes visavam à divisão da cidade e não ao poder sobre toda a Jerusalém. Isso acabou com a expulsão dos judeus do seu bairro na Cidade Velha e com o êxodo dos palestinos da parte ocidental.

Dezenove anos depois desse conflito, em 1967, os israelenses conquistaram a cidade inteira. Ampliaram as suas fronteiras, incluíram cerca de 20 vilarejos e cidadezinhas palestinas. Arrasaram ao solo as casas na frente do Muro das Lamentações para tornar o lugar digno do status de centro da experiência espiritual judaica.

Tudo isso parece óbvio, mas não era e talvez não seja. Para os sionistas do fim do século XIX e até os anos 1970, Jerusalém era uma referência romântica. A prática, ao contrário, era em outros lugares, nos kibutz e na margem do Mediterrâneo, na nova e moderna Tel Aviv.

Eles sabiam que Jerusalém divide e não une, porque fala do passado e não do futuro. Era o que dizia Meron Benvenisti, no seu tempo vice-prefeito, homem de paz, encarregado no fim dos anos 1960 de integrar as duas partes principais e até então separadas da cidade, o Ocidente habitado pelos israelenses e o Oriente povoado pelos palestinos.

Mas o conflito não é só de caráter nacional; a maioria judaica (dois terços da população) também está dividida em seu interior. Há bairros onde a ortodoxia é lei: homens separados das mulheres; nada de roupas curtas; ruas onde uma senhora secular corre o risco de pesados insultos. E, além disso, outra anomalia da cidade, na política local, muitas pessoas de esquerda apoiam o atual prefeito, Nir Barakat, que, por sua vez, é de direita. E fazem isso para conter a ofensiva dos fundamentalistas religiosos judeus. E, depois, há os palestinos residentes: livres para se moverem no Estado de Israel, mas desprovidos de cidadania.

A atmosfera nos seus bairros não é diferente da de Ramallah ou de Nablus, coração da Cisjordânia. Jerusalém Oriental pode até fazer parte da capital do Estado hebraico, mas se assemelha a uma cidade da Autonomia Palestina.

E, para entender como Jerusalém divide, basta pensar que as chaves da Igreja do Santo Sepulcro estão nas mãos de uma família muçulmana; uma medida para tornar inócuo outro conflito: aquele entre as denominações cristãs pelo controle do lugar onde Jesus foi sepultado.

''O status quo de Jerusalém deve ser respeitado'': o apelo do Vaticano

Uma “profunda preocupação com a situação que foi criada nos últimos dias” em Jerusalém depois do anúncio do presidente Trump de transferir a embaixada estadunidense em Israel para Jerusalém, reconhecendo esta última como capital israelense, foi expressada pelo papa ao término da Audiência geral da quarta-feira, 6 de dezembro. Ao recordar a “vocação especial à paz” da cidade, Francisco lançou “um sincero apelo para que seja compromisso de todos respeitar o status quo, em conformidade com as pertinentes resoluções das Nações Unidas”.

Aos fiéis presentes na Sala Paulo VI, o pontífice lembrou que “Jerusalém é uma cidade única, sagrada para os judeus, os cristãos e os muçulmanos, que nela veneram os lugares santos das respectivas religiões”. Daí a oração do papa para que “tal identidade seja preservada e fortalecida em benefício da Terra Santa, do Oriente Médio e do mundo inteiro, e que prevaleçam a sabedoria e a prudência, para evitar que se acrescentem novos elementos de tensão em um panorama mundial já convulsionado e marcado por tantos e cruéis conflitos”.

Significativamente, antes da audiência, Francisco recebeu na “Saleta” da Sala Paulo VI os participantes da reunião entre o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso e a correspondente comissão do Estado da Palestina, que se encontraram com o objetivo de constituir um grupo de trabalho permanente.

“A Terra Santa é para nós, cristãos – disse o pontífice, cumprimentando-os –, a terra por excelência do diálogo entre Deus e a humanidade.” E a condição primária do diálogo, acrescentou, “é o respeito recíproco e, ao mesmo tempo, visar a consolidar esse respeito a fim de reconhecer a todas as pessoas, onde quer que se encontrem, os seus direitos”.

De fato, “a partir do diálogo, brota um maior conhecimento recíproco, uma maior estima recíproca e uma colaboração para a realização do bem comum e para uma ação sinérgica em relação às pessoas necessitadas, garantindo-lhes toda a assistência necessária”.

Depois de chegar à Sala Paulo VI, o papa dedicou a catequese à recente viagem à Ásia. “Foi um grande dom de Deus”, afirmou, lembrando que, pela primeira vez, um sucessor de Pedro visitou Myanmar e como isso aconteceu pouco depois do estreitamento das relações diplomáticas entre esse país e a Santa Sé.

Depois, confidenciou que, em Yangon, ficou particularmente impressionado com “a segunda missa, dedicada aos jovens”, em cujos “rostos repletos de alegria”, ele pôde ver o futuro do continente: “Um futuro que será não daqueles que constroem armas, mas daqueles que semeiam fraternidade”.

Quanto à segunda etapa, Bangladesh, o pontífice revelou que considerou a ordenação de 16 sacerdotes como “um dos eventos mais significativos e alegres da viagem”. Até porque, observou, nos “países do Sudeste Asiático, graças a Deus, as vocações não faltam, sinal de comunidades vivas, onde ressoa a voz do Senhor que chama a segui-lo”.

Por fim, Francisco referiu-se ao forte momento de diálogo inter-religioso e ecumênico vivido em Dhaka, para sublinhar “a abertura do coração como base da cultura do encontro, da harmonia e da paz”.

 

Fonte: Jornal La Repubblica/Jornal L'Osservatore Romano/Municipios Baianos

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