10/12/2017

Tartarugas da Bahia não se deixam levar pela correnteza

 

As tartarugas-cabeludas (Caretta caretta), uma das cinco espécies encontradas no litoral brasileiro, nascidas no litoral da Bahia, tem um comportamento diferente das parentes do Hemisfério Norte. Logo após sair dos ovos, as daqui nadam ativamente e se orientam para se manter no mar, enquanto as da parte de cima do Equador seguem passivamente as correntes oceânicas.

A conclusão vem de um estudo realizado pelo Projeto Tamar em parceria com a Universidade da Flórida Central e a Agência Americana para a Atmosfera e Oceano (Noaa), que acompanhou via satélite 19 tartarugas-marinhas na costa brasileira, durante o período de eclosão dos ovos. O estudo foi publicado na edição desta quarta-feira da Proceedings of Royal Society B.

O monitoramento durou 120 dias e ajuda a explicar o comportamento da espécie nos chamados “anos perdidos”, ou seja, logo após o nascimento até a primeira década de vida, quando elas retornam para a costa. “Este estudo completa algumas lacunas de dados de longa duração em nosso conhecimento do ciclo de vida entre tartarugas brasileiras”, afirma a bióloga María de los Milagros Lopez Mendilaharsu, do Projeto Tamar, uma das autoras do artigo.

Para avaliar o comportamento de nado das tartarugas, foram lançados ao mar drifter, equipamentos flutuantes que são carregados pelas correntes marítimas enquanto são acompanhados via satélite.

A surpresa foi verificar que enquanto, em menos de um mês, os equipamentos flutuantes eram levados para a praia e acabavam encalhando, as tartarugas brasileiras continuavam no mar, seguindo seu caminho. Esse resultado demonstra que as tartarugas não seguem passivamente a correnteza, mas se esforça para se manter no alto mar.

Após o primeiro mergulho, as tartarugas do litoral da Bahia seguem direções diferentes, conforme o período e as correntes marítimas que correm pelo litoral. No início do período, elas acompanham as correntezas em direção ao sul do litoral. Mas com o passar do tempo, mudam o destino.

Quando as correntezas começam a variar em direção ao norte, elas também mudam de trajeto. Embora a maioria continue a seguir em direção ao sul, algumas já vão na direção contrária. Finalmente, no final do período, quando as correntezas vão para o norte e nordeste, as tartarugas viajam para o norte e oeste.

“Isto é importante, a partir de uma perspectiva de conservação, entender para onde as jovens tartarugas marinhas vão e como elas interagem com o ambiente”, afirma a bióloga Kate Mansfield, da Universidade da Flórida Central, que liderou o estudo.

“Saber que elas se dispersam em diferentes direções, dependendo de mudanças nas correntes oceânicas vai nos ajudar a ter um melhor senso sobre onde e quando precisamos agir para continuar a garantir a sobrevivência dessa espécie ameaçada”, conclui a pesquisadora.

Anos perdidos

Após o nascimento, as jovens tartarugas passam muitos anos em mar aberto e duas décadas nas águas costeiras, até atingir a maturidade sexual e começar a se reproduzir. Devido ao longo período de amadurecimento e de vida, conhecer e compreender a vida das tartarugas jovens e um desafio, segundo a bióloga Mansfield.

Em um estudo publicado em 2014, ela já havia verificado, com uso da mesma técnica, que as tartarugas deixaram inesperadamente as correntes da região subtropical do Atlântico Norte, para entrar no Mar dos Sargaços, uma região do mar menos movimentada, que fica entre as grandes Correntes Oceânicas do Hemisfério Norte. Embora exista uma região similar no Atlântico Sul, por aqui elas não agem da mesma forma.

Nathan Putman, da empresa de pesquisas privada LGL Research e um dos autores do estudo, compara os padrões encontrados entre as tartarugas brasileiras à diversificação de investidores no mercado financeiro, para reduzir o risco de perdas. E parece funcionar.

“Ao contrário de algumas outras populações que sofreram declínios ou aumentos dramáticos, essas parecem ser bastante estáveis - como o dinheiro investido em um conjunto diversificado de ações", disse Putman.

Lar, magnético lar! Como tartarugas acham o caminho de casa

Há mais de 50 anos, cientistas discutem como as tartarugas são capazes de retornar todos os anos à praia onde nasceram para depositar seus ovos, nas mesmas areias. A solução do mistério, já se sabia, tem a ver com os campos magnéticos da Terra, mas esta resposta ainda não era suficiente.

Agora, um estudo de pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, Estados Unidos, apresenta evidências de que as tartarugas são capazes de reconhecer assinaturas magnéticas específicas do litoral. Os resultados foram publicados no jornal científico Current Biology, editado pela Cell Press.

“Nossos resultados apresentam evidência de que as tartarugas marcam um campo magnético único de sua praia natal quando ainda filhotes e usam esta informação para retornar quando adultas”, afirma o estudante de graduação e principal autor do artigo, J. Roger Brothers.

Estudos anteriores indicavam que as tartarugas usam o campo magnético da terra como guia quando estão em alto mar. Mas o papel dos campos magnéticos na jornada de retorno aos locais de desova ainda não estava claro.

O professor de Biologia Kenneth Lohmann, co-autor do novo estudo, já havia proposto há alguns anos que tartarugas, assim como salmões, são capazes de registrar campos magnéticos quando ainda são jovens. Para testar esta hipótese, os pesquisadores analisaram dados sobre locais de reprodução da tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), encontrada em águas tropicais e subtropicais de quase todo o mundo, inclusive no Brasil.

As informações foram coletadas ao longo de 19 anos, na costa Oeste da Flórida, o maior viveiro de tartarugas marinhas da América do Norte. Eles descobriram uma forte associação entre a distribuição espacial de ninhos de tartaruga e mudanças sutis no campo magnético da Terra.

“Nós raciocinamos que se as tartarugas usam o campo magnético para encontrar as praias onde nasceram, então as mudanças no campo magnético da terra poderiam influenciar onde elas fazem os ninhos”, diz J Roger Brothers.

Mudanças sutis no campo magnético do Planeta alteraram também as assinaturas dos campos magnéticos de locais na costa. Tal qual os pesquisadores haviam previsto, quando assinaturas de locais adjacentes eram registradas mais próximas umas das outras, tartarugas se aglomeravam em trechos curtos da costa. Onde as assinaturas estava mais separadas, as tartarugas marinhas se espalhavam e botavam ovos em ninhos mais afastados entre si.

Brothers  diz que  pouco se sabe sobre como as tartarugas detectam o campo geomagnético. Provavelmente pequenas partículas magnéticas no cérebro dos animais respondem ao campo magnético da terra e oferecem a base para a orientação das tartarugas marinhas.

Segundo os pesquisadores, tartarugas-marinhas provavelmente não medem esforços para encontrar os lugares onde começaram a vida, porque um assentamento bem sucedido requer uma combinação de raras características ambientais: areia macia, a temperatura certa, poucos predadores e uma praia de fácil acesso.

"A única forma de uma tartaruga fêmea ter certeza que ela está nidificando em um lugar favorável para o desenvolvimento do ovo é fazer o ninho na mesma praia onde ela eclodiu", diz Brothers. "A lógica das tartarugas marinhas parece ser que se este [local] funcionou para mim, deve funcionar para a minha prole".

 

Fonte: Por Vandré Fonseca, em o Eco/Municipios Baianos

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