10/12/2017

A silenciosa tomada de poder do ativismo digital

 

 

Adam Smith popularizou o termo mão invisível em sua obra-prima A riqueza das nações (1776). A teoria clássica recorre desde então a essa expressão para falar da suposta capacidade do mercado de se autorregular. Dois séculos depois, em A mão visível (1977), de Alfred D. Chandler, afirmava-se que a complexidade das organizações exigia uma hierarquia profissional e bem-estruturada. O empreendedor e consultor Oscar Howell-Fernández (San José da Costa Rica, 1964) acaba de publicar um livro cujo título dá continuidade ao jogo de Smith e Chandler. Em A mão emergente (La mano emergente, no original em espanhol), o autor desenvolve o conceito homônimo. O termo faz alusão a esse tipo de ativismo digital cotidiano gerado pelo uso da Internet, que às vezes faz eclodir grandes mobilizações públicas (como a Primavera Árabe) e em outras se limita ao linchamento público de uma empresa ou pessoa cuja atuação não agradou determinado grupo. A mão emergente, que bebe na efervescência das redes sociais, vem e vai. “Eu as comparo com os vagalumes, que têm um comportamento coordenado”, explica o autor. “O baile de luzes é disparado por certos sinais que alguns deles fazem, há um momento em que chegam a um ponto máximo e então se apagam”.

Uma luta pelo poder

A ilusão de progresso e riqueza criada por um enfoque no laissez-fairedesenfreado da economia e da política, diz o livro, junto com o surgimento de micropoderes e ativistas digitais no mundo online, deram lugar a uma situação de fim da autoridade que afeta multinacionais, governos e ONGs ao mesmo tempo. Isso mudou as regras do jogo político e empresarial de forma substancial. “A irrupção das redes sociais trouxe consigo a capacidade de chegar a milhares ou milhões de leitores a um custo muito baixo. Isso criou uma certa utopia da comunicação, segundo a qual o indivíduo não está restrito às 20 pessoas com quem consegue falar em um dia, mas tem muito mais possibilidades de ganhar presença também na esfera pública”, explica Howell-Fernández. Assim nascem os micropoderes. “O poder na sociedade é compartilhado, e se você faz parte dele quer dizer que está tirando-o das empresas ou dos governos. Então há uma disputa para ver até onde se pode chegar como indivíduo. O uso de ferramentas digitais pelos governos é parte da estratégia para tentar recuperar terreno nessa discussão”, afirma. “As empresas estavam muito acostumadas a ter muito domínio da comunicação. Agora um grupo de ativistas pode gerar graves problemas de marca de forma relativamente fácil, e por isso perderam poder de influência. Uma forma de recuperar esse terreno é participar, fazer parte da conversa e compreender o que está ocorrendo”, explica.

Ativismo diário

O ativismo digital, afirma o autor, é uma forma poderosa de expressão e de ação social. “É uma representação mais ou menos exata de nossas preferências e de nossa atividade social que se desenvolve de maneira constante e diária online, diante de instituições públicas ou privadas, governamentais ou comerciais”, afirma em seu livro. Cada clique, cada comentários, cada like é um tipo de voto. Às vezes, esse magma de opiniões eclode em forma de protesto; no resto do tempo é uma fonte incrível de informação para os cientistas de dados. O problema é que, apesar de o poder da mão emergente poder ser demolidor (as redes sociais acabaram com carreiras profissionais e causaram estragos em empresas), é pouco constante no tempo. Seu ímpeto acaba esgotando-se, como se acalmam as águas depois de uma tormenta. “Yochai Benkler diz em A riqueza das redes (Icaria, 2006) que, para que um projeto para o bem comum de Internet tenha sucesso, deve ter motivação e granularidade. A primeira é clara: se vejo que há um problema, me preocupo em solucioná-lo e participo. Mas a chave está na segunda: o tempo de investimento exigido nisso tem de ser suficientemente pequeno para que você não tenha a percepção de que está dando mais do que recebe. Essa sensação de que você dá muito é o que faz com que essas multidões e grupos de pressão entrem em colapso, porque sempre chega o momento em que a motivação ou a percepção de recompensa falham”, argumenta Howell-Fernández.

O ativismo digital está substituindo o convencional? Que a solidariedade de classe está caindo é um fato que qualquer sindicato pode corroborar. “A participação online não vai substituí-la, porque estamos falando de multidões anônimas com as quais é muito difícil construir um movimento social ou laços que perdurem. É preciso ter permanência, liderança, programa... As relações sociais online são tão frágeis que podem entrar em colapso a qualquer momento”, reflete o autor.

O terremoto Trump

A Primavera Árabe demonstrou aos governos de todo o mundo que as redes sociais não são uma ferramenta a se menosprezar. Comprovaram que podem ser usadas para influenciar a opinião pública. E que funcionam. Para Howell-Fernández, ninguém foi tão longe no uso da desinformação (ele prefere este termo a pós-verdade) quanto Donald Trump, tanto durante a campanha eleitoral que o colocou na Casa Branca como já no comando dos EUA.

Barack Obama foi o primeiro candidato a se dar conta do poder das redes sociais. Usou-as para ganhar apoio e motivar doações de um ou dois dólares, e com isso obteve fundos impressionantes. “Trump mudou o foco: se as redes sociais têm esse poder, por que não usá-las para disseminar desinformação? De fato, acredita-se que a metade dos seguidores de Trump que retuitam tudo que diz são bots”, diz Howell-Fernández, em referência aos programas de computadores utilizados para simular reações humanas. Desde que chegou ao poder, o republicano está encontrando obstáculos para implementar suas políticas. “Então o que faz é tentar pressionar a partir de seu apoio nas redes. É como quando um político que não consegue o que quer leva as pessoas à rua para dizer que tem apoio popular. Isso é o mesmo. Mas o que acontece se boa parte desse apoio não é real? Ou sequer é dos EUA?”.

A argumentação na mídia digital. Por Altamiro Borges

O Brasil é atualmente um dos campeões mundiais na produção de blogs, com sua linguagem diferenciada, seu dinamismo online e sua capacidade de interação. Ele também ocupa as primeiras posições no uso das redes sociais, como o facebook e o twitter. Este fenômeno incomoda os oligarcas da mídia tradicional, que se achavam donos da informação. O ativismo digital é hoje um instrumento, com suas limitações e riscos, para a democratização da comunicação. Daí a urgência de se pesquisar todo o potencial da chamada blogosfera. O estudo apresentado pelo blogueiro Daniel Dantas [professor adjunto do Curso de Jornalismo da UFC], intitulado “A argumentação como elemento discursivo na mídia digital: um estudo sobre o blog ‘Fatos e Dados’”, transformado neste livro com o título de Discurso e argumentação no Blog 'Fatos e Dados' da Petrobras, é uma importante contribuição neste sentido. A partir das reflexões de intelectuais de renome, como Mikhail Bakhtin, Michel Foucault, Manuel Castells e muitos outros, o autor analisa as técnicas argumentativas destas novas mídias. Seu amplo conhecimento teórico serve para o estudo de uma experiência concreta, a do blog “Fatos e Dados”, editado pela Petrobras.

Esta experiência gerou uma dura reação dos donos da velha mídia e teve forte impacto na blogosfera brasileira. Criado em junho de 2009, o blog “Fatos e Dados” nasceu no bojo de uma acirrada disputa política sobre os rumos da maior estatal do Brasil – e uma das maiores empresas de petróleo do mundo. Ele foi uma resposta – baseada em argumentos, ágil e ofensiva – à instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, proposta por atores políticos que sempre criticaram a estatal e pregaram sua privatização. Como afirmou na época o presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli, o blog seria o contraponto à “manipulação das informações”.

Consulta e reflexão

O uso desta nova linguagem digital, com todas as suas técnicas discursivas, teve reflexos imediatos. Em curto espaço de tempo, o blog passou a interferir no agendamento do noticiário nacional. A Petrobras saiu da defensiva imposta pela criação da CPI e apresentou à sociedade, sem a intermediação dos monopólios da comunicação, a sua versão dos fatos. Entrevistas antes manipuladas pelos veículos hegemônicos passaram a ser reproduzidas, no mesmo instante, no blog da empresa. Através dos hiperlinks, ele disponibilizou inúmeros dados para sustentar a sua argumentação. O embate de ideias ganhou uma ferramenta nova, revolucionária no mundo da informação. A inovação gerou a imediata reação. Apropriando-se indevidamente do discurso da “liberdade de expressão”, que os barões da mídia confundem com a liberdade dos monopólios, houve uma artilharia pesada contra o blog “Fatos e Dados”. O jornal O Globo, do maior império midiático do país, publicou editorial contra a iniciativa comunicacional da estatal. O título atestou o seu desespero: “Ataque à imprensa”. A Associação Nacional de Jornais (ANJ), que hoje não esconde mais seu papel de partido político, distribuiu nota oficial em “repúdio pela atitude antiética e esquiva com que a Petrobras vem tratando os questionamentos que lhe são dirigidos”.

Apesar da chiadeira, o blog cumpriu importante papel no esclarecimento da sociedade – já a CPI da Petrobras foi enterrada sem atingir os intentos privatistas dos seus proponentes. A cada ataque desfechado pela velha mídia, o blog apresentou seus contra-argumentos. Ele alcançou 2 milhões de visitantes em apenas cinco meses de existência. O pesquisador Daniel Dantas estuda as postagens publicadas no período de maior tensão. Ele analisa as respostas, as técnicas discursivas, a reação/interação dos leitores/produtores de conteúdo. É um estudo detalhado, pormenorizado, que permite perceber a força, o potencial e as limitações desta nova forma de comunicação. “A grande audiência conseguida nos primeiros momentos de existência do blog e o volume de discussão política e apoio que obteve indicam que o ‘Fatos e Dados’ constituiu-se em uma iniciativa de sucesso para tratar daquela crise especifica enfrentada pela empresa – o que só pode ser reforçado quando tomamos em consideração que a CPI que motivou a criação do espaço virtual chegou ao fim sem grandes problemas de imagem para a Petrobras”, conclui o pesquisador e blogueiro Daniel Dantas. Por estas e outras razões, este estudo de caso é uma importante fonte de consulta e reflexão para os que estão conectados no apaixonante mundo da cibercultura.

Ativismo e redes sociais. Por Marcelo Barreira

Cabe inicialmente assinalar a distinção entre ativismo e militância, mesmo sob o risco de esquematismo. Interpreto “militância” como uma adaptação da vida à luta político-institucional em movimentos sociais com estratégia regular e de longo prazo. Uma frase que sintetiza bem a postura do militante é a emblemática pergunta “o que é isso, companheiro? ”, sintoma do estupor de alguém ante a constatação da perda de foco político com demandas afetivas, pertinentes tão-só como um descanso no compromisso principal e integral: a seriedade da luta revolucionária. A década de 80 foi marcada pela ação militante. A militância em movimentos sociais foi o modelo de participação política surgido no contexto do processo de “redemocratização”. Uma característica muito presente na época era a dupla militância, no movimento social e no partido político, o que invariavelmente visava o aparelhamento político-partidário daqueles movimentos. Os movimentos apresentavam unidade de objetivos e clareza de identidade, por isso Rodrigo Nunes qualifica-os como sendo de “código fechado”. O elemento chave era converter e conscientizar outros da centralidade de sua causa e agenda política, repetidas nos palanques e nos carros de som.

O ativismo surge de um estilo de vida e de uma prática cotidiana – alimentar; afetiva; etc. – que se converte num ponto de afirmação em face dos valores sociais estabelecidos. Daí se aduz uma bandeira política mais fluida, existencial e menos institucional. Neste sentido, o ativismo como práxis adapta-se mais facilmente a uma ação política virtual, pois o ambiente das redes sociais facilita a tentativa idiossincrática de influenciar outras pessoas. As tecnologias digitais permitiram afluir e intensificar novas subjetividades pessoais e coletivas, e mais interessante: encontrar outras pessoas e outros grupos com interesses semelhantes, mesmo se alheios ao mainstream. A capacidade de mobilização, com capilaridade e velocidade de divulgação com baixo custo, talvez seja a maior mudança entre o modus operandi organizacional entre o modelo analógico e o digital, impulsionado pelas redes sociais, acarretando novo estilo de cidadania ativa e novos perfis de agentes políticos. No entanto, tais eventos muitas vezes geram apenas uma ação performática mal ensaiada e sem maiores consequências; daí a denúncia de um ativismo preguiçoso ou de preguiçosos. O ativismo, como nova forma de ação política, é um “acontecimento”, isto é: algo que paradoxalmente irrompe historicamente e rompe com uma tradição histórica; no caso, uma tradição de como se fazer política. Compreende-se, portanto, a resistência de militantes formados na década de 1980. Embora o ativismo digital traz riscos democráticos, também oportuniza possibilidades, mas só percebe isso quem se abre à irrupção do novo.

Haveria muitos tons de cinza a distinção entre militância e ativismo. As redes sociais são também uma plataforma de ação política para movimentos sociais e partidos políticos tradicionais, quando elas se transmudam num braço virtual de uma luta militante e contra-hegemônica realizada em vários âmbitos, ainda que tal ambiente seja criticado e relativizado em comparação com as ações presenciais. Afinal, há distinção, mas que não impede a complementariedade entre militantes e ativistas nas lutas políticas.

Redes sociais moldam nova forma de ativismo brasileiro. Por Raquel Sodré

Ficou fácil se engajar em uma causa desde que as redes sociais se entranharam em cada poro do nosso dia a dia. Confortavelmente sentado em casa, basta clicar em “compartilhar”, usar uma hashtag ou informar seu e-mail para assinar uma petição, e pronto! Quase automaticamente, você faz a sua parte. A postura é muito criticada até por militantes, digamos, mais ativos. Mas transformações em nossa sociedade mostram que o chamado “ativismo de sofá” pode, sim, ser eficaz.

Um desses exemplos é a luta contra o assédio e as agressões às mulheres. Tudo começou no ano passado com a veiculação de duas hashtags nas redes sociais: #meuprimeiroassédio e #meuamigosecreto. Na primeira, o objetivo era denunciar um caso de abuso sofrido. Na outra, denunciavam-se exemplos de atitudes machistas. Ambas as campanhas foram alavancadas por feministas ativas nas redes sociais. Logo após a circulação dessas ações, o telefone 180, que recebe ligações anônimas, registrou aumento de 40% no número de denúncias. “É muito importante ver tantas mulheres se sentindo minimamente acolhidas, vendo tantas outras compartilharem de histórias parecidas com as delas”, afirmou a analista de relações internacionais Carolina Coêlho, 23, uma das primeiras a postar na campanha Meu Amigo Secreto.

A mobilização online tem determinado também a forma como fazemos política fora das urnas. De 2013 para cá, as redes têm sido particularmente usadas como ferramenta para articulações de diversas frentes de pensamento. “Todos os casos mais recentes que foram amplificados na internet envolvem, em grande medida, uma parcela de ativismo de sofá. Por meio das redes, as pessoas criaram manifestações pró e antigoverno. Todas elas foram organizadas em redes sociais e grupos no WhatsApp”, aponta Patrícia Rossini, que estuda as discussões políticas na internet em um grupo de pesquisa em mídia e esfera pública da UFMG. Nesses casos, a participação virtual foi seguida de uma mobilização real. Mas, algumas vezes, somente a visibilidade da propagação online da informação já é suficiente para provocar mudanças. “No Big Brother Brasil de 2013, havia um casal de lésbicas. No início, elas não eram consideradas como um casal pela rede Globo. A comunidade LGBT se organizou na veiculação de hashtags e, por fim, conseguiu que elas fossem tratadas da mesma forma que todos os outros casais héteros que já se formaram no programa”, lembra a pesquisadora.

Desabafo

Uma das polêmicas mais recentes nas redes sociais e que teve peso fora da internet envolveu a estudante Lorena Cristina de Oliveira Barbosa, 20, aprovada na 15ª colocação para o curso de Letras da UFMG pelo sistema de cotas. Lorena se deparou com um post considerado racista no Facebook. “Para o curso de Letras na UFMG há 260 vagas. Fiquei na posição 239. Mas não vou entrar, por quê? Por causa dessas merdas de cota (sic)”, publicou uma jovem, em tom de desabafo. Lorena respondeu. “Vou ser uma aluna excelente e uma ótima profissional que, futuramente, vai roubar o seu emprego também”, dizia parte de seu comentário. Sua reação levou a uma multidão de pedidos de amizade na rede e mensagens de todo o país. “A vida inteira, eu escutei que nunca conseguiria, que eu era burra. Mas agora vejo as pessoas falando que eu sou inspiração. Muitos são negros, como eu, querendo fazer o mesmo”, declarou a estudante a O TEMPO no último dia 20.

Resultados surpreendem manifestantes

Quem se engaja nas redes, algumas vezes, até se surpreende com o sucesso da ação. Esse foi o caso das ativistas que compartilharam as hashtags contra o assédio e as agressões às mulheres. “Acho que ninguém esperava por tanta repercussão, apesar de ser um tema extremamente importante e compartilhado por tantas mulheres”, declarou Carolina Coêlho, 23, uma das atuantes da Meu Amigo Secreto. “Na verdade, é algo muito sem controle, a gente não fazia ideia de que ia ficar grande assim”, complementou a estudante universitária Dandara Oliveira de Paula, 22, também alavancadora da campanha (ambas evitam o título de criadoras do movimento). A página no Facebook, criada no fim de novembro do ano passado por Carolina, Dandara e também por Jessica Sol, Maria Leão, Samantha Su, Raíssa Dantas e Letícia Vieira Goulart, já tem mais de 10.300 curtidas. Mais impressionante ainda são os reflexos das campanhas no “mundo real”.

 

Fonte: El Pais/O Tempo/Tribuna Online/Observatório da Imprensa/Municipios Baianos

 

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