15/12/2017

Como a filha de Edir Macedo enganou a Justiça de Portugal

 

A série “O segredo dos Deuses”, do canal de televisão português TVI, revelou nesta quarta-feira (13), em seu terceiro episódio, mais detalhes do esquema onde a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é investigada por ter criado uma rede ilegal de adoções em Portugal.

Após revelar a suposta “farsa” montada para adoção de crianças portuguesas por Viviane Freitas, filha do próprio bispo Edir Macedo, líder da Igreja, neste episódio, uma ex-funcionária da casa de adoção coordenada pela IURD, identificada como 'Rita', apontou a senhora Alice Andrade, que seria 'secretária e braço direito de Edir Macedo' e que supostamente foi quem levou as três crianças, Vera, Luis e Fábio, para longe da família biológica, diretamente para os Estados Unidos. 'Rita', informou na reportagem que "foi ela (Alice Andrade), que facilitou e resolveu todo o processo de adoção destas crianças. Inclusive as levando pessoalmente aos EUA, dando entrada por Nova York no país. Tudo, pelo fato da filha de Edir Macedo não pode adotar em Portugal".

A TVI teve acesso a uma gravação em que Alice Andrade confessa o esquema:

“O bispo Macedo mandou ela [advogada da Igreja] botar o meu nome, mandou ela dar entrada da guarda, em meu nome, e quando eu fui falar com ela, no dia seguinte, já tinha dado entrada [do processo] sem falar comigo. E ela disse-me assim: ‘Se o bispo Macedo mandou, eu pensei que ele tivesse falado consigo’. E eu disse: ‘Não, o bispo Macedo não falou comigo’. Ele só ligou para mim e disse: ‘Você quer ajudar umas crianças do lar?’. E eu disse: “Lógico que quero!’”

Na verdade, os dois irmãos nunca foram adotados por Viviane e Júlio Freitas, como comprovam os documentos a que a TVI teve acesso. A adoção só acontece oito anos depois de saírem do lar e a mãe adotiva das crianças no documento português é Alice Andrade, que nesta data já não era bem-vinda nos cultos da IURD. Ainda de acordo com a reportagem, apenas dois dos três irmãos ficaram definitivamente com a filha de Edir Macedo, Viviane, e o genro, Júlio Freitas, ao invés do que havia determinado o Tribunal de Portugal. O irmão mais novo, Fábio, não ficou na família Macedo. A criança acabou indo para o Rio de Janeiro, para casa de outro bispo, Romualdo Panceiro, que agora é líder da IURD para Portugal e para a Europa. Apesar de separados, Alice tinha obrigação de juntar os irmãos cada vez que tinha de regressar ao tribunal português. Além disso, "Ana", a funcionária do lar escolhida para ser babá das crianças, denunciou que os irmãos eram frequentemente vítima de maus-tratos.

"Há um dia em que o Luís faz xixi na cama, eu tiro roupa da cama, dou-lhe banho e ela apanha-me com a roupa na mão e eu contei que ele tinha feito xixi. Ficou possuída, foi à cozinha e deu com um tacho no rabo do Luís”, conta "Ana", que, de uma vez que voltou a Portugal para ir a tribunal com Alice e as crianças, já não quis regressar aos Estados Unidos.

O Segredo dos Deuses: o plano para levar os irmãos para os EUA

O plano para levar os três irmãos para os Estados Unidos passou por uma portuguesa, que durante uma década foi secretária pessoal de Edir Macedo. A filha do líder da IURD não tinha idade nem residência para adotar em Portugal e até relata no seu blog pessoal como o seu processo de adoção não foi aceite. Por isso, é Macedo que dá a ordem para que Alice Andrade fosse inscrita com um pedido de guarda para retirar as crianças do Lar da Universal.

Vera, Luís e Fábio foram retirados aos pais biológicos sem que a mãe tenha sido ouvida por um tribunal. As crianças saíram de Portugal pela mão de Alice e foram entregues nos Estados Unidos à filha do bispo Macedo como se de encomendas se tratasse. Foi Nídia Martins, advogada do lar que recusou dar uma entrevista à TVI e que também adotou umas gémeas no lar, que pediu ao tribunal uma guarda dos irmãos para Alice.

A TVI teve acesso a uma gravação em que Alice Andrade confessa o esquema:

“O bispo Macedo mandou ela botar o meu nome, mandou ela dar entrada da guarda, em meu nome, e quando eu fui falar com ela, no dia seguinte, já ela tinha dado entrada [do processo] sem falar comigo. E ela disse-me assim: ‘Se o bispo Macedo mandou, eu pensei que ele tivesse falado consigo’. E eu disse: ‘Não, o bispo Macedo não falou comigo’. Ele só ligou para mim e disse: ‘Você quer ajudar umas crianças do lar?’. E eu disse: “Lógico que quero!’”

Um processo que foi feito completamente ao contrário. Ao abrigo do artigo 19 da Organização Tutelar de Menores, Alice teve a guarda dos irmãos. Mas na Igreja Universal do Reino de Deus, a versão era outra: Viviane Freitas, filha de Edir Macedo, conta como adotou duas crianças, Vera e Luís, e nunca menciona Fábio, o mais novo. A verdade é que os dois irmãos nunca foram adotados por Viviane e Júlio Freitas, como comprovam os documentos a que a TVI teve acesso. A adoção só acontece oito anos depois de saírem do lar e a mãe adotiva das crianças é Alice Andrade, que por esta data já não era bem-vinda nos cultos da IURD.

A 16 de setembro de 1996, "Ana", a funcionária do lar escolhida para ser babysitter das crianças, viaja para os Estados Unidos.

"Fui escolhida, entre as funcionárias do lar, para ir como babysitter deles . Eles vão à guarda da Alice e depois são dados ao Júlio e à Viviane. Eles vão para casa do Edir Macedo", na Califórnia.

"Ana" garante que, uns dias mais tarde, chegaram os três irmãos. Segundo o que a TVI apurou, terão viajado num avião privado. E a TVI sabe que a guarda dos irmãos para Alice só foi decretada pelo tribunal a 3 de abril de 1997.

Entretanto, Viviane decide ficar só com Vera e Luís. O irmão mais novo, Fábio, não ficou na família Macedo. Contrariando, mais uma vez, as ordens do tribunal, que ordenou que os três ficassem juntos, a viver em Portugal, Fábio acabou por viajar para o Rio de Janeiro, para casa de outro bispo, Romualdo Panceiro, que agora é líder da IURD para Portugal e para a Europa. Apesar de separados, Alice tinha de os juntar de cada vez que tinha de regressar ao tribunal português.

“Todos os anos tinha que comparecer em tribunal, mostrar que as crianças estavam bem tratadas. Era só isso”, diz a própria, na mesma gravação que a TVI revela.

Quando voltavam aos Estados Unidos, regressavam a casa de Viviane, e a babysitter recorda episódios de maus-tratos. "Há um dia em que o Luís faz xixi na cama, eu tiro roupa da cama, dou-lhe banho e ela apanha-me com a roupa na mão e eu contei que ele tinha feito xixi. Ficou possuida, foi à cozinha e deu com um tacho no rabo do Luís”, conta "Ana", que, de uma vez que voltou a Portugal para ir a tribunal com Alice e as crianças, já não voltou para os Estados Unidos.

Série sobre tráfico de crianças da Universal ganha repercussão internacional

Em Portugal, a investigação de duas jornalistas do canal TVI sobre o envolvimento da igreja Universal no tráfico de crianças na década de 90 se transformou em uma minissérie de dez capítulos, “Segredo dos Deuses”, que acaba no dia 22, está dando picos audiência e provocando uma grande polêmica.

O formato foi escolhido pelas repórteres para facilitar a compreensão do caso, que traz muitos detalhes. No episódio exibido nesta quarta-feira (13), foi revelado que a filha de Edir Macedo não podia adotar em Portugal e foi ajudada pela secretária pessoal do bispo, que se encarregou de levar três crianças atendidas na creche da igreja para fora do país.

"O Segredo dos Deuses" traz revelações dos bastidores da Igreja Universal do Reino de Deus, que durante vários anos ofereceu atendimento às crianças carentes em uma creche situada nos arredores de Lisboa.

Na maioria dos casos as crianças foram adotadas pelos próprios bispos e pastores da Igreja, por ordem do líder Edir Macedo, mas os menores também foram usados no mercado internacional da adoção. A legislação portuguesa proíbe que os pais escolham a criança que será adotada.

Tudo começou com uma investigação de duas jornalistas da TVI, Judite França e Alexandra Borges, sobre os negócios da igreja e os supostos enriquecimentos ilícitos dos pastores. Durante a apuração, elas se depararam com a história de que Edir Macedo escolheu três crianças portuguesas para que suas filhas as adotassem.

Depois de sete meses e muitos depoimentos confidenciais elas conseguiram chegar à rede ajudadas por um ex-bispo da Igreja Universal em Portugal, Alfredo Paulo Filho, manda-chuva da Universal no país entre 2002 e 2009. Ele acusou a instituição de trazer vários milhões de dólares para Europa, arrecadados nas igrejas da África.

Segundo ele, o dinheiro chegava em jatos privados nos aeroportos lisboetas e servia para financiar a Igreja em Portugal e a TV Record na Europa. Em seguida, ele revelou que todos os bispos foram obrigados a fazer vasectomia. Para Edir Macedo, os filhos representavam custos e problemas na mobilidade dos seus “funcionários”.

O problema é que suas duas filhas casaram-se com pastores e queriam filhos. A solução encontrada pelo líder foi a adoção, uma maneira de “salvar” crianças que viviam uma situação difícil. No começo dos anos 90, a adoção ajudou a Universal a melhorar sua imagem em Portugal.

Na época, o bispo foi criticado e impedido de comprar o Teatro Coliseu do Porto no país. Um movimento cidadão se acorrentou nas portas do teatro em sinal de protesto.

Netos adotados contestam versão

Dois dos netos adotados de Edir Macedo, Vera e Louis, divulgaram um vídeo nas redes sociais da Igreja Universal, desmentindo as informações divulgadas pelas jornalistas. Eles pedem que os programas sejam vetados de exibição na TV portuguesa.

Em um comunicado divulgado pela assessoria de imprensa brasileira da Universal, a igreja afirma que está sendo vítima de uma campanha difamatória, e que processará a TVI.

Repercussão

O caso está repercutindo no mundo todo. A jornalista Judite França recebeu inúmeras propostas de entrevistas de vários países, entre eles Brasil, Estados Unidos, Israel, França e Espanha. Segundo ela, apresentar ou denunciar um fato todos os dias, como se fosse uma novela, foi a maneira mais fácil de desenrolar a trama.

A minissérie narra a história das pessoas envolvidas durante os sete anos em que a creche Lar Universal funcionou ilegalmente, mas também aborda o período seguinte após sua legalização pela Seguridade Social portuguesa. “Colocar tudo em um só documentário ficaria muito confuso para o telespectador”, comentou.

A jornalista disse que era certeza que a notícia “cairia como uma bomba”, já que o caso se trata de uma notícia sobre uma organização instalada a nível mundial”.

 

Fonte: TVI/RFI/Municipios Baianos

Comentários:

Comentar | Comentários (0)

Nenhum comentário para esta notícia, seja o primeiro a postar!!