20/12/2017

Por que as universidades particulares estão demitindo professores?

 

“Os sentimentos se misturam. O Brasil está vivendo um momento de pessoas pequenas que transformam o pensamento numa atividade grosseira, que operam a negação da alteridade. É difícil ser afastado por configurar uma ameaça”. O professor José Salvador Faro, que atuou por 21 anos na Universidade Metodista de São Paulo, é um dos 60 demitidos pela instituição este semestre.

Longe de ser isolado, seu caso é compartilhado por milhares de professores no País que foram desligados de suas instituições de ensino de julho para cá. A Estácio de Sá, instituição privada presente em todo o território nacional, anunciou a demissão de 1,2 mil professores. Em agosto, a Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), demitiu pelo menos 200 professores. A Anhembi Morumbi, que integra o mesmo grupo da FMU, deve demitir ao menos 150. Na Universidade Uniritter, que atua na região sul do Brasil, são 100 demitidos.

As instituições se ancoram no que chamam de reestruturação para justificar as mudanças que impactam não só a vida dos professores desligados, mas também aquela dos contratados, que têm de encarar redução de carga horária e, portanto, salarial, e consequente queda na qualidade da educação. Para os especialistas, o cenário de demissões em massa se ancora na Reforma Trabalhista em vigor desde novembro.

Na Universidade Metodista, os desligamentos, que atingiram principalmente os cursos de pós-graduação, mas também chegaram à graduação e ao Colégio Metodista, foram justificados como corte de custos. Os professores afastados, no entanto, alegam se tratar de uma reação contra aqueles que se opuseram à reforma de natureza administrativa, financeira e pedagógica praticada pela atual gestão. Em março deste ano, a Universidade nomeou para o cargo de reitor o economista e doutor em Ciências Ambientais, Paulo Borges Campos Júnior.

Uma professora demitida que preferiu não se identificar afirmou que, desde julho, a Universidade convive com a descontinuidade de cursos tradicionais, como o da Pós-Graduação em Administração, com a criação de mais cursos à distância em detrimento dos presenciais e corte de carga horária de vários docentes e coordenadores de cursos.

Ela também contou que, ao questionarem “a forma truculenta e arbitrária das decisões, que não passaram pelo crivo das instâncias colegiadas da Universidade”, muitos professores passaram a sofrer assédio moral.

Ao aparente cenário de desmonte soma-se a fragilidade econômica da Universidade que vem penalizando seus funcionários. Faro afirma que os professores estão com os salários irregulares há quatro meses e há pelo menos 15 sem depósito do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

As informações são confirmadas pelo Sindicato dos Professores do ABC (Sinpro-ABC) que divulgou uma nota de repúdio contra as demissões na sexta-feira 15. Em trecho, o sindicato afirma que “tem prestado total apoio à categoria, penalizada com atraso nos salários, 13º, férias e irregularidades nos depósitos do FGTS”.

Em outra passagem da publicação, atesta que a “direção, em diversas oportunidades, se reuniu com os representantes da Universidade para um entendimento, sobre a melhor forma de manter em dia o pagamento dos trabalhadores, e discutir alternativas na conservação e manutenção dos empregos da categoria na Instituição”

Na sexta-feira 15, o Colégio Episcopal, responsável pela supervisão da ação missionária e pastoral da Igreja Metodista, divulgou um pronunciamento no qual confirmam que, diante da crise econômica nacional, a Rede Metodista de Educação tem buscado realizar uma reorganização estrutural para zerar as dívidas bancárias e promover melhorias nos resultados das atividades educacionais. As demissões, segundo a nota, estão dentro desse contexto.

Outra passagem do comunicado diz que “A Igreja Metodista não apoia e nem respalda processos que gerem um sentimento de humilhação e perseguição política como divulgado pela mídia secular”

A Universidade Metodista é mantida pela Igreja Metodista e integra uma rede de educação formada por duas universidades, dois centros universitários e duas faculdades, além de 14 colégios.

A Metodista, no entanto, não é a única entre os casos de demissões expressivas de professores. Em agosto, também ganhou repercussão o caso da FMU, mantida pelo grupo americano Laureate, que, segundo informações da imprensa, demitiu 200 professores após anunciar um “novo modelo acadêmico, mais moderno e flexível”, que tem como objetivo preparar melhor os alunos para as oportunidades do mundo profissional. Desligamentos na Anhembi Morumbi, outra universidade do grupo, também estariam sendo discutidos, e devem atingir pelo menos 150 professores.

A Universidade Uniritter, com campus no Rio Grande do Sul, Porto Alegre e Canoas, também demitiu cerca de 100 professores na última semana, segundo informações do Sindicato dos Professores do Ensino Privado. Em reportagem veiculada pelo G1, além dos desligamentos, a universidade passa por um momento de reestruturação de seus cursos e redução de cargas horárias.

O mais expressivo numericamente foi o anúncio feito pela Estácio de Sá, instituição presente em todo o território nacional. Uma reorganização na base de docentes levou à demissão de 1,2 mil professores e o anúncio de um cadastro reserva, que configuraria o trabalho intermitente, também previsto na nova legislação trabalhista.

A decisão gerou uma reação da Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro que, inicialmente suspendeu 400 demissões no Estado; posteriormente, o Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro, via liminar, conseguiu suspender a demissão de professores em suas unidades em todo o país.

No entanto, a liminar foi suspensa na segunda-feira 11, pelo desembargador José Geraldo da Fonseca, como noticiou a coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo.

Para a diretora do Sinpro- SP, Silvia Barbara, o cenário é modificado pela Reforma Trabalhista. “Ela atua nesse ambiente antropofágico, de retirada de direitos dos trabalhadores, e certamente induz as demissões em grande escala”, atesta. Com o advento da Reforma, as despensas individuais e coletivas não precisam mais de autorização prévia de uma entidade sindical ou de celebração de convenção ou acordo coletivo para sua validação. A alteração figura no artigo 477-A da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

ambém incide sobre os casos, segundo a especialista, as mudanças ocorridas no Programa de Financiamento Estudantil (Fies) ao longo do tempo. “No início, as faculdades viveram um momento de expansão porque o dinheiro público chegava muito fácil. Depois, com as mudanças no financiamento, essa entrada começou a ficar mais restrita e, com menos dinheiro entrando e para manter a margem de lucro, começaram a praticar cortes”, avalia.

Silvia entende que estão colocadas aí não só as demissões, mas como o enxugamento das cargas horárias dos professores que permanecem nas instituições, a superlotação de algumas salas e a maior adesão ao ensino a distância. “Temos lutado no âmbito dos sindicatos contra o que chamamos de mercantilização do ensino. O regramento pedagógico dessas instituições vem sendo feito no sentido de flexibilizar as regras de funcionamento, precarizar o trabalho docente e facilitar a acumulação de capital, de lucro”, explica.

Para ela, trata-se de uma luta de natureza política que pede um olhar do Ministério da Educação. “O papel do MEC de coibir essa mercantilização extrema é central, mas hoje vemos que atuam no sentido de facilitar isso”. Silvia entende que um dos caminhos para reverter essa lógica é garantir a autonomia universitária, “que não deve ser decidida pela mantenedora, por ter deliberação acadêmica”.

Concorda com a especialista o professor José Salvador Faro, “resgatar a autonomia e se desvincular do estilo empresarial que adquiriu é a única forma da faculdade resgatar seus fundamentos e a sua natureza”.

Demissão nas Universidades: Perdem alunos e instituições

Como em qualquer recessão econômica enfrentada já no país, setores como comunicação, engenharia e advocacia são atingidas em cheio sobrando apenas saúde, alimentação e educação. No entanto, dessa vez nem mesmo a educação superior está escapando. O “boom” das faculdades e o crescimento delas do ano de 2012 para cá trouxe a chance para que muitos alunos pudessem estudar e realizar o sonho do diploma. Todavia, a situação política esbarrou na econômica e instituições educacionais fortes do Brasil estão em derrocada demitindo mestres sem nenhum pudor.

Sem dinheiro no caixa, sem condições de pagar o salário e manter as instituições de pé. Assim, profissionais com cinco até 10 anos de carreira estão sendo dispensados na busca de uma contenção de gastos que provavelmente não terá fim. Mas com o desligamento de grandes mestres, quem perde de verdade? Alunos ou apenas instituições? Para alguns apenas as instituições, mas vale lembrar que os mestres também fazem a diferença na vida profissional e futura dos alunos.

Quantos profissionais estão no mercado atualmente pelo crivo do ensino de grandes professores? Vários! Porque ter professores preparados e altamente capacitados muda toda a visão de mundo dos alunos que estão prestes a cair no mercado de trabalho. O problema é que às vezes, nem mesmo as instituições conseguem segurar esses professores, como têm acontecido atualmente no Brasil. Para quem está de fora, não passa de uma falta de valorização não manter esses docentes ali. Mas é bom se atentar que sem dinheiro em um mundo “capitalista”, as coisas não andam.

Momento

Com certeza é apenas um momento no setor educacional brasileiro e lembraremos de tudo isso no futuro pensando no que erramos. Mas enquanto esse momento não chega, vale lembrar que a dispensa de grandes professores não incide apenas nas instituições que estão deixando de oferecer profissionais gabaritados. Incide diretamente também na vida dos alunos que esperam do curso superior o mínimo de preparo para enfrentar as adversidades do mercado de trabalho. Demissão nas Universidades: Perdem alunos e instituições. Aproveite ao máximo o que os bons mestres podem te ensinar. Pense nisso.

Deu tudo errado, a educação não é mais a saída e o que sobra é a resistência. Por Denise Silva Macedo

Cérebros ou nádegas. Quem não tem dinheiro não estuda. Se tudo der errado. As últimas pérolas dos mercadores e dos compradores da educação alienante no Brasil. Um professor da Unicamp, um deputado, alguns alunos do ensino médio. Quem são esses personagens de um cenário educacional mais amplo bastante preocupante? Apenas alguns dos muitos que atacam o sistema de cotas nas universidades públicas, que defendem que essa mesma universidade se destine a quem pode pagar por ela e que acreditam no sucesso material e na bobagem da meritocracia.

Instituições, como escolas e universidades, públicas ou privadas, não existem no vácuo, mas em contextos sociais muitas vezes graves e confusos, os quais ela vem, perigosamente, reproduzindo. Há sete anos, venho estudando os impactos desses contextos nessas instituições que, em princípio, deveriam ser o refúgio e a defesa da ética, da estética, do saber, do conhecimento desinteressado – como defendia Nietzsche –, das discussões produtivas, da descolonização do saber, do cultivo da visão e do fazer coletivos e, no caso brasileiro, da identidade da América Latina. Em princípio...

Nesta contemporaneidade, abrem-se escolas de princesas, contratam-se pedagogos como babás, configura-se o ensino superior como um ensino médio um pouco melhorado, diretores de escola apoiam o escola sem partido, o governo pós-impeachment estabelece um teto cruel à educação por 20 anos, pais terceirizam seus filhos para escolas que já têm até lavanderias, coachs e plataformas importadas tomam o lugar do professor com seus discursos vazios.

Em épocas de ultraneoliberalismo, pais viraram clientes, alunos são preparados para o vestibular desde o 1º. Ciclo do Ensino Fundamental, professores viraram produto e abaixaram suas cabeças rapidamente, muitas vezes, sem sequer perceberem a própria desvalorização. Os sindicatos se enfraquecem vertiginosamente, sob políticas trabalhistas desfavoráveis e em uma inação que aumenta as dificuldades dos professores em resistirem ao massacre. A visão crítica agoniza; a visão coletiva vira utopia; o questionamento foi substituído pelo simpático consentimento mudo, vazio e covarde.

O professor é hoje um profissional derrotado economicamente, politicamente, ideologicamente. Muitos tentam resistir, mas, como em tempos imemoriais, sequer são entendidos naquilo que defendem. Milton Santos já disse que o intelectual é o ator social mais oprimido no Brasil, e Darcy Ribeiro já revelou que a crise na educação do Brasil não é uma crise, é um projeto ideológico.

As peças do jogo educacional se encaixam, na prática e na teoria. Como chegamos até aqui? De vários modos. Um deles foi e é a falta de questionamento. Como disse Cornelius Castoriardis, o problema da condição contemporânea de nossa civilização moderna é que ela parou de se questionar. Não formular certas questões é extremamente perigoso, mas o sistema se estrutura de modo a mostrar que fazê-lo também o é. Está criado o jogo de tensões entre os silenciosos e os questionadores. Todos pagam um preço, o de perderem a dignidade ou de causarem estranhamento, o qual deveria ser desejável na educação, mas não é. Não é porque esse projeto ideológico de que fala Darcy Ribeiro garantiu gerações e gerações de professores, mesmo mestres ou doutores, acríticos, formatados em cursos superiores, públicos ou privados, voltados para a técnica e para o mercado.

No outro lado desse mundo como perversidade, a mídia oficial ajuda muito no processo de decadência ética, intelectual, crítica. Tira proveito e provoca, dialeticamente, a pocotização de muitos, como adjetivou Luciano Pires, desviando as atenções das questões realmente importantes: anestesia milhões de telespectadores, a cada dia, com a exposição da violência; transforma algumas das pessoas mais estúpidas em celebridades; dita rumos políticos; tira do debate o que convém ser tirado e decide qual será o assunto do dia, no café da manhã, no almoço e no jantar.

O desconhecimento histórico e social do que as cotas e outros auxílios já fizeram a estudantes universitários e suas famílias, a falta de ética secular da política brasileira e o pensamento elitista e falacioso da meritocracia da classe média rondam o cotidiano educacional no Brasil. Perpetuam Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor.” Entram nas engrenagens sociais, alcançando universidades, onde já há alunos de pós-graduação, mestrandos e doutorandos, querendo ser príncipes e princesa, no que parece ser um processo de disneilandização sem volta.

Darcy Ribeiro disse que tentou fazer uma universidade séria e fracassou. Sim. Neste momento, ninguém poderia consolá-lo. Em várias escolas e universidades, públicas e privadas, muita coisa deu errado. O modo como muitos adolescentes chegam e saem do ensino médio explica parte desse fracasso. A educação, ao que tudo indica, não é mais a luz no fim do túnel, sempre duramente atacada pelo próprio Estado. Ela segue reproduzindo e reforçando, dialeticamente, a violência e a exclusão social. A saída é nos lembramos de como Darcy Ribeiro completa o próprio pensamento, “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”, e ficarmos sempre atentos a de que lado estamos.

 

Fonte: Por Ana Luiza Basilio, na CartaCapital/Municipios Baianos

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